sexta-feira, novembro 27, 2009
Exposição fotográfica (XXI)
segunda-feira, novembro 23, 2009
Exposição fotográfica (XX)
Este fim-de-semana fiz mais um curso de fotografia, já o terceiro, com o António Sá no Espaço João Sousa Valles, ao Restelo. Desta feita sobre fotografia de viagem. O António é professor por natureza, com o humor, a categoria, a sábia persistência, a proximidade, o prazer de dividir que só os grandes mestres põem no ensino. Sendo ele próprio viajante inveterado, nunca falha com uma boa história sobre a vertente humana que as suas voltas pelo mundo lhe vão permitindo descobrir. Nas suas próprias palavras: mais importante que as fotografias, são as vivências.
Quando em trabalho na Mongólia, onde passou dois meses a efectuar uma reportagem, o António pediu ao seu guia que lhe arranjasse, numa dada aldeia, muito pobre, uma família que o acolhesse durante uns dias para que ele visse como se vivia por essas bandas. Logo na primeira casa da aldeia, o assunto ficou resolvido. Não falava a língua deles, nem eles nenhuma que o António soubesse. Fotografou os hábitos dos seus anfitriões, partilhou as refeições, dormiu na divisão comum da casa, num canto onde por vezes lhe chovia em cima durante a noite, obrigando-o a mudar de sítio. De manhã, quando os mongóis viam o colchão num local diferente, faziam cara de espanto e passado um pouco António ouvia-os no telhado, tentando reparar a cobertura.
No último dia, quando António quis pagar a sua estadia, dando o mesmo dinheiro que lhe cobrariam num hotelzito noutro local da Mongólia, os donos da casa recusaram por mais do que uma vez, acenando com as mãos que não queriam. O António teve que insistir bastante até finalmente aceitarem esse dinheiro, pouco para os nossos padrões. Então, a mulher do casal pegou no dinheiro, saiu e voltou passado pouco tempo com umas botinhas para a sua filha, que até aí andava descalça.
Esta história diz muito sobre eles, mas mais sobre nós.
A aula prática foi na manhã de domingo, em Alfama, sujeita ao tema “um olhar diferente”. No fim de duzentos e dezoito cliques a minha selecção de cinco, para apresentar aos colegas e baseada no visionamento no LCD, foi a que se segue. Agora, depois de as ver ampliadas no ecrã, seria talvez outra.
Reflexo num Citroen DS, um boca-de-sapo, estacionado na Rua dos Remédios.
“Grafitti” em crioulo junto a uma laranjeira: no meu gueto manda quem lá está. Lembrou-me a do Marão, que mandam os que lá estão. Quando a maior parte dos “grafitti” não quer dizer nada, um que quer. Escadas entre a Rua dos Remédios e a Rua do Jardim do Tabaco.
Cores de Alfama em frente ao Beco dos Paus.
Um candeeiro, tradição de Alfama, na esquina da Rua de Santo Estêvão.
Nas vielas castiças de Alfama abrigam-se, ontem como hoje, dramas de solidão como o desta senhora, já visivelmente ébria, agarrada ao meio-dia a um litro de tinto, com o seu cãozinho preso ao banco. Uma vizinha passa e vai conversando, aceitando a situação como coisa habitual.
domingo, novembro 15, 2009
Ab equo ad asinum
The instrument (the telescreen, it was called) could be dimmed, but there was no way of shutting it off completely.
George Orwell, in “Nineteen eighty-four”
Para dar lustro a artigos e discursos, imprensa e políticos costumam referir-se ao cafarnaum em que vivemos como “sociedade da informação”. De facto, porque não? Ele é “Internet”, cem canais de cabo a acotovelar-se do ecrã para fora, “esse-eme-esses” a apitar ao minuto, caixas de correio electrónicas atulhadas com cinco mil mensagens para abrir quando um dia houver tempo, redes sociais que nos convidam para ser amigos delas, a TSF a lixar-nos o juízo logo pela manhã na fila de trânsito, a edição livreira a oferecer-se colorida nos hipermercados ao lado da banca dos espargos, os chatos dos “chats”, o tele-trabalho que nos persegue quando saímos do trabalho, música privada nos micro-auscultadores em passeios alucinados pela rua, jornais à borla nos semáforos e tudo o mais que vá passando pela cornadura do demo, que há séculos que não se divertia tanto.
O pessoal, com tanto brinquedo na mão, atrapalhou-se e fez confusão. Baralhou a “sociedade da informação” com a informação da sociedade e deduziu que andava informado. Erro grave. Anda muito menos informado que dantes, no tempo não tão longínquo das cabines telefónicas e da moeda para comprar o diário.
