sábado, maio 22, 2010

A marrada na parede

Muitos anos depois da experiência laroca da Engª. Pintassilgo, Portugal volta a ter uma primeira-ministra. Igualmente gordinha, igualmente química, mas loira, chama-se Angela Merkel e reside em Berlim onde faz um gancho como chanceler.

Quando era Secretário de Estado, Henry Kissinger ironizou certa vez perguntando se quisesse falar com a Europa para quem ligava. Obama já sabe: liga para ela. No fim-de-semana passado, tendo já despachado Papandreou, Merkel nacionalizou o nosso ministro Teixeira dos Santos e o seu homólogo espanhol e encomendou-lhes o cardápio: subidas de impostos, taxas extra, reduções de ordenados, cortes a eito, consoante. Um vê-se-te-avias. Neste entretanto, não atendeu o telefone a Durão Barroso e pôs em sentido Sarkozy, que julgava que só a Carla é que o olhava de cima.


Consequentemente, vamos penar uns bons anos. Entalados entre obedecer ou voltar ao escudo, com corrida aos bancos, curralito, desvalorização súbita, etc., amochou-se. E, infelizmente, ainda bem. O ministro das finanças vai cumprindo como pode, de dicionário português-alemão debaixo do sovaco, e o nosso Sócrates passou-se de vez, desasado perante a perspectiva de ter que explicar às pessoas que a coisa não correu nada bem, matéria em que não é especialista.

Agora, e ainda assim num cenário simpático, os portugueses vão ter que passar uns cinco anos a viver com menos dez a vinte por cento do que tinham. Para muitos, parte disto até pode ser fácil: passar a aguentar o carro uma dúzia de anos, não comprar o último plasma de trezentas polegadas enquanto o velho televisor não der o prego, jantar em casa um sábado ou outro. Se calhar até vão aprender a poupar umas massas (poupança: conceito macroeconómico desaparecido em finais do século XX que consiste em ter um saldo positivo entre receitas e despesas).

Para muitos outros, a coisa será dramática. Para os que já estavam à rasca, para os que vão ficar e para os que necessitavam do Estado social. Os serviços médicos, a escola, a segurança, asfixiados pela dialéctica entre reduções orçamentais e direitos adquiridos, vão decair. Os buracos nas ruas vão demorar mais algum tempo a ser tapados. Já nem falo na justiça, que estava numa situação tal que nem se vai dar pela diferença.

Alguma desta dor poderá ser minimizada se se aproveitar esta germânica oportunidade para arrumar a casa do Estado português, que arrasta como uma canga o peso de um aparelho burocrático e inútil, arrogante de privilégios que se confundem com direitos, com uma super-estrutura mandante onde desaguam os dejectos de um mundo partidário atrofiado ao pé do qual o Conde de Abranhos brilharia como estadista.

Mas não acredito. Seriam precisos líderes que fossem capazes, por exemplo, de levar a cabo a mais esquerdista e socialista das medidas: liberalizar os despedimentos na função pública, permitindo limpar a máquina do Estado da grilheta dos que nada fazem excepto gala em não fazer, dos que acham que têm direitos eternos e nenhuns deveres, dos que não se preocupam pela geração seguinte minguar a recibos verdes para que eles possam ter diuturnidades que não merecem. Não são todos. Provavelmente apenas uma minoria. Mas os suficientes para que o Estado-providência português mirre e morra, entalado entre os pagamentos da dívida e as poses dos Picanços e dos Mários Nogueiras e as clientelas todas e mais algumas.

Seriam necessários governantes que tivessem a coragem de falar às pessoas de uma coisa chamada realidade. Que explicassem que não podemos viver anos a aumentar constantemente a dívida externa em dez por cento do PIB. Que o dinheiro não pertence ao Estado, mas a nós e que cada cêntimo mal gasto e que cada minuto na palheta significam menos médicos para operar cancros e menos polícias nas ruas. Que a energia barata não é um direito divino e que se for carota o pessoal não se esquece de desligar as luzes. Que uma enfermeira que responde torto e desumanamente aos doentes num hospital, porque sabe que tem as costas aquecidas pelo sindicato, e que não recebe rapidamente guia de marcha, está a tirar o lugar a uma jovem que custou milhares de euros a formar e que pode estar ansiosa por dar o seu melhor.

E seriam necessários cidadãos mais implacáveis. Que percebessem que votar num corrupto porque faz obra é como abrir a porta de casa a um ladrão só porque leva poucas pratas e deixa algumas. Que por muito amor clubístico que tivessem se recusassem a aceitar dar um tostão que fosse de dinheiro público para construir dois estádios em Lisboa, quando o AC Milan e o Inter (clubes pobretanas) jogam no mesmo. Que educassem os partidos e que ao mínimo escândalo ou devaneio votassem maciçamente na oposição, sem medo, obrigando aquela malta a sanear a sua atitude e a despachar as maçãs podres mal fossem descobertas.

Mas como há maior probabilidade de o D. Sebastião voltar para a semana envolto em nevoeiro do que isto que eu agora disse, continuaremos às ordens da Merkel, como mais um “lander” da República Federal.

E sobre a crise internacional, ainda isto: não simpatizo particularmente com a chanceler alemã, mas foi ela que disse a frase politicamente mais relevante e acertada dos últimos tempos, que o poder tem que estar na política e não na economia. Carradas de razão. Há algo que une Merkel, Obama e Sócrates e que os separa dos economistas-chefe da Moodys, do “chairman” da Morgan Stanley e, já agora, do presidente da Coreia do Norte. É que os primeiros podem ser destituídos pelo voto e os segundos não. Por isso, o primado da política sobre a economia é uma questão – básica – de Democracia. Que se regule então forte e feio.

Até porque se há coisa que esta crise demonstrou foi que viver num mundo com estes “traders” à solta resulta desagradável. Aquela amálgama de atrasados mentais a que se convencionou chamar mercados simplesmente não funciona em auto-gestão. Por muito que custe aos sectários da mão invisível, seria como esperar que um bando de macacos à solta dentro do “cockpit”, a mexer nos botões ao calhas, conseguisse aterrar um Airbus na pista da Portela.

sábado, maio 08, 2010

S.M.I.L.E.

