sexta-feira, abril 04, 2008

U akordo orthugráphiko

Tive uma educação bilingue, o que me facultou o privilégio de assassinar duas gramáticas e espezinhar duas ortografias. Dava erros tanto a português como a francês, com a mesma desenvoltura e igual cara-de-pau. Por alguma razão misteriosa, beneficiei de uma certa condescendência dos professores de português, mas não dos de francês, que se entretiveram catorze anos a fazer-me a vida negra, os cães!

Certa vez, num ditado em língua francesa, consegui acumular asneiras suficientes numa única palavra para levar logo ali com um zero sobre vinte. O professor, pai de uma coleguinha esquálida que sofria de baixas de tensão quando a interrogavam na sala de aula mas que era hipertensa nas festarolas de sexta à noite, tinha fama e proveito de tramado: cortava quatro valores por cada ocorrência que assinalasse na folha de ponto, com um frenético círculo vermelho, por mínima que fosse. Para além deste mau feitio, ainda era fanhoso e as palavras saíam-lhe coladas umas às outras pelo cuspo que se ia acumulando nas comissuras dos lábios, o que lhe dava um ar de buldogue em hora de refeição.

Recordo que era um texto de Camus, tirado do “Estrangeiro”, quando Meursault observa os seus conterrâneos passeando endomingados pela cidade. O feroz docente foi narrando nasalmente, enquanto circulava desconfiado entre carteiras. A dado passo, ditou uma frase que referia uns sapatos de biqueira quadrada – “des souliers à bouts carrés”. Só que eu, talvez na lua ou então confundido pela verborreia assalivada do professor, transformei a tirada em “souliers zaboucarés”, um adjectivo que me pareceu exótico e apropriado aos pezinhos da personagem. Resultado: levei menos quatro pelo “à”, outro tanto pelo “bouts”, idem pelo “carrés”, ainda quatro por inventar uma palavra que não existia e os quatro finais possivelmente como bónus para não ser parvo. Zero.

Bom! Com tais dotes linguísticos e posto perante o problema de ter que acabar os meus estudos liceais, vi-me na contingência de ter que adoptar uma estratégia adequada para as cadeiras humanísticas. Optei por aquela que o Paços de Ferreira utiliza com grande proveito no campeonato da primeira divisão: mais vale não perder do que perder. Lutei pois pelo mediano dezito e dediquei-me mas é às ciências, onde a frase mais complicada que precisava de escrever era “implica que”. E assim obtive meus canudos.

Entretanto passou tempo, o tempo que tudo cura, mesmo algumas faltas de jeito. Fui lendo, bastante, e escrevendo, um pouco. Pedia opiniões e forçava-me a corrigir. Diziam-me: “tens períodos muito longos e vírgulas a mais”. Escrevia e logo em seguida obrigava-me a retirar trinta por cento das vírgulas e introduzir o mesmo número de pontos finais, como se fossem objectivos de gestão. Fui colmatando as minhas lacunas ortográficas. Evoluí. Sem grandes conceitos teóricos, como os músicos que tocam de ouvido, até fui recebendo elogios pelos textos que alinhava. E assim cheguei aos quarentas, mais ou menos seguro dos meus efes-e-erres.


Há dias, li no jornal que o Brasil e Portugal iam finalmente pôr em prática um acordo ortográfico, celebrado nos anos noventa, que alterava quase dois por cento do léxico. Li, não sem alguma perplexidade. Então não é que é logo agora, que eu finalmente conseguia alinhar sem vergonha duas frases no papel, que aparece o raio deste acordo mudando, à má fila e sem avisar, a escrita de uma catrefa de palavras? Como diria o meu bisavô, posto perante a reforma ortográfica da primeira república: já me phoderam!

Corri a verificar as alterações. Não sendo realmente muitas, são de monta. Desaparece, por exemplo, o cê mudo. Logo, o acto passa a ato. Acho fraco e de pouco respeito para com um vocábulo tão simbólico, que usamos para significar o momento de grande pagode responsável pela nossa presença neste triste mundo, onde se mudam regras a meio do campeonacto. Digo, do campeonato. O cê do acto tinha um valor simbólico importante, representando as partes de um todo: afinal, os principais participantes no acto escrevem-se todos com cê no princípio. Todos os quatro, se não houver ninguém aleijado. A palavra acto tem uma pujança que não encontramos em ato, que é vocábulo que não ata nem desata. O cê do acto é mudo mas não está calado: o acto é mais akto do que ato. Um acto sem cê é um acto astrado, que não chega a ser onsumado.

E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.

Será que os beligerantes, pondo fim à guerra, vão assinar um pato? Imagino os generais, aprumados e reluzentes nos seus uniformes de cerimónia, de caneta em riste, agarrando o marreco a quatro mãos para poderem firmar a rendição. Talvez exagere: não tenho a certeza que o acordo vá tão longe. Mas que o pê de óptimo também foi à vida, lá isso foi. Assim sendo, no final do ato poderemos passar a sussurrar, com enlevo, enquanto acendemos o tradicional cigarro: “querida, foi ótimo”.

Como afectará o acordo as marcas comerciais? Calculo que o X-acto passe a X-ato, isto no exato segundo em que o acordo entrar em vigor, que não sabemos bem quando é, já que exacto também vai à vida.

As alterações são variadas, e vão-nos permitir que quando viajarmos ao Cairo, na receção do hotel, o diretor (um corruto de mau aspeto) nos diga, perentório, que nos desertos do Egito não há catos mas há reptis.

Aparecem também muitas novas regras à volta do hífen. Uma consequente ironia histórica é que antissemita se passa a escrever com “ss”, o que não espanta ninguém.

E entram no nosso abecedário o dâbliu, o ípsilon e o capa, uma boa notícia para os polícias franceses, que vão poder usar képi, e para os amantes de finlandês. A possibilidade de poder usar o “k” com mais liberalidade agradará também à nossa digital juventude, grande consumidora de capas nas suas mensagens de SMS, que pode agora ansiar por um futuro em que o “esse-eme-essês” se torne língua oficial. Provavelmente, na reforma ortográfica de 2040, os “ke keres?” e os “kando axares ké pussível” deixarão de ser grandes asneiradas.

Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:

“E que mais querya morrer em o provar, fazendo seu dever, que de tal guisa se partir, ca dos synnaes e ventuiras de boos hoomêes nom ham fazer conta onde fossem certos que obram dereitamente, mais devyam continuar ataa mais nom poderem. E que, nom embargando todas suas rezõoes, com a graça do senhor deos entendia filhar a cidade. E por sua merceee foy melhor que se podia peensaar.”

Que acham? Conversa de putos no Messenger entre Chelas e o Seixal? Não. É o nosso rei D. Duarte, escrevendo no “Leal Conselheiro”, explicando as razões que levaram seu pai, o rei D. João I, a arriscar a conquista de Ceuta contra a opinião dos seus … euh... konselheiros.

sábado, março 15, 2008

A gente que madruga

Provavelmente o último alfacinha a fazê-lo, entrei finalmente na Byblos, a nova e tão publicitada mega-livraria de Lisboa. Gostei. Contra as expectativas que a berraria mediática me impingira, achei-a pouco mega e muito livraria: tem livros, tem luz, tem recato. Apreciei, como se aprecia uma prenda inesperada, a frase de Jorge Luís Borges inscrita numa das paredes, encimando uma larga e bem recheada estante: “sempre pensei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”. Faz sentido: um pouco de teologia barata levar-nos-á a concluir que havendo livros divinos e autores tocados por Deus, sem dúvida encontrar-se-ão todos no paraíso, que é o lugar das coisas boas.

Borges constará sempre de qualquer pequena lista dos meus ene escritores favoritos. Sobre livros, sabe do que fala: escreveu contos fantásticos sobre calhamaços que se liam circularmente e bibliotecas de geometrias e propriedades raras. Livros sobre livros e sobre lugares de livros. E quando não, escreveu sobre pessoas reais que só poderiam na realidade ser personagens de outros livros, que não dele.

Voltando à Byblos e deixando o Borges lá onde ele deve estar, refastelado numa nuvem acolchoada a folhear algum compêndio divinal, informo que padeço de doença neurológica que me impede de sair de uma livraria de mãos a abanar. Compro, portanto, mais leitura do que aquela que consigo ler. Mantenho a esperança que quem me emprega perceba finalmente, um belo dia, o logro em que caiu e me ofereça uma indemnização e uma reforma antecipada que me permitam pôr em dia as prateleiras de leitura que tenho em atraso.

Desta feita, e agora que a fotografia regressou à esfera central dos meus interesses, comprei um pequeno volume da Taschen sobre Robert Doisneau.


De entre a centena de magníficas fotos que o livrinho reproduz, houve uma que me captou a atenção e que abaixo reproduzo. Mau grado esta minha preferência, reconheço que não possui nem a originalidade temática, nem o enquadramento inesperado que fazem a glória de outras fotografias deste mestre. Procurei-a em vão na “internet”, apesar desta disponibilizar inúmeras galerias com fotografias de Doisneau. Provavelmente não fará parte das suas imagens mais conhecidas. “Scannei-a” por isso do próprio livro – o que, infelizmente, lhe retirou detalhe e qualidade.



Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.

Continuando, o conteúdo: vemos um homem de idade, de mãos rugosas, até algo toscas. A que segura o alicate aparece amplificada pela perspectiva, com dedos grossos, apertando com força segura as pegas da ferramenta. A outra, pelo contrário, dir-se-ia leve, mas firme, manejando uma fina vareta, trabalhando a jóia. O olhar é vivo, porém tranquilo e talvez até um pouco cansado, mas, por outro lado, muito focado. Este homem está concentrado, a fazer algo realmente importante. Conseguimo-lo imaginar só naquela oficina, tranquilo no seu mester, num silêncio apenas pontuado pelo sopro do maçarico, sem a pressão do tempo, a engastar uma pedra num anel que selará um noivado feliz.

A testa enrugada, o cabelo branco já sumido, os óculos auxiliando a vista, dão-nos uma medida da idade e das marcas que o tempo deixa, mas também uma secreta lição de serenidade. A fotografia foi tomada na Rue du Mail, em 1941. Sabendo isto, podemos deduzir uma biografia do senhor Mouchonnet, imaginária, mas com alguma probabilidade realista: terá nascido pelos anos 1880; no início do século, seria possivelmente aprendiz junto de um mestre engastador, talvez depois de uma infância de algum aperto; eventualmente, viveu o horror das trincheiras em 1915. Na altura da foto, sofria a amargura de ver a sua terra invadida pela barbárie. Mas mesmo arrastando como uma canga esta história triste, o homem que temos na fotografia alheia-se na hora de exercer o seu ofício. Pelo contrário: no seu labor, conta-nos uma história diferente da sua própria história. Uma história de pacífica dignidade, de prioridade ao ofício e de amor sofrido. Naquela bancada, o senhor Mouchonnet é mais do que ele. Representa milhares de artesãos e representa uma certa ética: a imagem podia intitular-se “A paciência”, “A minúcia”, “A nobreza” ou, mais simplesmente, “O Trabalho”.