Define-se “sociedade de informação” como uma sociedade em que a produção, troca e manipulação de informação tem um peso económico, político e cultural relevante. E estamos claramente nessa. Uma parte muito importante do produto dos países mais abonados provém hoje de actividades económicas ligadas à informação. Os governantes e as oposições gerem a sua agenda em função de critérios informativos, que consequente e imediatamente se tornam critérios políticos. E em termos culturais, não haja dúvida sobre a relevância: ficar sem bateria no telemóvel gera hoje um pânico semelhante ao que teriam sentido nos tempos das Descobertas os náufragos agarrados a um madeiro quando percebiam que estavam a dez dias de nado da costa do Malabar.
No campo dos comportamentos, mudou-se muito e às vezes muito comicamente. Por exemplo, ainda temos no nosso vocabulário a expressão “andar a falar sozinho” para referir um tipo que não bate bem da bola. Mas hoje já não nos surpreendemos se o desconhecido que desce tranquilamente a avenida ao nosso lado de repente começar a debitar inanidades como se lhe tivesse partido um pistão no cerebelo. Provavelmente terá um auricular sem fios pendurado na orelha e o telelé no bolso e lá seguirá, ligeiramente errático, arriscando o atropelo nas passadeiras, falando por farrapos.
Outro efeito comportamental engraçado advém do sentimento de isolamento que estas traquitanas induzem. A malta pensa que está sozinha. Quando ouço um telefone a tocar numa mesa vizinha no restaurante, já sei que vou ouvir o que não me faz falta: de meras instruções para não esquecer de fazer a cama a picantes revelações sobre o modo como a cama foi desfeita. Tudo em voz muito alta, porque o ser humano se esquece que inventaram o microfone justamente para não ser preciso berrar.
Perante o cenário, apetece gozar com aquele anúncio da Zon Multimédia: “Lá em casa somos dois nhurros, três alienados e um jerico. Se podia viver sem esta bodega toda? Podia, mas não era a mesma a coisa.” De facto não era, porque informação e conhecimento não são a mesma coisa. Estar informado passa por perceber o que é central nas causas e nas consequências dos factos, por outras palavras por conhecer, por saber.
Ora o grande problema são dois. Por um lado, a transformação de informação em conhecimento não opera por milagre. Levar com a SIC Notícias no plasma da sala de espera do consultório, enquanto se aguarda pela broca do dentista, não nos informa só por si. Há que levantar o cu da cadeira, criticar a informação recebida, procurar outra se essa não servir, pensá-la. Por outro, a quantidade da informação hoje disponível parece inversamente proporcional à qualidade, que é muitas vezes miserável. Esta fraca valia da informação oferecida obriga a uma ainda maior iniciativa na procura da verdade.
A disponibilização maciça de informação, na “net” por exemplo, fomentou uma descida da nossa capacidade de selecção e, consequentemente, uma mais fácil divulgação do disparate. Antes, se eu quisesse saber qualquer coisa sobre plantio de couve-galega, procurava quem soubesse algo ou ia à cata de um livro sobre o tema e verificaria se o autor tinha algumas credenciais relevantes (ter canudo de agrónomo, por exemplo). Hoje farei uma pesquisa no “Google” e vou poder escolher entre 2,520 interessantes entradas contendo “plantio”+”couve”+”galega”. Naturalmente vou-me ficar pelas dez primeiras, que algum obscuro algoritmo binário decidiu por mim serem as mais relevantes. E poderei não ter a certeza se o que vem nesses “sites” é verdade ou mentira.
“Googlar” pode ser um exercício divertido, com resultados surpreendentes: a única visita que o “Mataspeak” recebeu de Angola foi de um senhor que queria saber – e “googlara” – “onde se vendem comprimidos de alfafa em Lisboa”. Acabou no meu texto “a porra da dieta” que contem, isoladamente, todas essas palavras. Ficou a conhecer as minhas angústias sobre os níveis de HDL mas continuou a zero sobre qual a botica alfacinha onde comprar tão salutares pílulas.
Para além de não corresponder sempre ao que nos interessa, a maioria da informação da “Internet” não presta, pura e simplesmente. Há tempos li num blogue que acompanho uma notícia sobre casamentos organizados pelo Hamas entre guerrilheiros barbudos e meninas de sete, oito anos. Na fotografia lá estavam eles de fatinho e elas de vestido branco, numa variante pedófila das noivas de Santo António. Pesquisei na rede e noventa e muitos por cento dos resultados do “Google” corroboravam esta horrível versão. No entanto, uma pequena minoria de “sites” apresentava uma panorâmica diferente. Tratava-se de um casamento colectivo entre membros do Hamas e viúvas de guerrilheiros mortos na última invasão da Faixa de Gaza por Israel, todas para cima de vinte e cinco anos. As verdadeiras noivas estariam vestidas de negro, assistindo à cerimónia em lugar diferente dos homens e as miudinhas eram familiares dos noivos. Os poucos “sites” que assinalavam esta menos odiosa versão pertenciam a jornais ocidentais. Muitos destes citavam um repórter do canal britânico “Sky”, que assistira e filmara a cerimónia. Os restantes, que propalavam convictamente a má natureza dos árabes que violam criancinhas eram na sua maioria blogues ou comentários, em grande parte anónimos. Na “net”, o erro tem a vida fácil, ao coberto da impossibilidade de tudo verificar. Concluo que na “Internet” funciona a máxima de Goebbels: uma mentira mil vezes repetida torna-se uma verdade.