Todos os anos, a associação de alunos do Liceu Francês de Lisboa, minha escola de sempre, a quem confiei os meus filhos para que se lhes dessem umas luzes, organiza um espectáculo de beneficência. Chama-se S.M.I.L.E. Nunca falto. Ignoro o que significa a sigla, se é que algo se esconde por trás daqueles pontos. Sei que a entrada custa um euro e a fatia de bolo um euro e o copo de plástico a desbordar sumo um euro também. No final, na caixa, não muito dinheiro, mas que sempre dará algum jeito no Camboja, destino tradicional da colecta, por razões que já se perderam no tempo.


Smile, portanto.


Ao palco, cada um traz o que sabe, mesmo que não saiba. Uns tocam, por vezes mal. Canta-se, desafina-se também, esganiça-se a espaços. Dança-se, entre o síncrono e o assíncrono. Crianças trazem pequenos “sketches” com vozes e poses de crianças. Em anos, exibem-se artes marciais. Noutros, concursos de teatro. Os microfones falham e quando não falham as apresentadoras falam para a frente e para o lado, deixando cair palavras ao chão. Vai-se percebendo. Ora não se ouvem os instrumentos, gerando-se protestos de silêncio na sala, ora as colunas distorcem, lançando mãos aos ouvidos. Com tudo isto, um dos maiores espectáculos do mundo.


Smile, relembro.


Desde o palco, dá-se. Na plateia, recebemos. Lá em cima, vence-se a verdura dos anos, vence-se a vergonha de encarar uma sala cheia, vence-se o riso que espreita, dobra-se a falta de tempo de ensaio. Cá em baixo, os amigos não se importam, ululam, aplaudem, comungam, vivem, agitam isqueiros e telemóveis iluminados. Uma rapariga entoa o “Summer of 69”: “those were the best days of my life”. São, de facto. E nós, os mais velhos, temos saudade da generosidade, da intensidade, da urgência, do riso sem mácula e do beijo que num recanto escuro da sala dois corpos ainda não acabados trocam, com um enlace como se fosse o único, com uma sofreguidão como se fosse o último. Saudade é uma palavra simpática para inveja.


Smile, dizia.


A alegria, por muito que esfuzie, não esquece. Há uma semana viveram a dor da morte de um colega, mas não deixaram de o levar à festa. Um amigo, que com ele tocara no passado, fecha o espectáculo tocando em sua memória uma música dos Radiohead, que certamente ouviram lado-a-lado. Uma moça, quase pequena para a guitarra que segura, dedica-lhe com voz hesitante uma das músicas que interpreta e que compôs. Fala de um bom rapaz que foi e do sentimento dos que ficaram: “free falling”. Acabado o seu momento, com um cantar certinho, desce os degraus laterais, sai para o fundo da sala e chora em sossego.


Smile, tá certo.


O espectáculo termina, como sempre, com todos ao estrado, para um último coro, um derradeiro aplauso, um abraço que vai de uma cortina à outra.


Por coincidência, tenho um amigo inquieto que parte amanhã para o outro lado do mundo, julgo que para ver gente feliz. Procuramos sempre longe à brava aquilo que sobeja à nossa porta.


Smile, já disse!

Poema muito curtinho

Ao sol de domingo, no Alto de São João, rapazes de dezassete anos zangaram-se em surdina, trocando as palavras agrestes e camaradas dos dezassete anos, porque uns tinham carregado, de olhos vermelhos, o féretro de um amigo e os outros não tinham podido.

domingo, maio 02, 2010

Exposição fotográfica (XXII)

Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, a 30 de Novembro passado





quarta-feira, abril 28, 2010

Dia de raiva

Passei o dia de ontem com um nó na garganta.


Na noite anterior, uma notícia nos “sites” dos jornais anunciava a morte de um jovem português numa discoteca em Londres, frequentada por famosos, como essa ralé escriba lhes gosta de chamar. A notícia não era a morte de um jovem, mas o incómodo dos famosos, como o distintíssimo Wayne Rooney, que se não tivesse bons pezinhos andaria pela estiva no porto de Liverpool.


Em minha casa, no entanto, o rapaz tinha um nome e uma cara. Frequentava a escola dos meus filhos. Brincara com um deles em pequeno. Sorria, com poucos aninhos, em fotografias dos nossos álbuns. Conhecíamos a mãe.


Os jornalistas aproveitaram para especular quando não para afirmar o que não sabiam nem podiam saber, para apimentar a notícia. Não há hoje classe mais reles que a dos jornalistas. Assalariados ao serviço do volume de vendas dos seus patrões, comprazem-se na sua necessidade compulsiva de procurar o esterco para remexer e de inventá-lo quando não o encontram. Necessidade que caracteriza e estigmatiza a classe. Verdade, ética, pudor e pundonor pouco lhes dizem. Desmandam-se, insensíveis à dor que a sua insensibilidade provoca. Não percebem, possivelmente porque não conseguem.


Nos “sites”, as novas atraíram os comentários como abutres, geralmente disparates moralistas e ignorantes, escondidos sob essa moderna forma de cobardia a que se chama “nick”.


Será que perdemos todos a capacidade de dizer: morreu um jovem, morremos nós também um pouco? De nos condoer um segundo porque uma mãe, um pai, algures, sofrem o último dos sofrimentos? De teclar, já que temos que teclar, uma homenagem, uns pêsames e não uma barbaridade ignorante? Em que monstros nos transformámos?


Sei que é a raiva a falar mas, em dias destes, parece-me melhor que venha o meteorito, o vírus fulminante ou o inverno nuclear que nos varra a todos deste planeta e que se recomece de novo, com outra espécie que connosco já não vale a pena.


Sei que é a angústia a falar mas em dias destes constato a prova provada que o Deus justo e misericordioso de que alguns tanto falam simplesmente não existe, como os factos demonstram. Quanto muito uma divindade caótica, um Baal fenício, exigindo vítimas diante das suas imagens de bronze. Ou mais certamente nada senão uma existência breve, ténue, improvável e ilógica.