Em fotografia existe o conceito de profundidade de campo, definido como o conjunto dos sucessivos planos em que a imagem se apresenta focada. Por extensão de ideias, poderíamos desenvolver um conceito análogo a que chamaríamos “profundidade de tema”: esta seria tanto maior quanto maior fosse o conjunto de temas abordados, evidenciados ou sugeridos, mas presentes na obra. Tal conceito aplica-se bem à fotografia como a qualquer forma de criação artística. Uma criação com grande profundidade de tema é densa e rica. Permite que as nossas razão e emoção, irmãs que nunca deveriam andar separadas, se aventurem à descoberta, se divirtam e, ao mesmo tempo, se apetrechem de novas ideias que possam frutificar de maneiras diversas: pela simpatia, pela consciência, pela acção ou mesmo por via de nova criação.

Desde sempre, os homens procuraram que a sua obra artística dissesse mais do que aquilo que meramente os olhos vêem. Através de símbolos, de referências fugazes, de composições dinâmicas, concentraram no pequeno espaço de uma pintura, de uma partitura ou de um livro, os constituintes de um microcosmos mais ou menos complexo cuja descoberta por nós, que abordamos a obra, é uma forma de conversa intemporal com o autor, através da qual ele comunga connosco as suas ideias, o seu sentir e as suas vivências. Quando os nossos antepassados de Altamira ou do Tassili pintaram na rocha cenas de caça, não representavam apenas bichos e lanças. Contavam-nos da dificuldade e do risco, da esperança de uma boa caçada e da sobrevivência da tribo. As suas obras possuíam profundidade de tema.

A profundidade de tema não é condição necessária para uma grande obra, mas ajuda. O criador fecundo maneja este parâmetro como o fotógrafo roda o anel da sua objectiva à procura da profundidade de campo adequada, o que lhe permite transmitir o necessário e o suficiente.

Doisneau fotografou sempre com grande profundidade de tema, fugindo à platitude do mau fotojornalismo, que é hoje o mais das vezes pobre, quer em fotografia, quer em jornalismo. Disse: “apenas devemos fotografar quando nos sentimos cheios de amor pelo próximo”. Homem de extracção modesta, nunca esqueceu as suas origens. Testemunhou, com enorme sensibilidade e carinho, o dia do povo parisiense mais pobre, as suas alegrias e as suas agruras, as suas dificuldades e as suas lutas. As chapas que bateu suscitam entendimento, empatia e por vezes uma inesperada e saudável revolta. Num certo sentido, Doisneau foi um fotógrafo militante, de uma militância suave mas penetrante. Fotografias como a que figura abaixo, de uma criança que desce a ladeira em direcção à fábrica, ao mundo esconso do trabalho na linha, longe da vista como na Metropolis subterrânea de Fritz Lang, são disto exemplo.

Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.

Hoje em dia, parece-me que esta preocupação da obra artística com os mais desmunidos atravessa tempos menos felizes. Não que não exista, mas não está de moda e é pena. Uma criação empenhada funciona como um grilo falante, soprando ao ouvido da sociedade, abrindo-lhe os olhos, indignando-a, gerando mudança. Sem essa forma de consciência colectiva, sem novos Doisneaus que nos acudam, corremos o risco de cair que nem uns patinhos e acreditar piamente, como o Cândido de Voltaire em pleno terramoto de 1755, que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos.

segunda-feira, março 03, 2008

Pouca vergonha

Li há dias nos jornais que a administração do metropolitano de Londres, num rasgo de pudibunda clarividência, proibiu a afixação nos espaços do metro londrino de cartazes anunciando uma exposição, na Royal Academy of Arts, de obras do pintor renascentista alemão Lucas Cranach, o Velho. Parece que a veterana academia, fundada no século XVIII pelo rei Jorge III para promoção da pintura e outras belas-artes, esqueceu-se momentaneamente de que não é bem o Olímpia da Rua das Portas de Santo Antão e cometeu o grosseiro deslize de escolher para cartaz uma imagem pornográfica, uma Vénus datada de 1532. Ora Vénus, apesar de ver o seu nome frequentemente associado a uma peça de vestuário, costumava andar nua e tal exibição de carne foi considerada pelos pressurosos gestores imprópria para consumo dos – supõe-se que acéfalos – passageiros que se acotovelam pelas manhãs enevoadas nos vetustos corredores do “tube”, apressados e remelentos, a caminho de Marble Arch ou de Holborn.


Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.

Naqueles tempos devassos, em que ainda não tinha sido providencialmente inventada a administração do metro de Londres para acabar com a pouca-vergonha, Cranach acabou por ser coberto de honrarias e vantagens por andar a pintar aquelas porcarias. Vivendo na cidade de Wittenberg, atribuíram-lhe o monopólio da venda de medicamentos, uma licença de impressor com direitos exclusivos de publicação da Bíblia, o posto de burgomestre, tudo coisas de bom rendimento que um ordinário daqueles não mereceria. Incompreensivelmente, até a igreja luterana reservou um dia feriado no calendário para o desavergonhado e incontinente artista.

Felizmente, o “board” do “underground” não dorme em serviço e, do alto da sua pureza de princípios e de dentro dos seus fatos de Saville Row, lá tratou de equiparar a maligna obra do pornógrafo Cranach ao pior ou melhor que ofereciam as páginas da “Gina”, esse verdadeiro manual de biologia do terceiro ano de liceu que pontificou nos escaparates lisboetas dos anos setenta, arregalando olhos e partindo pulsos.


Agora falando sério: eventos como este ou como a famosa histeria colectiva norte-americana a propósito do seio da Janet Jackson têm um ar inócuo, de tão ridículos. Mas não são. Parecem um eczema, mas são um tumor, minando a sociedade por dentro. Revelam uma visão puritana, estreita – melhor dizendo, estúpida – da vida, que está no poder em muitos sítios, dos Estados Unidos ao mundo muçulmano e que começa a fazer preocupantes incursões na Europa Ocidental, até em locais tão insuspeitos como a Grã-Bretanha. Esta tendência contraria uma evolução libertária dos anos sessenta e setenta que enformou a nossa educação e que muitos dávamos por adquirida. Excesso de optimismo…


A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.

Santo Agostinho, antes de se tornar cristão e doutrinário do Catolicismo, foi adepto do Maniqueísmo, religião que concorreu com o Cristianismo pela maior quota de mercado no Baixo Império Romano, mas cuja influência perdurou muito para além da sua existência enquanto culto organizado. Se entendermos o Maniqueísmo, percebemos de onde vêm muitas das tontices que ainda rastejam no interior dos crânios dos puritanos dos nossos dias, de que os administradores do metropolitano de Londres são apenas um triste exemplo.

O Maniqueísmo foi fundado na Pérsia no século III por um tal Mani. Segundo este, no início de tudo havia dois reinos: o do Bem, simbolizado pela luz e o do Mal, pela escuridão. Viviam separados, mas do lado do Mal, por definição, não se sentiam lá muito bem. Um dia, o Diabo, que chefiava o reino do Mal, espreitou para o outro lado, achou piada e decidiu invadir o reino do Bem. Houve porrada cósmica, da qual resultou o mundo tal como o conhecemos. A matéria do universo resultou da decomposição dos corpos dos príncipes do mal. Ainda mais escatológico, a terra, o húmus, resultou das fezes dos mesmos malignos príncipes. Por isto, o Maniqueísmo determinava um mundo a preto e branco, dividido entre Bem e Mal, representados por Espírito e Matéria.

Tudo o que fosse material era mau, porque oposto ao espiritual, o qual era bom. A matéria decompunha-se, o espírito perdurava. Como consequência, aquilo que se relacionasse com o lado material da existência tinha uma conotação negativa: isso incluía o corpo, a sexualidade, gozo da matéria e fonte de mais matéria, e a mulher, indutora de sexualidade e, pela maternidade, vector de geração de mais matéria. Mas também o materialismo económico, que valoriza de “per se”o crescimento da componente material da vida.

Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.


O puritano, no sentido mais lato, é aquele fulano que dorme mal à noite, atormentado pela ideia de que alguém, algures, se possa estar a divertir à grande. É essencialmente um obcecado sexual, que não pensa noutra coisa e vê mal em todo o lado. Tal e qual como os administradores do metro de Londres. Há que dar com os pés nessa malta nojenta, senão qualquer dia estamos a lapidar adúlteras e a excisar crianças.

Por isto, se por acaso pretenderem admirar a obra de Lucas Cranach, o Velho, na Royal Academy of Arts, façam-me um favor. Não apanhem o metro. Tomem um táxi ou vão a pé.

domingo, fevereiro 24, 2008

O lugar ao lado

Eu, sentado no lugar mais à esquerda do sofá, veria televisão, encostada na parede oposta (na altura, as televisões punham-se longe porque faziam mal à vista). O meu pai chegaria do trabalho, se o turno fosse o que terminava a meio da tarde, e dir-me-ia, num tom de falsa reprovação: “Eh, pá! Esse lugar é meu!” Eu afastar-me-ia meio metro, fingindo protestar e ele sentar-se-ia, o braço apoiado no braço do sofá, segurando um livro, que desfolhava enquanto fumava um cigarro (nesse tempo, os cigarros não faziam tanto mal à saúde). E eu, no lugar ao lado, encostado a ele, riria com os desaires do gato Silvestre, ou com as americanadas do “Green Acres” ou do “Will Smart” ou com o que passasse no único canal, que de tão único nem se chamava ainda canal mas apenas televisão.

Esta é uma das mais marcadas memórias da minha infância – apenas na medida em que uma memória de infância, por natureza difusa ou esborratada, consegue ser marcada. Uma lembrança cálida, de uma felicidade secreta e banal que o tempo, esmaecendo, refinou.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.

Com o decorrer do tempo, fui vendo as coisas de diferentes modos. Compreendi, por exemplo, a importância para a minha vida, para as nossas vidas, daquele meio metro quadrado de pano, molas e espuma que é o lugar ao lado. Percebi que parte do que observamos à nossa volta se explica se dividirmos a humanidade em dois grupos: os que tiveram um lugar ao lado e os que, infelizmente, não tiveram. Revoltei-me ao ver que havia quem, tendo todas as condições para dar aos seus filhos um lugar ao lado, por egoísmo ou soberba não o fizera.