Isto também ocorre porque as pessoas conferiram à “Internet” uma autoridade que ela não tem. Num dos meus primeiros “posts” mandei uns bitates sobre uma pintura de Brueghel, o Velho. Para minha surpresa, esse texto está no “site” de uma escola secundária, posto lá por uma professora de História, para proveito dos seus alunos. Muito me honra, mas sou tão especialista em pintura flamenga como em alinhar calçada portuguesa. Não teria sido melhor ir à biblioteca buscar um livro de história da arte escrito por alguém que percebesse?
Umberto Eco, no seu livro “A passo de caranguejo”, explica esta apetência por aceitar cegamente tudo o que sai de um “gadget” electrónico com o seguinte e curioso raciocínio. Segundo ele, a tecnologia ocupou nas sociedades modernas o espaço que a magia (ou a superstição) ocupava na Idade Média, ambas opondo-se, cada uma em seu momento, à ciência. A tecnologia (e antes a magia) proporcionariam visões fáceis e apetecíveis sobre a realidade. A ciência, o conhecimento, em todo o tempo implica esforço e é por isso mais chata.
Mas isto não pára aqui. Em paralelo, talvez porque a formação dos jornalistas e a sua preocupação com a verdade se tenha deteriorado, talvez porque as circunstâncias do mercado mediático a isso obriguem, a qualidade da informação prestada pelos meios ditos “sérios” (jornais de referência, telejornais) também vem fraquejando. Hoje, os jornalistas parecem orientar-se mais para um negócio de gestão de expectativas dos leitores e espectadores do que para uma honesta tentativa de aproximação à verdade. A notícia passou a ser desenhada em função do eco que vai encontrar nos destinatários. Por isso, cada vez é mais “sound byte” e “slogan” e menos conteúdo e raciocínio. Antes isto chamava-se sensacionalismo, mas temo que o termo mais correcto já seja fascismo mediático.
Poderia apresentar como exemplo o modo como o mito da gripe A se constrói diariamente na televisão: as pessoas querem medo, dê-se-lhes medo. Mas vou usar outro, ocorrido em 2008, quando se verificaram tumultos no Tibete reprimidos pelas autoridades chinesas. Na televisão e na maioria dos jornais a versão era “chineses maus reprimem tibetanos bons”. Citava-se a opinião do Dalai-Lama como notícia verdadeira e a versão contrária do governo chinês como notícia falsa confirmadora da notícia verdadeira. Isto é típico. No mercado ocidental da informação, a cotação do PC Chinês é baixa, na minha opinião de forma mais que merecida. Já o Dalai-Lama cota muito alto: representa um povo ocupado por tipos antipáticos que busca a auto-determinação, tem aquele ar avozinho, emana exotismo oriental. Está nitidamente na moda. Nunca ninguém lhe pergunta se instauraria no Tibete um regime teocrático como o que lá estava antes dos chineses ou se se submeteria a eleições correndo o risco de passar o poder para um não-iluminado. Também não interessa: o Dalai-Lama é um refúgio confortável para as boas consciências ocidentais. Ora a versão oficiosa parecia-me pouco convincente. Fui por isso à procura do que se teria passado. Consegui encontrar, em “sites” de jornais neozelandeses e australianos as versões de jornalistas que tinham testemunhado os acontecimentos “in loco”. Aparentemente, os tibetanos tinham orientado a sua fúria contra tudo o que apanhassem pela frente que fosse diferente: população chinesa local, minoria muçulmana, agredindo e inclusivamente matando. Por outras palavras: racismo puro e duro. Afinal, os tibetanos, quando em turba, comportam-se como os outros. Muito pouco conveniente face ao que as pessoas estariam à espera e por isso simplesmente silenciado pelos “media” que julgamos muito livres.
