segunda-feira, setembro 08, 2008

A Sara Palhinha

Imaginemos que no partido que governa hoje o nosso país cerca de metade do eleitorado acreditasse no Pai Natal. Não no sentido figurado da expressão: que acreditasse mesmo a sério. Que escrevesse carta para o pólo norte abonando o seu bom comportamento anual, a ver se pingava uma prendinha. Que, na véspera do dia vinte e cinco, pendurasse as meias à lareira e lubrificasse o rebordo da chaminé. E que piamente cresse, na manhã de natividade, que o embrulho colocado debaixo do pinheiro viera nessa noite em trenó puxado por renas.

Deliremos mais um pouco. Assumamos agora que essas pessoas consideravam imorais ou incapazes quem, ao contrário delas, não acreditasse no Pai Natal. Que contribuíssem, com finanças mais ou menos parcas, para a promoção de estudos ditos científicos que, em teoria, comprovassem teoricamente a existência do velho barbudo. E que fizessem da crença neste São Nicolau condição necessária para eleger os seus governantes. Que tal? “O Mataspeak, hoje, passou-se de vez!”, dirão os muito estimados leitores.

Ora, o líder deste partido, se de forma pública e notória não acreditasse no Pai Natal, teria um problema para resolver. Como manobraria para ser reeleito? Por um lado, se se mantivesse firme no seu cepticismo, alienaria metade do seu eleitorado, correndo à ruína. Mas se, ao contrário, desatasse a proclamar que tinha andado ao engano, que afinal existia, que por epifania se lhe revelara, de casaca vermelha e barba branca, aí seria pior a emenda que o soneto. Não só os crentes desconfiariam da jogada, aderindo moderadamente, como a outra metade da sua base de apoio fugiria, receosa de eleger um fanático.

Que fazer, então? Uma safa possível passaria por escolher para número dois do partido um tipo que acreditasse mesmo muito no Pai Natal. Um fanático da prenda no sapatinho. Um louquinho do “oh-oh-oh”. Este totó atrairia o voto dos “painatalistas”, que pensariam tacticamente que sempre vale mais ter um número dois do que não ter nada. E o líder garantiria a cruzinha dos que não são parvos, que se resignariam a aturar os dislates do número dois a título de mal necessário.

Bom! O filme de terror acima descrito por acaso até saiu da minha cabeça, mas representa uma versão reduzida e simplificada do “multilema” que se punha até há dias atrás ao senador John McCain. McCain concorre à presidência dos Estados Unidos da América, por detalhe a maior potência mundial, representando um partido, o republicano, onde uma parte significativa e decisiva dos eleitores acredita não num, não em dois, mas numa data de Pais Natal.

Uns acham que o homem foi criado todo bem-postinho ao sexto dia e que isto é que deveria ser ensinado nas aulas de biologia. Outros pensam que o facto de qualquer idiota poder ser dono de uma arma de fogo não tem nada a ver com as matanças que todos os anos ocorrem nos liceus americanos, quase com a mesma tradicional frequência que o baile de formatura. Há os que julgam que a substituição da educação sexual escolar pela promoção da abstinência entre os adolescentes não está na origem da maior taxa de gravidez precoce do mundo ocidental. Aqueloutros ainda não perceberam que os furacões cada vez mais vezeiros e violentos que levam no toutiço têm origem no aquecimento global promovido pelas carradas de CO2 que a indústria americana debita cá para fora. Verdade seja dita, não devem morar na Louisiana ou na Florida. Outros ainda supõem que a coisa se resolve furando mais poços de petróleo, dê lá onde der. E não me admirava que alguns haja lá para o meio que acreditam mesmo na existência do Santa Claus, “himself”. Já agora, para maluco, maluco e meio.

Ora o McCain, do alto dos seus setenta anos, inscreve-se mais no estilo do velho partido fundado em 1854 por anti-esclavagistas e modernizadores da política americana, o partido de Lincoln e de Theodore Roosevelt, partido que pouco tem a ver com a cegarrega autoritária e atrasada mental dos últimos tempos. Para parte da turba votante, é um suspeito esquerdista, apesar das condecorações e das cicatrizes.

Com tanto sandeu para contentar, McCain precisava de vários vice-presidentes, mas as regras deixadas pelos pais fundadores só lhe permitem um. Vai daí, passou a base de dados com os trezentos milhões de norte-americanos num algoritmo de optimização multi-variável e conseguiu desencantar numa vilória do Alasca o único americano – no caso uma americana – que não só acredita nos Pais Natal todos, como tem a idade e o sexo que ele não tem (demograficamente falando, é claro).

Sarah Palin nasceu no Idaho mas foi criança para o Alaska. O pai Palin ia com ela caçar o alce antes da hora de entrada na escola e a família entretinha-se com corridas de 5 e 10 km, o que a menos quarenta deve ser o máximo. Claro que isto tinha que deixar marcas na pequena Sarah que cresceu cristã evangélica, criacionista, membro da “National Rifle Association”, “pro-life”, “pró-virgem até ao casamento”, “pró-corte de subsídios aos deficientes”, “pró-esburacar o Alasca a sacar petróleo”, “pró-censura dos livros inconvenientes”, “pró etc.” Pró caraças não lhe faria mal nenhum!

Mas como Deus dá com uma mão o que tira com a outra, para compensar tanta burrice deu-lhe uma carinha laroca, com a qual ganhou o título de Miss Wasilla, possivelmente competindo contra duas ursas polares e uma “inuit” velhota, para que o “quorum” fosse preenchido. Forte desse diploma de beleza, andou em cinco universidades diferentes para acabar um curso de jornalismo, tornou-se repórter desportiva, presidente da câmara de Wasilla (sete mil alminhas, já contando os alces que sobreviveram ao pai Palin), governadora do estado (onde rapidamente deixou o orçamento num triste estado) e agora candidata à vice-presidência dos Estados Unidos da América. É assim como se a presidente da junta de freguesia de Curral das Moinas se visse de repente em ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.

Tudo isto seria motivo para uma boa galhofa, não fosse o McCain ter setenta e dois anos, com quatro melanomas, muita porrada levada no Vietname e qualquer dia poder dar-lhe um badagaio. E, se tiver sido eleito, lá vão os códigos do arsenal nuclear para os dedinhos habituados ao gatilho da presidente Sarah Palin. Um sossego!


P.S.

Para quem não entendeu ainda bem o que é a direita evangélica norte-americana, recomendo os capítulos quatro a sete de “American Theocracy”, de Kevin Phillips, um antigo conselheiro de estratégia eleitoral de Richard Nixon. Um bocado maçudo, mas com dois ou três cafés vai.

Se quiserem uma versão sintetizada, vejam este extracto do Jon Stewart, que fala por si (o extracto, não o Jon):

terça-feira, setembro 02, 2008

O livro que ia mudar a minha vida (mas não vai)

Há dias, passando diante de uma montra da Bertrand, o meu olhar foi atraído por um cartaz que anunciava um livro. Não me recordo do título, nem do autor (uma senhora com cara e nome de branca, anglo-saxónica e protestante, do género Katherine Lou Smith ou equivalente), que com certeza não interessam para esta conversa. Mas fiquei a matutar no “slogan”, que prometia, com categórica certeza: “o livro que vai mudar a sua vida”.

Ora aqui está uma obra que eu não vou ler. Por pouca paciência, certamente, mas também porque quem tem cu tem medo. E se aquilo por acaso resulta? Por que raio é que eu havia de querer que a minha rica vidinha mudasse? Sinto-me razoavelmente satisfeito com a que tenho, mau grado a injustiça de o Sporting não ser (ainda) campeão europeu, e melhor fico se não arriscar. Dos livros que leio, alguns enriquecem a minha vida, outros divertem-na, uns quantos, felizmente poucos, suspendem-na num intervalo de tédio. Agora mudá-la, até agora não e ainda bem.

Como funcionará um livro que muda a vida de uma pessoa? Qual é a mecânica? Só fará efeito se lido de fio a pavio? Dobra-se a última folha e tocam à porta, a anunciar uma herança milionária de um distante e incógnito parente, ao mesmo tempo que recebemos um SMS da nossa mulher a avisar que foi viver para o Algarve com uma namorada e que não a procuremos? Ou, ao invés, terá um comportamento progressivo? Neste caso, na quinta página já nos chega uma carta das finanças com uma multa por atraso no IRS, ao terceiro capítulo penhoram-nos ordenado e carro e chegados à palavra “fim” vemo-nos envolvidos num “kafkiano” processo de fraude fiscal, no qual nos julgamos inocentes, mas que termina com prisão maior e uma nova existência, eremita e penitente, na cadeia do Linhó.

Num cenário mais ousado, o efeito poderia ser avassalador e imediato, como no célebre “sketch” dos Monthy Python da anedota assassina que nunca conseguimos saber qual é por que todos os que tentam ler o papel onde está escrita morrem de riso à segunda ou terceira palavra. Se assim fosse, à quarta linha lida a mágica leitura produzia efeito e descobríamo-nos do sexo oposto, numa transformação milagreira da nossa estrutura hormonal ou, pior, ensandecidos e sócios do Benfica. Tudo do avesso e nem valia a pena acabar tão transformante canhanho.

Admiravelmente, este livrinho vende múltiplas edições, em noventa países e trinta idiomas. Este e não só, porque há o segredo que andou perdido e só agora se revela ou o monge que vendeu o Ferrari porque lhe perturbava a introspectiva meditação ou outras gloriosas promessas do mesmo literário calibre. Milhões de exemplares. Anda portanto muita gente por aí à procura de trocar de vida, que a que tem não lhe serve, nem recauchutada.

E com razão? Será esta existência de ocidental do princípio do século XXI tão vazia de interesses e de motivações que precisemos, maciçamente, comprar a banha da cobra ou o elixir do doutor Doxey que nos canta a loa de uma vida que não é a nossa?

No extremo oposto, recordo um episódio de uma série de viagens da BBC em que Michael Palin, um “Python” que sobreviveu à letal anedota, entrevistava uma habitante de um campo de refugiados no Sahara Ocidental. Esta senhora praticamente nascera, crescera, casara, fora mãe, tudo no perímetro do campo. Sempre vivera numa tenda. Nunca beneficiou de água corrente, nem de luz, nem de qualquer dos pequenos luxos que fazem parte do nosso quadro mental mínimo de referência. Perguntava Palin: “o que é que a faria contente?” Respondia ela: “o que Deus me dá faz-me contente.” Insistia Palin: “Não, mas o que é que precisava para ser feliz?” E a mulher de retorquir, com um risinho: “o que Deus me deu faz-me feliz.” E lá ficou o Michael, de microfone à banda.

Esta Saaraui exibe, certamente com cândido exagero, uma característica que muito deve faltar aos fiéis leitores dos livros que mudam vidas: contentamento. Será por vítima de obscurantismo, por ignorância do que está para lá das dunas que desenham o horizonte do campo de refugiados, por religiosa alienação, por todas essas excelentes razões. Mas, e com todas as ressalvas que aqui possamos colocar com receio da ira do politicamente correcto, aquele sorriso tímido mirando a câmara da BBC faz pensar. Não que a minha tese seja a de que devíamos todos morar em tendas num deserto e que aí tudo iria pelo melhor no melhor dos mundos. Não sou muito atreito ao mito do bom selvagem. Mas contemplo a sumária serenidade daquela mulher, descontextualizo-a, isolo-a e encapsulo-a. Que obtenho? Algo que procuram aqueles que, por essas Europas e Américas, apanham grandes barrigadas de auto-ajuda e outra literatura salvadora.