Mas se por acaso estás em algum sítio que me ouças, sabe que sinto uma pena imensa. Fazes falta: não só aos teus como a este mundo, que não se pode dar ao luxo de desperdiçar uma só flor da sua juventude, a única que pode fazer algo por ele que nós, os cotas, já deixámos escapar a oportunidade que nos foi dada. Mesmo sem te ter visto nos últimos anos, ter-te-ei sempre na minha memória, com o sorriso maroto daquela foto no jardim zoológico, terias tu quatro ou cinco anos – lembras-te? – sentado junto ao teu amigo que dorme agora no quarto ao lado deste onde escrevo. Descansa tu também, em paz.


E à tua mãe, um beijinho de solidariedade, de apoio, que poucas mais palavras fazem sentido.


sexta-feira, abril 23, 2010

O sentido da vida


"You see that house? That is where I was born. My mother said to me, "Gaston. The world is a beautiful place, and you must spread joy and contentment everywhere you go". And so I became a waiter... Well, I know it is not a great philosophy but..."

Eric Idle, in "The meaning of life"



Em 1984 assisti num cinema de Lisboa a “O sentido da vida” dos Monthy Python. Na altura namorava uma rapariga muito católica e algo convencional e vi-me aflito para que ela não saísse portas fora da sala. Já me tinham acontecido experiências dessas (algures entre umas quantas e bué) por elas nem me quererem ver mais, mas foi a primeira vez que uma tentava pôr-se a andar por não querer ver o filme.

Na tela, Cleese, Palin, Jones, Idle, Gilliam e Chapman desancavam tudo numa sucessão de “sketches” que varria a vida do nascimento até à morte: a religião, o ensino, o exército, o estreito mundo dos gestores e da finança, a vacuidade burguesa, a vacuidade operária, a vacuidade dos ricos, a televisão, os bastidores do espectáculo, a justiça e o mais que lhes viesse à tola.

Na altura, o filme passava possivelmente das marcas para muitos espectadores e não posso ter a certeza que gente não tenha abandonado a sala, ocupado eu que estava com um olho no burro e outro no cigano, um a ver a fita e outro a controlar a miúda que fazia fita para ir embora, que não estava para aturar aquilo. Na página da IMDB sobre o filme, na “Internet”, muitos comentam que quando o viram no cinema tiveram espectadores a sair a meio.


No fim-de-semana passado revi “O sentido da vida” em DVD na fofura do meu sofá e apenas um dos gatos me abandonou em plena sessão para ir trincar uns “snacks” na sua malga. Passaram vinte e cinco anos e o filme ganhou alguns cabelos brancos, como referências aos vídeos Betamax ou a aparição de “blazers” aos quadrados, que até lhe dão uma certa graça, e continua um portento. O melhor elogio que se lhe pode prestar é dizer que ainda hoje, se exibido em sala para ruminantes da pipoca, fará muita gente sair a metade – ou menos.

É verdade que os tempos mudaram, os anúncios mostram rabos e os padres andam com má imprensa. E até tivemos o Borat. Mas Sacha Baron Cohen escolhe alvos fáceis: goza com aqueles de quem até gostamos de gozar, por nos acharmos superiores. O jogo com os Monthy Python é mais arriscado. Corremos o perigo de ter que nos rir de nós próprios. Para falar verdade, “O sentido da vida” até não nos põe a rir muito. Mas passamos duas horas a sorrir à gargalhada.

O filme mostra-nos os Python no seu estado natural: gongóricos, barrocos, surrealistas, às vezes escatológicos, sempre nos limites, à beira do precipício mas sem nunca cair aos abismos do barrasco. Algumas cenas são apenas muito boas, outras simplesmente geniais. Só os Python conseguiriam fazer um número de “music-hall” do tipo “Annie”, cheio de coros infantis, a gozar com a proibição de usar preservativos pela Igreja Católica, à volta do mote “every sperm is sacred”. Ou exibir-nos a Morte, encapuçada e de gadanha, a bater à porta de um jantar de queques ingleses num “cottage” e a ser convidada a entrar para um copo, enquanto a dona da casa comenta para os convidados: “é um dos aldeões”. Ou uma aula de educação sexual num colégio privado inglês, com exemplificação ao vivo pelo Prof. John Cleese com a esposa, perante o ar de enfado dos alunos. Posso estar para aqui a falar, mas na realidade só visto.

O segredo dos Python é o de que tudo vale, desde que subverta e que exponha. Quando Graham Chapman morreu de cancro em 1989, os outros Python fizeram uma cerimónia de homenagem em que John Cleese começou por dizer:

“Graham Chapman, co-autor do “sketch do papagaio”, já não está connosco.

Deixou de ser. Cansado da vida, descansa em paz. Bateu a bota, esticou o pernil, foi desta para melhor, quinou, deu o último suspiro, e foi encontrar-se com o Grande Chefe do Entretenimento Ligeiro no céu. E presumo que todos estaremos a pensar como é triste que um homem de tanto talento, de tanta capacidade de gentileza, de tão invulgar inteligência, se tenha ido em espírito com a pouca idade de quarenta e oito anos, antes de completar muitas das coisas de que era capaz e antes de se divertir que chegasse.

Bom, sinto que devo dizer: disparate. Bem nos livrámos dele, o desbocado do sacana. Ele que arda.

E a razão pela qual sinto que devo dizer isto está em que ele nunca me perdoaria se eu deitasse fora esta gloriosa oportunidade de os chocar a todos em nome dele. O pior que lhe poderiam fazer era bom gosto acéfalo.”

Claro que todos se riram e Cleese confessou que na noite anterior, enquanto preparava o discurso, Chapman lhe segredara ao ouvido: “OK, Cleese. Sei que te orgulhas de ter sido a primeira pessoa a dizer “merda” na televisão britânica. Se essa homenagem que estão a fazer é mesmo para mim, para começar quero que sejas o primeiro em Inglaterra a dizer “foda-se” numa cerimónia fúnebre”.

E ele teve que cumprir. Que os meus amigos, chegada a hora, não me falhem como Cleese não falhou.


