sexta-feira, setembro 25, 2009

Bora sondar!

Os leitores mais distraídos ainda não terão reparado que está aberta no Mataspeak uma sondagem sobre a orientação de voto dos “matareaders” para as próximas eleições.


Até agora votaram seis leitores, com os seguintes resultados: três votos no Sócrates, dois que estão a pensar ir à praia nesse dia, faça chuva ou sol, e um apoiante de um dos pequenos partidos extra-parlamentares.


Se esta sondagem correspondesse à realidade, com 33% de abstenção, o PS obteria 75% dos votos expressos e ao exceder os dois terços poderia mudar a seu bel-prazer a constituição da nação.


O que eu não faria com esse poder nas mãos! O Benfica ia logo para a segunda distrital da Associação de Futebol de Lisboa, que é onde devem estar os clubes de bairro. Nomeava o Alberto João palhaço pobre, para variar. Proibia as senhoras que moram para lá da estação de Algés de usar o vocábulo “você”, sob pena de trabalho comunitário na Pedreira dos Húngaros. A licenciatura em filosofia passaria a ser indispensável à obtenção do alvará de taxista. Pelo menos metade da actual quota de um terço de mulheres em posições elegíveis nas listas para a assembleia da república tinha que ser… euh… jeitosa – perguntem como se faz ao Berlusconi; do tipo Ana Drago não chega. Quem ousasse sequer propor outro aldeamento com golfe a menos de novecentos quilómetros da costa portuguesa seria condenado a passar quinze dias na jaula dos gorilas do zoológico, vestido com um saiote cor-de-rosa e decorado com uma peruca com tranças loiras no cimo do coco. O Medina Carreira ver-se-ia intimado a ter um pensamento positivo, sobre assunto à sua escolha. Aquele João Pedro Pais que canta com “voz” de quem está a tentar resolver a maior das prisões-de-ventre calava para sempre o bico, para sossego de todos. A Patrocínio passava a tirar o caroço à própria fruta, dito sem maldade. Nomeava a Manuela Moura Guedes chefe de redacção do Portugal Socialista. E desculpem a “private joke”, quando saíssem ao meu amigo pêbê mais de dois trunfos, as cartas voltariam a ser dadas.


O PS não tem revelado muita imaginação e por isso talvez se atesse a coisas mais miúdas, como uma revolução bolivariana, à imagem do camarada Hugo, com distribuições de Magalhães nas escolas, partidarização do aparelho de Estado, ataques à classe média e outras coisas que sabemos distantes deste cantinho à beira-mar plantado.


Felizmente para todos, a “matassondagem” deve ser um disparate quase tão grande como as outras, até porque com uma amostra de seis unidades a margem de erro andará nos oitenta por cento para o habitual intervalo de confiança de noventa e cinco por cento, assim contas de cabeça.


Preciso pois que o leitor colabore na melhoria da significância destes resultados. Pode votar aí à direita, ou posto de forma mais politicamente neutra, do lado do ecrã que fica do mesmo lado que o Japão no mapa-mundo. Quando vir o mais belo emblema do mundo, desce um bocadinho mais e é aí. Só escolher e clicar: vote!


Com esse simples gesto, pode inclusive ajudar no meu processo de decisão: é que a três dias do dia dê, ainda não sei em que quadrado vou pôr a minha cruz. Sei, por outro lado, em quem não vou votar.



No Portas feirante não pode ser de todo. Por um lado, porque o populismo fácil e as carinhas de suficiência sorridente provocam-me refluxo gástrico. Por outro, porque se fizesse uma coisa dessas o meu velho pai haveria de voltar do além para me chagar a cabeça, com toda a razão. No reino animal, o meu pai só tinha horror a cobras e ao Paulo Portas, não fazendo grandes distinções entre as duas categorias. Certa vez, bateu-lhe à porta uma menina de uma empresa de sondagens e ele prestou-se a responder. Uma das questões prendia-se com a imagem dos políticos. Chegado a Paulo Portas, a moça, de esferográfica em punho, inquiriu:


- Bom, médio ou mau?

- Não tem péssimo? – perguntou ele.

- Não – respondeu ela, surpreendida.

- Então ponha mau – suspirou, resignado.


No Bloco de Esquerda também não dá. As questões fracturantes impressionam pouco e fracturam menos. Por mim, o que um, dois ou meia dúzia de adultos acham por bem fazer livremente no recato de quatro paredes é lá com eles: que lhes faça bom proveito. E nesse aspecto, a sociedade portuguesa moderna é razoavelmente tolerante e evoluiu extraordinariamente em trinta anos, surpreendentemente sem precisar da ajuda do Dr. Louçã. O máximo que poderá ocorrer em Portugal será alguns idiotas soltarem umas bocas. Existem muitos outros sítios, da Rússia ao Sudão, da Arábia aos Estados Unidos, da Guatemala à Nigéria, em que a diferença é corrida à pedrada, perseguida nos empregos e nos tribunais, marcada com chibatadas, etc.


E o referido Louçã soa muito a seminarista para o meu paladar. Ainda gostava de o ver com uma dúvida, só para ficar mais sossegado. Estou sempre à espera de ver aquele peito abrir-se e sair de lá um extraterrestre de superior bitola, peganhento e de olho de mosca, anunciando o domínio dos terráqueos pelos zorgons ou coisa que o valha.


O Bloco foi giro quando era pequenino e fofinho como o são os pintainhos. Agora cresceu, cantou de galo e acordou-nos para a realidade do que se propõe se acaso chegasse ao poder.