O contentamento tem uma receita simples. Procurar gozar, em cada momento, o lado bom da vida – há (quase) sempre um, neste privilegiado hemisfério norte. Saborear mais o que se tem do que sofrer o que não se pode ter. Viver. Deixar viver. Não se mortificar com a pouca cilindrada do carro ou com o pensamento remoto de que não havemos de cá ficar ou com a nossa miserável falta de notoriedade, que temos todos pinta de vedeta e ninguém nos conhece. E o que é que isso interessa? “Carpe diem!” E, aos mais receosos com o mistério das coisas, relembrar Alberto Caeiro: “Sei lá o que é o mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério.”

Quem está contente não precisa de mudar a vida, o que não implica que não faça por a melhorar: um bocadinho, imenso ou meramente o necessário. Contentamento não quer dizer resignação ou fatalismo. Pelo contrário, sobre ele se pode construir a mudança, em nós como nos outros. Viver o dia não obsta a que se prepare o futuro.

Não gastemos pois preciosos segundos a tragar as baboseiras que o mais ignóbil “marketing” editorial nos quer impingir como indispensáveis. Mas se já compraram algum desses malfadados volumes, não se inibam de retirar alguma utilidade desse acto menos reflectido. Há sempre uma mesa a precisar de um calço, um tipo de quem não gostamos a cujo aniversário temos que assistir ou outro destino de igual nobreza para as prosas que querem mudar as nossas pobres vidas.

quinta-feira, agosto 14, 2008

A minha tia Marquinhas e as dores dos leninistas

Parece não ter nada a ver, mas tem.

Quando eu era muito pequeno, tão pequeno que não me lembro já de quão pequeno seria, visitava-nos por vezes uma velha parente pela via paterna: a tia Marquinhas. De baixa estatura, a cara sulcada, já corcovando, o cabelo grisalho apanhado com aqueles pentitos que se diziam de tartaruga mas já eram de plástico, cangalhas empoleiradas à frente de dois olhinhos miúdos e vivos, trajava sempre de negro à conta de uma viuvez que eu percebia remota. De um modo secreto, e provavelmente ainda inconsciente, parecia-me soturna.

Trazia-me sempre uma prenda na mala de mão: ou uma barra de chocolate da Favorita, daquelas com papel às riscas brancas e vermelhas que se vendiam na altura em todo o lado, ou uns soquetes envoltos num embrulho de papel pardo. A minha mãe obrigava-me a agradecer qualquer um deles com igual e fingido reconhecimento. Depois, eu ficava por ali sentado e via a minha mãe, deferente, ouvindo a tia Marquinhas em conversas de circunstância, alongando-se, despedindo-se demoradamente – embora afectando pressa para regressar à sua vidinha que mesmo eu, com poucos anos, adivinhava algo vazia.

A certa altura, por razões que desconheço, a tia Marquinhas deixou de aparecer em nossa casa. Não sei se por zanga, menos saúde ou menor paciência, tinham acabado os chocolates de leite e as meiazinhas e as conversas longas à roda de um chá. Não morrera, porque ouvia ocasionais referências à sua continuada existência em jantares familiares, mas nunca a voltei a ver. Lembrei-me por vezes dela, no final da adolescência, quando comecei a ler Eça e Camilo e me apareciam personagens destes, no confessionário do padre Amaro ou preparando a ceia nalgum solar minhoto.

Ora havia um episódio picaresco envolvendo esta tia que se tornara motivo de comentário humorado nas reuniões mais alargadas de família. Dada vez, logo após o vinte e cinco de Abril, a senhora, talvez aborrecida com os desmandos característicos da fase de granel revolucionário, flectindo joelhos e cerrando punhos, três vezes alterada, terminara uma conversa com um “Sou fascista! Sou fascista! Sou fascista!”. Declaração ousada, numa época em que o termo “fascista” era utilizado para conseguir saneamentos, arruinar reputações e insultar árbitros menos benévolos para com a nossa equipa.



E foi este triplo estado de alma que me veio à memória, ao ler no jornal Público de 5 de Agosto o artigo reportando a morte de Soljenitsin. O imprudente diário tivera a funesta lembrança de ir perguntar coisas à Zita Seabra – ignoro se incógnita especialista em literatura russa – que informou que só leu Soljenitsin depois de sair do PCP e arrematou com a seguinte pérola: “A esquerda não o lia.” Dei comigo de repente a imaginar a tia Zitinha, com a mesma e engelhada carinha de grão-de-bico, com o mesmíssimo e desanimante ar de figura do passado, aos pulos, tri-gritando “Sou direitista! Sou direitista! Sou direitista!”, num orgulho bacoco e cosmético. A lata da bicha!

A Ziteca engana-se redondamente. Em minha casa, o meu pai, que simpatizava com a esquerda e sempre lá votou, tinha Soljenitsin na sua biblioteca: o “Denisovitch”, o “Gulag”, “O carvalho e o bezerro”, pelo menos e que me lembre. Mas não precisou de ler Soljenitsin para perceber (e para nos transmitir) que não se prendem e matam pessoas pelas ideias que têm, que não se nega a realidade para que ela bata certo com o que a ideologia determina, que votar de mão no ar não dá saúde a nenhum sistema, e “et caetera”, tudo noções básicas para ele mas que a camarada Zita na altura teria considerado desvios burgueses, uma vez que precisou de sair do PCP e de cinquenta anos de vida para as entender. Se por mero acaso as entendeu.

Tenho pouquíssimo saco para estes grandes democratas da vigésima quinta hora, que passaram mais de meia existência a elaborar pesadas construções argumentativas para justificar o pacto Ribentrop-Molotov, as habilidades do Beria, o esmagamento de Praga ou os privilégios da “nomenklatura”, e que agora, na hora da derrota do ideário de uma vida, viram rapidamente a casaca, mudando num ápice de ferrenhos do partido a ferozes opositores, sem passar pela casa “partida” e sem receber os dois contos. Pior, ainda se arrogam o direito de se achar modernos e liberais e coiso e tal. Não são. Até porque a antipatia ideológica que os move quando tecem comentários insultuosos à esquerda democrática é a mesmíssima que Lenine tinha para com Liebknecht ou Luxembourg, que os comandantes russos enviados à guerra civil de Espanha exibiam para com os militantes socialistas ou que Cunhal afectava para com Soares. Há coisas que não mudam assim tão facilmente.

Claro que todos têm direito a alterar a sua opinião, que mais vale tarde que nunca, que a constituição portuguesa consagra o direito à asneira e mais todo o blá-blá. Sei tudo isso. Mas também sei que deveria haver vergonha na cara, que nessa gente escasseia. Quando a ouço, tão segura e sectariamente anti-esquerdista como no passado fora comunista, só me apetece dizer como o rei Juan Carlos: “porque no te callas?”

domingo, julho 20, 2008

Cenas ridículas (IV): a unhaca vermelha

Lisboa em Julho: apertou o calor e os suaves pezinhos do mulherio passaram a calcorrear a calçada calçados de sandálias e havaianas, expondo “urbi et orbi” o último grito do requinte feminino: a unha do pé envernizada a vermelho.

A gama de encarnados vai do rosa “shocking” ao acastanhado “sangue coagulado na calçada” passando pelo encarnado “camisola do Benfica” e pelo grená “tintol do Cartaxo”, tudo cores que ferem a vista e poluem a paisagem. Dizem-me que deveria achar “sexy”. Ora eu não sou como o gajo que entrevistaram na Ribeira do Porto: a mim, o bermelho não me dá reaçom.

Recordo-me, em criança, de uma fase em que as mulheres pintavam a cascaria nestas cores proletárias. Mas tal pancada deve ter acabado a meio dos anos setenta, porque daí até cá, só pintavam a unha de vermelho as velhas que geriam o “métier” e as novas que o praticavam, bamboleando avenida acima e avenida abaixo. Agora, numa estatística rápida mas confiável, são para aí quatro em cada cinco, numa praga que atingiu púberes e caducas, tias e mitras, desconhecidas e até amigas minhas que eu pensava estarem ao abrigo das modas mais tolas. Não deixo de me rir para dentro ao imaginá-las corcovadas na cama, pincelando em esforço as unhas longínquas, de papelotes nos espaços interdigitais, os dedos da pantufa abertos em leque como se estivessem a atingir o sétimo céu.

Reconheço, por outro lado, o génio do pessoal do “marketing” das L’Oréal e das Shiseido deste mundo, para meter a malta a comprar o que lhes dá jeito. De facto, só putas não davam para alimentar grandes vendas. Com a criação desta mania, as companhias de cosmética empocham uma massa valente. Se não, calculemos.

Em Portugal há dez milhões de habitantes. Metade será do sexo feminino. Noventa e cinco por cento têm mais de dez anos. Quatro em cinco pintam a unhaca de encarnado. Dá 3,8 milhões de clientes. Se ninguém se tiver aleijado, cada uma ostenta dois pés, cada qual com cinco dedos, cada qual com uma unha. Se entre dedo grande e mindinho, passando pelos três do meio, a área média de cada unha for de 0,5 centímetros quadrados, se a espessura do filme de verniz andar nos 0,2 mm e se cada dama aplicar uma nova demão duas vezes por semana, cada uma vai gastar anualmente cerca de dez centímetros cúbicos, o volume de um frasco de verniz. Entre baratos de supermercado e exorbitantes de perfumaria, o preço médio ronda os dez euros.

Multiplicando tudo: quarenta milhões de euros por ano, provavelmente mais, só em Portugal. Muito cacau, para acabar limpo com diluente!

Justificou-me uma amiga, em tom de desculpa, quando a descobri de unha rubi nos pés achinelados: “olha, decidi dar largas à minha feminilidade”. Porreiro. Também quero. Rapazes! Vamos dar largas à nossa masculinidade, mas versão anos setenta. Todos a deixar crescer a patilha à Ramalho, o bigode à turco, a unha do mindinho a tornear o canal auditivo em voltinha higiénica, com os colarinhos da camisa que nem as asas de um Airbus e a parte de baixo das calças de ganga como os carrilhões do convento de Mafra.

sábado, julho 12, 2008

Cenas ridículas (III): Os modelos

Gostos não se discutem, por isso não se ofenderão que eu considere algumas actividades humanas patéticas ou inúteis ou ambas. Coisas como o veraneio ziguezagueante nos corredores do Colombo, o solitário estudo académico da sexualidade do caracol ou o manso exercício de um lugar de deputado no parlamento madeirense. Maior bocejo, a mim, só o mundo da moda.

Não concebo, nem o prestígio social de “costureiros” e “modelos”, nem a admiração pelas capacidades de desfile das pequenas, nem qualquer interesse, por pequerruchinho que seja, no espectáculo de roupagens gongóricas a circular por cima de um estrado. Tal e qual como na britagem de pedra a martelo pneumático, não vejo naquilo arte ou entretenimento, mesmo que remotamente.

Não quero cair aqui no lugar-comum de afirmar que os modelos são todos palminhos de cara com meia-dúzia de gramas de massa encefálica. Talvez não exactamente todos. Admito que haja uma ou outra doutorada em física atómica ou filologia românica, como aquelas Miss Mundo colombianas que a voz “off” do locutor garante andarem a estudar gestão na pontifícia universidade de Medellin e que, quando forem grandes, querem trabalhar a ajudar crianças.

Só que para o que elas e eles fazem, se tiverem quatro neurónios, um já se pode candidatar ao subsídio de desemprego. Desfilar não tem segredos: basta enfiar uma vara de metro pela garganta abaixo para dar um andar marcial, marchar dez passos com ar de andróide, meneando a anca, estufar o peito no fim da passadeira, de mãozinhas à varina e cara de não-me-toques, voltar pelo mesmo caminho e correr aos bastidores trocar de roupa e snifar uma eventual linha. Até eu fazia aquilo, não fora o meu pouco jeito enquanto engolidor de sabres.