Bem! E afinal, qual o sentido da vida? Na última cena do filme, Palin, vestido de mulher, sentado num cadeirão, recebe de uma assistente um envelope dourado contendo o sentido da vida. Abre-o como se abrem os envelopes dos Óscares e lê com ar alheado:

- Nada de especial. Tentem ser simpáticos. Evitem comer gorduras. Leiam um bom livro de vez em quando. Passeiem. Façam por viver em harmonia com pessoas de todos os credos e nações…

De facto, o sentido da vida andará mais ou menos por aí, para azar de quantos o procuram em vão nos lugares mais recônditos ou nas mentes mais exóticas deste mundo e do outro.

Quando o genérico final começou a passar, ao som de uma cantoria alegre por Eric Idle, carreguei no “eject”, guardei o disco na caixa e em vez de a devolver à prateleira dos filmes coloquei-a na biblioteca, entalada entre a História da Filosofia Ocidental e uma selecção comentada de textos dos Evangelhos. Ali fica bem.

sábado, abril 17, 2010

O acocoramento


“Le roi est maintenant âgé de 54 ans : son aspect est tout à fait royal,

en sorte que sans avoir jamais vu sa figure ni son portrait, à le regarder seulement, on dirait aussitôt : c’est le Roi


Descrição de Francisco I de França pelo embaixador de Veneza, em 1546



Ontem, o nosso Presidente da República deu má conta de si e de nós em Praga, permitindo que o seu homólogo checo se fosse sem resposta quando, durante uma visita de Estado e perante uma plateia de empresários e jornalistas dos dois países, lhe deu para achincalhar Portugal com piadinhas parvas sobre o défice deles e o nosso e as preocupações deles e a nossa descontracção diante do assunto e não sei mais o quê. Basicamente tentando chamar-nos mandriões do sul.


Aceito que Cavaco Silva possa alegar duas atenuantes.


A primeira, que os checos são um dos povos com menos piada da Europa. Passei quinze dias em Praga em 1987. À época, o russo ainda se ensinava como primeira língua estrangeira no ensino liceal, provavelmente para perceberem as instruções recebidas de Moscovo, e as checas ostentavam “vaca” no sufixo. Lembrando essa estadia, recordo as características de simpatia, trabalho, atenção, mas também que, coitadinhos, não tinham piadinha nenhuma. Falta-lhes o gene do humor, possivelmente perdido algures durante as rebaldarias associadas às invasões otomanas: ao seu lado, os suíços fariam figura de foliões. Por isso, ver Vaclav Klaus soltar graçolas como se dessem para rir pode deixar basbaque o interlocutor mais desprevenido e parece-me que foi isso que aconteceu com Cavaco. Para os menos atentos, Klaus é o PR da República Checa, único país do mundo cujo nome é um adjectivo e não um substantivo. Como será mesmo que aquela trampa se chama? Chéquia? Quezéquia? Alguém me ajude.


Depois, Klaus é o típico burocrata de regime comunista reconvertido a convicto neo-liberal após a queda do Muro. Normalmente os piores, pois mantêm na nova encarnação o sectarismo e a arrogância de que necessitaram para sobreviver na primeira. Um tipo que como ele trabalhou quinze anos como economista no banco central de um país da cortina de ferro deve ter escrito muito relatório a defender o planeamento central, com letra cursiva e o mesmo afinco com que agora preconiza a excelência do livre mercado. Para mais, viu-se também que é ordinário, não sabendo comportar-se com uma visita. Nenhum dos seus assessores lhe lembrou Bismarck, que dizia que até uma declaração de guerra se redige de forma educada. E para terminar é idiota, como se pode ver pelas suas afirmações esclarecidas de que o CO2 não causa aquecimento global ou os estereótipos que manifestou quando a Checocoisa ocupou a presidência semestral da União Europeia. A ele aplica-se como uma luva a máxima de John Stuart Mill, de que nem todos os conservadores são estúpidos, mas que a maioria dos estúpidos são conservadores.


Apesar destas razoáveis desculpas, Cavaco mostrou figura fraca ao não ter imediatamente respondido com um coice. Ao calar-se abaixou-se, perdeu a dignidade e esqueceu-se que nos estava a representar a todos. Até o seu aspecto físico se encarquilhou perante a humilhação. Exactamente o efeito contrário ao do impacto da aparência de Francisco I que transcrevo em epígrafe. A olhar para Cavaco embaraçado a ouvir as bujardolas do checo, o tal embaixador de Veneza não exclamaria “c’est le Roi”, mas antes “c’est le valet”.


Perante o alarve, Cavaco tomou a única atitude que não devia ter tomado: não tomar nenhuma atitude. Podia ter saído da sala ou ter manifestado o seu desagrado argumentando e fazendo notar à frente daquela gente toda que o outro passara das marcas. Muito melhor todavia se tivesse conseguido dar-lhe uma resposta curta, humorada e venenosa que devolvesse para o lado de lá a bola do embaraço. Daquelas boas como já as houve.


Já aqui no blogue citei, noutro texto, a magnifica resposta de Lourenço da Cunha, enviado de D. João II à corte de Castela, que chamou elegantemente rameira à rainha Isabel a Católica à frente da sua corte, quando ela se começou a chegar muito à frente e a tratar Portugal por cima da burra. A missão diplomática fracassou mas D. João II, que percebia a importância relativa das coisas, recompensou amplamente o embaixador pela presteza e oportunidade da resposta.


Outro que não esteve mal foi Gustavo Adolfo da Suécia no seu primeiro encontro com o czar, numa planície nevada. O sueco subira muito jovem ao trono e o russo mandou a piadinha em tom sarcástico: “nunca pensei que fosse tão novo”. Gustavo Adolfo, um latagão dois palmos mais alto que o czar olhou para baixo e respondeu: “nunca pensei que fosse tão pequeno”. Toma e embrulha e vamos à guerra.


Ou a famosa de Churchill a Lady Astor, a primeira mulher deputada no Reino Unido, que lhe disse que se ele fosse seu marido lhe envenenava o chá ao que Churchill retorquiu “e eu se fosse seu marido, bebia-o”.