O terceiro que não vai certamente ter a minha cruzinha é um tal MMS, “Movimento Mérito e Sociedade”. Fui surpreendido no IC 19 por um cartaz destes senhores apelando à castração química. Ora a última vez que a castração teve honras de questão nacional foi em 1985, durante a exibição da novela portuguesa “Chuva na areia”, quando a personagem Caniço, interpretada pelo actor Nuno Melo, decidiu cortar a gaita em sinal de arrependimento – um pouco extremo, convenhamos – por um mau passo sentimental. Um gesto que à época comocionou a nação, melhor dizendo, metade da nação.


Um quarto de século depois, o assunto mais importante que estes MarMeloS trazem a terreiro é a capadela de pedófilos e violadores. Não há traseiro para tanta latitude política, embora haja um aspecto que não deixa de ser inovador. Existem partidos rurais, na Escandinávia e na Polónia; partidos islâmicos, no mundo muçulmano; partidos étnicos em vários sítios do mundo; partidos católicos ou cristãos; partidos nacionalistas; partidos hebraicos; partidos operários e até um partido dos utilizadores da Internet, na Suécia. Mas só em Portugal é que há um partido de e para betos parvos, que cuida dos seus pequenos fantasmas de burgo, e esse partido é o MMS, se olharem com cuidado.


À frente desta aberração cromática feita movimento político, encontramos um professor universitário, o que acaba por ser uma bonita homenagem ao ecletismo e à pluralidade da Academia, que até imbecis destes consegue abarcar.



Fora estes três, todos os outros estão na corrida, até a Carmelinda Pereira. Domingo decidirei.

domingo, setembro 20, 2009

O baile da tripeça


Acho que este texto não vai adicionar nadinha à minha popularidade, especialmente entre senhoras do sexo feminino de um certo escalão etário, que me guardo de revelar.


A ocorrência em causa foi um evento dançante promovido no “site” cujo “link” flutua aí à direita do texto, dedicado a antigos alunos do meu liceu, cônjuges em enésima núpcia com ene entre zero e ene, e outros acompanhantes e amigos.


O dito “site” congrega mais de três mil ex-estudantes, entre os dezassete e os setenta e sete anos de idade, que a escola já tem uns anitos. O facto notável esteve em que, apesar de a festa ser aberta a todo esse universo, os que apareceram também já tinham uns anitos. Regra geral, com o numeral das dezenas acabado em “enta”.


Nada que a organização não pressentisse, porque instruiu os dijéis para pôr música dos anos oitenta – Olha! Outro “enta”! E tenho a impressão que lá representado por uma ou duas convivas…


E eu que, embora não pareça por – dizem – estar bem conservado, já arrasto também um “enta” como uma canga ao pescoço, lá me dirigi ao Bar do Rio, ao Cais do Sodré, um espaço simpático entalado entre a velha estação e o marulhar do Tejo. À entrada, o porteiro, com o fato preto e o cabedal que caracterizam a classe, explicou-me que o bar estava aberto até às duas da madrugada e que a partir dessa hora deveria utilizar um cartão com dez casas para preencher e pagar à saída. Duplamente optimista, o rapaz. Tendo em conta o tal “enta”, às duas estava eu a contar ir fazer ó-ó e se algum dia bebesse sequer metade do cartão seria levado para casa numa furgoneta amarela com sirenes azuis.


De cartão em punho, penetrei o antro para constatar uma casa bem composta, mas longe das expectativas iniciais. No “site”, só antigos alunos de inscrição confirmada eram muito mais de cem, o que, com os previsíveis acompanhantes, levariam a assistência certamente acima dos duzentos. Na realidade, andaríamos nas oitenta pessoas. Mas ameaçar grandes números que depois não se cumprem na íntegra é outra característica dos “entas”, que as senhoras do sexo feminino de um certo escalão etário, que me guardo de revelar, por amarga experiência decerto saberão.


No entanto, há males que vêm por bem. O número de presentes era o ideal para o espaço e para as características do ar condicionado, permitindo respirar e circular à vontade. Circulei pois, e a outra coisa que logo verifiquei foi a tal predominância de zero vírgula cinco – ou mais – idade: quarentas, cinquentas, sessentas, seten… (acho que me estou a esticar). Via-se uma ou outra de vinte, mas fiquei com a impressão que vinham na condição de filhas, senão mesmo de enfermeiras.


A indumentária dos “entas” revelava duas estratégias diferentes. Eles, quase sem excepção, trajavam calça de ganga e camisa aberta no peito, muitas vezes com a fralda de fora, mocassins, ténis, ou sapatos de vela, para dar um ar casual de garoto, maldosamente contrariado pelas cãs e pelos volumes abdominais. Assim andava eu também, embora, como referi já, um pouco melhor conservado. Elas, mais realistas, aperaltaram-se em maioria como quem vai uma festa (e por acaso até era), com “toilettes” todas refinadas e esforços titânicos para encaixar aquilo tudo, naquela táctica de “entas, mas com muito ainda para dar ao futebol”. Nalguns casos, com certo sucesso.


Houve prodígios de engenharia. Uma amiga “enta”, cujo nome começado por cê não vou divulgar, conseguiu com “wonderbra”, botas pretas com um metro de cano, vigas de madeira, troços de armadura e uma saia que metade era o elástico da cintura, desencantar nela uma boazuda com umas trancas que eu, que já a vi na praia, não suspeitava que existissem.