Por outro lado, qualquer broto descido da Rocinha ou da Tijuca para uma perninha de Carnaval no sambódromo saracoteia melhor que a mais bem remunerada das “top-models”. Mas de dez a zero! Por vezes fico aparvalhado ao ouvir referir o “talento natural” ou a “arte do desfilar” de fulana ou sicrana, como se estivéssemos a falar da Margot Fonteyn ou do Maradona. Sejamos sinceros: não existem bons modelos, o que existe são modelos boas, mesmo muito boas, e mais não se espera delas. O povo está-se nas tintas para a Gisela Bundchen: quer é sonhar com a Bundchen da Gisela!

Mas se tudo se resume às qualidades físicas das moças, porquê perder tempo e esbanjar recursos com passarelas e costureiros, modas Lisboa e criações Outono-Inverno, caprichos de vedetinha ou até com roupas? Compre-se daquelas revistas que os adolescentes tão a gosto empunham e arregale-se o olho, descomplexadamente e sem subterfúgios.

E as roupas, as “criações”? Voltemos a usar de sinceridade: quem seria capaz de vestir os barrocos e bacocos disparates saídos do lápis daquela malta? Aparte os extraterrestres que aparecem nos episódios do Star Trek e os cabeçudos do Carnaval de Torres Vedras, não vejo mais ninguém.




O mundo das “passerelles” faz-me a mesma espécie que fazem, nas suas diversas formas, a vacuidade e a vaidade. A palavra “vaidade” tem, aliás, a mesma raiz etimológica que “vão” e “vazio”. Veja-se o francês “vanité”. Transformar um vil defeito numa rentável indústria, já chateia um bocado. Querer-lhe dar ares de “glamour” e inteligência, para atrair tontinhas com pensamentos anorécticos para carreiras de desgaste rápido, chateia mais ainda. A pretensão de exclusividade, essa, soa ridícula. Moda, por definição, é o valor que aparece mais frequentemente num conjunto. Por isto, moda vende a Zara ou o C&A, e não a Fátima Lopes ou a Ana Salazar.

sábado, julho 05, 2008

O princípio de Peter aplicado à Virgem do Caravaggio

Agora que a selecção nacional foi com os porcos, chegou a hora sempre vibrante e consoladora de encontrar os culpados de tão fraca figura. Afinal, nem todos os dias vemos equipas potencialmente campeãs do mundo – a nossa, segundo a nossa objectiva imprensa – borregar miseravelmente contra um bando de pernas-de-pau teutónicos, apesar de arvorar a melhor junta de centrais da Europa, o mais imaginativo centro de campo a oeste dos Urais, o mais metrossexual extremo do planeta com brinco de diamante, etc. Alguém meteu água! Por isso, aqui estou eu para dar o meu maledicente contributo, rabo enterrado no sofá, trajando fato-de-treino grená com vivos verdes, alimpando o canal auricular com a unha do mindinho, sorvendo bojeca, imbuído sobretudo daquele espírito essencial e tão nacional de que prognósticos só no fim do jogo.

E o escolhido é – abra-se o envelope – é… “suspense”, é… mais “suspense”, é… “suspense” insustentável, é… Scolariii! O Felipão lá do sertão!

Sei que a minha escolha, apesar de muito clarividente – passe a imodéstia – é minoritária entre os cerca de dez milhões de portugueses, croniqueiros profissionais ou boquistas amadores, que doutamente se pronunciaram sobre o assunto, escalpelizando os factos para identificar os responsáveis.

Um grande número escolheu a via arbitral, invocando o empurrão nas costas do Paulo Ferreira pelo Ballack antes do cabeceamento final, a que o árbitro, mancomunado com interesses obscuros e germanófilos, teria feito vista grossa. Segundo essa facção, que nem se indigna com batotas mas que lamenta sobretudo que Portugal não tenha na UEFA influência para influenciar as arbitragens, não quer dizer absolutamente nada o facto de os dois supostos melhores centrais do mundo (Carvalho e Pepe, para os mais distraídos) nem sequer lá estarem para ser empurrados.

Outros seguiram a tendência fadista, que se chora do nosso triste fado de apanhar equipas difíceis nos quartos de final. Esta gente vive no sonho de chegar à finalíssima defrontando sucessivamente o principado do Mónaco e as ilhas Faroé, para então disputar o caneco contra a selecção do enclave de Nagorno-Karabakh. De memória curta, não se lembram que em 2004 tivemos a Grécia de prenda na derradeira partida, em casa ainda por cima, e foi a secura que se viu.

Finalmente, há a corrente homofóbica, que ataca os coitadinhos do Ricardo e do Nuno Gomes, só porque um defende com as mãozinhas encolhidas à frente e outra ataca com as mãozinhas saídas para trás. Reconheço que o Ricardo desaprendeu, no Bétis, aquilo que os berros do Paulo Bento lhe tinham ensinado no Sporting: que ou se fica na linha ou se vai de punho em riste para arrebentar com a bola ou com o crânio do avançado, o que aparecer primeiro. E que a Maria Alice, por vezes, consegue que as bolas que chuta saiam na direcção perpendicular à aplicação da força, como os rotores dos motores eléctricos. Mas já pensaram em quem que lá pôs estas duas abetardas, a cantar o hino ao lado dos outros?


Tenho hoje de Scolari a mesma ideia que formei logo ao princípio: um treinador mediano, sem rasgo, conservador como há poucos, cujos limites de adaptabilidade táctica estão na troca de lado dos extremos e na entrada de mais um defesa para o lugar de um avançado.

Por outro lado, um fulano bacoco que nunca ninguém por cá teve hortícolas suficientes para o meter no seu lugar, especialmente o seu patrão, o federativo presidente de pêra. Este falhanço educacional ficou particularmente patente quando o Scolari, com as quinas ao peito e em directo para a Eurovisão, decidiu aplicar um gancho na tromba de um jogador sérvio que aproveitou a deixa para cair de costas com estrépito, enquanto o nosso seleccionador, valentíssimo, corria a esconder-se atrás da sua corte, a ver se ninguém o tinha visto. Deveria então ter sido expeditamente despedido, mas a federação perdeu essa derradeira oportunidade de polir o senhor.

Dizem-me que o homem ganhou o mundial. Com o Brasil, não é grande ciência. Recorda-me uma crónica do Duda Guennes, jornalista brasileiro que cá viveu muitos anos, escrevendo para o “A Bola”. Contava que um treinador tentava explicar a um avançado uma táctica complicada, com basculações laterais, triangulações, entradas pelos flancos. O jogador, um moço talentoso mas algo favelado e de poucas capacidades intelectuais, ia ouvindo sem entender, olhando confundido. A certo momento, o treinador desistiu e disse-lhe: “Vamos trocar por miúdos. Ficas lá à frente e marcas golos. Percebeste?” O rapaz percebeu e meteu três batatas na baliza do adversário, levando a sua equipa à vitória. No final, quando a rádio lhe perguntou como tinha feito, respondeu: “Cumpri as instruções do mister. Ele mandou trocar por miúdos e eu troquei.” Com o escrete, passa-se o mesmo. Qualquer treinador se arrisca a ganhar o mundial, desde que seja capaz de lhes dizer para irem lá para dentro trocar por miúdos.

Dizem-me também que Portugal se qualificou sempre e que chegou a quartos e a meias-finais. Como dizia o “The Guardian”, Portugal possuía a equipa mais cara do Euro, quase toda constituída por jogadores de grandes clubes europeus. Melhor seria se não se qualificasse, e ficarei sempre com um amargo de boca de termos falhados sucessivas oportunidades soberanas de ganhar um grande título. Que teriam feito Gus Hidding ou José Mourinho com uma equipa destas?

Scolari é o treinador mais medroso do planeta, com excepção para aí do Camacho, que se esconde sempre atrás das culpas dos jogadores. Se precisa desesperadamente de ganhar um jogo por um a zero, duas coisas podem acontecer: se a equipa marca ao minuto quarenta e oito e estiver a dar um banho de bola ao adversário, ameaçando chegar à goleada, imediatamente tira um avançado e põe um médio defensivo, do tipo buldogue, rezando à Virgem do Caravaggio para que a bola não entre na nossa baliza. Se as coisas se complicam e o zero a zero se mantém, ou até se estiver perder, Scolari atrasa até aos oitenta e tal minutos a entrada de mais um avançado, rezando à Virgem do Caravaggio para que a bola entre na baliza oposta.

Outra peculiaridade de Scolari é o conservadorismo das escolhas. Jogador que caia nas graças do sargentão tem sérias hipóteses de jogar de muletas, se por acaso se lesionar. Há meia dúzia de eleitos que até podem estar no banco dos seus clubes uma época inteira, ou parados com uma rotura de ligamentos, mas que já sabem que lá irão ter à espera uma camisola com a cruz de Cristo. Uma excelente maneira de promover a concorrência e de incentivar a equipa: os preferidos sabem que não tem que se chatear excessivamente; os suplentes percebem que escusam de morrer em campo, porque o esforço não os vai tirar do banco. Na selecção portuguesa, só falta um sistema de diuturnidades.

À falta de conhecimentos tácticos e de estudo do adversário, Scolari recorre sobretudo a um esforço de mentalização que passa por papelinhos debaixo da porta dos jogadores na véspera dos jogos, com frases de fino recorte psicológico sobre os deveres para com os colegas de equipa ou por palestras à boca do jogo pelo Ricardo ou pelo Figo, com todos abraçados, do género “vamos lá cambada”, ou, ainda, por rezas colectivas. Só faltou ver o nosso seleccionador em transe a exorcizar o demónio, no palco do antigo cinema Império, em pose pentecostal, a segurar a melena de um Nuno Gomes ajoelhado e a gritar, sofrido: “Vai embora, Satanás! Deixa o minino marcar gol! Banco é caixa! Bota lá o dízimo!”. À próxima, mais vale contratar logo o bispo Edir Macedo para orientar a selecção.

Compreende-se agora que os dois mais importantes adjuntos de Scolari sejam o Murtosa, modelo de seguidismo canino, e a Virgem do Caravaggio, promotora de paia milagreira. Mas fidelidade e sorte não são adversárias credíveis para a organização e para o talento, sobretudo quando o nome que se apanha pela frente é o da Itália ou da Alemanha e não o da Bélgica ou da Letónia.

À medida que os adversários vão ficando sucessivamente mais poderosos, a Virgem do Caravaggio, figura menor da hagiologia católica, vai baixando de potencial, erodido pelo famoso princípio de Peter. A santa talvez chegue para bater os maometanos do Cazaquistão, mas torna-se impotente contra os alemães, que têm “Gott mit uns”, para além de um treinador a sério. E assim se perdeu uma geração de ouro e a oportunidade de ganhar qualquer coisinha.

sábado, junho 14, 2008

Leituras porreiras: "Civilization"

Acabei hoje – incrivelmente a bordo de um C-130, escuro, de um cagarim impressionante, trepidante de válvulas em alívio e hidráulicos em acção – um livro cuja leitura recomendo: “Civilization” de Roger Osborne.

São quinhentas páginas de letra miúda, portanto apropriadas a uma quinzena de férias de praia, a uma pena leve de prisão ou à convalescença de uma fractura do fémur. Ainda assim um volume pouco espesso, se soubermos que o autor aborda nada menos do que a história da civilização ocidental desde há quarenta mil anos até aos nossos dias. Contas feitas, sempre são oitenta anos por página, um número algo ambicioso para encafuar nuns míseros vinte centímetros de papel.