Uma destas é que faltou em Praga a Cavaco, para soltar a Vaclav Klaus. Qualquer coisa como “pois, não tivemos a sorte de ter os soviéticos a ensinar-nos durante quarenta anos disciplina orçamental” ou então “de facto, a experiência que o senhor adquiriu a planificar a economia nos velhos tempos da guerra fria deve dar jeito nestas alturas”, dito com sorriso e um pose de “se te fosses lixar?”.



Entretanto por cá, também ontem, houve sururu na Assembleia porque o Zé Sócrates teria sussurrado “manso é a tua tia”, quando Louçã, no seu melhor ar seminarento, lhe afirmara que ele estava mais manso. Admito que o Bloco, de tão “prafrentex”, se tenha esquecido que manso, em português de Portugal, ainda mantém um sentido figurado que pode não agradar a um homem. No tempo do meu avô, uma insinuação de mansitude seria suficiente para se tirar coletes e trocar socos.


Sócrates, ao contrário de Cavaco, teve aqui pelo menos o mérito de não ficar calado. Mas ficou-se infelizmente pela metade: devia ter falado em voz alta, para o microfone, e colocado entre o “manso” e o “tua tia” uma palavra vernácula que caracterizasse a natureza comercial da referida senhora.

sábado, abril 03, 2010

A cena peluda

As mulheres têm mais capacidade de fazer corar os homens do que o contrário.

Verdade. Dei-me pela primeira vez conta dessa realidade no início da minha carreira, quando fiz parte de uma equipa que realizou uma coisa chamada “caracterização dinâmica da barragem do Alto Lindoso”. Basicamente consistia em passar o dia num buraco no paredão da barragem, na altura em construção, em frente a uns computadores que hoje nos fariam rir, daqueles com letras verdes em ecrãs pretos, a ver como é que aquilo abanava.

À hora de almoço, descíamos por uma estrada sinuosa, evitando “in extremis” camiões gigantes e bois barrosões razoavelmente grandes até um restaurante frequentado exclusivamente por homens da obra. Ficava numa casa de quinta antiga, com uma sala grande atravancada pelo amesamento e um fogão a lenha em ferro preto que ainda funcionava. As proprietárias, duas irmãs velhinhas, daquelas minhotas trigueiras com uma pele lisa que a idade sulca mas não enruga, circulavam entre mesas distribuindo rojões, dobradas, feijoadas e outras levezas da culinária nortenha. À época, as preocupações com o agá-dê-éle ainda não constavam.

Um dos dias, durante o almoço, tocou um telefone de parede daqueles de baquelite e sonora sineta. Atendeu uma das irmãs e foi falando, alto para vencer o murmúrio colectivo dos mastigantes. Percebia-se que falava com um filho que morava no Porto. Não sei o que este lhe disse, mas a dada passo a velhota interrompeu-o: “já não estou a gostar do c… da conversa!”. E vai daí desancou-o de alto a baixo, soltando mais palavrões em cinco minutos do que todos aqueles que se haviam proferido nessa manhã na obra, onde moinava cerca de um milhar de gajos.

Na sala, o ambiente era constrangido e o murmurar tinha-se silenciado. Só se ouvia a velha, de bata florida e lenço na cabeça, aos impropérios e bujardas. Recordo-me de na mesa à minha frente um operário de macacão de ganga, um homenzarrão ruivo e barbudo, com quase dois metros, baixar o olhar para o prato e corar, mas corar vermelhão.



Esta cena volta-me à memória por vezes em certos jantares em que entre o fim da sobremesa e o sorver do café, os homens olham embaraçados uns para os outros, sem saber o que dizer, no limite do coranço, quando elas se põe a debater assuntos que noutros tempos da fidalguia passariam por ser de alguma intimidade.

Nas ocasiões mais recentes, o tema que está a dar é a depilação. A conversa normalmente começa nas axilas e depois vai descendo. Exactamente até aí. E nesse preciso momento os rapazes ruborizam e um deles desafia os outros para uma cartada, para fugir ao embaraço.

Elas vão discutindo métodos e vantagens, extensões e penteados, cortes e metodologias. Comparam os custos e as dores e contrapõem face à excelência dos resultados. Pelo que não podemos deixar de ouvir, o que está a dar agora é a depilação a “laser”, pagando-se bem mas de resultado definitivo. Tal como com o cavalo de Átila, a relva não volta a crescer.

Quem estabeleceu as bases teóricas do “laser” foi nem mais nem menos do que Einstein, num artigo de 1917 intitulado “Sobre a teoria quântica da radiação”. Nunca pensou o guedelhudo e bigodudo génio que as suas ideias pudessem vir a servir tão acarecante propósito.

Embora eu ainda tenha trabalhado com “lasers” na universidade, certamente em aplicações menos nobres, tive alguma dificuldade em visualizar como se daria a utilização da amplificação de luz por emissão estimulada de radiação nestas recônditas circunstâncias da depilação íntima. Como funcionaria? Pus-me a imaginar laboratórios escuros, raios verdes e vermelhos atravessando tubos transparentes, cientistas de bata branca. De repente, atingiu-me uma epifania e no meu cérebro materializou-se a seguinte cena:


Na sala de depilação a “laser”, entra a figura negra e capeada de Lord Darth Vader:

- I can feel a hairy disturbance in the Force. You have failed to depilate effectively. I will not tolerate this again.

A depilante, pendurada no ar pela força mental do Jedi e um pouco nervosa:

- É a porcaria daquela cera, Lord Vader, não …
- Wax is the depilator of the weak. I will proceed immediately to a more definitive termination!
- Sim, Lord Vader, mas com jeitinho…
- I will use the power of the Force to make you assume the depilating position!

A depilante, nua da cintura para baixo, é rodopiada no ar no centro da sala até atingir a configuração propícia. Lord Vader aproxima-se:

- Using the power of the Force to control two legs and a torso is more tiresome than strangling an incompetent Death Star lieutenant. You will have to pay well
- Hi,hi! Já paguei o sinal ao robô que está à entrada do consultório, Lord Vader!
- Gooood!