O escurinho da pista de dança também ajudou um bocado a disfarçar as marcas do tempo. De noite, todos os gatos são pardos. O pior são aquelas luzes estroboscópicas que, potentíssimas, alumiavam as dançantes com uma clareza crua e reveladora, mesmo que durante décimas de segundo. Nesses momentos, a rapaziada, já naquela idade em que o músculo cardíaco tem que ser tratado com carinho, corria o risco de uma síncope quando o “flash” do estroboscópio expunha de surpresa a verdadeira identidade daquela silhueta de menina que dançava ao nosso lado. Um efeito parecido com o saudoso comboio-fantasma da Feira Popular, cujo trajecto se fazia no mais completo negrume e de onde de repente, encostadinhas ao vagão, apareciam umas carantonhas iluminadas que arrancavam gritos de terror à pequenada.


Os “disc-jockeys” não tiveram uma noite feliz. Como dizia um amigo meu, não deve ser fácil a um tipo que nasceu no fim dos anos oitenta pôr música dos anos oitenta. Não me imagino eu, por exemplo – e apesar de estar bem conservado, como não sei se já disse – a pôr música dos anos cinquenta e sessenta. Ia buscar para aí o António Machin ou o Domenico Modugno: volareeeee… Por isso, os dois rapazinhos encarregues do som, postos diante de uma clientela um pouco diferente da habitual, davam uma no cravo e outra na ferradura, com passagens incríveis, de “new wave” para “disco” e vice-versa, saltando do ambiente “cyberpunk” do Billy Idol para o realejo do “Eileen”, das histórias da treta electrónicas dos Human League ao abanar de cabeça ceguinho do Stevie Wonder, num serpentear descontrolado que parecia o de um bêbado à noite na auto-estrada, varrendo as três faixas.


Mas, com brancas ou sem elas, com mais rugas ou menos, melhor arreado ou com ar de balda, o pessoal estava ali para se divertir e acabou por gozar uma noite bem passada, com alegres reencontros (“Há tanto tempo!”) e grandes mentiradas (“Estás na mesma!”).


Esta última só verdade quando dirigida a mim, que estou bem conservado.

sábado, setembro 19, 2009

A liberdade do criador

Aviso: se não viram “Sacanas sem lei/Inglourious basterds” de Quentin Tarantino e se querem ver, não leiam este “post”. Guardem no congelador para mais tarde. É para não saberem o fim do filme.


Como poderão adivinhar se já leram o aviso – e se não leram vão ler – assisti no domingo transacto ao “Inglourious basterds”. Gostei. Valeu o sacrifício de ter que aturar os vinte minutos de anúncios, a projecção daquele vídeo irritante com as recomendações da Lusomundo (deitem os papéis no caixote, lavem as mãos antes de ir para a mesa e outros paternalismos), o desconforto das “soi disant” poltronas e, sobretudo, as manadas de ruminantes que me cercavam com baldes gigantes transbordantes de pipoca, mandibulando como se não houvesse amanhã.

Abrindo um (

Para quando uma sala de cinema para não-pipocadores? Quando poderemos outra vez assistir a um filme num espaço que não se pareça com uma manjedoura, as narinas assaltadas por um cheiro feirante a óleo de enésima fervura, os ouvidos massacrados pelo mastigar simultâneo de centenas de grãos de milho?

E em abono da justiça, se a Lei persegue os fumadores, porque não os pipocadores? A pipoca tem sal e gordura, provoca hipertensão e colesterol e vicia mais que o tabaco. As crianças iniciam-se na pipoca cada vez mais cedo. Deviam colocar nos baldes de pipocas avisos tarjados de preto a prevenir: “a ingestão de pipoca em excesso pode provocar a queda de órgãos que façam falta” ou então “comer esta trampa faz um mal danado à saúde”.

Fechando o )


Falava eu da fita. Ocorre durante a Segunda Guerra e a partir do meio do enredo montam-se não um mas dois “complots” para assassinar, num sessão de cinema em Paris, Hitler, Goering, Goebbels e Bormann, todos de uma só vez. À medida que o filme vai evoluindo, começa-se a verificar que a coisa até pode funcionar. Passei por isso os últimos trinta minutos a interrogar-me como é que o Tarantino ia manobrar para tirar os quatro chefes nazis daquele entalanço, uma vez que obviamente não podiam quinar ali, sabendo-se como se sabe que Goering se suicidou na prisão em 1946 e os outros morreram na queda de Berlim, um ano antes.

Chegados ao fim, Tarantino foi genial e eu fui idiota: o golpe funcionou e Hitler, Goering, Goebbels e Bormann bateram a bota ali, em 1944. Muito simplesmente.

De regresso a casa, dois pensamentos volteavam dentro da minha cabeça. Primeiro, que uma função da arte é dar-nos lições de liberdade. Segundo, que nós, quando queremos, somos muito limitados, para não dizer grandes totós.

Sobre o primeiro: o mundo físico tem regras e fronteiras; a imaginação do criador não. Não há mais razão para que um filme copie a verdade histórica do que para que um pintor se cinja a fazer cópias fotográficas de uma paisagem ou para que um escritor se limite a meras reportagens. Não há mulheres com gavetas no corpo e Dali pintou-as. Nem fadas e Oberon e Titania sempre passaram uma noite de enganos e desenganos a meio do verão – ou terá só sido um sonho? – e regressaram durante a primeira guerra mundial para ajudar Corto Maltese (personagem quase real) a combater os alemães. Para aquele que cria, a regra sobre regras diz que as regras existem para serem criteriosamente quebradas. A arte ensina-nos uma lição simples que podemos aplicar com vantagem nas nossas vidas: onde virmos uma barreira, não fiquemos do lado de cá; perguntemo-nos como podemos e quando devemos passar para o outro lado.