Neste mundo mais de ruído que de verdadeira informação, que fazer então? Desconectar-se da rede, lançar o telemóvel pela janela, ir morar para uma cova nas serranias? Não. As tecnologias de informação são o nosso presente e o nosso futuro. São ferramentas utilíssimas de trabalho que podem promover riqueza, gerar conforto, fomentar arte e salvar vidas. Temos simplesmente que perceber que não lhes devemos mais consideração que a um serrote ou uma chave-inglesa. E que a luxuriante era de informação abundante e disponível ao toque de um dedo não nos alivia da tarefa de pensar e procurar a verdade. Pelo contrário. Neste admirável mundo novo, podemos ser mais capazes mas também mais facilmente seremos manipulados se nos pusermos a jeito. Por isso temos para com nós próprios uma obrigação de ser mais críticos, de procurar mais, de pensar mais, de ler mais, de estudar mais. Em suma, de agir mais. De ser mais exigentes. Senão, andaremos de cavalo para burro mais depressa que julgaríamos possível.
Tive um professor no Técnico que nunca usava a palavra “computador”. Dizia-nos: “agora, é só usar a máquina estúpida”. Lição verdadeira e magistral: por muito sofisticada e glamorosa que pareça, a máquina tem que ser estúpida e nós temos que ser inteligentes.
E, de vez em quando, desligar tudo e passear de mão dada à beira-mar.
sexta-feira, outubro 30, 2009
Um dia numa vida
I read the news today, oh boy
The Beatles, in “A day in a life”
Pela manhã, entrando no prédio onde trabalho e uma colega vestida de negro saindo. A um velório: uma amiga a quem morrera o filho, vinte e oito anos, assaltado numa caixa de Multibanco, projectado ao chão, três dias de coma e um fim inglório logo a começar o meu dia.
Subo ao meu piso e sobre uma mesa encontro um DN. Na capa, ilustrando o atentado da véspera em Peshawar que matara uma centena de pessoas, uma fotografia de uma das crianças vitimadas. Um homem carregava o pequeno corpo alquebrado, um homem velho de ar atarantado, não sei se pai, se parente, se apenas um gajo perdido no meio da confusão a quem tocara naquele dia sobreviver para carregar um miúdo morto nos braços. Pensei mostrar aqui essa imagem mas não a encontrei na “net”. Provavelmente ainda bem.
Na caixa ao lado, noticia-se a morte da primeira criança portuguesa vítima da gripe da moda, trágica e involuntária vedeta por uns dias: se saudável ou já doente, se assistida a destempo ou não, se e se e se… Se ao menos interessasse… Penso: não se estilhaçou já o sentido disto tudo, não se rasgou já o universo ao meio? Vezes e vezes sem conta por esse planeta fora e ainda são só nove e tal da manhã.
Olho pela janela. Na Rotunda, vistos de cima, os carros circulam concêntricos num simulacro de ordem. O frenesim do trânsito chega coado pelo vidro e pelos oito andares de altura. À minha volta gente afadiga-se, circulando de papéis na mão ou teclando metodicamente, olhando para um ecrã. Algures na memória de um computador longínquo, acumularam-se “bits” importantes que me estavam ao que parece destinados. Respondo a essas mensagens. A propósito de uma, falo ao telefone em “portunhol”. De outra, calculo uns números. Outra ainda, preparo uma reunião. Penso: curioso como a caixa de correio electrónica me chefia mais do que as minhas chefias.
Durante estas tarefas continuo assombrado pelos fantasmas sem cara dos três rapazes. Em momentos assim sinto-me grato por ser ateu. Sempre é mais fácil aceitar que o mundo se construiu ao acaso, estúpido e caótico, como uma cidade de castelos de cartas que se desmoronam com um sopro mas em que vivem pessoas que talvez ilogicamente desenvolveram uma aspiração pela felicidade. Penso: o que deve ser mesmo insuportável, dolorosamente insuportável, é encaixar os acontecimentos da manhã nos conceitos de omnipotência, bondade superlativa e sei lá mais o quê de um criador qualquer. Só por masoquismo.
Saio para a minha reunião, subindo a pé a Fontes Pereira de Melo. Penso: hoje estou vivo e bem e quem eu amo também e devo estar grato por um dia assim. Por cada dia assim. Por não ter nascido em Peshawar e por não me deslocar ao mercado para morrer esfacelado ou carregar um morto nos braços, correndo como um louco, salpicado de sangue e carne. Por ter um almoço à minha espera antes da reunião, que pagarei com um cartão de plástico e não com anos de vida. Por viajar para o estrangeiro na TAP e não nos caminhões de caixa fechada dos engajadores. Por ser razoável esperar que os meus filhos, já entradotes, me verão um dia partir com o sentimento de que foi porreiro.