Preocupa-me pois olhar para a minha beira e ver se deixei junto a mim espaço que chegue para um lugar ao lado, para os meus filhos. Parece-me às vezes que sim, mas não posso ter a certeza. O tempo dirá se fui, ao fim e ao cabo, um fracasso ou um sucesso.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

A utilidade dos saberes inúteis

De vez em quando, em casa de gente amiga, findo um bom jantar, bebida a última lágrima e percorrida a romaria entre mesa e máquina de lavar para arrumar a baixela, joga-se um “Trivial Pursuit” para animar o fim de noite. Aí, passe a imodéstia, sou encarado como um adversário temível. Quando, contra todas as expectativas, respondo que o Potomac banha Washington ou quem foi o Eduardo Mondlane, soltam-se suspiros e sopram-se, entre dentes, comparações da minha pessoa com caprinos de grande porte, enquanto, a contra-gosto, lá me passam para mão o cartão vencedor.

Nessas ocasiões, amigos que julgam vão o conhecimento terreno dizem-me que tenho a cabeça cheia de coisas inúteis. Muito me honram, mas muito se enganam. Cabeça cheia é algo que eu não tenho. Se um cartão de “Trivial” me perguntasse qual o estado da minha cabeça, talvez respondesse “oca” ou “com muito espaço para preencher”. Cheia, repito, sei que não: há tanto que vale a pena conhecer e que eu ignoro! E cada vez que encontro algum facto ou pensamento interessante e o arrumo num recanto da minha caixa craniana, vejo por lá muita prateleira vazia, a ganhar mofo, à espera de melhores dias. Até porque o saber vem empacotado em embalagens pequenas e não ocupa muito lugar, senão, como dizia um velho professor que me deu a quarta classe, os sabichões usariam sacas de batata à guisa de boinas.

Possuo, é verdade, boa memória para informações pequenas. Por isso arrasto, como uma grilheta, este “vade mecum” de nomes, datas, acontecimentos pontuais, respostas prontas. Uso-o para espantar os meus filhos, respondendo por antecipação às perguntas que embaraçam, na televisão, os concorrentes ao “Quem quer ser milionário?” ou ao “Um contra todos”. Ou então para irritar o pessoal, somando vitórias no “Trivial Pursuit”.

Não me empenhei, de modo algum, em aprender este saber miúdo. Nunca me pus a ler a enciclopédia britânica, nem o borda-d’água, nem decorei malévola e clandestinamente as respostas dos cartões. Li, no entanto, outras coisas, debrucei-me sobre alguns temas, procurei perceber alguns assuntos que achava interessantes. E nesse caminho que percorri e ainda percorro apanhei esses saberes inúteis, colados aos neurónios como as espigas do mato rasteiro que se prendem às meias e aos atacadores durante um passeio de Verão.

Este saber de feira, de respostas azuis e verdes, tem pois pouca importância para mim. É um resíduo, um resquício, uma borla, às vezes uma piada. Mas há outros saberes que são, esses sim, importantes, saberes que nos ajudam a perceber a realidade, a ajudar melhor tanto os outros como a nós próprios ou a manter vivos valores que vale a pena que não se percam. Saberes que nos trazem, mais do que saber, sabedoria, e nos apoiam na nossa errante e errática procura por um pouco de entendimento e alguma felicidade.


Gosto, por exemplo, de ler História. Ler História traz-nos identidade, entendimento e humildade. Que já são três mais-valias seguras. Identidade porque, ao lê-la, apreendemos melhor o nosso envolvimento em certas estruturas incorpóreas, como a nacionalidade, a língua, um bloco civilizacional ou uma ideologia, e ao compreendê-las melhor compreendemo-nos melhor a nós próprios e damos um sentido adicional à nossa existência. Entendimento porque existem fenómenos de hoje que têm raízes profundas no passado ou que repetem situações com que outros homens se depararam há mil atrás. Diz o provérbio oriental que a experiência é uma candeia que só ilumina o caminho andado e o provérbio nortenho que prognósticos só no fim do jogo. Por isso, nada como aprender com a experiência dos outros. Finalmente, humildade, porque quando conhecemos melhor os homens e mulheres do passado, verificamos que – contrariamente a certas ideias feitas – não somos nem um pozinho mais espertos ou sofisticados do que eles ou, pelo menos, parte deles. Não possuindo MSN nem ar condicionado, alguns poderiam dar-nos banhos de bola no que toca a coragem, sagacidade ou engenho.

Como vantagem adicional, tudo o que podemos aprender com a História vem em histórias com muita acção, intriga, pancada, sexo de todo o tipo, paixão e romance, batalhas com milhares de figurantes que nem no Senhor dos Anéis parte III, gajos de saias, mistério e até magia. Enfim, tudo o que a BBC e a Fox pretendem oferecer, sem ter que aturar os chatos da TV Cabo: aprendizagem e entretenimento, juntos e ao vivo!



Noutro plano, interessa-me também ir conhecendo a reflexão que se tem em Filosofia, num sentido lato que inclui a Ciência (dantes chamada filosofia da natureza) e a evolução que nelas tiveram as ideias, políticas, morais, científicas, etc. Por vezes os filósofos escrevem de forma difícil: lê-los requer esforço e obriga a ginástica mental, a suar um pouco, a pôr o cérebro a correr na passadeira e a encher cinquenta. Tal como no ginásio, em que a canseira tem múltiplas compensações, desde barrigas menos flácidas a arregalar o olho na boa que se esforça na máquina de pesos, penar duzentas páginas de Filosofia pode trazer vantagens várias.

Primeiro, pode ajudar-nos a aclarar e confirmar as nossas ideias ou, pelo contrário mas melhor ainda, permitir-nos perceber que andávamos redondamente enganados. Quando esta última situação ocorre, a Filosofia proporciona-nos uma ocasião ímpar para mudar de ideias, experiência clarificadora mas que muita gente, por razões que não entendo, acha tão penosa como reconhecer que anda a ser encornada. Depois, conhecendo a evolução das ideias ao longo dos tempos, verificamos que muita malta inteligente passou completamente ao lado da realidade, simplesmente por que foi incapaz de pôr de lado um conceito que não prestava. Isto alerta-nos para a necessidade de ter uma mente aberta e um espírito permanentemente crítico, que toque a sirene e acenda luzes vermelhas e verdes à mínima incoerência. Sistema que, confesso, não tenho nem estou próximo de ter.

O prémio máximo que a leitura de um livro de Filosofia nos pode trazer é chegarmos à última página e, tendo percebido o que o autor queria dizer, concluirmos que ele é um perfeito idiota, por muitos galões e referências que tenha em compêndios escolares e teses de doutoramento. Nada como alguma iconoclastia, nestes tempos que correm em que se seguem mestres de forma excessivamente piedosa.

Divirto-me ainda a ler Literatura. Há de facto tipos que brincam com as palavras e as ideias com a graça e a segurança do malabarista, jogando-as no ar e deixando-as tombar no momento certo, no sítio certo. Para além da beleza deste movimento, muitos escritores são também dos melhores historiadores e dos melhores filósofos, oferecendo-nos uma visão da História e da Filosofia vista do interior da vida, com todo o seu calor e frenesim, que completa e contrasta com a percepção distante e fria que têm os que escrevem e estudam respaldados numa visão mais cartesiana e académica.


São estes alguns dos saberes que me interessam, por me parecer que me ajudam: a entender melhor a mim e ao mundo, a agir de uma forma mais positiva para mim e para os demais, a dar sentido à minha vida e a passar um testemunho que recebi e que deve continuar por outras mãos, no dia em que eu já cá não estiver.

Dito isto, não tenho – honestamente – a pretensão de saber muito, nem o suficiente, nem mais do que os outros. E claro que nem só nos livros se encontram estes saberes, nem possui-los nos dá grande autoridade. Por vezes, pessoas com uma bagagem que pretensiosamente julgamos pequena trazem dentro da trouxa tesouros de bom senso. Quando terminei o mestrado, recordo-me de o meu avô paterno me ter perguntado em que é que eu tinha ficado com esses últimos estudos, a que eu respondi, patetamente orgulhoso, “mestre”. E ele, que era um homem simples, de não muitas letras e que tinha uma carteira profissional de uma carreira administrativa qualquer que lhe dava como categoria “mestre de segunda classe”, comentou, com uma ironia meiga: “Então, andaste estes anos todos para ficar só igual a mim?”

Não, avô, não fiquei igual a ti, porque ainda não tinha acabado de ouvir tudo o que me tinhas para dizer, e muito há, do que me disseste, que só agora, com o passar do tempo, vou percebendo por inteiro.

domingo, janeiro 27, 2008

Um ataque pelas costas

Li isto, há dias:

“Os fundamentalistas crêem que os mercados tendem para o equilíbrio e que se serve melhor o interesse comum se se permitir que os participantes ajam em interesse próprio. Isso é um equívoco óbvio, porque foi a intervenção das autoridades que evitou que os mercados financeiros entrassem em colapso, não foram os próprios mercados. No entanto, o fundamentalismo de mercado instalou-se como ideologia dominante nos anos oitenta, quando os mercados financeiros começaram a tornar-se globalizados e os Estados Unidos começaram a sofrer um défice da balança de transacções correntes.”

Quem soltou este miserável ataque às virtudes do Mercado? Um jacobino, como está em Portugal incrivelmente na moda apodar quem tenha a veleidade de duvidar da bondade da mão invisível? Não! O Jerónimo de Sousa ou qualquer outra relíquia comunista? Também não! O fantasma do Lenine em pessoa, falando às tropas em transe pela boca de uma mãe-de-santo, nalgum terreiro de candomblé da Baía? Frio, muito frio…

Nada menos que George Soros, um dos tipos que mais cacau ganhou a investir em mercados financeiros, alcandorando a sua conta bancária à confortável posição de 80ª fortuna do mundo. Do género de menino que, apostando na descida da libra, vergou o Banco de Inglaterra. Um fulano que se o virem a enfiar-se por um buraco, vão buscar uma pá, porque ele não se está a enterrar: há dinheiro lá em baixo.

E é logo um tipo destes, e não um troglodita em quem seja fácil bater, que vem dizer estas coisas que lançam dúvidas maldosas sobre a omnipresença, a omnipotência, a omnisciência e a natureza una mas trinitária do Mercado. Que chatice! Que maçada para os senhores jornalistas económicos que, com as suas gravatas de seda e as suas dificuldades com a gramática, andaram sempre a dizer o contrário. É só rir!


Já agora, o artigo completo, que vale a pena ler para conhecer uma visão interessante sobre os dias que correm, saiu não no “Avante!” mas no “Financial Times” e pode encontrar-se em http://www.georgesoros.com/?q=worst_in_60years.

terça-feira, janeiro 22, 2008

O Lago dos Cisnes

Prólogo

De convites em punho, cristalizados que nem fruta do bolo-rei pelo vento de Dezembro à beira-Tejo, fomos andando na procissão das almas, na direcção dos Santos Porteiros. Marchávamos sobre um tapete vermelho, ladeado de velas da loja do gato preto que, bruxuleando ao sabor da intempérie, ameaçavam a todo o momento pegar fogo ao meu sobretudo. Labaredas enormes! Passados finalmente os picas, vimo-nos atribuídos os lugares prái 1480 e 1482 da quarta fila, com perspectiva dimétrica sobre o palco.