Sobre o segundo: agarramo-nos excessivamente às certezas, que nos confortam, e por isso somos levados ao engano. Quando entrou no mundo de Tarantino, Hitler deixou de morrer no “bunker” e ficou à disposição para se finar onde Tarantino bem quisesse. O artista, o criador, não precisa de perguntar se há mundos paralelos. Se precisar deles, fá-los.

Na vida diária, nós, ao invés, tendemos a ser assim parvos. Preferimos a esterilidade da certeza ao húmus da dúvida. Alapamo-nos a referências como se fossem bíblias. Catalogamo-nos a nós e aos outros consoante critérios que, de tão apertados, não têm espaço para lá caber ninguém. Procuramos pouco o que é diverso. Vemos e queremos ver inimigos onde há apenas diferenças. E quando o artista, no uso da sua liberdade, arrebenta com Hitler um ano antes do devido, ficamos admirados, olhando para o ecrã com cara de mono. Conto voltar em breve a algumas destas nossas fragilidades, que merecem ser esmiuçadas.

domingo, setembro 13, 2009

O beto em férias (exercício de antropologia barata)


A tragédia mental do Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano.


Fernando Pessoa, in “O caso mental português”



Às vezes aparecem-me à frente na rua coisas tão surpreendentes que me fico a perguntar se o edulcorante que pus no café não seria um comprimido de LSD transviado.


Nestas férias, a banhos na costa do Vicente, deparei-me por duas vezes com famílias de ar veraneante a arrastar atrás uma criada de servir com farda preta, avental e gola branca, uma delas com touca e tudo. Após imagem tão jurássica, juro que se tivesse avistado um estegossauro a pastar a erva rala da valeta não ficaria mais admirado. Para enquadrar o leitor no irracional da situação, falta dizer que ferviam para cima de trinta graus à sombra e que mesmo uma “tee-shirt” de algodão sobre o pelo seria àquela hora suficiente para esbrasear qualquer vertebrado de sangue quente.


As coitadas das moças pareciam por isso afogueadas, seguindo com ar contrito as proprietárias famílias, estas frescas que nem alfaces nos seus preparos de verão. E pensei: que raio passará por dentro da corneta desta gente, para além de correntes de ar, que obrigam as desgraçadas a esta figura no pino do verão – e mesmo que fosse no Inverno! Julgava eu que estas manias se tinham extinto nos anos setenta do século passado. Depois olhei melhor e percebi: Ah! São betos e logo dos parvos.


O beto vem proliferando francamente, como uma pestilência, como a processionária do pinheiro ou o vidrinho à Cristiano Ronaldo na orelha da mitragem.


O beto define-se por parâmetros sócio-demográficos, como uma certa capacidade financeira ou o facto de se ter licenciado na Católica, mas mais por valores e atitudes. Uma segura necessidade de ostentação, a adesão a um código de aparências, a pretensão de gozar de uma visão prática da vida que voga acima da política ou da cultura, alguma falta desta última, um cheirinho de marialvismo, com o seu contraste entre um conservadorismo de fachada e a mania que são vivaços, uma proximidade a uma direita mais salazarenta que moderna, uma religiosidade de cerimónia, tudo isto, em proporções variáveis, compõe o beto. Quanto algum destes parâmetros passa das marcas, o beto torna-se parvo.


O beto, parvo ou não, já perturba um bom bocado em meio urbano ou laboral. Em férias tem um efeito devastador, podendo estragar a semana ao imprecatado que caia no meio. Ataca aos magotes, podendo infestar hectares inteiros de praia e campo só pelo mero contacto visual. Perguntará o já assustado leitor: como identificar, de modo a pôr umas milhas prudentes entre a praga e as nossas pessoas?


Analisemos os sinais exteriores.


Na praia vêem-se em bandos que incluem vários núcleos familiares cada qual com pai, mãe, filhos, sobrinhos a cargo, uma ou outra avó desgarrada, eventuais empregadas. Rapidamente a concentração atinge a centena e os trezentos metros quadrados, não incluindo aqui distância de sanidade. Trazem cães que podem ser mirrados do tipo cuidado não pise ou mastins do tipo cuidado não chegue, não sendo frequentes tamanhos intermédios. Os canídeos recebem ordem de soltura ao chegar ao areal e frequentam amiúde as toalhas alheias sob o sorriso despreocupado dos donos que preferem nitidamente que eles vão sujar para longe.


À chegada, os betos, em particular se forem parvos, arrumam os SUVs na duna e estabelecem um acampamento que depressa fica semeado de sombrinhas abertas, toalhas e caixas isotérmicas da “camping gaz”, modelo bisonte. Acartam cadeiras de praia que chegam a colocar na fímbria da água, para que os vejamos melhor. São ruidosos, comportamento normal em quem julga estar em casa.