Tenho a minha reunião, numa mesa comprida demais. Parecemos formigas num pau de gelado. Corre razoavelmente. Saio para dar uma aula. Corre bem: vejo caras interessadas, ao princípio inquisitivas, depois serenas. De vez em quando um riso abafado, o riso dos vinte anos. Sinto-me útil pela primeira vez no dia. Talvez mesmo na semana. Regresso ao trabalho a pé. Cruzo-me com muita gente. Penso: estatisticamente, todas jantarão hoje, nenhuma morrerá de malária, a maioria tomará um banho de mar no verão ou entrará num café num dia frio do próximo Inverno para gozar uma bica quentinha; também estatisticamente, umas quantas andarão a ansiolíticos, procurando a infelicidade ao virar de cada esquina de Lisboa. Para tal, mais fácil em Peshawar. As pessoas são estranhas, cantava o estranho Jim Morrisson.
Volto para casa. Cruzo-me com o vizinho de cima. Um tipo óptimo, que não dispensa um sorriso e um bacalhau, apesar de não sabermos bem o nome um do outro. Que aproveita os seis pisos de viagem do elevador para falar em vez de olhar para os pés ou para o tecto.
Durante o jantar, assisto a Mário Crespo a entrevistar António Lobo Antunes. Contrariamente a Saramago, que está mumificado, Lobo Antunes está velho, optimamente velho. Com uma humanidade de eleito, fala como escreve. Diz a frase que vale o dia: “Tenho que viver com os meus amigos que já morreram. É uma responsabilidade fazer com que eles vivam dentro de mim com dignidade, com a mesma dignidade com que viveram fora”. Mais ou menos isto. Penso: no meu pai. Comovo-me um pouco, mirando os restos de salada que ajardinam o fundo do prato.
Dou uma volta pela casa. Um dos rapazes lê Vítor Hugo, resignado, pressionado pela data de um teste, iminente. Abençoados testes que velam pela vitória de Hugo sobre Horatio Caine, que à mesma hora ajeita os óculos escuros após mais um crime desvendado no AXN.
Sento-me ao computador, coloco os auscultadores, oiço o “Sticky Fingers” dos Stones, escrevo este estado de alma. A dado momento, no “iPod”, Mick Jagger canta o “I got the blues”. Comovo-me outra vez, desta vez com direito a lágrima ao canto do olho e tudo.
Penso: o vizinho de cima, Lobo Antunes, Mick Jagger. Nestes tempos pouco bíblicos, os anjos andam à paisana.
sábado, outubro 17, 2009
Vidas difíceis
Hoje, caiu-me no meio dos megabaites da caixa de correio uma oferta de emprego. Assistente administrativa, liceu feito, inglês e espanhol davam jeito. Dinamismo e forte sentido de responsabilidade. Não sabia que o sentido de responsabilidade se podia graduar.
Claro, o dinamismo! Qualquer anúncio de trabalho exige dinamismo, nestes dias “stressados” em que por assim dizer vivemos. Nem que seja para faroleiro ou sentinela no palácio de Buckingham. Na realidade, a palavra dinamismo está lá para duas coisas: lembrar ao candidato que é para bulir, por pouco que paguem, e dar da empresa uma imagem mundana. Uma empresa que não exija dinamismo deve sentir-se atacanhada. Como se não tivesse “Internet” ou máquina de café na copa. Pedir dinamismo faz cóceguinhas ao ego corporativo.
Continuando, oferecia a fartura de cento e quarenta mocas brutas, o vezeiro subsídio para galão e croquete às treze e (parte melhor) a integração numa empresa sólida. Nestas coisas dos empregos, convém às empresas reclamar-se da solidez. A solidez duma companhia é como a frescura do peixe. Se não constar, é que nem vale a pena. Então porquê oferecê-la como se fosse parte do vencimento?
Requeriam currículo e foto. Como quem diz: se ostentares cara de garoupa, nem mandes os papéis. Adicionalmente, como se vê pelo a no fim de administrativa, não se supõem rapazes para o lugar. Gajas girinhas, portanto. Podiam pôr por extenso. Facilitava a vida a toda a gente.
Exigiam-se doze anos de escola mas não mais de quarenta de existência. Talvez por ser quarentão, este último género de requisitos irrita-me. Pensem melhor. O que diriam de um anúncio de emprego que, numa linha, explicitasse “religião católica ou equivalente” ou “baixo teor de melanina na cútis” ou “orientação sexual certinha” ou ainda “anti-comunismo primário exigido”. Para além de anti-constitucional, ficava com um ar estranho, não era? Então, por que carga de água deveríamos engolir sem partir tudo limites de idade deste calibre idiota? Alguém me explica porque se dão as empresas ao direito de alardear que não vão aceitar empregar pessoas que não se encontrem no primeiro terço do seu percurso profissional?