Nesse momento houve-se um “uoooooon” característico e o Jedi negro desembainha o seu sabre de luz, que pulsa, avermelhado, no centro da sala. Aproxima-se e inicia a operação…

Mais tarde, Lord Vader ajoelha-se diante do Imperador Galáctico, Palpatine:

- Reporting as requested, My Lord.
- Have you performed today the depilating task as planned, Lord Vader?
- Yes, My Lord. All her hair is now gone. I accidentally cut off one leg and both buttocks in the process.
- That is a minor side-effect in the pursuit of baldness. I’m overall satisfied, Lord Vader.
- Thank you, My Lord.
- What about the rebels? Are they epilated?
- Han Solo is currently stuck in a carbonite slab and impossible to reach. Luke Skywalker is as baby faced down there as below his nose, so no work to do. According to intelligence, Princess Leia, as most female earthlings, has already epilated herself down to the core. I am now focusing on Chewbacca, My Lord.
- And when do you foresee that this task will be terminated?
- Chewbacca is quite hairy, My Lord! Looks like an Austrian earthling female. But I expect to be able to finish him in episode VIII of the saga.
- Do better, Lord Vader. Episode VI is the limit. No pubic hair must survive after then anywhere in the Galaxy!
- (Glup) I will do as you wish, My Lord.



Pois. Deve ser mais ou menos assim que a coisa se passa.

Regressei à Terra, onde elas continuavam a debater o problema do pelo persistente. Deu-me para fazer a pergunta incorrecta:

- Se essa cena é definitiva, como é que vocês fazem quando a moda mudar?

Olharam para mim com ar transviado. Insisti:

- Sim. Isso deve ser como as gravatas e as abas do casaco, que alargam e estreitam com um intervalo de dez anos. Se calhar, daqui a uns tempos volta a moda “afro”. E nessa altura? Se isso do “laser” é definitivo?

Pintou um clima silencioso. As bocas delas entreabriam-se procurando facilitar a resposta que não surgia.

De repente, uma dos homens quebrou o gelo para dar a opinião que se impunha:

- Nessa altura, vão ao mesmo sítio onde lhes passaram o “laser” e pagam uma fortuna igual para fazer um implante.

domingo, março 28, 2010

Sítio santo


"Um dia, esta horrível guerra acabará por fim, um dia poderemos ser seres humanos e não apenas judeus"


in "Diário de Anne Frank"



Durante as férias carnavaleiras com o meu filho mais novo, passeando pela Bélgica e pela Holanda em gozo de tempo de qualidade, como agora se diz, terminámos em Amesterdão. Lá chegados, o rapaz quis começar por visitar a Casa de Anne Frank, cujo diário acabara de ler na disciplina de português.


Fomos e integrámo-nos na fila que dobrava a esquina, do canal dos Príncipes para a sombra tutelar da torre da Westerkerk, igreja onde Rembrandt repousa finalmente ao abrigo dos credores. O fim de dia assoprava uma brisa gélida e polvilhava-nos com uma cacimba fina. Foi com alívio que assomámos à porta do que no início da guerra era o armazém da Opekta, a empresa de especiarias de Otto Frank.


Confesso que não ia à partida com grandes expectativas em relação a esta visita. Por regra, não me demoro em casas-museu: a intimidade das figuras históricas tem para mim um interesse breve, que se desfaz em meia-dúzia de passos pelos soalhos gastos pelo andar dos anos e das solas dos turistas. Desta vez foi diferente e inesperado.


Acontece que eu nunca tinha entrado num santuário. Verdade que já andei por muito sítio onde homens de hoje ou de ontem reclamaram uma ligação especial ao divino. Visitei igrejas e templos, mesquitas e sinagogas. Bebi a água do oráculo de Delfos, sem grande impacto nas minhas capacidades predictivas, diga-se em abono da franqueza. Cheguei a abrigar-me da trovoada sob um dólmen. Penetrei a câmara tumular do faraó Quefren. Percorri a planura asfaltada das edificações de Fátima, as grandezas marmóreas da Santa Sé. Na ilha de Jeju, na Coreia, toquei a pedra que dá felicidade aos noivos coreanos, por sinal um país com uma elevadíssima taxa de divórcio. Mas em todos estes locais, por respeito que me mereça a história e as convicções de quem os venera ou venerou, nunca tive a percepção de estar cara-a-cara com o Sagrado.


Mas quando passei pela estante falsa que separava a Opekta do esconderijo onde durante dois anos viveram clandestinas oito pessoas (a família Frank, a família Van Pels e Fritz Pfeffer) senti, de uma forma tocante, que naquele local ocorrera um absoluto profundo. Entrara finalmente, a mais de meio da minha vida e quase sem me dar conta, num santuário. Ali se tinham cruzado em luta feroz Deus e o Diabo ou o melhor e o pior dos homens, escolham vocês.


As pequenas dependências do esconderijo visitam-se despojadas de mobiliário. Foram pilhadas após a prisão dos ocupantes. Otto Frank, pai de Anne e o único sobrevivente à guerra, quis que o local se mantivesse como estava. Percebe-se: novas mobílias fariam um cenário e o que se passou naquela casa não foi nenhuma peça.


Há detalhes comoventes. Uma vitrina exibe um jogo de tabuleiro, prenda de aniversário do jovem Peter Van Pels pelos seus quinze anos, celebrados na clandestinidade. Outra mostra exercícios de latim feitos por Margot Frank, a irmã de Anne, que saíam do esconderijo e voltavam corrigidos. E aqueles objectos encontrarem-se lá significa que gente boa arriscou a vida ajudando aqueles clandestinos não apenas para que se escondessem ou comessem, mas também para que uma menina pudesse satisfazer o seu gosto pelo estudo ou que um rapaz passasse um aniversário feliz.


Tal género de coragem, abnegada e heróica, suscita admiração e um certo orgulho: a nobreza é afinal possível. As pessoas que ajudaram os Frank e os restantes clandestinos têm caras e nomes: Miep Gies-Santrouschitz, Jo Kleiman, Victor Kugler e Bep Voskuijl. Por vezes, gastamos a cabeça a lembrar malta que não vale a pena. Estes não devemos esquecer nunca.


