Certa vez, num ditado em língua francesa, consegui acumular asneiras suficientes numa única palavra para levar logo ali com um zero sobre vinte. O professor, pai de uma coleguinha esquálida que sofria de baixas de tensão quando a interrogavam na sala de aula mas que era hipertensa nas festarolas de sexta à noite, tinha fama e proveito de tramado: cortava quatro valores por cada ocorrência que assinalasse na folha de ponto, com um frenético círculo vermelho, por mínima que fosse. Para além deste mau feitio, ainda era fanhoso e as palavras saíam-lhe coladas umas às outras pelo cuspo que se ia acumulando nas comissuras dos lábios, o que lhe dava um ar de buldogue em hora de refeição.
Recordo que era um texto de Camus, tirado do “Estrangeiro”, quando Meursault observa os seus conterrâneos passeando endomingados pela cidade. O feroz docente foi narrando nasalmente, enquanto circulava desconfiado entre carteiras. A dado passo, ditou uma frase que referia uns sapatos de biqueira quadrada – “des souliers à bouts carrés”. Só que eu, talvez na lua ou então confundido pela verborreia assalivada do professor, transformei a tirada em “souliers zaboucarés”, um adjectivo que me pareceu exótico e apropriado aos pezinhos da personagem. Resultado: levei menos quatro pelo “à”, outro tanto pelo “bouts”, idem pelo “carrés”, ainda quatro por inventar uma palavra que não existia e os quatro finais possivelmente como bónus para não ser parvo. Zero.
Bom! Com tais dotes linguísticos e posto perante o problema de ter que acabar os meus estudos liceais, vi-me na contingência de ter que adoptar uma estratégia adequada para as cadeiras humanísticas. Optei por aquela que o Paços de Ferreira utiliza com grande proveito no campeonato da primeira divisão: mais vale não perder do que perder. Lutei pois pelo mediano dezito e dediquei-me mas é às ciências, onde a frase mais complicada que precisava de escrever era “implica que”. E assim obtive meus canudos.
Entretanto passou tempo, o tempo que tudo cura, mesmo algumas faltas de jeito. Fui lendo, bastante, e escrevendo, um pouco. Pedia opiniões e forçava-me a corrigir. Diziam-me: “tens períodos muito longos e vírgulas a mais”. Escrevia e logo em seguida obrigava-me a retirar trinta por cento das vírgulas e introduzir o mesmo número de pontos finais, como se fossem objectivos de gestão. Fui colmatando as minhas lacunas ortográficas. Evoluí. Sem grandes conceitos teóricos, como os músicos que tocam de ouvido, até fui recebendo elogios pelos textos que alinhava. E assim cheguei aos quarentas, mais ou menos seguro dos meus efes-e-erres.
Há dias, li no jornal que o Brasil e Portugal iam finalmente pôr em prática um acordo ortográfico, celebrado nos anos noventa, que alterava quase dois por cento do léxico. Li, não sem alguma perplexidade. Então não é que é logo agora, que eu finalmente conseguia alinhar sem vergonha duas frases no papel, que aparece o raio deste acordo mudando, à má fila e sem avisar, a escrita de uma catrefa de palavras? Como diria o meu bisavô, posto perante a reforma ortográfica da primeira república: já me phoderam!
Corri a verificar as alterações. Não sendo realmente muitas, são de monta. Desaparece, por exemplo, o cê mudo. Logo, o acto passa a ato. Acho fraco e de pouco respeito para com um vocábulo tão simbólico, que usamos para significar o momento de grande pagode responsável pela nossa presença neste triste mundo, onde se mudam regras a meio do campeonacto. Digo, do campeonato. O cê do acto tinha um valor simbólico importante, representando as partes de um todo: afinal, os principais participantes no acto escrevem-se todos com cê no princípio. Todos os quatro, se não houver ninguém aleijado. A palavra acto tem uma pujança que não encontramos em ato, que é vocábulo que não ata nem desata. O cê do acto é mudo mas não está calado: o acto é mais akto do que ato. Um acto sem cê é um acto astrado, que não chega a ser onsumado.
E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.Será que os beligerantes, pondo fim à guerra, vão assinar um pato? Imagino os generais, aprumados e reluzentes nos seus uniformes de cerimónia, de caneta em riste, agarrando o marreco a quatro mãos para poderem firmar a rendição. Talvez exagere: não tenho a certeza que o acordo vá tão longe. Mas que o pê de óptimo também foi à vida, lá isso foi. Assim sendo, no final do ato poderemos passar a sussurrar, com enlevo, enquanto acendemos o tradicional cigarro: “querida, foi ótimo”.
Como afectará o acordo as marcas comerciais? Calculo que o X-acto passe a X-ato, isto no exato segundo em que o acordo entrar em vigor, que não sabemos bem quando é, já que exacto também vai à vida.
As alterações são variadas, e vão-nos permitir que quando viajarmos ao Cairo, na receção do hotel, o diretor (um corruto de mau aspeto) nos diga, perentório, que nos desertos do Egito não há catos mas há reptis.
Aparecem também muitas novas regras à volta do hífen. Uma consequente ironia histórica é que antissemita se passa a escrever com “ss”, o que não espanta ninguém.
E entram no nosso abecedário o dâbliu, o ípsilon e o capa, uma boa notícia para os polícias franceses, que vão poder usar képi, e para os amantes de finlandês. A possibilidade de poder usar o “k” com mais liberalidade agradará também à nossa digital juventude, grande consumidora de capas nas suas mensagens de SMS, que pode agora ansiar por um futuro em que o “esse-eme-essês” se torne língua oficial. Provavelmente, na reforma ortográfica de 2040, os “ke keres?” e os “kando axares ké pussível” deixarão de ser grandes asneiradas.
Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:“E que mais querya morrer em o provar, fazendo seu dever, que de tal guisa se partir, ca dos synnaes e ventuiras de boos hoomêes nom ham fazer conta onde fossem certos que obram dereitamente, mais devyam continuar ataa mais nom poderem. E que, nom embargando todas suas rezõoes, com a graça do senhor deos entendia filhar a cidade. E por sua merceee foy melhor que se podia peensaar.”
Que acham? Conversa de putos no Messenger entre Chelas e o Seixal? Não. É o nosso rei D. Duarte, escrevendo no “Leal Conselheiro”, explicando as razões que levaram seu pai, o rei D. João I, a arriscar a conquista de Ceuta contra a opinião dos seus … euh... konselheiros.

Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.
Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.
Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.
A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.
Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.
Divirto-me ainda a ler Literatura. Há de facto tipos que brincam com as palavras e as ideias com a graça e a segurança do malabarista, jogando-as no ar e deixando-as tombar no momento certo, no sítio certo. Para além da beleza deste movimento, muitos escritores são também dos melhores historiadores e dos melhores filósofos, oferecendo-nos uma visão da História e da Filosofia vista do interior da vida, com todo o seu calor e frenesim, que completa e contrasta com a percepção distante e fria que têm os que escrevem e estudam respaldados numa visão mais cartesiana e académica.
Já agora, o artigo completo, que vale a pena ler para conhecer uma visão interessante sobre os dias que correm, saiu não no “Avante!” mas no “Financial Times” e pode encontrar-se em 


Sobre isto, vem-me agora à memória um “videoclip” que estava a passar na TV do restaurante onde almocei hoje: “Jealous Guy”, do John Lennon. Se se recordarem, Lennon justifica o seu comportamento perante a amada invocando um defeito muito comezinho: “I’m just a jealous guy”. Daqui nasce a poesia: o que é sublime (o amor, o perdão) pode ser originado e justificado por um vício tão humano quanto o ciúme. Não teria um vinte avos da piada se fosse um guru qualquer a cantar “I did not hurt you and I did not make you cry. I’m just a perfect guy”.

O problema da Helena está em não ter percebido que a ciência não se discute como se discute um conceito ético ou metafísico. A ciência discute-se pondo mais ciência em cima, contrapondo ciência, melhor ciência, à ciência. Se a Helena não quer fazer má figura, que trabalhe os dados, melhor do que os cientistas que o fazem. Ou então que se cale!




Nada disto surpreende se soubermos que os canais Fox, pertencentes ao grupo News Corporation, de Rupert Murdoch, defendem acerrimamente a visão ideológica reaccionária de George Bush filho e da restante pandilha baptista do sul, inimiga da América liberal e democrática dos pais fundadores. Portanto, o peixe que estamos a comprar é exactamente aquele que a Fox nos está a pensar vender. Também não me surpreende que a TV Cabo sirva de banca ao peixe alheio. É um número de abaixamento a que em Portugal já estamos habituados.