Primeiro acto

Apagam-se as luzes. Sobe o pano. Outro pano, branco com traços coloridos, representando aves ao longe, em formação de picada. O técnico de luzes diverte-se a simular a parte final do “2001 – Odisseia no Espaço”, metralhando o dito trapo com fotões variados. Os altifalantes vão debitando a abertura, Opus 20. Sobe o segundo pano. Aparece um gajo de “collants” aos saltos, com uma coquilha de jogador de râguebi a tapar a melhor natureza e uns glúteos de profissional. É o príncipe Siegfried. Vai entrando mais malta pelos lados, simpaticamente nas pontas dos pés para não acordar a minha cara-metade, que já ronca no 1482. O público, desconhecedor de que a peça se divide em actos para se poder aplaudir no fim destes, bate palmas por tudo e por nada. Os artistas aproveitam para parar a cada dois passos, avançando o torso em pose de Nureyev do Beato, gerando mais palmaria.

O Siegfried faz anos e os reais paizinhos dão uma festarola. Os paizinhos também estão de “collants”, mas com um “outfit” melhorado e umas carapuças importadas directamente do Espaço 1999. De prenda pelo feliz dia, o Siegfried tem direito a uma besta para ir aos patos. A besta vai das mãos do rei para as da rainha, do príncipe, do amigalhaço do príncipe, de uma pequena que lá estava ao pé e acaba por dar a volta à Companhia Nacional de Bailado. De cada vez, dador e receptor apontam simultaneamente para o peito e para a arma, com as mãos em pose de “Ai fofa! Não me digas!” e uma carinha de “Olha que bela besta!”

“But, no free bestas in life!” Os paizinhos querem que o Siegfried aproveite o evento para escolher uma gajinha para o tal e coiso e continuar a linhagem, já que é herdeiro do trono. Apesar de se contarem em palco para cima de vinte delas – algumas com visíveis dotes de dona-de-casa – o rapaz não se entusiasma, lançando dúvidas sobre a sua seriedade. Rodopia, saltita, corre, pula e vai mas é à caça do cisne, experimentar a besta.


Segundo acto

O Siegfried assesta a arma a um bando de cisnes, de saiotes e fru-frus brancos, e prepara-se para trepanar uma meia-dúzia assim que aterrarem. Mas um dos cisnes aproxima-se e deixa-o espantado, estado que nos é representado por uns olhos esbugalhados que nem uma garoupa e várias torções rápidas do pescoço. Afinal o cisne é meio-mulher, meio-cisne. Perante a aberração, o príncipe, que acabara de rejeitar vinte boas de borla há dez minutos atrás, revela o seu lado “kinky” e apaixona-se, extravasando o seu sentimento com pulos que nem um cabrito-montês.

A mutante informa Siegfried que se chama Odete e que também é princesa de profissão. Calha bem. Ficou naquele triste estado por causa de um feiticeiro mau, com nome de comandante de uma coluna de “panzers”: Von Rothbart. Os pais dela choraram tanto, coitadinhos, que as suas lágrimas formaram o Lago dos Cisnes, só ultrapassado pelo Mar de Alvalade. Ouvido isto, o Siegfried, que é tosco e acredita no que as mulheres contam, apaixona-se ainda mais.

Entretanto aparece em palco, com fanfarra e fumarada, o dito Rothbart. Traja “collant” e jaquetão preto e capacete integral ou coisa parecida, numa inspiração Darth Vader. Siegfried faz-lhe um daqueles números de Marvila, só que na ponta dos pés: “anda cá que eu te desfaço”, “agarrem-me que eu dou cabo dele” e outras do género. Mas Odete agarra-o mesmo. Se Rothbart morrer, o feitiço nunca mais será quebrado e ainda faltam dois actos.


Intervalo

Romaria ao urinol. Pinguins servem cafezinhos de saco. Tenho dezassete chamadas não atendidas e seis mensagens de voz de uma mesma amiga, desesperada ao partir um dente com uma trinca num bacalhau mal demolhado, azar só explicável por outra maldição do Von Rothbart. Regresso à quarta fila, enquanto apago da memória (não da minha) aquela orgia de esse-eme-esses.


Terceiro Acto

O príncipe regressa ao baile, que ainda verga ao som do DJ Pyotr T. O feiticeiro também lá vai, disfarçado, mas eu topei-o logo. Leva a sua filha Odília, que ele transformou para ser igualzinha à Odete, com nome de costureira e tudo, só que vestida de preto em vez de branco. O Siegfried, que além de estúpido deve ser daltónico, ou então que está com a cabeça à roda de tanto voltear, baralha-se e anuncia ao “party” que está apanhado pela Odília. Quando se apercebe do erro, ao ver a Odete lixada a deslizar em “pas de deux” para trás de um cenário, já é tarde demais.


Quarto Acto

Siegfried regressa à floresta enquanto prepara um discurso do género “percebeste mal, era só uma amiga.” Encontra a Odete e dá-lhe a tanga. Dançam durante um quarto de hora. Levo uma cotovelada cúmplice da minha mais-que-tudo a avisar que agora sou eu que estou a passar pelas brasas.

Na austera versão original russa, os dois amantes afogavam-se no lago dos cisnes, num “sepuku” aquático, convencidos da invencibilidade da maldição do bruxo. Nesta mais latina adaptação, o amor vence e o Von Rothbart cai nos fundos dos infernos, aproveitando um alçapão ao fundo do palco de onde saem umas luzes avermelhadas e os restos da máquina de fumos. Os nossos heróis, agora livres, já podem receber a ovação final do público.


Epílogo.

O momento mais cultural da noite. Ceia volante oferecida pela organização. Ultrapasso o Siegfried em destreza e elasticidade, gerindo prato, copo de vinho e dois talheres, só com duas mãos e em pé. Isto sim, é “ballet”!

sábado, janeiro 19, 2008

O socrático sucesso


“Se um homem for feito prisioneiro de guerra e não houver quem sustente sua esposa, ela deverá ir para outra casa, e a mulher estará isenta de toda e qualquer culpa.”
Código de Hammurabi, 1700 A.C.


Descia eu a Fontes Pereira de Melo na quinta passada. Uma cacimba espessa, anunciando chuva, convidava a um passo apressado. Em sentido contrário, uma senhora de idade, nitidamente nos setenta, subia a calçada. Ao cruzarmo-nos, abordou-me, numa voz sumida: “Desculpe, o senhor não se importava…” Estava bem vestida e arranjada, e por isso naquele segundo esperei um “…de me dizer onde fica a rua tal” ou um “… de me dizer onde se apanha o autocarro xis” ou meramente que me perguntasse as horas.

Mas não. Baixando os olhos, continuou, num tom que quase não se ouvia: “… preciso de ir à farmácia e não tenho dinheiro.” Quando nos voltámos a fitar, enquanto eu lhe dava uma moeda para a mão, reparei na sua expressão mista de vergonha e alívio. Murmurou um agradecimento e eu segui, ou melhor, escapuli-me, desgostoso. Tudo ocorreu em segundos, de forma discreta. Os fatos e gravata e os “tailleurs” que nos cruzavam nem deram por nada, no seu afã de eficiência satisfeita.

E eu, prosseguindo o meu caminho, perguntei a mim mesmo: “Que merda é que nós andamos a fazer?” Já não era a primeira, nem a segunda vez que encontrava esta mendicidade envergonhada, de mulheres e homens sós no fim de uma vida honesta, a quem a doença e o abandono tornaram os meses compridos demais. Onde andamos nós a falhar tão redondamente enquanto sociedade, para que esta mulher, esta avó de todos nós, se visse reduzida a palmilhar ruas à chuva, pedindo em voz baixa, empurrada pela necessidade, toldada pela vergonha do que pensa ser seu fracasso, quando o fracasso é nosso, total e miseravelmente nosso?

A grandeza de uma sociedade mede-se pela justiça com que trata os seus mais fracos. Deveríamos sentir tanto constrangimento em ver um velho a pedir como o que a maioria de nós desenvolveu em relação à mendicidade infantil. Há trinta a quarenta anos atrás, ainda me recordo de muita gente em pose de boa gente achar um facto da vida, vagamente lamentável mas certamente natural, que as crianças de famílias pobres pedissem na rua. Algumas até lhes chamavam umas malandras. Hoje em dia, se alguém assim pensar provavelmente terá vergonha na cara suficiente para o manter para si. E esta evolução do pensamento colectivo acabou por servir para, pelo menos, convencer a sociedade de que é sua obrigação gastar recursos a proteger as crianças.

Falta completar – ou reencontrar – um percurso mental semelhante para os velhos. Que deve começar por aceitar a velhice como um facto da vida (no fundo, todos esperamos lá chegar) e não dar uma carga negativa ao vocábulo. Esqueçam terceiras idades, idosos, faixas etárias avançadas ou populações seniores. Sénior é a equipa do Sporting e não anda a jogar um cartucho. Velhos! Com todo o respeito e veneração que a palavra nos merece.

Tudo isto se passou no dia em que um banco privado decidiu atribuir ao seu recém-despachado presidente do conselho de administração, quadragenário, uma pensão vitalícia, módica, próxima dos cem salários mínimos mensais. Provavelmente para que não o tivéssemos que ver, na Baixa, de fato cinzento e mão esticada, a implorar a caridade alheia, para um café ou um mata-ratos. O que seria incómodo.

Tal facto gerou comentário e um certo mal-estar até nos editorialistas mais acerrimamente pretenso-liberais. Espanta-me que não tenha causado maior revolta no grande público. Provavelmente as pessoas pensam que só se devem indignar com os desplantes públicos e não com os desplantes privados. Não é assim. Quer por razões éticas, que o Hammurabi, citado em epígrafe, já tinha percebido há quatro mil anos, quer por razões práticas, que só agora os teóricos da liberal economia começam a vislumbrar, tão notórios diferenciais de riqueza não dão saúde a ninguém. A cabeça da Maria Antonieta que o diga.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Os cumes

Texto já antigo, em antecipação da temporada de "ski" que aí vem.


A cadeira subia etérea
A sua estrada unifilar

Daquela amurada aérea
Os cumes a alvejar
Ao longe chamavam
Como sereias esvoaçando
Em torno de Ulisses regressando

O cabo em súbita paragem
Deixou-me suspenso
Da beleza da paisagem
Que soberba a Montanha
Como um Deserto ou o Espaço
Ou o longilíneo infinito dos Rios

Curioso é que tão absolutos vazios
Nos encham a alma de forma tamanha

sexta-feira, janeiro 04, 2008

A tentação esotérica

Cresci e formei-me num meio e numa época em que o racionalismo imperava.