Ao revés, os nomes dos que os denunciaram não são conhecidos. O Mal abrigou-se cobardemente no anonimato. Os ocupantes daquele esconderijo foram presos em Agosto de 1944 e deportados para campos de concentração. Todos, excepto Otto Frank que sobreviveu a Auschwitz, pereceram, tal como cem mil dos cento e quarenta mil judeus holandeses que havia em 1940. Poder-se-ia pensar que o Mal ganhara ao Bem, usando e abusando da morte, a torto e a direito. Mas não. Com um livro, com a história da sua candura no meio da situação mais trágica, com a sua voz de esperança, com o seu testemunho, Anne Frank deu ao Bem uma vitória tardia e póstuma, usando a única arma possível: a Memória.



Uma reflexão final: uma visita à Casa de Anne Frank aviva-nos a lembrança que o nazismo existiu e do que foi. O modo como recentemente temos olhado para os totalitarismos do século XX tem sido muito clemente para o nazismo. O nazismo, pela escala mas sobretudo pela essência, representa o grau zero da humanidade.


Quando se junta acefalamente na mesma frase, como tantas vezes se ouve na televisão, nazismo e estalinismo, Hitler e Estaline, está-se a branquear o nazismo, como aliás Primo Levi, um anti-comunista sobrevivente de Auschwitz, muito bem fez notar nos seus escritos.


Na minha óptica, Estaline foi um ditador sem escrúpulos que perseguiu sem mercê os seus inimigos, supostos ou reais, e que por erros seus, militares ou económicos, indirectamente arrastou para a morte muitos milhões. “En passant”, e numa perspectiva histórica, tenho que reconhecer que acabou por ser o mas bem sucedido dos czares russos (apesar de georgiano), o único que conseguiu aquilo que Pedro e Catarina queriam e nem cheiraram: tornar a Rússia uma potência mundial.


Mas Estaline não mandou gazear crianças. Não promoveu deliberadamente o extermínio completo de povos. Por isso, porra! Não comparem! Só lhes fica mal…

sábado, março 27, 2010

Exposição fotográfica - Edição especial Amesterdão - Outra Amesterdão

Museu Tussaud, praça Dam


Saída do museu Tussaud

Algures na Krom Bloomsloot


Mesa de trabalho de Rembrandt, onde ele fazia as suas tintas


Obras do eléctrico na Rokin


No museu Judaico, peça de pano de onde eram recortadas as estrelas de David que os judeus eram obrigados a usar durante a ocupação nazi


Manhã tranquila perto de Lastegeweg


Ainda no museu Judaico, um moderno Spinoza


Casas de madeira perto do Rijksmuseum

Exposição fotográfica - Edição especial Amesterdão - "Port d'Amsterdam"

Casa-barco no Oudeschans, com cadeirinha na varanda


No porto, na Osterdok, o frio era tanto que a água estava a gelar.


E os barcos são alegres como os "marins" da canção



E juntam-se para formar frases


Reprodução do Amsterdam, navio da companhia das Índias Orientais que se afundou no lodo em Inglaterra, logo na primeira viagem

Exposição fotográfica - Edição especial Amesterdão - Crazy Amsterdam

"Tee-shirts" na Damrak

Massagens orientais na Rokin


"Coffe shop" na Oudebrug

E um ganda petardo na mesma rua


Farmácia especializada, sempre na Oudebrug


Para quem aprecie o estilo, loja de "slips" masculinos (?) junto à praça Dam


No mercado das flores do canal Singel, todo o tipo de plantas


E casa de tatuagens junto a Waterlooplein

Exposição fotográfica - Edição especial Amesterdão - Amesterdão tradicional

Canais e bicicletas...


O canal Keizer ao anoitecer


Casas incrivelmente inclinadas...


Escolhendo bolbos no mercado de flores flutuante no canal Singel


E queijos Gouda na mesma rua


Torre da Zuiderkerk, numa manhã de nevoeiro


Pedalando na praça Dam


Armazéns Schottenburch, de 1636, hoje apartamentos

O “homo republicanus parvensis”

A cegarrega que os republicanos norte-americanos andam a fazer à volta da reforma do sistema de saúde prometida e cumprida por Barack Obama traz à colação uma das mais fascinantes questões da antropologia actual: será que sobrevivem ainda hoje à face do planeta, hominídeos aparentados com o “homo sapiens” – mas não iguais? É que não consigo arranjar outra explicação para o comportamento dos “Tea partys”, das turbas que ameaçam os congressistas, das Saras Palhinhas e dos senadores do partido do elefante, que não a daquela malta sofrer de um cérebro morfologicamente (e funcionalmente) diferente do resto da humanidade.

Reparem na ironia: andam doutorados em arqueologia no deserto do Gobi e nos recônditos da Sibéria à procura de vestígios de hominídeos diferentes, empoeirados, torrando à soleira ou tiritando de briasco, espanejando pedrinhas enfiados em buracos, dormindo desconfortavelmente em tendas de campanha, a comer rações de combate; ficam todos contentes quando descobrem uma lasca de maxilar; e afinal, calhando, podiam encontrar espécimes inteiros e tribos completas, vivos ainda por cima, nas ruas de Houston ou de Atlanta.


Comecemos por perceber do que é que estamos a falar.

Hoje em dia, cerca de 15% da população americana não tem acesso a sistemas de saúde. Este “não ter acesso” não é bem o mesmo que não ter acesso a uma festa na Quinta da Matinha. Em certas circunstâncias significa morrer por falta de tratamento adequado. Vendo isto com os olhos que temos do lado de cá do Atlântico (e da civilização), constataríamos que 45 milhões de seres humanos, de qualquer idade, podem muito bem bater a bota que nem uns cães sem que isso lá tire o sono a muita gente.

Adicionalmente, se repararmos na distribuição étnica destes desprotegidos, verificamos percentualmente que existem três vezes mais hispânicos, duas vezes mais negros e uma vez e meia mais asiáticos que brancos. Ou seja, “se hablares así” nas ruas de Miami, não tens interesse em ficar muito doente. Há também aqui uma certa questão de equidade.