Apesar do risco do empreendimento, a coisa correu-lhe bem: encontramos lá quase tudo, concisão com riqueza de detalhe, encadeamento, tese e aquela ligeireza de redacção que só os ingleses e o Fernão Lopes sabem que a boa História merece. Enciclopédico, Osborne, tal como o realizador de cinema que alterna o grande plano com a grande angular, vai buscar São Tomás de Aquino quando precisa e os The Who quando estes fazem sentido, a pequena história conjugal e as grandes batalhas, tudo para desenvolver uma ideia de quem nós, ocidentais, somos na realidade.

Osborne não é historiador de formação ou profissão. Licenciado em geologia, dedica-se à escrita. Pode, por isso, gozar de toda a liberdade para pegar nos acontecimentos e recompô-los à maneira dele, sem que os seus pares o chateiem. Isto pelo simples facto de não ter pares: muito poucos geólogos se dedicam à história do Ocidente. Talvez graças a esta invulgar combinação histórico-geológica, obtemos como resultado uma perspectiva liberta e inovadora sobre aquela História que a simplicidade redutora dos manuais escolares formatou nas nossas cabeças. Aqui e ali iconoclasta, mas nunca rupturista, Osborne não procura uma História diferente, de cabalas secretas e factos escondidos, tão em voga nestes tempos. É exactamente a mesma que demos no liceu, a verdadeira, a da Bayer, só que pelo olhar de um tipo que se afastou um pouco para a ver de outro ângulo, talvez de cima de um muro, um pouco mais alto. Exemplos dessa perspectiva diferente encontramo-los no relevo que dá às culturas ditas “bárbaras”, pré-romanas, e ao papel que os francos tiverem na génese dos centros de poder no Ocidente.

Mas, para quem não tiver o saco suficientemente fundo para aviar quinhentas páginas de erudição mindinha, há um plano B para tirar grande proveito deste livro. Basta ler o último capítulo, sobre o mundo pós-guerra. Neste, Osborne não escreve sobre o passado, escreve sobre o nosso presente – que também é o dele, globalizado, neo-liberal e essas tretas. E, surpreendentemente, consegue aparentar um distanciamento tal que aquilo até parece tirado de um futuro livro de história, escrito com toda a frieza para aí no ano 2400.

Ao ler este capítulo final, se conseguirmos munir-nos de alguma honestidade intelectual, vamos poder sorrir de nós próprios e de algumas ideias enraizadas na “sabedoria convencional” dos nossos dias, de “políticos”, “economistas” e “jornalistas”. Ideias que socialmente julgamos tão inevitáveis e certas como certas foram consideradas, em seu tempo, a naturalidade da escravatura ou a rotação do sol em torno da Terra. Mas ideias que são meramente a ideologia dominante da nossa época.

Que conclui Osborne de mais importante sobre a “civilização ocidental”?

A sua tese nuclear é a de que o Ocidente, apesar da sua capacidade de gerar progresso económico e cultural, possui uma tendência histórica para derrapar para o abismo, infligindo sofrimento metódico e inigualável não só aos outros como a si próprio. Como se diz na contra-capa, “por cada Beethoven há um campo de concentração, por cada Edifício Chrysler há um massacre de My Lai”. O exemplo acabado desta tendência é a Primeira Grande Guerra, sem bases racionais tanto para o modo disparatado como começou como para a maneira enguiçada como acabou.

Para Osborne, o mal estrutural do Ocidente reside num tendência para um poder centralizado, com uma perspectiva nacionalista, convicto da sua superioridade racionalista, impor a sua visão, destruindo o que encontra pelo caminho, nomeadamente outras estruturas de equilíbrio social e cultural, baseadas em tradições ou laços de comunidade localizados. Quando esse poder centralizado justifica através de uma perspectiva ideológica (muitas vezes racista) a sua pretensa superioridade moral sobre terceiros, e quando o poder tecnológico e bélico é grande, então acontecem massacres e genocídios. Se ao ler isto, vos vêm à mente os óbvios nazis, desenganem-se: o autor está também a pensar nos civilizadíssimos ingleses e franceses, e estes não durante os tempos longínquos da Guerra dos Cem Anos, mas há pouco mais de cem anos.

No final do século XIX, os franceses deslocaram os nativos da Nova Caledónia para terras inférteis. Quando estes, à fome, se revoltaram, foram massacrados e a cabeça do seu líder foi levada para Paris – como diz Osborne, a Paris de Renoir e Degas – como troféu! Pela mesma altura, morria na Tasmânia o último indígena da ilha, após um trabalho cruel e metódico pelos britânicos de matança da população local. Tal limpeza étnica, como se diria hoje, foi levada a cabo durante setenta anos e incluiu detalhes tão sórdidos como a utilização de pessoas como alvos de caça desportiva e de prática de tiro. Curiosamente, é hoje muito mais conhecida e deplorada a extinção do lobo da Tasmânia do que a extinção do próprio homem da Tasmânia. Sensibilidades ecológicas!

Finalmente, o autor considera que vivemos, no presente, um momento em que esse mal estrutural está de novo muito activo e em que o conceito de “civilização ocidental” volta a ser usado com contornos de superioridade moral, para atacar terceiros. Por exemplo, pela administração Bush. Osborne chega mesmo à afirmação pessimista que actualmente, e contrariamente ao que acontecia há poucos anos, as populações europeias sentem, de forma generalizada, que nos encaminhamos para tempos muito piores do que os actuais.


As reflexões deste livro são a mais das vezes pertinentes e por isso a sua leitura tem grande utilidade para que entendamos por que caminhos nos levam. Isto, embora eu não partilhe com Osborne um sentimento tão negativo em relação a esse conceito, tão lato que ele é, de “civilização ocidental”. O autor de “Civilization”, se lido nas entrelinhas, surge muitas vezes como um romântico, saudoso do “bom selvagem” de Rousseau, que a civilização afasta do seu recto caminho e que viveria mais feliz num mundinho aldeão de hábitos e tradições, com o seu “pubezito” de fim de tarde, para uma cerveja e conversa mole.

Por mim, estou contente de ter nascido e de viver como “ocidental”, mesmo estando ciente das limitações que demonstrámos no passado. No entanto, na história dos povos, como na história das nossas próprias vidas, devemos valorizar os momentos altos e não nos focarmos apenas no que foi menos feliz. Temos que ter orgulho não só nas pedras de Notre-Dame e nos rabiscos de Picasso, mas também no facto de termos sido capazes de promover ambientes em que a mortalidade infantil é desprezável, em que toda a gente sabe ler e escrever e em que se consegue levar uma nave à Lua. E estes sucessos são fruto do racionalismo ocidental e não se repetiram muito noutras culturas.

Embora este pormenor possa ser menos simpático para os meus leitores, é graças à “civilização ocidental” que posso estar aqui despreocupadamente a escrever estes meus disparates. Isto porque a liberdade de pensamento e expressão, bem como a possibilidade e o dever de crítica às formas de autoridade, são ganhos mentais da nossa forma de civilização que nunca tiveram noutras sociedades – verdade se diga – a mesma valorização ou a mesma amplitude de presença.

Não posso deixar de concordar com Osborne, quando ele diz que a “civilização ocidental” levou no passado, muitas vezes, ao sofrimento maciço de milhões de pessoas. Mas não creio que isso acontecesse por racionalismo dos governos e dos povos. Penso que isso aconteceu por estupidez dos governos e dos povos. E à estupidez convém chamar estupidez, tal como à razão convém chamar razão, justamente para que os dois conceitos não se confundam.

E para ajudar a não confundir conceitos, nada melhor que relembrar os bons feitos e as grandes asneiras dos nossos avós, de modo a não repetir as cretinices do passado. Também com este intuito, se justifica a leitura de “Civilization”.

domingo, maio 25, 2008

My old man

O meu pai faleceu hoje, com setenta anos e dois dias. Tenho a ferida demasiado aberta e a alma demasiado desertada para falar sobre este homem, sobre o pai exemplar, o marido extremoso, o grande português que ele é. Mas esta é uma história que eu quero contar, mais tarde.

Entretanto, recordo que quando ele fez sessenta e quatro lhe escrevi uma carta. O que estava nessa carta fica entre mim e ele. Mas, em anexo, levava esta letra de uma canção do Ian Dury, que é o poema que eu, enquanto filho, gostava de ter escrito ao meu “velho”:

My old man wore three piece whistles
He was never home for long
Drove a bus for London Transport
He knew where he belonged
Number 18 down to Euston
Double decker move along
Double decker move along
My old man

Later on he drove a Roller
Chauffeuring for foreign men
Dropped his aitches on occasion
Said, "Cor blimey!" now and then
Did the crossword in the Standard
At the airport in the rain
At the airport in the rain
My old man

Wouldn't ever let his governers
Call him 'Billy', he was proud
Personal reasons make a difference
His last boss was allowed
Perhaps he had to keep his distance
Made a racket when he rowed
Made a racket when he rowed
My old man
My old man

My old man was fairly handsome
He smoked too many cigs
Lived in one room in Victoria
He was tidy in his digs
Had to have an operation
When his ulcer got too big
When his ulcer got too big
My old man
My old man

Seven years went out the window
We met as one to one
Died before we'd done much talking
A friendship had begun
All the while we thought about each other
All the best, mate, from your son
All the best, mate, from your son
My old man
My old man

sábado, maio 24, 2008

A fumarada

Li, reli e não cri. Depois vi na têvê, confirmei e pasmei. O nosso socrático primeiro pôs de lado o ar de proa e veio todo contrito, que nem um Egas Moniz atabacado, para diante de um pelotão de periodistas, pedir desculpas ao país por ter fumado um cigarro no voo “charter” que o levava em visita de Estado à Venezuela. Um cigarro! Ainda se tivesse sido apanhado a sorver uma chinesa de pó, eu compreendia a atrapalhação. Mas deve ter sido para aí um mero SG filtro…

E para piorar a coisa, numa figurinha digna de menino de escola primária apanhado em flagrante, adiantou à turba jornaleira que não tinha sido só ele (delatou que estava lá outro ministro a dar umas passas), que não sabia que era proibido (assinou a lei que proíbe) e que, assim sendo, ia deixar de fumar!

Deixar de fumar? Ó senhor primeiro-ministro! Que exagero! Não havia necessidade... O Clinton, para conseguir safar o pêlo e a presidência, só teve que pedir desculpa à “moral majority” americana pelo oral deslize com a estagiária reboluda. Não precisou de jurar voto de castidade doravante e até ao fim dos seus dias.


Este é um daqueles episódios que ao princípio se estranha, mas depois se entranha. Porque, pensando bem, diz muito sobre os tempos que correm.

Começa pelo detalhe delicioso do escândalo ser despoletado pelos mesmíssimos jornalistas que seguiam no avião, a convite do governo, para reportar os seus sucessos diplomáticos. Estou a imaginá-los, nos lugares traseiros da aeronave, a cochichar de uns para os outros, enquanto puxavam eles próprios umas baforadas nos seus cigarros: “Olha o gajo a fumar! O gajo não conhece a lei? Ganda bronca!”. E vai daí, toca de bufar para as redacções, para transformar um pequeno vício privado numa barracada pública. Não lhes ocorre que o assunto não só é totalmente irrelevante e distrai dos reais problemas do país, como, ainda por cima, constitui um suíno abuso de confiança para com quem os convidou. Para aliviar as consciências, hão de colocar em itálico no fim dos artigos “o jornalista viajou a convite do governo”. Por mim, à próxima, compram bilhete na TAP ou atravessam o Atlântico a nado. Mas da nossa triste classe jornalística, que é daqueles cães que só rosnam enquanto não lhe servem a malga, pouco mais temos que esperar.