O macho vem de pólo e mocassins sem meias e fica de calções às flores. Traz agarrado o saco do Expresso, ainda com aqueles quilos de suplementos sobre imobiliário ou com o relatório e contas da Dyrup, que as pessoas normais mandam logo para o papelão. Lê a primeira página. Se puder, usa o cabelo grisalho puxado para trás com pinta brilhantinada e uns caracolitos ao fundo do pescoço e na orla das patilhas. Começa a segunda página do jornal. Joga raquetes sem se mexer muito. Dobra o jornal no saco. Ajusta o elástico do calção à barriguinha sobressaliente. Por regra, é mais hirsuto que a média da população, podendo chegar ao síndrome Tony Ramos.


A fêmea usa mais ou menos o mesmo número de pulseiras e traquitanas que as mulheres Maasai em dia de casamento. A cabeleira é farta, em permanente, com cores que não existem na natureza e madeixas de um tom de liga metálica leve. Ostenta biquini ou fato de banho de corte moderado e motivos garridos. Senta a cultivar-se com a Caras e a Lux e a Hola. Pergunta às filhas se se viram umas às outras. Grita nomes ausentes à hora de ir embora.


Macho e fêmea nunca tiram os óculos escuros, alapados à penca como se colados com Araldite. Mais recentemente adoptaram ambos uns chapéus de palha quase branca, de recorte borsalino e fita negra, que lhes dão um ar patusco e permitem ao resto das pessoas identificá-los a uma distância segura.


As crias são muitas por cabeça, porque o beto procria em número. Os rapazes usam o mesmo calção dos pais e vão para o “body board”, desamparando a loja. As raparigas andam em grupinhos, dizem muitos ais e também arrojam com pulseiras Maasai até ao cotovelo, para além de tererés na cabeça. Frequentam escolas com nomes de santos onde aprendem a pensar como os pais. Avisam ameaçadores que andam nos Salesianos enquanto fogem de putos que lhes vão bater.


Munido desta descrição, pode o leitor desviar-se atempadamente, até porque já percebeu que o recato não é o forte deles. Mas, se ainda assim tiver dúvidas sobre se um grupo é ou não de betos, faça uma coisa: olhe-lhes para as caras e dificilmente se enganará.


Porque o beto e a beta, mau grado a sua pluralidade de formas, de tanto andarem uns com os outros acabam sempre por ter cara de beto. Fatal como o destino! Com aquela carinha tão distinta, poderiam ser facilmente reconhecidos até numa praia de nudistas ou em fotos do tipo passe.


Recordo que referi este facto a um amigo num almoço à beira-Tejo, logo após as férias e ele indignou-se: “Mas tu és parvo! Andas a ler muito Zola. Agora o meio influencia o aspecto físico?” Mas é verdade. É um fenómeno estranho, como as girafas do Lamarck que iam tendo pescoços maiores porque os esticavam para chegar às folhas mais altas e depois passavam essas características aos descendentes, coisa que Darwin demonstrou não acontecer nas girafas mas que parece acontecer nos betos: frequentam-se entre si, acabam por arvorar a mesma tromba e legam-na em herança aos betinhos.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Exposição fotográfica (XIX)

A 29 de agosto, cantarolando Arlo Guthrie: "Goin' up to the country/Don't you want to come along"





segunda-feira, agosto 24, 2009

Os "singles" do Solnado

Como que aproveitando o sossego que no mês de Agosto assenta praça na sua cidade de Lisboa, morreu Raul Solnado. Morreu de leve, como Eça disse de Júlio Dinis mas, ao contrário deste, não viveu de leve.

À parte a ironia suave do velho Mata que na altura ainda passava por mim como uma oura que refresca mas não se nota, creio que ouvir Solnado foi, no final dos anos sessenta, o meu primeiro contacto com o Humor com agá à cabeça. Eu tinha dele uns “singles”, que para esclarecimento dos leitores mais jovens informo serem uns discos de plástico preto estriado com um buraco no meio que, rodados a quarenta e cinco rotações por minuto contra uma agulha de safira, emitiam através de um altifalante uma mistura de crepitações e de voz do Solnado a contar umas histórias.

Nesse tempo, Portugal ria pouco e ria mal: recordo que para os mais anciães qualquer historieta que tivesse puns passava por ser uma boa laracha, que nos era contada com um piscar de olhos como se de uma prova de iniciação se tratasse. A época de ouro da comédia portuguesa filmada já passara e já só passava, com estranhas parangonas de novidade, nas noites de cinema do único canal da têvê. Nesta, para sorrir mais, apenas com séries americanas como o “Get Smart”, o “Green Acres” ou o macho que falava.

Não havia humor político à superfície. Normalmente, a autoridade vê com medo a liberdade que o acto de rir implica, como bem se retrata no “O nome da rosa”. Por isso a anedota política circulava baixinho, da boca de um druida para a orelha de outro e não chegava aos pátios de escola que eu frequentava.

No meio deste aparente deserto, flamejava o Solnado e o seu “stand-up comedy” de pronúncia alfacinha e hesitante, com um humor absurdo dirigido ao coração do absurdo do Portugal do fim dos anos sessenta: a guerra (de 1908), o orgulhosamente sós (na chamada para Washington), o ténue movimento “hippie” (pelo Ludgero Clodoaldo), a explosão turística (o Fritz), e sobretudo a história da vida dele, que era em muitos sentidos a nossa, colectiva.