Frequentei, desde pequeno, o Liceu Francês de Lisboa – a minha escola – uma escola muito laica, que nos ensinava que, da Revolução Francesa, interessavam mais as ideias que trouxe do que alguns excessos guilhotinescos, que o século XVIII fora das luzes da razão face à obscuridade da crendice e onde o sistema canalizava os melhores alunos para a área científica, onde um espírito cartesiano era condição essencial de sobrevivência.

Ao fim do dia, saindo os portões do liceu, deparava-me com uma sociedade portuguesa a viver um período “pós-vinte e cinco de Abril” em que a religião, basicamente a religião católica, aparecia associada ao obscurantismo salazarista. As estruturas religiosas existentes em Portugal andaram por isso uns tempos de bola baixa e o país aproveitou a deixa para mudar um pouco a sua mentalidade, especialmente na classe média dos meios urbanos. Debatia-se muita política, e cada um tentava levar o outro a mudar de ideias pela razão dos seus argumentos. Neste processo de mudança, a tecnologia foi muito valorizada – infelizmente mais do que o saber, mas isso é outra história.

Acresce que eu, em criança, lia muito sobre astronomia, física, evolução do homem e assuntos similares e, para mim, Deus encaixava mal naquilo tudo. Andei na catequese entre os sete e os dez anos e tudo o que me lá contavam parecia ilógico, afastado da realidade.

Na verdade, neste mundo de argumentos racionais, de maravilhamento com a ciência e as suas conquistas, de centragem na liberdade individual recém-reconquistada, havia pouco espaço para deuses e divindades. Acreditar em Deus era coisa de avós velhinhas e gente do campo. Se eu soubesse de um colega de escola que fosse crente, logo trataria de lhe fazer notar, com toda a arrogância, quão estúpido ele era ou desencaminhado andava.

Aquando do meu ingresso na universidade, quase todos os meus amigos, que tinham percorrido um percurso similar, eram como eu: ateus, convictos das suas razões, quando não anti-religiosos e anti-clericais.

Vinte e cinco anos passaram e algo mudou. Desse meu grupo de indefectíveis descrentes, mais de metade encetou um caminho a que eles chamam “espiritual”. Normalmente, não pelo regresso à nossa matriz cultural católica mas seguindo por uma via mais introspectiva, de procura pela diferenciação e de algum esoterismo. Um deles anunciou recentemente que vai passar quatro anos isolado do mundo num retiro budista, causando um choque de proporções cósmicas no pequeno universo dos seus amigos, que teve pelo menos a virtude de animar alguns jantares de natal.

Entretanto, eu fiquei na mesma. Talvez um pouco menos radical, porque leio os Evangelhos, o Corão ou ensinamentos budistas com prazer e consigo lá encontrar, por vezes, interessante filosofia, mas continuo ateu e racionalista. E assim sendo, em que acho esses meus amigos diferentes de mim?

Comecemos pelo ateísmo. Eu, como ateu, acho que sou e um dia vou deixar de ser. Não vai haver mais nada, nem consciências universais, nem almas para o paraíso, nem reencarnações em fauna exótica. Nada. Zero. Só umas moléculas por aí. E não é nenhum drama. A vida não deixa de ser coisa boa e continua a fazer todo o sentido. Pelo contrário: cada dia é uma dádiva, só que sem dador, e do que faço em cada dia posso e devo retirar gozo mas também utilidade, contribuindo para a melhoria ou maior perenidade de coisas maiores do que a minha modesta pessoa: o mundo onde vivo, a espécie a que pertenço, a cultura que partilho, a língua que falo, os valores que julgo importantes. Abster-me-ei de incluir nesta lista o glorioso Sporting, porque esse é imortal.

Não consigo deixar de pensar que os crentes não conseguem encarar bem de frente esta fria realidade. De facto, deve ser reconfortante pensar que algo continua depois. O que explica, aliás, o grande número de conversões à vigésima quinta hora, no leito de morte. O medo da morte é algo natural, provavelmente resultante, até, do processo de evolução por selecção natural: calculo que os bicharocos que ficavam, destemidos, a ver os tiranossauros a aproximar-se, deixaram menos descendência do que os cobardolas que se puseram a milhas em grande velocidade. Mas o facto do medo da morte ser natural não impede que o tentemos perceber e dominar, como fazemos ao longo da nossa vida com tantos outros receios.

A recusa da morte física poderia ser emblemática de um desconforto que esses meus amigos sentem com a realidade existente – tantas vezes difícil – e que os leva a deduzir que existe outra realidade, paralela à que é evidente, mas todavia mais perfeita e mais essencial. Essa realidade secreta oscila, consoante os casos, entre regras de funcionamento subtis mas mais poderosas (por exemplo, o equilíbrio “karmico”), que consubstanciam um universo afinal perfeito (a dor, o sofrimento, passam a ter uma explicação, ver mesmo uma razão de ser), até sociedades secretas e herméticas, que controlam a nossa existência, manietando-nos em nome de um bem ou de um mal superiores (neste caso, aquilo que para nós não faz sentido na sociedade aparente em que vivemos é explicado ou, melhor, legitimado pelos superiores interesses dos que secretamente nos controlam).




Para mim, o mundo real é o mundo real. Tem evoluído um pouco para melhor, com alguns altos e baixos. No entanto, paredes ou fronteiras meias com gente feliz, continuam a existir a fome, a guerra, a doença, a iniquidade. É um facto triste, mas tenho que reconhecer que é assim que as coisas funcionam. Consigo encontrar explicação para muitos dos desmandos políticos e sociais que observo no dia-a-dia na dinâmica de poder que se estabelece entre indivíduos e grupos, nas virtudes e sobretudo nos defeitos da humanidade e num ou noutro acaso. Não preciso de dados ocultos ou regras especiais para explicar o que vejo. Aceito, com pesar, que desgraças ocorram, por muito bem que nos organizemos. Não estamos a salvo de que nos morra um filho e que soframos durante toda a vida um sentimento de revolta e injustiça. A vida não é apenas finita, é também arriscada, mas é um risco que vale a pena correr.

Esta diferenciação entre realidade “aparente” e realidade “escondida” levanta um problema prático a esses meus amigos. A realidade “aparente” quadra bem com a realidade aparente, mas a realidade “escondida” não. A realidade “aparente” pode ser descrita por modelos ou medida por aparelhos. A ciência, o saber, são fontes de autoridade poderosas que validam a realidade “aparente”. Perante este problema, observo que são propostos dois tipos de solução: nuns casos, pretendem que a realidade “aparente” é forjada, em mais uma manipulação em proveito da tal sociedade hermética que nos controla; noutros, afirmam que a realidade “aparente” é incompleta, bem como as suas fontes de legitimação, sendo a realidade “escondida” mais global e atestada pela autoridade de certas personagens (mais sabedoras, mais clarividentes, mais experientes, mais perfeitas, mais felizes, em resumo, superiores).

Este é outro aspecto em que me sinto muito diferente destes meus amigos. A noção de que existiriam pessoas com uma autoridade especial que lhes advém de uma superioridade estrutural é uma noção que me horripila, para falar com franqueza. Pela simples razão que uma superioridade estrutural é incontestável. Quem o ataca só pode estar, por definição, errado e pode, no limite, ser calado. Esse limite tende, infelizmente, a ser atingido muitas vezes, como a História demonstra. Uma superioridade moral ou intelectual com um carácter estrutural, permanente, só pode gerar um sistema de ideias que seja fechado, no sentido que Popper deu à expressão, inacessível do exterior.

Na minha opinião, nenhum homem tem uma autoridade intelectual ou moral absoluta sobre outro homem, uma autoridade que não possa em dado momento ser contestada. Claro que existem pessoas mais sábias, mais ponderadas, mais inteligentes do que eu. Claro que faz todo o sentido ouvi-las com atenção e absorver o que têm para nos ensinar. Mas nada impede que eu possa ter razão, num determinado momento, num assunto de que pouco sei, contra o melhor dos especialistas. São as ideias que se confrontam, não as pessoas.

Vou mesmo um pouco mais longe, neste aspecto. Penso que o Homem só o é com as suas virtudes e as suas fraquezas. Cada um de nós pode alterar o seu comportamento, aprender com os outros, aproveitar as suas qualidades e mitigar os seus vícios. Mas será mais feliz uma sociedade em que saibamos controlar os nossos defeitos e perdoar os dos outros do que outra constituída por seres perfeitos, em constante beatitude.

Sobre isto, vem-me agora à memória um “videoclip” que estava a passar na TV do restaurante onde almocei hoje: “Jealous Guy”, do John Lennon. Se se recordarem, Lennon justifica o seu comportamento perante a amada invocando um defeito muito comezinho: “I’m just a jealous guy”. Daqui nasce a poesia: o que é sublime (o amor, o perdão) pode ser originado e justificado por um vício tão humano quanto o ciúme. Não teria um vinte avos da piada se fosse um guru qualquer a cantar “I did not hurt you and I did not make you cry. I’m just a perfect guy”.

Dito isto, amigos como dantes. E ao que vai quatro anos para o retiro: que encontres o que procuras e, se não, que voltes depressa.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Portugal dos pequeninos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando.
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.


Fernando Pessoa , in “Mensagem”


Nós, os portugueses, somos moldados desde pequenos num complexo de inferioridade terrível. Bem lá no fundo, sentimo-nos anões deste mundo, vemo-nos como um “Lilliput” à beira-mar plantado, cercado de gente que ganha campeonatos europeus, prémios Nobel e ordenados mais vultuosos.

Por isso, desde que me lembro, sempre nos vi a exacerbar qualquer sucesso internacional, por ridículo que fosse, como se de uma Aljubarrota se tratasse. Recordo hoje com um sorriso (amarelo) as figuras que em criança fazia a vibrar com as vitórias de Portugal em hóquei em patins sobre a Guatemala e afins, mais de quarenta a zero. Seguia liturgicamente estas proezas nas noites de Julho, de orelha colada ao transístor, com o comentador a atropelar-se a si próprio nos gritos de golo, urrados durante minutos. Quarenta a zero – que pátrio orgulho! Teve que ser o meu pai a pôr as coisas em perspectiva, lembrando-me que os guatemaltecos mal sabiam patinar e só lá estavam para que o campeonato, supostamente mundial, contasse com uns centro-americanos. E que o hóquei patinado, sendo uma modalidade apenas praticada num país (Portugal), numa cidade (Barcelona) e numa rua de San Juan na Argentina, não valia, portanto, a ponta de um papo-seco.



Havia quem fizesse piores figuras. Certa vez, um apresentador de telejornal relatou-nos, com entusiasmado ar de proeza, que Portugal conseguira um terceiro lugar no torneio triangular de atletismo Portugal/Espanha/Marrocos. Claro! Um terceiro lugar sempre soa melhor que último. Ainda bem que o conseguimos.