A resposta é, como na anedota do cão contorcionista, “porque podem”. Porque as deixam. Porque não têm medo. Dizia Patton, sobre os seus soldados, “I only hope to God they never lose their fear of me”. Quando as empresas perderam o medo de infringir os limites da decência é sinal que não andamos muito bem comandados.
Nesta mesma linha de constatações, suicidou-se anteontem o vigésimo quinto trabalhador da France Telecom, empresa que introduziu a lixação periódica da vida pessoal como método de gestão de recursos humanos. Vinte e cinco cadáveres depois, vi no telejornal o presidente da companhia, Didier Lombard para vergonha do seu nome, a tartamudear para os microfones, branquinho de medo de perder o lugar como aconteceu com o seu vice-presidente, que manifestamente teve que pôr a cabeça no cepo para acalmar o ambiente. Mas pelo menos este já está com medo. Sempre é um começo.
Não creio, mas se calhar sou ingénuo, que as vidas desses homens que protestaram com a corda na garganta ou a lâmina nos pulsos valham o aumento dos lucros de fim de ano, se por acaso os houve, o que duvido. Na realidade, a France Telecom até se viu obrigada a acrescentar à demonstração de resultados o custo com cem novos assalariados contratados para gerir o “stress”. Mais uns milhões de euros por ano, para abrirem os olhos: proveitosa política de gestão de pessoal.
Mas nem tudo é injustiça neste vale de lágrimas que calcorreamos. O tal Didier Lombard até podia ser um gestor bem posto e bem parecido e o cosmos pareceria desequilibrado, com o “yin” e o “yang” todos pendurados para o mesmo lado. Mas não. Por sorte, é um sapo, um fulano de ar nojento como os lodos industriais ou a papada do Alberto João, ainda por cima com a pesporrência do francês das “grandes écoles".
Desculpem lá a maledicência, mas o sacana não merece menos e hoje é – ou acabou de ser – sexta-feira à noite.
domingo, outubro 11, 2009
Beggar State Thief
Nesta semana, uma reportagem do telejornal no campo militar de Santa Margarida, por ocasião do dia da Defesa, prendeu a minha atenção. O meu avô paterno trabalhou em Santa Margarida, no pessoal civil. Pelos meus dez anos, mais coisa menos coisa, num dia solarengo de verão, levou-me consigo pela manhã para uma das mais memoráveis jornadas que tenho na lembrança. Viajámos num autocarro militar que recolhia pelas terras da vizinhança um misto de tropas e civis de boca bocejante e olhar ensonado. Lá chegados, confiou-me a um grupo de soldados, com os bigodes e as patilhas da época, para uma volta pelas instalações:
- Esteja descansado, senhor Mata, a malta cuida dele.
E assim cuidaram. Pendurei-me em cordas no campo de treinos, macaqueando a distância segura do chão, visitei o interior de blindados, carregando em tudo o que era botão e quase caí ao chão arrastado pelo peso de uma G3 que me atiraram para os braços magricelas, rindo-se:
- Então, pá! És homem ou não és homem?
Eu, ser, queria, mas nunca imaginei que uma metralhadora pesasse tanto. Uma manhã em cheio, mas o melhor estava para vir. Próximo da hora de almoço, antes de me devolverem ao meu avô que por essa altura carimbaria requisições numa secretária não muito distante, passámos nas camaratas onde cada um tinha, junto à cama, um cacifo metálico, cada cacifo com sua porta, cada porta forrada no interior de alto a baixo com fotografias de mulheres nuas.
Senti-me invadido por um aprumo marcial como até então não experimentara. Perante o meu ar basbaque, os magalas gozavam:
-Olhó gajo…
- Em Lisboa não vês tu disto, pá!
- Ó pá! Ainda não conhecias isto, pá?
Percebi pelas deixas que tinha que pôr uma expressão entendida e balbuciei um “já, já”, tão baixinho quanto mentiroso. Mas por muito indiferença que arvorasse, o rabo do meu olho não descolava dos recortes colados com fita-cola, tanto que tive que ser levado pelo braço até ao meu avô: “Vamos, pá, já chega!”
No regresso no autocarro, o meu avô ia inquirindo sobre a manhã:
- Então, gostaste? Viste tudo?
- Vi tudo, avô – respondi, a minha mente ainda fixada na porta de chapa dos cacifos.
Foi meio-distraído por estas memórias longínquas que assisti à peça sobre os treinos militares, as participações nas missões de paz no Kosovo ou no Afeganistão, as dificuldades orçamentais. Sobre esta última questão, a jornalista foi revelando algo que me deixou quase tão varado como, na altura, a visão das fotografias com que os soldados se consolavam da solidão do quartel. Para fazer face aos encargos financeiros, a unidade contava com os rendimentos de uns eucaliptos e de uns sobreiros que existem no seu perímetro, bem como de seis rebanhos de cabras que por ali vão pastar.