Nos obituários que agora lhe dedicaram verifico haver unanimidade sobre o carácter vertical e carinhoso do seu humor, sem agressões e sem palavrões. Concordo inteiramente. Os grandes humoristas são como um exército, combatendo contra a tacanhez e a pusilanimidade que como grilhetas genéticas vão atormentando a humanidade que se julga sempre mais esperta do que é. A maioria dos humoristas combate em campo aberto, atacando de frente. Alguns, como a tropa fandanga dos seis Monthy Pithon ou dos quatro Gato Fedorento, entram que nem um comando especial pelos nossos preconceitos adentro, à bruta, não deixando pedra sobre pedra. Outros, “snipers” de pontaria exímia, vigiam longilíneos, esperando o melhor ângulo para ferir de morte o nosso ridículo: assim Seinfeld ou Jon Stewart (ou Herman nos seus já muito remotos tempos de veia inspirada).

Raul Solnado, esse, era um infiltrado. Trabalhava no meio da tropa adversária, aparecia de surpresa mesmo ao nosso lado, sem que ninguém tivesse dado por ele, solto para causar a maior mossa, assim à boa-fila. Parecia um dos nossos mas era do inimigo, de um inimigo comparsa como o da sua guerra das terças, quintas e sábados. Como companheiros de armas, para aí Tati ou Chaplin.

Solnado dizia sentir pena de um cómico que precisasse de dizer palavrões para fazer rir. Talvez aqui não concorde com ele: Gil Vicente, Bocage, Lobo de Carvalho, o abade de Jazente e tantos outros largaram fortes bujardas, com piada e muito a-propósito. Da minha geração, Manuel João Vieira consegue ter uma graça subtil à base das maiores cavalidades. Em qualquer caso, seja com palavreado ou sem ele, é preciso um espírito que ele tinha e a maior parte dos nossos contemporâneos nem cheira.

Com o tempo, foi aparecendo menos. Talvez se sentisse pouco inspirado, talvez andasse simplesmente ocupado a ser solidário, a deixar uma obra tão relevante para os seus companheiros de ofício como a Casa do Artista, realização em que muito se empenhou. E muito discretamente, o que é notável num país onde os presumidos notáveis passam o dia a empinar-se para aquelas revistas hediondas que vendem bronzeados de lata.

Quando morreu, o país sentiu aquele amargo de boca de pouco se ter lembrado dele nos últimos tempos. Terá estado acompanhado pela família (e esses é que importam), mas todos nós que ríamos sentados de calções e joelhos esfolados ao lado do gira-discos nem demos pela coisa. Por isto, relembrando aquela parte da “História da minha vida” em que a mãe, que tinha ido pedir um ramo de salsa à vizinha, lhe ralhava por ele ter nascido sem ela lá estar, apetece-me dizer-lhe: “Olha! É a última vez que morres sozinho, ouviste?”

quinta-feira, agosto 06, 2009

Exposição fotográfica (XVIII)

Porto Covo, 2 de Agosto de 2009. O Criador pegou na trincha e andou a pintar o céu.





O boticário

Existem neste cantinho da península estranhos personagens, que estranhamente se perpetuam e mais estranhamente se toleram. Um deles é o presidente da associação local das boticas, um tal de Cordeiro.

Este Cordeiro já pouco tem de lãzudo, mas compensa com uma barba à moda de século indefinido, algures entre os Filipes e a Carlota Joaquina. Desculpar-me-ão os amigos farmacêuticos, mas um passa-piolhos destes não traz credibilidade nenhuma à vossa corporação. É como se o bastonário dos engenheiros se apresentasse de cota de malha, o dos médicos de libré ou o dos advogados de braguilha de brocado flamengo.



Consta na melhor imprensa que o senhor é dos mais poderosos de Portugal. Pelo menos, fala – ou, melhor, vocifera – como tal. Em geral, as suas indignações fulminam ideias mais liberalizantes, como a unidose ou a venda de aspirinas nos supermercados, e alertam para riscos iminentes se tais heresias vingarem, riscos esses oscilando entre o fim meteórico da farmácia em Portugal, na versão mais benigna, e a morte da civilização ocidental tal como a concebemos, em dias em que acordou menos disposto.

Sobre isto, tenho que partir do princípio que ele lá saberá o que anda a dizer. Que as cruzes verdes que lampejam nas noites de Londres ou Paris (cidades que adoptaram medidas funestas do género daquelas que ele denodadamente procura evitar neste Portugal desorientado) são meros engodos destinados a convencer o estrangeiro incauto que ainda se vendem nessas metrópoles analgésicos e profiláticos sem ser num mercado negro, apesar das libertinagens que os governos locais tiveram para com os monopólios das farmácias.

No período prévio às férias estivais, o senhor andou activo que nem um princípio activo. Acusou o primeiro-ministro (que ele tolera como interlocutor à falta de mais alta figura governativa) de traidor e mentiroso. Depois apareceu e adoçou o comprimido: afinal tinha sido engano. Não foi a mais feliz das figurinhas mas enfim: isso é lá com ele.

Nestes entretantos, aconteceu o dramático episódio dos seis pacientes de Santa Maria que cegaram na sequência da injecção de um fármaco no globo ocular. E lá volta o Dr. Cordeiro aos ecrãs, entre os quais o meu, a insinuar que o governo tinha culpas no cartório desta cegueira acidental porque autorizara uma farmácia de venda ao público nesse hospital de modo diferente ao que ele recomendara e se calhar até poderia esta ter metido a pata na poça e ele bem avisara e pim e pam e pum.

Rapidamente, médicos e até farmacêuticos vieram a terreiro retorquir, explicando que a farmácia interna do hospital, de onde provêm os medicamentos administrados aos doentes internados, é uma estrutura hospitalar que nada tem a ver com a farmácia de venda ao público situada no espaço do hospital, tal como não tem com a cafetaria ou a tabacaria.