Quando o Futre foi jogar, nos anos oitenta, para o Atlético Madrid, sendo pioneiro no que constitui hoje um dos nossos principais produtos de exportação – artistas da bola – os nossos noticiários passaram a apresentar periodicamente uns “flashes” dos jogos dessa equipa, permitindo aos comentadores novas e até aí inimagináveis façanhas de exagero lusitano. Se o Futre marcava, o Atlético tinha ganho graças a um golo de Futre, mesmo que o resultado tivesse sido de cinco a zero. Se o Futre intervinha numa jogada bem sucedida, era a classe de Futre que estava na origem do golo: o caramelo que lá tinha ido cabecear no meio dos defesas, expondo os dentes à cotovelada mas metendo-a lá dentro, nem sequer era referido. Se o Futre tocara na bola três minutos antes de um golo, tratava-se de “um tento com a participação de Paulo Futre”.


Claro que optimismos tão patetas tinham que ter reversos de medalha, sob a forma de monumentais cacholas. E a nossa medalha até tinha mais coroas do que caras, numa geometria esotérica. Quanto tinha doze anos, assisti a altas horas da madrugada, num hotel do Carvoeiro, à final dos dez mil metros dos Jogos Olímpicos de Montréal. Todo o hotel estava na sala de têvê: empregados, clientes e penetras. Durante vinte e tal minutos, vibrámos com o nosso Carlos Lopes, cuja vitória, tal como a nossa confiança, se adensava a cada passada. Na última volta, porém, o finlandês Lasse Viren ligou os reactores, passou o nosso Lopes já entretido a voltar a meter os pulmões para dentro da caixa torácica e ganhou aí com uns bons cinquenta metros de avanço. Não me lembro, em toda a minha vida, de um silêncio tão sepulcral como o que então caiu, nem nos velórios menos concorridos. Nos dias seguintes, os jornais ventilavam rumores de que o Viren ganhara recorrendo a expedientes obscuros, no limite dos regulamentos e para lá de toda a ética desportiva. Falava-se de transfusões sanguíneas e oxigenação de glóbulos vermelhos. Oxigenação era o que o meu cérebro precisava, que me indignei a ler essas patranhas.

Consolámo-nos nessa altura com uma medalha de prata. Entretanto, as coisas foram piorando, porque os etíopes e os quenianos começaram vir às meias-dúzias e a limpar tudo o que eram maratonas e corta-matos. O orgulho nacional, na sua versão televisiva, logo encontrou solução para o problema: fulano tal, português, décimo terceiro na meia-maratona de Mangualde, foi o “melhor europeu” ou o “primeiro não-africano”. Como quem diz: à parte os pretos, que não contam, ganhámos. Que portento!


Vem-me tudo isto à lembrança agora que Lisboa está cheia de monumentais lonas com garrafais letras a dizer Portugal e brindando o povo com “retratos da Costa Oeste da Europa por Nick Knight”. Uma nova campanha, destinada a promover o bom nome português como costa ocidental da Europa, não sei se por referência a Fernando Pessoa, se como colagem à West Coast californiana.

Ao que é público, a dita campanha, anunciada debaixo das luzes televisivas com ministerial presença, pompa e circunstância, conta com um orçamento de três milhões de euros, trezentos mil dos quais para pagar ao Nick, que ainda se deve estar a rir a esta hora. Aliás, o ministro, inquirido por um jornalista mais perspicaz sobre a razão de pagar com dinheiros públicos trezentas mil broas a um fotógrafo inglês, revelou presença de espírito e sentido de Estado ao afirmar que não tinha nada a ver com o assunto, que perguntassem ao responsável pela campanha. Afinal, não era ele o responsável. É só um detalhe, mas fiquei sem perceber o que é que ele lá andava a fazer.

Continuando, não sei bem que público é o alvo desta campanha, se interno, se externo. Li que em parte será externo, em "revistas de prestígio", mas não deve ser campanha muito massiva, porque descontando o dinheiro para pagar por cá as lonas e os anúncios de revista, mais o cacau do Nick Cavaleiro e a festarola de lançamento, não há-de sobrar muito. Resta a hipótese, que vou explorar de seguida, disto tudo ser para nos fazer a nós, portugueses, festas no ego.

E de que nos devemos orgulhar, de acordo com a campanha? De alguns atletas, um treinador de futebol, uma fadista, um arquitecto, uma artista plástica, uma cientista. Gente certamente notável, que merece toda a nossa admiração, que conseguiu ser excelente entre os melhores do mundo nas sua área de actividade. Feitos económicos, como a maior central solar do mundo ou a presença na crescente indústria da energia eólica, efectivamente louváveis num país com uma economia frágil. Mas que não chegam para que Portugal seja o último dos exemplos. São, meramente, os Futres e os hóqueis dos nossos dias.

Se a campanha se destinasse a promover lá fora a marca Portugal, para atrair turistas e investidores, poderia ser útil, se fosse pensada e desenvolvida com esse propósito. Mas, sendo para dentro, que vende esta campanha aos portugueses? O orgulho de sermos compatriotas daquelas pessoas? Será que os etíopes também acham que vivem no paraíso na terra só porque o Haile Gebrselassie tem o recorde do mundo da maratona?

Cresceremos como país se nos dedicarmos menos à vanglória das nossas excelências e mais à correcção dos nossos defeitos. Foi aliás isso que tiveram que fazer muitos dos nomes que aparecem nesta campanha. Quando o Cristiano Ronaldo chegou ao Manchester, o Ferguson, que come vedetas ao pequeno-almoço, não lhe gabou certamente o jeitinho para dar toques sem deixar cair a bola. Pô-lo no ginásio a fazer músculo, deixou-o no banco enquanto ele não pôs o génio ao serviço da equipa, transformou-o num capitão. Corrigindo o que estava errado, preenchendo o que não existia, em três anos fez dele um dos melhores do mundo.

Com os países passa-se o mesmo. Mais importante do que gastar bom dinheiro a propagandear os circunstanciais sucessos de A ou de B, muitos deles só possíveis por que A e B trabalham no estrangeiro onde lhes dão condições de trabalho e de exigência, interessa corrigir as nossas lacunas, na educação, na saúde, na justiça, na atitude que como um todo temos perante a vida. Se os portugueses sentirem que os seus governos dão o litro nessa tarefa, terão algumas razões para estar satisfeitos. Se as coisas forem melhorando nesses domínios, terão motivos para alguma vaidade.

Por tudo isto, esta campanha acaba por ser, ao mesmo tempo, um desperdício de recursos e uma parolada. Uma fachada para pendurar nas fachadas. Um regozijo estéril, pago por todos nós e promovido por quem deveria investir-se em actividades mais úteis para o país.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A coisa está a aquecer

O jornal Público brinda-nos durante a semana, na última página, com uma curiosa secção chamada “Pingue-pongue”. Nela, um Rui Tavares, historiador, e uma Helena Matos, jornalista, alternam a desdizer-se e a digladiar-se, seja qual for o tema, para nosso sorriso e por vezes para nosso bocejo. O Tavares é suposto representar a “esquerda” e a Matos a “direita”. Ambos se entregam ao desempenho dos seus papéis com a sofreguidão própria de gente de ideias muito arrumadinhas, em prateleiras e gavetinhas, com muitas certezas à mistura. Acabam por isso a interpretar mais os estereótipos do que o pensamento, propriamente dito, de esquerda ou de direita.

Espreitando nas entrelinhas, vem-nos espontaneamente a imagem de um Rui todo sensível, de lágrima ao canto do olho perante as maldades do mundo, empolgando-se com multidões embandeiradas, usando garridas calças de algodão do Egipto e sandálias alemãs. Do outro lado, uma Helena muito mulher-macha, arvorando rigores de testosterona, indignada com as fraquezas de carácter do Estado social e as lamúrias mariquinhas dos bons selvagens que preferem a aspereza inútil de uma falésia algarvia a um bom golfe de nove buracos e mil e quinhentas camas.


Lenine escreveu que o esquerdismo era a doença infantil do comunismo. Lenine queria criticar certos comunistas, que de tão obcecados com a pureza dos princípios, perdiam puerilmente o sentido das realidades e a eficácia da luta política. Sem querer ombrear, pobre de mim, com o homem com a pêra mais célebre da história, eu acrescentaria que o direitismo deve ser a doença geriátrica do fascismo. O direitista debita, vai-não-vai, farrapos de ideias velhas, que emergem sem aparente noção da realidade, vindas de uma memória nostálgica e vencida, num autêntico Alzheimer de conceitos.

Obrigados a encher a cada dois dias três colunas de diário, com o cérebro espartilhado pelos esquerdismos ou direitismos que se impuseram, o Tavares e a Matos frequentemente assistem ao próprio pé a fugir para a chinela do disparate. Em menos de um fósforo, aí estão eles a pensar o impensável, agitando um chavão qualquer num vácuo de ideias, freneticamente, como as braçadas que dão os cágados virados de costas.

Há dias, a Helena pulverizou todos os recordes de idiotice, de regionais a interplanetários, atacando as preocupações com o aquecimento global – pelos vistos, uma inquietação esquerdista – com o seguinte e tranquilizador exemplo: na Europa Central, entre 1570 e 1630, três a quatro mil mulheres terão sido queimadas como bruxas na sequência de chuvas, secas e outras pragas que destruíram as colheitas da vizinhança. Donde, já havia desordens climáticas. Donde, não há azar com o CO2 que se anda para aí a debitar. “Quod erat demonstrandum”, versão Helena Matos.

Obviamente, a menina Helena não captou a essência do problema, que se resume nos seguintes passos:

1) Os políticos ou os ecologistas não inventaram o efeito de estufa. O efeito de estufa é um fenómeno conhecido, física e quimicamente bem caracterizado. O efeito de estufa já existia na altura em que os dinossauros andavam aí a contribuir para o problema, exalando dióxido de carbono e bufando metano quando a digestão lhes corria menos bem. O efeito de estufa sempre foi uma das componentes do equilíbrio termodinâmico da nossa atmosfera.


2) A teoria diz-nos que mais emissões de gases de estufa provocarão maior retenção de energia solar na nossa atmosfera e logo temperaturas de equilíbrio mais altas. Faço notar, em proveito das Helenas deste mundo, que a palavra teoria não tem conotações pejorativas. As teorias do electromagnetismo permitem ao pessoal ter luz lá em casa e as teorias da mecânica dos fluidos aguentam no ar algumas toneladas de alumínio, pintadas com as cores da TAP.


3) As grandezas da física da atmosfera apresentam, por natureza, uma enorme variabilidade, no espaço e no tempo. Temperaturas, precipitações, velocidades do vento, flutuam a cada dia, a cada mês, a cada ano. A nossa vivência transmite-nos essa experiência. A nossa memória, essa, funciona como um filtro, valorizando mais os acontecimentos recentes e, sobretudo, os valores extremos. Eu, por exemplo, tenho uma memória muito nítida dos dias dos meus exames finais de liceu, em que uma vaga de calor levou Lisboa acima dos quarenta graus, fazendo com que as meninas se apresentassem às provas de “cai-cai” e mini-saia. É uma imagem que, provavelmente devido ao calor, guardo num cantinho privilegiado da minha lembrança.