Claro que a florescente oposição deste país, de pêpêdêspêessedês e quejandos, aproveitou esta mísera deixa para se fazer notar, pedindo multas para os governantes fumadores e outras sugestões importantes do mesmo quilate. Para esses, este parágrafo já tem mais linhas do que merecem.

Passando agora ao que importa. O que eu não consigo conceber é que o primeiro-ministro do meu país se rebaixe a fazer um número humilhante destes por causa de umas passas num avião, enxovalhando nesse “hara-kiri” moralista a próprio Nação que representa.

É verdade que vivemos tempos idiotas em que se construiu na opinião pública a ideia errónea que quem nos governa tem que ser virginal, branquinho e asséptico que nem um supositório de glicerina. Esta noção é cretina e é perigosa.

Cretina, porque a moralidade pessoal não é condição necessária – nem suficiente – para a eficácia governativa. Porque a moral privada e a moral pública operaram em planos diferentes, com diferentes exigências. Por mim, não me interessa se um político dá umas facadas no casamento, se tem duas multas por excesso de velocidade ou se fumou um havano em sítio sem exaustão de ar independente. Preocupa-me que tenha ideias, que faça frente aos lóbis que tentam (e hoje conseguem) gerir o país por interposta pessoa, que conheça as suas obrigações e os seus limites e que não game.

Perigosa, porque permite que excelentes governantes sejam convenientemente queimados na fogueira mediática alimentada por interesses económicos e políticos, por razões que no fundo são do seu foro íntimo. Porque cria uma sociedade de “voyeurs” e de chibos.

Noutros tempos, o povo esperava dos monarcas que tivessem força de carácter para governar justamente e força de braço para manter a paz ou ganhar a guerra. A sua moral privada relevava pouco para a apreciação que deles faziam os governados. Na realidade, estes estavam-se nas tintas para se os reis tinham amantes ou usavam de crueldade na sua gestão política. O que a malta queria era “realpolitik” que a mantivesse ao abrigo de chatices, e o resto era conversa. Muitos dos antepassados que nos são apontados na primária como pátrio exemplo estavam muito longe de ser exemplos de fino comportamento pessoal.

Consta que Afonso Henriques se hospedou certa vez no castelo de um nobre seu vassalo que, honrado pela visita, foi caçar para o jantar do seu convidado. Em má hora foi, porque o nosso fundador, aproveitando a ausência, logo lhe doneou a mulher, como à época se dizia. Regressado da caça, o novel corno ainda ousou esboçar um protesto, mas o rei imediatamente o ameaçou, lembrando-lhe uma história antiga: “Cuidado! Por menos do que isso o meu avô mandou cegar sete condes.” E só não o mandou comprar um maço de Português Suave porque na altura não se vendia nos quiosques.

Afonso Henriques não abusava só da confiança de maridos desprevenidos. Comportava-se de igual modo com os outros monarcas da península (na prática, seus familiares próximos), assinando e rasgando tratados conforme lhe dava jeito, atacando à traição, o que acontecia muitas vezes. Mas foi este homem de baixa confiabilidade que criou Portugal, multiplicando por três a sua área e legitimando a independência pelo reconhecimento papal, sabiamente pedido com boa argumentação e conseguido com melhor dinheiro.

Outro exemplo flagrante é o de D. Pedro, o cruel e justiceiro, de quem Fernão Lopes conta que “diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal, como estes em que reinara el-rei D. Pedro.” O comportamento pessoal que Pedro sempre exibiu seria qualificado, nos dias de hoje, de total passanço dos carretos. O homem foi um dissoluto sexual e um sádico, que exercia uma justiça draconiana, frequentemente pelas próprias mãos, muitas vezes por mero capricho.

Pedro tinha um escudeiro chamado Afonso Madeira que, não sendo de pau, se afeiçoou e chegou a vias de facto com uma Catarina Tosse, mulher de “graciosas prendas” que andava lá pela corte. Ora o rei, a Afonso Madeira, “pelas suas qualidades amava-o muito e fazia-lhe generosas mercês”. Quando soube do ocorrido, D. Pedro, invocando o facto de a senhora ser casada mas na realidade por ciúme, decidiu tratar da tosse ao escudeiro. Fernão Lopes relata o que aconteceu com grande fineza de humor:

“E como quer que o rei muito amasse o escudeiro (mais do que se deve aqui dizer), posta de parte toda a bemquerença, mandou-o tomar na sua câmara e cortar-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm. Afonso Madeira foi pensado e curou-se, mas engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba.”

Apesar de ser ele como era, o povo gostava de D. Pedro. O reinado foi pacífico, a sua justiça, embora bruta, praticava-a sem olhar a classes sociais (o que, na prática, pouco ocorre hoje) e o amor romântico com Inês de Castro ajudou a construir a lenda.

Não resisto a um último episódio. Na sua vida diária, um cavalheiro nunca falta a o respeito a uma senhora. Na política, pode não ser assim. Quando morreu com uma queda de cavalo o único filho legítimo de João II, este apressou-se a tentar legitimar um dos seus bastardos, casando-o com uma princesa de sangue. Para tal, mandou à corte dos Reis Católicos um embaixador, Lourenço da Cunha, para pedir a mão da filha mais nova destes, D. Catarina. A rainha, Isabel de Castela, tratou o nosso embaixador por cima da burra, propondo antes uma filha bastarda do marido. O nosso Lourenço deu-lhe uma resposta à altura: “senhora, el-rei meu senhor não pretende tanto aparentar-se com el-rei D. Fernando como com vossa alteza; por isso, se vossa alteza tem outra filha bastarda, ele a tomará para seu filho.”

Dito de outro modo: chamou puta à rainha de Espanha, em público e em plena corte. Não conseguiu o casamento pretendido, mas D. João II ficou tão satisfeito com a tirada que o premiou com terras em Beja, Serpa e Moura, que rendiam quatro contos. Tipo “spot bonus”.


Claro que esses exemplos têm que ser vistos no contexto das épocas respectivas. Mas ilustram situações em que os ocupantes de cargos públicos tinham os defeitos que tinham, enquanto indivíduos e eram julgados pelos efeitos práticos do que faziam e não pela relativa proximidade a uma imagem ideal de santidade. Obviamente muita coisa mudou e ainda bem. É evidente que constitui um avanço civilizacional que se tenha tornado completamente inaceitável que Sócrates se pudesse manter no poder se mandasse capar um secretário de Estado. Mas, ao revés, não constitui grande progresso que um governo eleito tenha receio de cair pela pressão da rua só porque o seu líder fumou um cigarro ou deu a um charuto uma utilização indevida.

Já estou a ouvir os puristas: ele incumpriu a legislação! Deu uma bicadita numa lei? Se formos por aí, temos todos muito por onde nos preocupar antes da baforada do Sr. Sócrates. Num Estado que não cumpre prazos, não cumpre leis, não paga o que deve mas cobra indevidamente e não devolve, mantém centenas de milhar de trabalhadores precários por falta de coragem para afrontar outras centenas de milhar que não fazem nenhum e “et caetera”, as passas do primeiro-ministro são irrelevantes.

Não sei se são efeitos das sucessivas restrições impostas por Bruxelas à quota do tomate, mas sinto hoje a desagradável impressão de que faltam governantes com um mínimo de coragem, que se foquem no essencial, não se envergonhem de quem são e não vivam escondidos atrás dos consultores de imagem, aterrorizados com o impacto de qualquer pecadilho nas setas para cima e para baixo da contra-capa dos jornais.

Conta-se que quando se tornou público que o presidente Mitterrand tinha uma filha ilegítima e um jornalista o tentou entalar com o assunto, aquele respondeu calmamente “Et alors?” Não sei se esta história ocorreu na realidade, mas, se sim, é exemplar.

O que não é exemplar é o comportamento de um primeiro-ministro, afrontando as câmaras com carinha de arenque fumado, para entaramelar banalidades e desculpas que nos envergonham enquanto portugueses, à volta de umas passas em tabaco. Se ele chamasse as câmaras e se propusesse pedir perdão ao país pela inexistência de um sistema de aplicação de justiça, pela inumanidade do serviço nacional de saúde ou pela pobreza franciscana do nosso ensino, eu compreenderia. Até talvez lhe desse um desconto e uma nova oportunidade …

Mas do modo que foi, só me apetece dizer como o memorável almirante Pinheiro de Azevedo: é só fumaça!

domingo, abril 27, 2008

O meu Vinte e Cinco de Abril

Na manhã de vinte e cinco de Abril de 1974, a minha mãe acordou-nos à hora do costume. Só que nos anunciou, com um ar que recordo grave, que não iríamos à escola porque estava a acontecer uma revolução. E saiu para o trabalho, sem mais explicações.

Eu não sabia bem o que era uma revolução. Faláramos nas aulas da primária da Revolução Francesa, que trouxera liberdade, fraternidade e igualdade em tons de vermelho, branco e azul. A imagem do livro de História, pintada a aguarela, representava o general Lafayette a andar em passo de ganso frente a uma linha de soldados de farda de gala e tricórnio a tocar tambores, durante a Festa da Fraternidade, tudo de libré na cabeça. Outra fonte de confiança encontrava-se nas minhas leituras do Tintin, em que aparecia muito o general Alcazar, o qual volta e meia alternava no poder com o general Tapioca, recorrendo ambos ao método revolucionário para subjugar o adversário, com tropas de cartucheiras cruzadas no peito, uma espingarda na mão e uma garrafa de tequilha na outra, em permanente bezana. Mas havia uma imagem que no meu íntimo mais fortemente representava a revolução: o mexicano zapatista das bandas desenhadas, de bigodes farfalhudos, poncho, chapéu sombreiro e máscara de zorro, a arremessar bombas esféricas, negras e de pavio curto, que lhe rebentavam por vezes na cara sem outro efeito que o deixar mascarrado.

Durante o dia, gozei a conquista revolucionária de uma jornada de gazeta forçada. Pela televisão, fui seguindo os eventos. Não recordo ninguém de libré nem de poncho, embora houvesse muitos bigodes farfalhudos. Afinal, quem estava a fazer a revolução eram meros magalas, daqueles que eu via pelas ruas nos dias de licença, ou na televisão, pelo natal, a debitar em cinco segundos: “Barnabé Policarpo, de A-dos-cunhados, envia um beijo a pai, mãe, irmãos, tios, primos e avó entrevada, que nós por cá ficamos be….” e já o microfone tinha fugido para o Zé Maria de Alcoutim recitar a mesma ladainha.

Em vez de bombas esféricas usavam espingardas e tanques a sério, não como aquele que tínhamos na marquise, mas como os dos filmes de guerra, com um grande canhão que nem o do cartaz gigante que, no Monumental, anunciava “A batalha das Ardenas”. As ruas pareciam cheias de gente, de óculos de massa, gola alta e calças à boca-de-sino, apinhadas como se no futebol. A certo momento, a minha empregada (à época dizia-se criada) indignou-se com as imagens da detenção do Marcelo Caetano. Expliquei-lhe, do alto das minhas habilitações literárias, que as revoluções eram mesmo assim, e que ele havia de voltar no momento próprio, de cartucheiras, carabina e tequilha, para trocar com estes que entravam agora ao serviço.

No dia seguinte, a televisão transmitiu, de uma cadeia em Caxias, os mesmos soldados a libertarem presos, que saíam eufóricos, acartando malas, abraçando efusivamente a família que os esperava, gritando nomes e vivas, com muitos “pás” à mistura. Não percebi bem a ideia dos tropas em soltar aquela malta e inquietei-me que, com tanta bandidagem de repente à solta, a cidade ficasse menos segura. Foi então que o meu pai me explicou que aquelas pessoas eram presos políticos, gente detida por ter ideias diferentes dos que mandavam.