Por acaso também tinha essa ideia, mas também não é o mais relevante. O que interessa é o seguinte: não se aproveita a desgraça de seis seres humanos que perderam a vista, se calhar para sempre, para fazer política corporativa da mais rasteirinha. É uma atitude que define um carácter. Como diz hoje a malta nova: ó Cordeiro, és a base.

E já que a mãezinha dele não se deu em tempo útil à tarefa de lhe ensinar que essas coisas não se fazem, que alguém lhe explique agora. Talvez os sócios da Associação Nacional de Farmácias se queiram encarregar dessa didáctica missão, votando maciçamente a sua destituição, nas próximas eleições para a direcção.

sábado, agosto 01, 2009

Exposição fotográfica (XVII)

Odeceixe, há um ano

Homens honoráveis

For Brutus is an honourable man;
So are they all; all honourable men

William Shakespeare, in “Julius Caesar”, III, 2

Aconteceu recentemente algo que, na minha óptica de pagante do pato, é de uma gravidade inusitada, tão inusitada como o fraco burburinho que causou neste país que tanto rosna quando em matilha. Para pouco morder, verdade seja…

O Estado português estendeu até 2042 a concessão do terminal de contentores de Alcântara, em Lisboa, a um grupo privado, sem concurso público e em condições que, naquilo que é do conhecimento público, não parecem nada defensivas para o nosso erário: reforço da taxa de rentabilidade da concessionária, partilha de risco desequilibrada com menor protecção do concedente, perda de valor em relação ao contrato anterior. O Tribunal de Contas tomou sobre o assunto uma posição particularmente forte para os brandos costumes cá da terra, dizendo que não consubstanciava nem um bom negócio, nem um bom exemplo. Será cedo para decidir sobre a primeira conclusão, mas se calhar concordaria já com a segunda.

Ainda por cima, quando as coisas são mal feitas, como aparentam, o azar acaba por casar com a incompetência. Por azar, o presidente do conselho de administração da empresa beneficiada é um antigo ministro das obras públicas do partido que governa. Para mais azar, o presidente do Tribunal de Contas é um antigo ministro das finanças do partido que governa. Não podia ser mais picante, nem mais azar…

Já aqui escrevi sobre a presunção de inocência como um valor fundamental numa sociedade decente e que infelizmente em Portugal muito se espezinha. Não vou por isso dizer que o ministro ou o ex-ministro são isto ou são aquilo. Mas, quando um órgão com a importância do Tribunal de Contas afirma com todos os efes-e-erres aquilo que afirma, então existem indícios de algo que na hipótese simpática é incompetência e na pior não o é. Qualquer uma delas potencialmente muito grave e a requerer investigação e esclarecimento. O incómodo, para não dizer a suspeita, são aqui legítimos e expressá-los publicamente não contradiz o respeito que nos merece a possível inocência dos visados nesta história. Estes últimos deveriam aliás ser, nesta óptica, os mais interessados em que a Justiça investigue e conclua, porque neste momento já estão a ser julgados na praça pública.

O ministro optou exactamente pelo caminho contrário e atacou o Tribunal de Contas. Fez muito mal: não entendeu que num sistema de “checks and balances” os outros poderes não são adversários, nem se combatam com a converseta própria da política partidária. Se eu estivesse no lugar dele queria mas é que as investigações começassem rápido para poder provar a minha inocência.

Ao primeiro-ministro ainda não ouvi uma palavra sobre o assunto. Se não a disse, fez muito mal: o governo é dele e – já que o ministro não o faz – deveria ele ser o primeiro a manifestar preocupação pelas conclusões do Tribunal de Contas e a solicitar célere o mais rápido e aprofundado inquérito ao tema. Ao estar caladinho, está-se a atar de livre vontade ao poste onde o ministro já começa a chamuscar, lambido pelas chamas da má-língua.

Os jornalistas, esses, fizeram pior ainda, para não variar: o tema passou algo despercebido, ou então ligeiro, como se de um mau passo se tratasse, quase como uma tecnicalidade, quando no fundo pode ser uma questão de regime. Sem querer exagerar. Quando comparamos com o banzé que a mesma ministerial figura suscitou com o deserto ao sul do Tejo e com o “jamais”, percebemos o que interessa à nosso magra imprensa, especialmente a televisiva: circo máximo e risco mínimo.

A frase que aparece em epígrafe a este texto veio-me à memória quando li pela primeira vez sobre este caso. Pertence à peça Júlio César, de Shakespeare, e a um notável discurso fúnebre que Marco António diz junto ao cadáver de César logo após a sua morte. Bruto autorizara-o a fazer o elogio do defunto mas proibira-o de criticar os que haviam perpetrado o assassínio. Marco António, que é um sacaninha, obedece mas acaba por conseguir manobrar a plebe e arrebanhá-la para limpar o sebo a Bruto e seus aliados. Fá-lo referindo-se sistematicamente a Bruto e aos seus parceiros como “homens honoráveis”, com crescente ironia. E foi essa levíssima mas feroz ironia (“so are they all, all honourable men”) que me assaltou o pensamento, se calhar irracionalmente, se calhar injustamente. Certamente, com uma carga negativa.