4) A matemática, por outro lado, aborda a evolução das grandezas meteorológicas de uma forma mais rigorosa do que a memória humana. Se pegar numa hipotética listagem com todas as temperaturas tiradas ao meio-dia no Terreiro do Paço durante cem anos, um matemático olhará para a sequência de números e colocá-los-á num gráfico para ver o aspecto da evolução ao longo do tempo. A temperatura andará num permanente zigue-zague, para cima e para baixo, sem uma lógica aparente. No entanto, calculando certas grandezas a partir daqueles números (médias, variações e outras mais complicadas), o matemático eliminará a informação que não interessa (a que se chama “ruído”) e encontrará a resposta a muitas perguntas: será que existem comportamentos que se repetem? Provavelmente, são as estações do ano. Será que existe uma tendência para as temperaturas no longo prazo, a mais de um ano, irem subindo? Uma inflação das temperaturas parecida com a que encontraríamos numa série de preços de um bem?


5) No caso das análises a variáveis meteorológicas, o tal ruído é enorme, dificultando a obtenção de conclusões com um grau de certeza muito elevado (as pessoas de ciência, contrariamente à Helena, gostam de graus de certeza elevados para poder tirar conclusões). No entanto, a análise feita pela grande maioria dos especialistas sérios aponta para que exista uma tendência nessas grandezas (subida das temperaturas, aumento do número de furacões por ano gerados por um mar mais quente, diminuição das área das calotes polares que derretem com um ambiente menos frio, etc.). Tendência que aponta para a existência de um aumento global da temperatura do planeta.


6) Existindo um mecanismo teórico que aponta para a existência do fenómeno, havendo números que sugerem que as coisas não estão de facto a correr muito bem, e sendo as consequências potencialmente muito chatas para os que vierem a seguir a nós, se calhar convinha fazer qualquer coisa. A menos que não nos importemos que os nossos descendentes apanhem o cacilheiro no cimo do Parque Eduardo Sétimo e que os futuros Sporting-Benfica possam ser interrompidos por tempestades de areia. Isto, para não falar aqui de coisas piores, como guerras pela água, fomes e outros cenários.

O problema da Helena está em não ter percebido que a ciência não se discute como se discute um conceito ético ou metafísico. A ciência discute-se pondo mais ciência em cima, contrapondo ciência, melhor ciência, à ciência. Se a Helena não quer fazer má figura, que trabalhe os dados, melhor do que os cientistas que o fazem. Ou então que se cale!

Por mim, estou moderadamente preocupado. Não me sabe bem que os meus netos nos venham acusar de lhes ter deixado para viver um forno onde se esturrica que nem na fogueira das bruxas, de que falava a Helena. Por outro lado, acredito que se pode fazer algo. Que o problema pode ser controlado ou invertido. Mas, como diria o meu avô, para ganhar a lotaria é preciso comprar um vigésimo. Ou, em linguagem do século XXI, para ganhar o Euromilhões tem que se depositar o boletim.

domingo, dezembro 09, 2007

Don't give up

Hoje, calhou ouvir isto:

Nesta terra de orgulho crescemos fortes
Sempre desejados
Fui ensinado a combater, ensinado a ganhar
Nunca pensei que pudesse falhar

Não há por onde lutar ou pelo menos parece
Sou um homem cujos sonhos desertaram todos
Mudei a minha face e mudei o meu nome
Mas ninguém te quer quando perdes


Não desistas
Porque tens amigos
Não desistas
Ainda não estás vencido
Não desistas
Sabes que podes conseguir


Embora o visse por todo o lado
Nunca pensei que me pudesse afectar
Pensei que seríamos os últimos a ir
É tão estranho o modo como as coisas mudam

Guiei toda a noite até casa
O lugar em que nasci, à beira-lago
Quando veio a aurora, vi a terra
As árvores tinham ardido até cair

Não desistas
Ainda nos tens a nós
Não desistas
Não precisamos de muito de nada
Não desistas
Porque algures há um lugar a que pertencemos

Encosta a cabeça
Preocupas-te demais
Vai correr tudo bem
Quando os tempos são difíceis
Podes volver a nós
Não desistas
Por favor não desistas


Tenho que sair daqui
Não aguento mais
Vou até aquela ponte
E olhar para a água
Seja o que for que me advenha
E seja o que for que parta
Aquele rio corre
Aquele rio corre

Fui até outra cidade
Esforcei-me por assentar
Por cada emprego, tantos homens
Tantos homens de quem ninguém precisa


Não desistas
Porque tens amigos
Não desistas
Não és o único
Não desistas
Não há razões para teres vergonha
Não desistas
Ainda nos tens a nós
Não desistas agora
Temos orgulho em quem tu és
Não desistas
Sabes que nunca foi fácil
Não desistas
Porque eu acredito que há um lugar
Há um lugar a que pertencemos




Cantado ao vivo, em Itália, por Peter Gabriel e Paula Cole.

Raramente vi o desemprego tratado de forma tão sensível – mas tão perspicaz – e olhado na perspectiva do lado de lá, o da surpresa, do desespero, da vergonha, da anomia e da cedência.

Peter Gabriel canta o problema. Paula Cole canta uma solução, que passa por fazer do mundo um lugar a que pertençamos.

Passe um certo lirismo, o que esta canção alerta, aos que têm a mania que são mais espertos, é que o sistema que vangloriam em nome da eficiência, enquanto temporários vencedores, não lhes vai perdoar no dia em que eles já não derem jeito.

E mesmo aqueles que, neste mesmo sistema, estarão sempre na mó de cima, a arrotar postas sobre a ineficácia e o esbanjamento que resultam da protecção social, mesmo esses não têm grandes razões para estar tranquilos. A história demonstra que atitudes construtivas do género “comam brioche” acabam por ser mal percebidas pelos ingratos destinatários e levam a que rolem cabeças. Literalmente.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Mataspeak faz um aninho

Faz hoje um ano, coloquei o primeiro texto num novo blogue: o Mataspeak. Reli hoje esse primeiro “post”, uma declaração de intenções sobre o que seria este espaço. Tenho que reconhecer que o Mataspeak evolui por caminhos diferentes daqueles que eu pensava inicialmente.

Uma coisa julgo ter cumprido: dizer o que penso, sobre o que me apetece e dar largas ao que vai dentro dos poucos centímetros do meu crânio. Ao fazê-lo, aproveitei para gozar o acto da escrita. Por vezes, peguei no microscópio e falei de coisas mindinhas, de importância aparentemente modesta. Noutras alturas, quis pretensiosamente mudar o mundo em três parágrafos. Numas e noutras, procurei partilhar questões que me fazem pensar com aqueles que me são queridos para que, sem que tivessem que concordar comigo, sobre elas reflectissem também. Tal deu origem a muitas conversas “a posteriori”, frente-a-frente, de copo na mão. Porque Mataspeak tem também sido uma casa onde os meus amigos me visitam, e as visitas retribuem-se.

Durante este ano foram quarenta e três entradas. Quase uma por semana, uma média pequeno-burguesa mas que ainda assim deu alguma satisfação. Aos meus maltratados leitores agradeço a paciência.


Contra as esperanças dos mais optimistas, Mataspeak vai continuar pelo segundo ano. E não, não vou mudar as cores: verde, branco e preto. Não quero saber que firam a vista. Só por estas cores é que vocês sabem porque não ficaaaam em caaaasa.

Três aparições de Kant num curral

Imagine quem me lê que uma mulher tinha dois filhos, um normal e outro que nascera com uma deficiência mental profunda. Posta nesta situação, adoptava o seguinte raciocínio: o meu dinheiro não chega para tudo; o meu tempo também não; mais vale por isso dar mais ao que é normal e que precisa de crescer bem do que ao outro que se calhar nem percebe o que se está a passar e que não tem grande futuro. E consequentemente, esta mãe canalizava os seus recursos e a sua dedicação ao filho são, deixando o outro mais abandonado, sacrificava por vezes a compra dos medicamentos deste último à satisfação dos normais caprichos de criança do primeiro, dedicava mais tempo a apoiar os trabalhos de casa de um do que a mudar a cama onde o outro jazia e assim sucessivamente. Mesmo que fosse verdade que a deficiência do filho doente fosse tal que ele nem sequer entendesse ou, no limite, que ele nem sofresse, que pensariam desta senhora? Aposto, singelo contra dobrado, que lhe chamariam monstro, com todas as letras.

Já todos vimos filmes em que um grupo de pessoas que não se conheciam se vê de repente atingido por uma catástrofe daquelas que os seguros não cobrem (naufrágio, incêndio no Empire State Building, fusão de um reactor nuclear, etc.). Em regra, nessas fitas, há sempre um ferido com alguma gravidade, de prognóstico reservadíssimo, que atrasa o grupo na sua fuga pela sobrevivência, reduzindo dramaticamente as suas já escassas probabilidades de sucesso. À primeira contrariedade, tipo desmoronamento ou explosão de gás, um dos personagens, sobre quem vai recair o ódio dos espectadores, diz algo como “se não o deixamos aqui, não temos qualquer hipótese”. O visado não pode deixar de concordar: “Ele tem razão. Safem-se vocês. Deixem-me ou morremos todos”. Claro que ele tem razão e todos o sabem. No entanto, o herói da história, contrariando o bom senso e as probabilidades, faz um “statement” do género “ou vamos todos ou não vai ninguém”, pega no ferido às cavalitas e desarvora por ali fora com os outros a reboque.

Perto do fim do filme, acontece sempre algum azar ao cínico que queria abandonar o outro desgraçado à sua sorte. Ou leva com uma viga de duas toneladas em cima ou cai por um inesperado poço abaixo, o que salva todo o grupo, numa espécie de “trade-off” cósmico. A morte do malandreco é celebrada mentalmente pelos espectadores, que pensam algo como “Querias deixar lá o outro não é? Bem que te lixaste”. Digam lá que não é assim?

Nas duas situações que referi, o que está em jogo é uma visão ética bastante vulgar nos seres humanos, independentemente do “background “ cultural, segundo a qual quando está em causa a dignidade, o sofrimento ou a vida de pessoas, o comportamento colectivo dos grupos nos quais essas pessoas se integram não deve resultar apenas de considerações de eficiência ou eficácia.

A grande maioria de nós vê como absolutamente errado que não se tente até ao limite salvar um ferido, mesmo num caso como o descrito em que, racionalmente, o comportamento oposto levaria a maximizar a esperança de vida de todo um grupo. De igual modo, a nossa condição humana leva-nos a esperar que uma mãe que se veja na situação inicialmente mencionada tenha, senão tanta, mais dedicação ainda ao filho doente, porque é o mais frágil. O facto de a criança poder nem ter consciência não altera esta nossa percepção. Pelo contrário, vemos como exemplos a seguir ou, até, heróis, aqueles que em situações como as citadas adoptam um comportamento que, podendo não ser o mais “lógico”, é o “correcto”.