Se isto é verdade, estamos no grau zero de tudo e mais alguma coisa. Uma situação destas diz muito sobre o estado a que o Estado chegou.
Vendo pela vertente cómica: a continuar assim, a Academia Militar poderia ser integrada em Agronomia com as correspondentes sinergias. Um exército que apascenta cabras não precisa de aprender estratégia ou balística. Basta-lhe saber os básicos da ordenha. A militares que exploram sobreiros não interessam conceitos tácticos ou psicologia militar, desde que consigam extrair o corcho sem ferir a árvore. Podiam tentar o trigo: a tropa que alguns acham uma seca deve-se dar bem com culturas de sequeiro. Os pátios de armas darão excelentes eiras e os mancebos, em vez de treinados para andar à bulha, aprenderiam as técnicas da debulha. Consigo imaginar, daqui, novas patentes adaptadas aos novos tempos: primeiro-tenente pastor ou alferes-ceifeiro. A Armada, essa, podia dedicar-se à pesca. E a Força Aérea a puxar ao longo das praias, durante a época estival, bandeirolas anunciando concertos do Tony Carreira e saldos no Ikea, para garantir o pagamento do pré.
Mas olhando pelo lado sério, que é o que deve ser, temos a vertente trágica: este é apenas mais um exemplo da degenerescência que o Estado português vem sofrendo, asfixiado pela incapacidade de se reformar e por aquelas ideias idiotas que proclamam a morte e a maldade absolutas do Estado, absorvidas sem espírito crítico por políticos e periodistas, só porque outros lá fora dizem igual e porque cai bem com a gravata de seda.
O Estado tende hoje a ser mendigo ou ladrão. Por vezes pedincha, como quando vemos os bombeiros nos semáforos, de rifa em punho, batendo aos vidros dos condutores. Outras gama, como atestam certos aspectos de fascismo fiscal ou a caça à multa da EMEL ou as dívidas escabrosas a fornecedores. Noutras, simplesmente circunda a lei, como faz com os milhares de trabalhadores que o servem sem perspectivas e sem direitos, anos a fio a recibos verdes. Noutras ainda, pelos vistos, pastoreia gado caprino, o que sendo um labor honesto não será propriamente a sua vocação. Toda esta situação não é nem moral, nem saudável.
O Estado é um conceito complexo e multifacetado, em termos de ciência política, mas numa democracia não deixa de ser, ou de dever ser, uma emanação de todos nós, povo ou nação. Não é por isso moral que uma entidade que nos representa dê o primeiro exemplo de falcatrua. Sempre que o fizer, será um convite ao fartar da vilanagem.
Como dizia, não é também saudável: um Estado fraco acaba por gerar um “nós” fraco. Não quero com isto dizer que o Estado tenha que ser prepotente ou intrusivo. Existe um espaço para ele e outro para o indivíduo. Um Estado excessivo, seja soviético ou populista, fascista ou teocrático, é sempre uma emenda muito pior do que o soneto. O Estado não tem por exemplo que se meter na esfera moral individual, nem no da iniciativa económica privada. O espaço do Estado é o das funções que só colectivamente se garantem e se justificam: a defesa da segurança será uma delas, a salvaguarda dos mais desmunidos será outra, a vigilância sobre o respeito dos direitos básicos de todos, outra ainda. O espaço que um Estado fraco não ocupa rapidamente se vê preenchido por outras estruturas, muitas vezes com a pecha de não serem eleitas. E quando menos damos por isso, a regra passa a chamar-se “lei do mais forte”.
Claro que haverá aqueles que defenderão, sobranceiros, o cada um por si e ganirão que o Estado atrapalha muito. Mas, enfim, ser civilizado não é congénito. É uma decisão reflectida que uns adoptam, outros não.
Obviamente, todos os Estados possuem defeitos, porque são homens que os fazem, e anacronismos, porque os tempos mudam. Precisam, como certas casas, de permanentes melhorias. Mas é melhor fazê-las do que morar na rua, à mercê da intempérie. Que o digam os milhões com contas em bancos a quem os Estados recentemente safaram a pele.
Em Portugal, as mudanças que o Estado necessita assustam pelo volume. Nalguns casos, só mandando abaixo para construir de novo. Muitas regras básicas de gestão deverão mudar. Só para citar duas, uma simpática e outra não, deveria ser muito mais fácil premiar o mérito e despedir aqueles que abusam descaradamente, que ainda são uns quantos.