Ora o que propôs Obama, que tanto escandalizou a América campónia? Quadruplicar os impostos? Obrigar médicos a trabalhar à borla com uma pistola apontada? Criar um serviço nacional de saúde? Não. Baseando-se no actual quadro de seguros, propõe-se aumentar cerca de 10% o orçamento federal da saúde para abranger todos os que dele não fazem parte. Comparado com os mega-sistemas sociais norueguês ou suíço, uma verdadeira mariquice. E, no entanto, milhões e milhões de americanos reagiram como se sabe, criando uma das maiores barreiras de propaganda e agitação política que o Partido Republicano erigiu desde o magno caso da estagiária, do charuto e da mancha no vestido. Como explicar isto?

Por um lado, tenho a impressão que há um certo desconforto em que um preto tenha sucesso numa tarefa complicada onde Truman, Nixon e Clinton, antes dele, falharam.

Mas atentando num dos cartazes que contestatários agitavam frente ao Capitólio, percebe-se a razão talvez mais profunda. Rezava assim: “Americans don’t redistribute wealth. They earn it”.

Não coloquei na frase anterior o verbo “rezar” de forma inocente. A quase totalidade destes contestatários acham-se muito cristãos, não faltam à missa ao domingo e consideram o ateísmo algo de gravíssimo. Mas quando toca a caridade, tá quieto! Não me parece por isso que tenham folheado extensivamente o Novo Testamento. E pergunto-me se, nas suas congregações dominicais, também fazem manifestações destas em redor da caixa das esmolas, abominando e pontapeando tão demoníaco objecto.

Voltando aos tais 45 milhões e resumindo, para o grosso do Partido Republicano, que representa uma quase metade da América, os gajos que se lixem e qualquer tentativa de solidariedade social na sua direcção vem da costela esquerdista e totalitária do actual presidente. Mais: a ideia é mesmo deixá-los de fora.


Isto a nós cá na Europa pode causar uma certa estranheza, porque já ultrapassámos esta fase mental há século e meio. Com o arranque da revolução industrial em Inglaterra, a questão da pobreza tornou-se um problema relevante, prático para os políticos e teórico para os filósofos. A visão mercantilista considerava importante que os pobres se mantivessem pobres, porque só assim poderiam realizar um trabalho honesto sem pedir demais. Um dos mais influentes pensadores britânicos no final do século XVIII, Bernard Mandeville, comentava que “para fazer uma Sociedade Feliz, é requisito que grandes números sejam Ignorantes e também Pobres”. Valha-lhe a franqueza.

No entanto, as hordas de indigentes que vagueavam pelo reino e também o exemplo na altura recente da Revolução Francesa levaram as elites a inquietar-se sobre a questão dos “unprofitable poor”. Algumas das respostas a esta inquietação deixam-nos hoje um sorriso amarelo: quando Richard Arkwright, industrial de fiação, começou a usar crianças na sua fábrica, “por terem dedinhos mais activos e se adaptarem melhor à disciplina da vida fabril”, tal medida foi aplaudida como filantrópica, porque permitiria aliviar a condição dos pais, os tais “pobres não-lucrativos”. E verdade se diga que, ao longo do século XIX, quando o Reino Unido foi passando sucessivas leis regulando ou eliminando o trabalho infantil, estas tiveram a oposição não só de membros da Câmara dos Lordes imbuídos de um liberalismo que ainda anda por aí, que achavam que tais medidas feriam os direitos das crianças porque estas podiam querer mesmo trabalhar, mas também de muitos pais a quem a maçaroca dava jeito.

O problema da pobreza mereceu as atenções de todos os primeiros grandes pensadores económicos, de Adam Smith a David Ricardo, de Parson Malthus a Karl Marx e a John Stuart Mill. E no final, fosse por razões tácticas das classes dominantes (o mesmo Mandeville reconheceu que seria “prudente aliviar, embora uma loucura curar” as necessidades dos pobres), fosse pela acção e exemplo de utópicos como Robert Owen ou de activistas como Richard Oastler ou Lord Shaftesbury, fosse pela dinâmica dos movimentos de trabalhadores e a sua absorção pelo tecido social, fosse simplesmente porque as sociedades ganharam vergonha das condições horrorosas de trabalho e de vida das massas pobres, fosse provavelmente por tudo ao mesmo tempo, a verdade é que a condição das camadas mais desmunidas foi progressivamente melhorando e dignificando-se em toda a Europa industrializada. Simultaneamente, tornou-se um dado adquirido e um valor comummente aceite que as sociedades devem redistribuir razoavelmente a riqueza gerada e ser solidárias com os mais necessitados. Tais noções encontram-se aliás na génese da União Europeia.

Não quero com isto dizer que por cá tenhamos resolvido a questão da pobreza. Longe disso, ainda há muito – tanto – pela frente. Só que não achamos natural nem porreiraço que exista, como muitas dezenas de milhões de norte-americanos fazem, e não ameaçamos de morte os deputados que aprovam leis para acabar com ela.

Na América, metade da população ainda não percebeu estas noções básicas. E não se trata apenas de um problema de massas ignorantes. Trata-se sobretudo de cúpulas ignorantes ou cínicas ou ambas, que apelam ao mais básico e reles que há nas pessoas e que perdida a razão da razão recorrem às razões do medo. Sobre isto, sugiro-lhes que leiam o texto seguinte de Paul Krugman no Herald Tribune da última terça. Uma leitura simpática, já que Krugman é um economista que possui duas coisas que nem todos os economistas têm: um prémio Nobel e sentido de humor. Particularmente notável quando cita as acusações dos Republicanos aos Democratas de tácticas totalitárias e diz que acha que eles se estão a referir a um processo conhecido como “votação”.

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Voltando ao ponto de partida, continuo perplexo com o que vai na cabeça dessa gente. Será que têm a mesma mioleira que nós? Ou serão mesmo uma variante misteriosamente sobreviva do “homo sapiens sapiens”, com um sistema límbico mais atrofiado, menos sinapses entre aqueles neurónios ou outro encalhanço qualquer? Eu sei lá! Só sei que ter esse pessoal todo a votar num país que é a maior potência mundial não é muito tranquilizador para o resto da humanidade, como se viu pelo mandato glorioso do rapaz George W.