Tentar salvar o nosso semelhante, não abandonar os mais fracos, são aquilo que Kant definia como “imperativos categóricos” ou seja actos sem fim instrumental, que se impõem por si próprios e que devem ser praticados incondicionalmente.

A concepção moral que lhes está associada é tão frequente que a biologia põe hoje a hipótese de o homem a ter desenvolvido de uma forma “darwiniana”: os grupos que tinham comportamentos que hoje vemos como nobres tinham melhores condições, a longo prazo, de sobreviver. Se assim foi ou não, para mim não tem importância. O que interessa é que a humanidade tenha conseguido criar e fazer perdurar um quadro de valores que não é puramente egoísta.


Veio-me esta lenga-lenga toda à cabeça após ler um artigo sobre a situação de crianças que, em Portugal, nascem com doenças raras, por vezes muito incapacitantes. Pais que pagam do seu bolso viagens ao estrangeiro para visitar médicos com a especialidade que em Portugal não há, usando os seus dias férias porque não têm qualquer apoio no emprego, com grande sacrifício, como se expiassem uma falta que não cometeram. Como sociedade, em que os ajudamos? Em nada. Estes pais foram abandonados por todos nós. Fomos andando para nos safar, que se fazia tarde, e ali os largámos à sua sorte. Portamo-nos como o filho-da-puta do filme, pensando mais na vidinha do que nas nossas obrigações. Pode ser que também acabemos debaixo de uma viga, antes da última cena. Não deixava de ser muito bem feito.

Para mais, nestes como noutros casos, não está em causa a maior ou menor probabilidade de morrermos todos. Está apenas em causa dinheiro. Paciência. Crescemos menos meio por cento ao ano. Investimos em menos uma auto-estrada. Vamos mais devagar. Não podemos é tolerar que sejamos uma sociedade que abandona os seus doentes à sua sorte, num “darwinismo” social repugnante.

Uma sociedade que não entende que também tem os tais imperativos categóricos, que nem tudo se traduz em entradas e saídas de orçamento, não é uma sociedade. É um curral.

sexta-feira, novembro 23, 2007

A vida eterna

Passados cinquenta anos
De mim
Que restará?

Uma fotografia esmaecendo numa prateleira
Com roupas de outra era
Numa felicidade passada
Decorando um “hall” de entrada
Entre um jarrão e uma salva
Com crianças a perguntar quem era

Talvez uma biblioteca,
Livros amarelecendo
Ocupando um recanto
Na casa de algum descendente
Que se lembrará que ainda existo
Quando diante de um livro surpreendente
Se admirar (Ele lia isto?)

Alguns genes, certamente
Aparecendo ocasionalmente
No desenho de um queixo
Ou no sorriso de um bisneto

Ao princípio, os mais velhos dirão
Sorri como o avô sorria
Mas chegará o dia
Em que os mais velhos partirão
E aí serei apenas sorriso e queixo
E, embora sendo, ninguém saberá que sou eu

terça-feira, novembro 20, 2007

O jornal do espanhol

No fim dos anos noventa, trabalhava na empresa em que eu trabalhava um colega espanhol, uma geração mais velho do que eu, que sempre representou para mim uma certa parte da Espanha. Bem-disposto, com uma costela marialva e algo fura-vidas, tinha no Real Madrid a principal paixão. Em política era “pêpista” – simpatizante do Partido Popular, anti-socialista, com um desprezo marcado pelos nacionalismos basco e catalão e, por arrasto, desconfiado dos próprios bascos e catalães. Também católico e monárquico, e lá no fundo saudoso do franquismo e da sua suposta ordem. Como muitos homens da sua geração, tivera familiares fuzilados durante a Guerra Civil, no seu caso pelos republicanos, o que explica em parte o seu modo de ver. Sempre simpatizei muito com ele, apesar das inúmeras turras profissionais que demos.

Todos os dias, este homem passava numa tabacaria antes do trabalho para comprar o diário madrileno ABC. O que é normal, porque o ABC pensava como este meu amigo: conservador, católico, monárquico, pêpista, anti-socialista, anti-regionalista e até anti-barcelonista nas páginas de futebol. Muitas vezes, passei no seu gabinete e folheei aquele grosso jornal, gordo de uma centena de folhas, pesado de inúmeros artigos de opinião.

Certo dia, o ABC do meu amigo tinha por primeira página, de alto a baixo, a fotografia de um homem velho, de melena branca. O título era “morreu Alberti”. Eu não sabia então quem era Rafael Alberti. Foi um dos grandes poetas espanhóis do século XX, e também jornalista republicano e militante comunista, exilado durante o franquismo.

Pois o ABC, diário conservador, católico, monárquico, anti-socialista e tudo o mais, dedicava – para além da primeira – as suas vinte e tal primeiras páginas à memória de um poeta comunista que morrera nesse dia! Pela simples razão que fora um dos melhores de Espanha. Nesse dia, recebi do ABC uma inesperada lição sobre nobreza de espírito. Na hora da morte, não interessava o que em vida o separara profundamente daqueles que, naquelas vinte e tal páginas, elogiaram postumamente a sua obra. O que importava, isso sim, era a poesia que deixava e que, sendo grande, fazia maior a Espanha.

Comparando com situações semelhantes em Portugal, onde maltratamos a nossa cultura e a nossa herança, onde deixamos passar em claro as efemérides que poderiam servir para festejar aqueles cujo génio é património de todos nós, onde somos suficientemente estúpidos ao ponto de dizer de fulano que até foi um bom poeta, mas que era comunista/homossexual/fascista/ou qualquer outro rótulo, a largura de perspectiva demonstrada pelo ABC surpreende. Dizia Oscar Wilde que não há livros morais ou imorais, só há livros bons e livros maus. No ABC e em Espanha, “lo tienen claro”, como eles lá dizem. Cá nem por isso.

Não consigo deixar de pensar que esta será uma das razões pelas quais a Espanha vai crescendo, enquanto nós vamos mirrando, alegretes e contentezitos.


Entretanto, li Alberti, o que muito agradeço ao ABC. Deixo aqui um poema para amostra, que poderia reflectir algumas das inquietações que sinto hoje em dia. Narra um género de preocupações e sentimentos que já não se usam e é por isso mesmo actualíssimo. Intitula-se “balada para los poetas andaluces de hoy”:

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero donde están los hombres?
Con ojos de hombre miran, ¿pero donde los hombres?
Con pecho de hombre sienten, ¿pero donde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parecen que están solos.

¿Es que ya Andalucia se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Qué en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quién mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?

Cantad alto. Oireis que oyen otros oidos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabreis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.

quinta-feira, novembro 15, 2007

As juntas

Li no outro dia que o ministro das finanças, Teixeira dos Santos, contrariou o veredicto de uma junta médica que mandara apresentar-se ao trabalho uma senhora com uma doença degenerativa grave. A tal junta médica – ou, melhor dizendo, uma junta de médicos, provavelmente em roda livre e desorientada, sem o peso da canga e a resistência da lâmina do arado – declarara-a capacíssima de trabalhar, mau grado o detalhe menor de ela não conseguir andar ou ir à casa de banho sozinha.

Corre aí uma moda, nesses ajuntamentos de doutores que decidem, soberbos, sobre a vida alheia, de mandar trabalhar paralíticos e ceguinhos, coxos e doentes terminais. Não vá o erário público ficar lesado. Quando não se controlam os zelotas, costuma infelizmente dar nisto. Consta até que decidiram cruzar as bases de dados da Segurança Social com a das Finanças, para ver se descobrem a morada de um tal Lázaro, que dizem que morreu mas que afinal parece que não e que até se levantou mas não se apresentou ao trabalho. Mais um simulador, com certeza.

Como o assunto envolvia médicos e seus disparates, a Ordem dos ditos e o seu rubicundo e reboludo bastonário preferiram não se meter. Depois de anos a ignorar quando os clínicos mandavam pessoal para o maneta, fecha agora os olhos quando mandam manetas para a secção de pessoal, apresentar-se ao serviço. Julgava eu que o interesse para a sociedade das ordens profissionais seria o de praticarem alguma forma de auto-regulação. Devo estar enganado. O propósito da Ordem dos Médicos será com certeza algum. Talvez publiquem uma revista, a quatro cores, ou organizem torneios de “bridge”. Coisas úteis.

Mas voltando ao caso concreto, devo dizer que tenho simpatia por este ministro. Parece-me do género de tipo para quem dois vírgula nove é diferente de três vírgula um e este último é certamente mais do que três. Género algo quadradão, reconheço, que não serve para animar um festival de “rock” de verão, mas que convém para a pasta das finanças. E que infelizmente não possuíam alguns dos seus antecessores, mais elucubrantes e por vezes esquecidos das lições liceais sobre relações de ordem no conjunto dos reais.

Acho também que, nesta situação concreta, o ministro, fosse pelas boas ou pelas más razões, esteve excelente. Li críticas que lhe foram feitas, que diziam que ao contrariar uma decisão médica por um acto administrativo, o ministro tinha inaugurado um perigoso precedente. Discordo totalmente. Quer pela vertente médica, quer pela vertente administrativa.

O argumento de que uma decisão médica é inatacável de forma legítima por um não-médico é idiota e é perigoso. Leva a que uma decisão médica seja inatacável, “tout court”, uma vez que já vimos que médicos não atacam outros médicos, nem que eles se esqueçam de um bisturi cravado no cerebelo de um paciente. Por isso o argumento é perigoso. E é idiota, porque quando os médicos, ou os serralheiros, ou os praticantes de gaita-de-foles, dizem uma cavalidade evidente, seria uma idiotice da nossa parte não dizer que acabámos de ouvir uma cavalidade evidente e aproveitar para os apodar de cavalgadura para cima. Lembra-me isto um “sketch” em que o John Cleese, interpretando um médico, afirmava ao doente: “A fractura do seu braço esquerdo...” O doente interrompia: “Doutor, é no braço direito!” E Cleese, com aquela expressão única de desdém britânico: “Cale-se, imbecil! Por acaso você é licenciado em medicina?”

Por outro lado, mesmo que a regra geral fosse não desautorizar juntas médicas, ainda bem que o ministro pensa pela sua cabeça e quebra as regras quando acha que elas não estão a cumprir a função para que foram desenhadas. Apesar da palavra “ministru”, em latim, significar “criado”, aquele que cumpre ordens, eu espero dos ministros que, entre a justiça e o manual de procedimentos, escolham a justiça. Que nos casos-limite, decidam em função do que está certo e não do que está escrito. E se alguém se sentir lesado, existem parlamentos, tribunais, eleições e todos os “checks and balances” de um regime democrático para impedir decisões abusivas, e que hão-de funcionar se tal for necessário.