Escolhas terão que ser feitas: devemos discutir que dimensão queremos para as nossas forças armadas, que tipo de serviço devem prestar, etc. Podemos até chegar à conclusão que não as queremos de todo e entregar as chaves da nossa defesa no palácio da Moncloa (o que eu acharia um pouco arriscado). Mas tomada essa decisão, que os meios necessários sejam dedicados à sua implementação e que esta não esteja dependente do número de litros de leite que as cabras decidiram dar ou do preço do estere de eucalipto.
sexta-feira, outubro 09, 2009
Exposição fotográfica - Edição especial Roma - Às compras!
L'embarras du choix.
Tirada numa Sportzone? Não: numa loja de lembranças religiosas, na Via di Porta Angelica. Pois...
O verdadeiro mercado negro de malas Louis Vuitton, D&G, etc...
Venda de material refundido dos tempos da guerra fria.
Sob a foice e o martelo, vai de tudo: Lenine, Estaline, Obama, Eisenhower, Mussolini e uma loura não identificada.
Carnaval de Veneza a quinze euros.
Vendedor de castanhas na Piazza Navona.
Momento da saída dos estúdios de José Sócrates e Manuela Ferreira Leite após o debate que... Não! Enganei-me: loja de brinquedos na Piazza Navona.
Manifestação de luvas fascistas no aeroporto de Fiumicino.
Os Beckham a vender roupa interior em Fiumicino.
quinta-feira, outubro 08, 2009
Exposição fotográfica - Edição especial Roma - Vaticano
À entrada da basílica de São Pedro, recorda-se aos homens que não podem entrar de fato-de-banho de alças.
Detalhe da estatuária da praça de São Pedro.
Fonte na praça de São Pedro.
Japonês entalado na cúpula da basílica.
Praça da cidade leonina, mesmo contígua à praça de São Pedro. Temos o Bento, temos a praça, mas nem assim há milagres!
Castelo de Santo Ângelo, versão postal.
Membro dos Diabos Vermelhos, em tarefa condigna com as suas capacidades.
Exposição fotográfica - Edição especial Roma - Roma papal
Esperando o papa: clube motoqueiro na Praça de S. Pedro. Quando aquele, dirigindo-se "urbi et orbi" lhes agradeceu, retribuíram com ruidosas aceleradelas que encheram a praça. O motor de explosão continua a ser uma dádiva divina.
Esperando o papa: Guarda suiço e turista norte-americano, trocando impressões sobre sítios para comprar roupa às riscas.
Esperando o papa: Pedro, o primeiro, assistindo e Bento, o último, rezando missa.
Esperando o papa: Nas lojinhas, bentinhos do Bento a dez euros. "Jesus entrou no Templo e começou a expulsar os que lá vendiam. E disse: "Está nas Escrituras: a minha casa será casa de orações. No entanto, vós fizestes dela um covil de ladrões"." Este São Lucas era cá um lírico...
Finalmente, o papa. Ou alguém com o mesmo "outfit".
Dentro da basílica, magnífica estátua de Eugenio Pacelli, "aka" Pio XII, bronze sobre mármore lampião.
Um papa, duas horas e quinhentos e vinte degraus depois, a papal praça desenhada por Bernini.
terça-feira, outubro 06, 2009
Exposição fotográfica - Edição especial Roma - Roma Barroca
Esplendor do Barroco: Abside de Santa Maria Maggiore com baldaquino de Ferdinando Fuga.
Esplendor do Barroco acabado de ser aspirado, ainda em Santa Maria Maggiore.
Esplendor do Barroco: Fontana di Trevi de Nicola Salvi.
Rodando um pouco a câmara para a direita, temos cinco mil macacos sedentos de esplendor do Barroco.
Esplendor do Barroco: aparente "rave" em redor do baldaquino de Bernini na basílica de S. Pedro, sob o qual só o papa pode rezar missa.
Mais esplendor do Barroco: Fontana dei Quattro Fiumi de Bernini, na Piazza Navona.
Pombos cagando autenticamente para o Bernini e para o esplendor do Barroco na Fontana dei Quattro Fiumi.
Exposição fotográfica - Edição especial Roma - Roma Antiga
O Fórum visto de oeste, no meu melhor esforço tipo postal.
Imperador Tito em palco no edifício da Cúria.
Ainda na Cúria, Vespasiano e outros cabeçudos com cara de "boxeur".
Transcrição de Suetónio que nos lembra o fim que teve o imperador Domiciano, que mandou restaurar o edifício da Cúria. Pode-se concluir que a "vaporização" de que falava George Orwell em "Mil novecentos e oitenta e quatro" não foi invenção dele. Pelo contrário: é de todos os tempos em que haja fracos e cobardes que a usem como arma.
A dimensão da arquitectura antiga continua a impressionar-nos: o pódio e duas colunas do Templo de Saturno põem no bolso a igreja de Santi Luca e Martina.
Templo de Castór e Polux (parte sobrante).
Coliseu (por fora).
Coliseu (por dentro).