Fiquei confuso. Sempre tinha aprendido que as pessoas podiam ser presas se fizessem o mal e um mal bem tipificado: bater, roubar, matar. Prender quem não estivesse de acordo connosco não fazia muito sentido no quadro de valores em que eu fora educado, em que o bem era o bem e o mal era o mal, independentemente de quem o praticasse. O bem e o mal eram conceitos absolutos e não definidos por oposição ao que pensava este ou aquele. Para além disto, na escola, incentivavam-nos a levantar o braço e a dizer o que pensávamos. Alguns colegas meus recebiam más notas por não o fazer, mas não por pensar de forma diferente. Prender gente só por isto não lembraria ao careca, mas pelos vistos lembrara a alguém.

Por estas razões, a minha sensibilidade ofendeu-se e senti-me indignado que tivessem engaiolado pessoas que, para mim, não tinham feito nada. Sugeri ao meu pai que os antigos captores, que tinham perpetrado tal injustiça, tivessem o castigo adequado: atados a uma via-férrea até que um comboio os estraçalhasse, o pior tormento que eu – ainda solteiro – conseguia conceber. Em resposta, recebi dele a primeira de muitas lições sobre o que é a democracia: “Não, porque a democracia não é vingativa”. Lição número um: uma democracia, para funcionar, deve ser moralmente superior. Colocar num envelope, selar e entregar no nº 1600 da Pennsylvania Avenue, em Washington.

Nos dias seguintes tive direito a novas lições. Fui entendendo não só o que se passava nas ruas, mas tive a explicação para pequenas coisas passadas que eu, no próprio momento, não entendera. Recordei-me de, muito pequeno, ir no carro, no banco de trás e o meu pai apontar para algo que levava ao lado e dizer à minha mãe “este livro foi proibido”. Como nesse tempo não se usava cinto de segurança, pude-me pendurar nas costas do banco corrido do Simca, muito curioso em saber como seria um livro proibido. Para meu desapontamento, vi um calhamaço igual aos outros que ele lia, com capa, lombada e folhas. Mas como poderia aquele livro ser proibido, se estava ali? Percebia que um gesto fosse proibido, como entrar de carro nas ruas que tinham uma placa vermelha com um risco branco ou mexer em facas, mas não conseguia conceber que um objecto, algo existente e que eu podia tocar se me pendurasse mais no banco do Simca e esticasse a mão, fosse proibido. Mais: parecia-me ridículo. E de facto era-o, como compreendi antes que chegasse ao fim o mês de Abril de 74.

Fez-se-me também claro porque minha mãe me interditara, com cara de caso e uma firmeza inusitada, de repetir uma anedota que eu aprendera na escola: pescadores pescavam uma sardinha, depois concluíam que não tinham dinheiro nem para batatas, nem para legumes, nem para azeite para acompanhar o peixe e decidiam devolvê-lo ao mar; de imediato a sardinha começava a pular fora da água, dando vivas a Marcelo Caetano. Em Abril de 74 compreendi o receio da minha mãe, mas pareceu-me absurdo, como ainda hoje me continua a parecer, que um regime se preocupasse com anedotas deste fraco calibre e que mães proibissem a sua contagem por temor, que não por bom gosto.

Seguiram-se dois anos em que tive a percepção que o tempo, à minha volta, tinha acelerado como a nave “Enterprise”: “Warp” cinco ou seis, pelo menos. Aconteceram coisas grandes, outras graves, muitas divertidas, com folclore vário à mistura. Foram as dores de crescimento do presente.

Nós, crianças, tínhamos a mania que sabíamos de política, adoptávamos partidos e emblemas como quem torce por um clube, pedíamos para ir às manifestações, jogávamos jogos de tabuleiro em que saíam cartões que diziam “pertenceu à PIDE/DGS, fica uma vez sem jogar”. Depois a revolução serenou, como todas as revoluções um dia serenam, e deixou um legado a esses miúdos como eu.


Hoje em dia, poderíamos discutir, com outra maturidade, com outra distância, os ganhos e as perdas do regime salazarista. Poderíamos focar a pobreza ética, a debilidade da visão, o insucesso económico, a anomia social. Mas tudo isto são canhões demasiado grandes para tão pequena mosca. Para debate conclusivo, bastaria apenas perguntar aos pequenos de 2008 sobre que sentido teriam para elas o medo de contar anedotas, a proibição de livros ou a prisão de pessoas só por não concordarem com outras. Estou certo que achariam estas coisas ridículas.

A revolução de Abril não foi uma vitória sobre o fascismo. Foi uma vitória sobre o ridículo. Um ridículo com medo de livros, de ideias ou de anedotas na boca das crianças. Um ridículo de fato coçado e botas, balhelha e míope. Mas um ridículo que às vezes matava.

Para terminar: sei que alguns vão achar parolo ou popularucho, comuna ou esquerdizante ou outra abéculice qualquer do mesmo calibre, mas eu estou-me a … nas tintas, e de alto! Que viva o Vinte e Cinco de Abril, sempre!

sexta-feira, abril 04, 2008

U akordo orthugráphiko

Tive uma educação bilingue, o que me facultou o privilégio de assassinar duas gramáticas e espezinhar duas ortografias. Dava erros tanto a português como a francês, com a mesma desenvoltura e igual cara-de-pau. Por alguma razão misteriosa, beneficiei de uma certa condescendência dos professores de português, mas não dos de francês, que se entretiveram catorze anos a fazer-me a vida negra, os cães!

Certa vez, num ditado em língua francesa, consegui acumular asneiras suficientes numa única palavra para levar logo ali com um zero sobre vinte. O professor, pai de uma coleguinha esquálida que sofria de baixas de tensão quando a interrogavam na sala de aula mas que era hipertensa nas festarolas de sexta à noite, tinha fama e proveito de tramado: cortava quatro valores por cada ocorrência que assinalasse na folha de ponto, com um frenético círculo vermelho, por mínima que fosse. Para além deste mau feitio, ainda era fanhoso e as palavras saíam-lhe coladas umas às outras pelo cuspo que se ia acumulando nas comissuras dos lábios, o que lhe dava um ar de buldogue em hora de refeição.

Recordo que era um texto de Camus, tirado do “Estrangeiro”, quando Meursault observa os seus conterrâneos passeando endomingados pela cidade. O feroz docente foi narrando nasalmente, enquanto circulava desconfiado entre carteiras. A dado passo, ditou uma frase que referia uns sapatos de biqueira quadrada – “des souliers à bouts carrés”. Só que eu, talvez na lua ou então confundido pela verborreia assalivada do professor, transformei a tirada em “souliers zaboucarés”, um adjectivo que me pareceu exótico e apropriado aos pezinhos da personagem. Resultado: levei menos quatro pelo “à”, outro tanto pelo “bouts”, idem pelo “carrés”, ainda quatro por inventar uma palavra que não existia e os quatro finais possivelmente como bónus para não ser parvo. Zero.

Bom! Com tais dotes linguísticos e posto perante o problema de ter que acabar os meus estudos liceais, vi-me na contingência de ter que adoptar uma estratégia adequada para as cadeiras humanísticas. Optei por aquela que o Paços de Ferreira utiliza com grande proveito no campeonato da primeira divisão: mais vale não perder do que perder. Lutei pois pelo mediano dezito e dediquei-me mas é às ciências, onde a frase mais complicada que precisava de escrever era “implica que”. E assim obtive meus canudos.

Entretanto passou tempo, o tempo que tudo cura, mesmo algumas faltas de jeito. Fui lendo, bastante, e escrevendo, um pouco. Pedia opiniões e forçava-me a corrigir. Diziam-me: “tens períodos muito longos e vírgulas a mais”. Escrevia e logo em seguida obrigava-me a retirar trinta por cento das vírgulas e introduzir o mesmo número de pontos finais, como se fossem objectivos de gestão. Fui colmatando as minhas lacunas ortográficas. Evoluí. Sem grandes conceitos teóricos, como os músicos que tocam de ouvido, até fui recebendo elogios pelos textos que alinhava. E assim cheguei aos quarentas, mais ou menos seguro dos meus efes-e-erres.


Há dias, li no jornal que o Brasil e Portugal iam finalmente pôr em prática um acordo ortográfico, celebrado nos anos noventa, que alterava quase dois por cento do léxico. Li, não sem alguma perplexidade. Então não é que é logo agora, que eu finalmente conseguia alinhar sem vergonha duas frases no papel, que aparece o raio deste acordo mudando, à má fila e sem avisar, a escrita de uma catrefa de palavras? Como diria o meu bisavô, posto perante a reforma ortográfica da primeira república: já me phoderam!

Corri a verificar as alterações. Não sendo realmente muitas, são de monta. Desaparece, por exemplo, o cê mudo. Logo, o acto passa a ato. Acho fraco e de pouco respeito para com um vocábulo tão simbólico, que usamos para significar o momento de grande pagode responsável pela nossa presença neste triste mundo, onde se mudam regras a meio do campeonacto. Digo, do campeonato. O cê do acto tinha um valor simbólico importante, representando as partes de um todo: afinal, os principais participantes no acto escrevem-se todos com cê no princípio. Todos os quatro, se não houver ninguém aleijado. A palavra acto tem uma pujança que não encontramos em ato, que é vocábulo que não ata nem desata. O cê do acto é mudo mas não está calado: o acto é mais akto do que ato. Um acto sem cê é um acto astrado, que não chega a ser onsumado.

E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.

Será que os beligerantes, pondo fim à guerra, vão assinar um pato? Imagino os generais, aprumados e reluzentes nos seus uniformes de cerimónia, de caneta em riste, agarrando o marreco a quatro mãos para poderem firmar a rendição. Talvez exagere: não tenho a certeza que o acordo vá tão longe. Mas que o pê de óptimo também foi à vida, lá isso foi. Assim sendo, no final do ato poderemos passar a sussurrar, com enlevo, enquanto acendemos o tradicional cigarro: “querida, foi ótimo”.

Como afectará o acordo as marcas comerciais? Calculo que o X-acto passe a X-ato, isto no exato segundo em que o acordo entrar em vigor, que não sabemos bem quando é, já que exacto também vai à vida.

As alterações são variadas, e vão-nos permitir que quando viajarmos ao Cairo, na receção do hotel, o diretor (um corruto de mau aspeto) nos diga, perentório, que nos desertos do Egito não há catos mas há reptis.

Aparecem também muitas novas regras à volta do hífen. Uma consequente ironia histórica é que antissemita se passa a escrever com “ss”, o que não espanta ninguém.

E entram no nosso abecedário o dâbliu, o ípsilon e o capa, uma boa notícia para os polícias franceses, que vão poder usar képi, e para os amantes de finlandês. A possibilidade de poder usar o “k” com mais liberalidade agradará também à nossa digital juventude, grande consumidora de capas nas suas mensagens de SMS, que pode agora ansiar por um futuro em que o “esse-eme-essês” se torne língua oficial. Provavelmente, na reforma ortográfica de 2040, os “ke keres?” e os “kando axares ké pussível” deixarão de ser grandes asneiradas.

Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:

“E que mais querya morrer em o provar, fazendo seu dever, que de tal guisa se partir, ca dos synnaes e ventuiras de boos hoomêes nom ham fazer conta onde fossem certos que obram dereitamente, mais devyam continuar ataa mais nom poderem. E que, nom embargando todas suas rezõoes, com a graça do senhor deos entendia filhar a cidade. E por sua merceee foy melhor que se podia peensaar.”

Que acham? Conversa de putos no Messenger entre Chelas e o Seixal? Não. É o nosso rei D. Duarte, escrevendo no “Leal Conselheiro”, explicando as razões que levaram seu pai, o rei D. João I, a arriscar a conquista de Ceuta contra a opinião dos seus … euh... konselheiros.

sábado, março 15, 2008

A gente que madruga

Provavelmente o último alfacinha a fazê-lo, entrei finalmente na Byblos, a nova e tão publicitada mega-livraria de Lisboa. Gostei. Contra as expectativas que a berraria mediática me impingira, achei-a pouco mega e muito livraria: tem livros, tem luz, tem recato. Apreciei, como se aprecia uma prenda inesperada, a frase de Jorge Luís Borges inscrita numa das paredes, encimando uma larga e bem recheada estante: “sempre pensei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”. Faz sentido: um pouco de teologia barata levar-nos-á a concluir que havendo livros divinos e autores tocados por Deus, sem dúvida encontrar-se-ão todos no paraíso, que é o lugar das coisas boas.

Borges constará sempre de qualquer pequena lista dos meus ene escritores favoritos. Sobre livros, sabe do que fala: escreveu contos fantásticos sobre calhamaços que se liam circularmente e bibliotecas de geometrias e propriedades raras. Livros sobre livros e sobre lugares de livros. E quando não, escreveu sobre pessoas reais que só poderiam na realidade ser personagens de outros livros, que não dele.

Voltando à Byblos e deixando o Borges lá onde ele deve estar, refastelado numa nuvem acolchoada a folhear algum compêndio divinal, informo que padeço de doença neurológica que me impede de sair de uma livraria de mãos a abanar. Compro, portanto, mais leitura do que aquela que consigo ler. Mantenho a esperança que quem me emprega perceba finalmente, um belo dia, o logro em que caiu e me ofereça uma indemnização e uma reforma antecipada que me permitam pôr em dia as prateleiras de leitura que tenho em atraso.

Desta feita, e agora que a fotografia regressou à esfera central dos meus interesses, comprei um pequeno volume da Taschen sobre Robert Doisneau.


De entre a centena de magníficas fotos que o livrinho reproduz, houve uma que me captou a atenção e que abaixo reproduzo. Mau grado esta minha preferência, reconheço que não possui nem a originalidade temática, nem o enquadramento inesperado que fazem a glória de outras fotografias deste mestre. Procurei-a em vão na “internet”, apesar desta disponibilizar inúmeras galerias com fotografias de Doisneau. Provavelmente não fará parte das suas imagens mais conhecidas. “Scannei-a” por isso do próprio livro – o que, infelizmente, lhe retirou detalhe e qualidade.



Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.

Continuando, o conteúdo: vemos um homem de idade, de mãos rugosas, até algo toscas. A que segura o alicate aparece amplificada pela perspectiva, com dedos grossos, apertando com força segura as pegas da ferramenta. A outra, pelo contrário, dir-se-ia leve, mas firme, manejando uma fina vareta, trabalhando a jóia. O olhar é vivo, porém tranquilo e talvez até um pouco cansado, mas, por outro lado, muito focado. Este homem está concentrado, a fazer algo realmente importante. Conseguimo-lo imaginar só naquela oficina, tranquilo no seu mester, num silêncio apenas pontuado pelo sopro do maçarico, sem a pressão do tempo, a engastar uma pedra num anel que selará um noivado feliz.

A testa enrugada, o cabelo branco já sumido, os óculos auxiliando a vista, dão-nos uma medida da idade e das marcas que o tempo deixa, mas também uma secreta lição de serenidade. A fotografia foi tomada na Rue du Mail, em 1941. Sabendo isto, podemos deduzir uma biografia do senhor Mouchonnet, imaginária, mas com alguma probabilidade realista: terá nascido pelos anos 1880; no início do século, seria possivelmente aprendiz junto de um mestre engastador, talvez depois de uma infância de algum aperto; eventualmente, viveu o horror das trincheiras em 1915. Na altura da foto, sofria a amargura de ver a sua terra invadida pela barbárie. Mas mesmo arrastando como uma canga esta história triste, o homem que temos na fotografia alheia-se na hora de exercer o seu ofício. Pelo contrário: no seu labor, conta-nos uma história diferente da sua própria história. Uma história de pacífica dignidade, de prioridade ao ofício e de amor sofrido. Naquela bancada, o senhor Mouchonnet é mais do que ele. Representa milhares de artesãos e representa uma certa ética: a imagem podia intitular-se “A paciência”, “A minúcia”, “A nobreza” ou, mais simplesmente, “O Trabalho”.


Em fotografia existe o conceito de profundidade de campo, definido como o conjunto dos sucessivos planos em que a imagem se apresenta focada. Por extensão de ideias, poderíamos desenvolver um conceito análogo a que chamaríamos “profundidade de tema”: esta seria tanto maior quanto maior fosse o conjunto de temas abordados, evidenciados ou sugeridos, mas presentes na obra. Tal conceito aplica-se bem à fotografia como a qualquer forma de criação artística. Uma criação com grande profundidade de tema é densa e rica. Permite que as nossas razão e emoção, irmãs que nunca deveriam andar separadas, se aventurem à descoberta, se divirtam e, ao mesmo tempo, se apetrechem de novas ideias que possam frutificar de maneiras diversas: pela simpatia, pela consciência, pela acção ou mesmo por via de nova criação.

Desde sempre, os homens procuraram que a sua obra artística dissesse mais do que aquilo que meramente os olhos vêem. Através de símbolos, de referências fugazes, de composições dinâmicas, concentraram no pequeno espaço de uma pintura, de uma partitura ou de um livro, os constituintes de um microcosmos mais ou menos complexo cuja descoberta por nós, que abordamos a obra, é uma forma de conversa intemporal com o autor, através da qual ele comunga connosco as suas ideias, o seu sentir e as suas vivências. Quando os nossos antepassados de Altamira ou do Tassili pintaram na rocha cenas de caça, não representavam apenas bichos e lanças. Contavam-nos da dificuldade e do risco, da esperança de uma boa caçada e da sobrevivência da tribo. As suas obras possuíam profundidade de tema.

A profundidade de tema não é condição necessária para uma grande obra, mas ajuda. O criador fecundo maneja este parâmetro como o fotógrafo roda o anel da sua objectiva à procura da profundidade de campo adequada, o que lhe permite transmitir o necessário e o suficiente.

Doisneau fotografou sempre com grande profundidade de tema, fugindo à platitude do mau fotojornalismo, que é hoje o mais das vezes pobre, quer em fotografia, quer em jornalismo. Disse: “apenas devemos fotografar quando nos sentimos cheios de amor pelo próximo”. Homem de extracção modesta, nunca esqueceu as suas origens. Testemunhou, com enorme sensibilidade e carinho, o dia do povo parisiense mais pobre, as suas alegrias e as suas agruras, as suas dificuldades e as suas lutas. As chapas que bateu suscitam entendimento, empatia e por vezes uma inesperada e saudável revolta. Num certo sentido, Doisneau foi um fotógrafo militante, de uma militância suave mas penetrante. Fotografias como a que figura abaixo, de uma criança que desce a ladeira em direcção à fábrica, ao mundo esconso do trabalho na linha, longe da vista como na Metropolis subterrânea de Fritz Lang, são disto exemplo.

Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.

Hoje em dia, parece-me que esta preocupação da obra artística com os mais desmunidos atravessa tempos menos felizes. Não que não exista, mas não está de moda e é pena. Uma criação empenhada funciona como um grilo falante, soprando ao ouvido da sociedade, abrindo-lhe os olhos, indignando-a, gerando mudança. Sem essa forma de consciência colectiva, sem novos Doisneaus que nos acudam, corremos o risco de cair que nem uns patinhos e acreditar piamente, como o Cândido de Voltaire em pleno terramoto de 1755, que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos.

segunda-feira, março 03, 2008

Pouca vergonha

Li há dias nos jornais que a administração do metropolitano de Londres, num rasgo de pudibunda clarividência, proibiu a afixação nos espaços do metro londrino de cartazes anunciando uma exposição, na Royal Academy of Arts, de obras do pintor renascentista alemão Lucas Cranach, o Velho. Parece que a veterana academia, fundada no século XVIII pelo rei Jorge III para promoção da pintura e outras belas-artes, esqueceu-se momentaneamente de que não é bem o Olímpia da Rua das Portas de Santo Antão e cometeu o grosseiro deslize de escolher para cartaz uma imagem pornográfica, uma Vénus datada de 1532. Ora Vénus, apesar de ver o seu nome frequentemente associado a uma peça de vestuário, costumava andar nua e tal exibição de carne foi considerada pelos pressurosos gestores imprópria para consumo dos – supõe-se que acéfalos – passageiros que se acotovelam pelas manhãs enevoadas nos vetustos corredores do “tube”, apressados e remelentos, a caminho de Marble Arch ou de Holborn.


Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.

Naqueles tempos devassos, em que ainda não tinha sido providencialmente inventada a administração do metro de Londres para acabar com a pouca-vergonha, Cranach acabou por ser coberto de honrarias e vantagens por andar a pintar aquelas porcarias. Vivendo na cidade de Wittenberg, atribuíram-lhe o monopólio da venda de medicamentos, uma licença de impressor com direitos exclusivos de publicação da Bíblia, o posto de burgomestre, tudo coisas de bom rendimento que um ordinário daqueles não mereceria. Incompreensivelmente, até a igreja luterana reservou um dia feriado no calendário para o desavergonhado e incontinente artista.

Felizmente, o “board” do “underground” não dorme em serviço e, do alto da sua pureza de princípios e de dentro dos seus fatos de Saville Row, lá tratou de equiparar a maligna obra do pornógrafo Cranach ao pior ou melhor que ofereciam as páginas da “Gina”, esse verdadeiro manual de biologia do terceiro ano de liceu que pontificou nos escaparates lisboetas dos anos setenta, arregalando olhos e partindo pulsos.


Agora falando sério: eventos como este ou como a famosa histeria colectiva norte-americana a propósito do seio da Janet Jackson têm um ar inócuo, de tão ridículos. Mas não são. Parecem um eczema, mas são um tumor, minando a sociedade por dentro. Revelam uma visão puritana, estreita – melhor dizendo, estúpida – da vida, que está no poder em muitos sítios, dos Estados Unidos ao mundo muçulmano e que começa a fazer preocupantes incursões na Europa Ocidental, até em locais tão insuspeitos como a Grã-Bretanha. Esta tendência contraria uma evolução libertária dos anos sessenta e setenta que enformou a nossa educação e que muitos dávamos por adquirida. Excesso de optimismo…


A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.

Santo Agostinho, antes de se tornar cristão e doutrinário do Catolicismo, foi adepto do Maniqueísmo, religião que concorreu com o Cristianismo pela maior quota de mercado no Baixo Império Romano, mas cuja influência perdurou muito para além da sua existência enquanto culto organizado. Se entendermos o Maniqueísmo, percebemos de onde vêm muitas das tontices que ainda rastejam no interior dos crânios dos puritanos dos nossos dias, de que os administradores do metropolitano de Londres são apenas um triste exemplo.

O Maniqueísmo foi fundado na Pérsia no século III por um tal Mani. Segundo este, no início de tudo havia dois reinos: o do Bem, simbolizado pela luz e o do Mal, pela escuridão. Viviam separados, mas do lado do Mal, por definição, não se sentiam lá muito bem. Um dia, o Diabo, que chefiava o reino do Mal, espreitou para o outro lado, achou piada e decidiu invadir o reino do Bem. Houve porrada cósmica, da qual resultou o mundo tal como o conhecemos. A matéria do universo resultou da decomposição dos corpos dos príncipes do mal. Ainda mais escatológico, a terra, o húmus, resultou das fezes dos mesmos malignos príncipes. Por isto, o Maniqueísmo determinava um mundo a preto e branco, dividido entre Bem e Mal, representados por Espírito e Matéria.

Tudo o que fosse material era mau, porque oposto ao espiritual, o qual era bom. A matéria decompunha-se, o espírito perdurava. Como consequência, aquilo que se relacionasse com o lado material da existência tinha uma conotação negativa: isso incluía o corpo, a sexualidade, gozo da matéria e fonte de mais matéria, e a mulher, indutora de sexualidade e, pela maternidade, vector de geração de mais matéria. Mas também o materialismo económico, que valoriza de “per se”o crescimento da componente material da vida.

Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.


O puritano, no sentido mais lato, é aquele fulano que dorme mal à noite, atormentado pela ideia de que alguém, algures, se possa estar a divertir à grande. É essencialmente um obcecado sexual, que não pensa noutra coisa e vê mal em todo o lado. Tal e qual como os administradores do metro de Londres. Há que dar com os pés nessa malta nojenta, senão qualquer dia estamos a lapidar adúlteras e a excisar crianças.

Por isto, se por acaso pretenderem admirar a obra de Lucas Cranach, o Velho, na Royal Academy of Arts, façam-me um favor. Não apanhem o metro. Tomem um táxi ou vão a pé.

domingo, fevereiro 24, 2008

O lugar ao lado

Eu, sentado no lugar mais à esquerda do sofá, veria televisão, encostada na parede oposta (na altura, as televisões punham-se longe porque faziam mal à vista). O meu pai chegaria do trabalho, se o turno fosse o que terminava a meio da tarde, e dir-me-ia, num tom de falsa reprovação: “Eh, pá! Esse lugar é meu!” Eu afastar-me-ia meio metro, fingindo protestar e ele sentar-se-ia, o braço apoiado no braço do sofá, segurando um livro, que desfolhava enquanto fumava um cigarro (nesse tempo, os cigarros não faziam tanto mal à saúde). E eu, no lugar ao lado, encostado a ele, riria com os desaires do gato Silvestre, ou com as americanadas do “Green Acres” ou do “Will Smart” ou com o que passasse no único canal, que de tão único nem se chamava ainda canal mas apenas televisão.

Esta é uma das mais marcadas memórias da minha infância – apenas na medida em que uma memória de infância, por natureza difusa ou esborratada, consegue ser marcada. Uma lembrança cálida, de uma felicidade secreta e banal que o tempo, esmaecendo, refinou.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.

Com o decorrer do tempo, fui vendo as coisas de diferentes modos. Compreendi, por exemplo, a importância para a minha vida, para as nossas vidas, daquele meio metro quadrado de pano, molas e espuma que é o lugar ao lado. Percebi que parte do que observamos à nossa volta se explica se dividirmos a humanidade em dois grupos: os que tiveram um lugar ao lado e os que, infelizmente, não tiveram. Revoltei-me ao ver que havia quem, tendo todas as condições para dar aos seus filhos um lugar ao lado, por egoísmo ou soberba não o fizera.

Preocupa-me pois olhar para a minha beira e ver se deixei junto a mim espaço que chegue para um lugar ao lado, para os meus filhos. Parece-me às vezes que sim, mas não posso ter a certeza. O tempo dirá se fui, ao fim e ao cabo, um fracasso ou um sucesso.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

A utilidade dos saberes inúteis

De vez em quando, em casa de gente amiga, findo um bom jantar, bebida a última lágrima e percorrida a romaria entre mesa e máquina de lavar para arrumar a baixela, joga-se um “Trivial Pursuit” para animar o fim de noite. Aí, passe a imodéstia, sou encarado como um adversário temível. Quando, contra todas as expectativas, respondo que o Potomac banha Washington ou quem foi o Eduardo Mondlane, soltam-se suspiros e sopram-se, entre dentes, comparações da minha pessoa com caprinos de grande porte, enquanto, a contra-gosto, lá me passam para mão o cartão vencedor.

Nessas ocasiões, amigos que julgam vão o conhecimento terreno dizem-me que tenho a cabeça cheia de coisas inúteis. Muito me honram, mas muito se enganam. Cabeça cheia é algo que eu não tenho. Se um cartão de “Trivial” me perguntasse qual o estado da minha cabeça, talvez respondesse “oca” ou “com muito espaço para preencher”. Cheia, repito, sei que não: há tanto que vale a pena conhecer e que eu ignoro! E cada vez que encontro algum facto ou pensamento interessante e o arrumo num recanto da minha caixa craniana, vejo por lá muita prateleira vazia, a ganhar mofo, à espera de melhores dias. Até porque o saber vem empacotado em embalagens pequenas e não ocupa muito lugar, senão, como dizia um velho professor que me deu a quarta classe, os sabichões usariam sacas de batata à guisa de boinas.

Possuo, é verdade, boa memória para informações pequenas. Por isso arrasto, como uma grilheta, este “vade mecum” de nomes, datas, acontecimentos pontuais, respostas prontas. Uso-o para espantar os meus filhos, respondendo por antecipação às perguntas que embaraçam, na televisão, os concorrentes ao “Quem quer ser milionário?” ou ao “Um contra todos”. Ou então para irritar o pessoal, somando vitórias no “Trivial Pursuit”.

Não me empenhei, de modo algum, em aprender este saber miúdo. Nunca me pus a ler a enciclopédia britânica, nem o borda-d’água, nem decorei malévola e clandestinamente as respostas dos cartões. Li, no entanto, outras coisas, debrucei-me sobre alguns temas, procurei perceber alguns assuntos que achava interessantes. E nesse caminho que percorri e ainda percorro apanhei esses saberes inúteis, colados aos neurónios como as espigas do mato rasteiro que se prendem às meias e aos atacadores durante um passeio de Verão.

Este saber de feira, de respostas azuis e verdes, tem pois pouca importância para mim. É um resíduo, um resquício, uma borla, às vezes uma piada. Mas há outros saberes que são, esses sim, importantes, saberes que nos ajudam a perceber a realidade, a ajudar melhor tanto os outros como a nós próprios ou a manter vivos valores que vale a pena que não se percam. Saberes que nos trazem, mais do que saber, sabedoria, e nos apoiam na nossa errante e errática procura por um pouco de entendimento e alguma felicidade.


Gosto, por exemplo, de ler História. Ler História traz-nos identidade, entendimento e humildade. Que já são três mais-valias seguras. Identidade porque, ao lê-la, apreendemos melhor o nosso envolvimento em certas estruturas incorpóreas, como a nacionalidade, a língua, um bloco civilizacional ou uma ideologia, e ao compreendê-las melhor compreendemo-nos melhor a nós próprios e damos um sentido adicional à nossa existência. Entendimento porque existem fenómenos de hoje que têm raízes profundas no passado ou que repetem situações com que outros homens se depararam há mil atrás. Diz o provérbio oriental que a experiência é uma candeia que só ilumina o caminho andado e o provérbio nortenho que prognósticos só no fim do jogo. Por isso, nada como aprender com a experiência dos outros. Finalmente, humildade, porque quando conhecemos melhor os homens e mulheres do passado, verificamos que – contrariamente a certas ideias feitas – não somos nem um pozinho mais espertos ou sofisticados do que eles ou, pelo menos, parte deles. Não possuindo MSN nem ar condicionado, alguns poderiam dar-nos banhos de bola no que toca a coragem, sagacidade ou engenho.

Como vantagem adicional, tudo o que podemos aprender com a História vem em histórias com muita acção, intriga, pancada, sexo de todo o tipo, paixão e romance, batalhas com milhares de figurantes que nem no Senhor dos Anéis parte III, gajos de saias, mistério e até magia. Enfim, tudo o que a BBC e a Fox pretendem oferecer, sem ter que aturar os chatos da TV Cabo: aprendizagem e entretenimento, juntos e ao vivo!



Noutro plano, interessa-me também ir conhecendo a reflexão que se tem em Filosofia, num sentido lato que inclui a Ciência (dantes chamada filosofia da natureza) e a evolução que nelas tiveram as ideias, políticas, morais, científicas, etc. Por vezes os filósofos escrevem de forma difícil: lê-los requer esforço e obriga a ginástica mental, a suar um pouco, a pôr o cérebro a correr na passadeira e a encher cinquenta. Tal como no ginásio, em que a canseira tem múltiplas compensações, desde barrigas menos flácidas a arregalar o olho na boa que se esforça na máquina de pesos, penar duzentas páginas de Filosofia pode trazer vantagens várias.

Primeiro, pode ajudar-nos a aclarar e confirmar as nossas ideias ou, pelo contrário mas melhor ainda, permitir-nos perceber que andávamos redondamente enganados. Quando esta última situação ocorre, a Filosofia proporciona-nos uma ocasião ímpar para mudar de ideias, experiência clarificadora mas que muita gente, por razões que não entendo, acha tão penosa como reconhecer que anda a ser encornada. Depois, conhecendo a evolução das ideias ao longo dos tempos, verificamos que muita malta inteligente passou completamente ao lado da realidade, simplesmente por que foi incapaz de pôr de lado um conceito que não prestava. Isto alerta-nos para a necessidade de ter uma mente aberta e um espírito permanentemente crítico, que toque a sirene e acenda luzes vermelhas e verdes à mínima incoerência. Sistema que, confesso, não tenho nem estou próximo de ter.

O prémio máximo que a leitura de um livro de Filosofia nos pode trazer é chegarmos à última página e, tendo percebido o que o autor queria dizer, concluirmos que ele é um perfeito idiota, por muitos galões e referências que tenha em compêndios escolares e teses de doutoramento. Nada como alguma iconoclastia, nestes tempos que correm em que se seguem mestres de forma excessivamente piedosa.

Divirto-me ainda a ler Literatura. Há de facto tipos que brincam com as palavras e as ideias com a graça e a segurança do malabarista, jogando-as no ar e deixando-as tombar no momento certo, no sítio certo. Para além da beleza deste movimento, muitos escritores são também dos melhores historiadores e dos melhores filósofos, oferecendo-nos uma visão da História e da Filosofia vista do interior da vida, com todo o seu calor e frenesim, que completa e contrasta com a percepção distante e fria que têm os que escrevem e estudam respaldados numa visão mais cartesiana e académica.


São estes alguns dos saberes que me interessam, por me parecer que me ajudam: a entender melhor a mim e ao mundo, a agir de uma forma mais positiva para mim e para os demais, a dar sentido à minha vida e a passar um testemunho que recebi e que deve continuar por outras mãos, no dia em que eu já cá não estiver.

Dito isto, não tenho – honestamente – a pretensão de saber muito, nem o suficiente, nem mais do que os outros. E claro que nem só nos livros se encontram estes saberes, nem possui-los nos dá grande autoridade. Por vezes, pessoas com uma bagagem que pretensiosamente julgamos pequena trazem dentro da trouxa tesouros de bom senso. Quando terminei o mestrado, recordo-me de o meu avô paterno me ter perguntado em que é que eu tinha ficado com esses últimos estudos, a que eu respondi, patetamente orgulhoso, “mestre”. E ele, que era um homem simples, de não muitas letras e que tinha uma carteira profissional de uma carreira administrativa qualquer que lhe dava como categoria “mestre de segunda classe”, comentou, com uma ironia meiga: “Então, andaste estes anos todos para ficar só igual a mim?”

Não, avô, não fiquei igual a ti, porque ainda não tinha acabado de ouvir tudo o que me tinhas para dizer, e muito há, do que me disseste, que só agora, com o passar do tempo, vou percebendo por inteiro.