Na peça, Bruto divide-se entre a amizade e admiração que tem por César em quem, no entanto, reconhece uma ambição perigosa e o seu amor pela república romana, que essa ambição põe em causa. Acaba por embarcar no conluio para matar César, por considerar que só assim protege Roma, mas fá-lo assumindo e mesmo antecipando as implicações do seu acto. Se Bruto é ou não um homem honorável, tal questão deixa-a Shakespeare ao critério do espectador.

Por mim, no final, não tive dúvidas: Bruto foi um homem honrado, que agiu como a sua consciência lhe ditava e assumiu as consequências sob a forma de um destino trágico. Voltando às concessões que precipitadamente se renovam sem concurso, gostava de ver o fim da peça e que esta não ficasse a meio, como por cá costuma. E não peço, nem ao nosso primeiro nem aos segundos que comanda, que morram como Bruto, no fio da espada. Peço que percebam que existe um ponto para além do qual a ética democrática não lhes permite que assobiem para o lado, mas lhes recomenda que ajam. Que se preocupem, que investiguem e, se caso for, que assuma as consequências quem tiver que o fazer.

sábado, julho 18, 2009

Que é que andamos aqui a fazer?

O actor diz uma palavra inaudível.

Reduz a humidade e o calor da terra

à confusão dessa palavra.

Herberto Hélder, in “Poema do actor”


Pois, amiga: mais do que pensamos.


Ao princípio parece um brinquedo. Divertimo-nos. Mudamos cabeçalhos, ou as cores – enfim, há quem mude – alinhavamos e corrigimos. Ficamos contentes. Depois, umas semanas, dois meses e torna-se um sacerdócio. Insistimos. Vencemos a inércia. Dizemos: há muito tempo que e portanto obrigamo-nos. A dado momento, tornou-se um hábito que nos toma o sábado à noite ou que nos acomete inesperado mas periódico. Até que um dia se torna parte da nossa textura, como mais uma derme.


Durante este processo de ensimesmamento, não escrevemos – é verdade – sobre nós, mesmo quando sobre nós escrevemos. Há, em cada vida, em cada pessoa, matéria para redigir todos os livros do universo. Todos nós procurámos, como Ulisses. Todos amámos, inamovíveis como Romeu ou patéticos como Quixote ou impossivelmente como Carlos da Maia ou tudo isso e mais ainda em simultâneo. Outras vezes, a espaços, fomos estrangeiros na nossa terra e na nossa vida. Tivemos noites em que nos colocámos a pergunta de Hamlet, por outras palavras, sem fantasma e sem caveira. E como o velho, fizemo-nos a mares privativos e lutámos braviamente contra os nossos espadartes de estimação e até conseguimos. Baixámos em visita aos infernos que borbulham cá no fundo, os nossos demónios rindo-se de nós. E assim sucessivamente.


Quando julgamos escrever sobre nós, fazemo-lo afinal de dentro para fora, de nós para o mundo. Pensamos estar numa torre de marfim, isolados de tudo, materializando o nosso íntimo em cargas eléctricas num painel de cristais líquidos e guardando-o ciosamente em longínquas memórias de computador. Pretensão vã: o que estamos é a reflectir a vida lá fora, em todas as direcções, como as facetas de um diamante que não brilha se não receber luz. Dizia Ortega y Gasset que o homem é ele e as suas circunstâncias. Verdade. Mas, como consolo, as circunstâncias também são elas e nós. Porque nós somos o mundo, mais até do que dele fazer parte.


Assim se passa com todos, mesmo os maiores, de quem somos sombras. Sabias que as personagens do Guerra e Paz, excepto as que existiram historicamente, são na maioria representações de familiares do conde Leão Tolstoi? Também ele, um monstro da literatura, pegou no seu mundo pessoal e próximo e transformou-o naquele painel gigante sobre a vida e a História, que a todos diz respeito, geração após geração.


E não duvides que vale a pena. Quando escrevemos e partilhamos, quando nos expomos, quando motivamos um sorriso ou induzimos um pensamento, mesmo que de desdém, damos sentido à vida. Deixamos de ser moléculas presas à pouca latitude das regras quânticas e tornamo-nos espírito, amplo e quase perene. Libertamo-nos das leis da física num orgasmo de individualidade. Está bem, orgasmo será exagerado, mas reconhece que dá um certo gozo.


Quando digitamos nos nossos teclados, quando fazemos o “save now”, usamos da generosidade dos actores. Os nossos blogues são um palco onde representamos as nossas cenas. O estrado é pequeno, apenas alguns “bytes” num servidor, ronronando a um canto numa dependência climatizada, algures. A sala está escura: sabemos que há público, embora não o consigamos distinguir. Interpretamos vários papéis: nós próprios, nos momentos de maior franqueza, embora mais geralmente a imagem que temos de nós, ou por vezes um personagem que construímos para afirmar o que pessoalmente não temos coragem. E isto é bom: como diz o poema, ninguém ama tão desalmadamente como o actor.


Escrevendo para ti, sobre ti, amiga, alumias muito mais à tua volta do que se calhar suspeitas. Orgulha-te durante uns breves segundos.


quarta-feira, julho 15, 2009

Exposição fotográfica (XVI)

Ponte 25 de Abril. 17 de Março de 2007





segunda-feira, julho 13, 2009

O guia áspero do rock pedregoso

Nota: os títulos das músicas abaixo listadas são “clicáveis”e remetem para páginas do Youtube. A qualidade do som por vezes é má. Num ou noutro caso são versões ao vivo. O "Place in the Line" é tocada por uma banda de um "ex-Deep Purple" e não pela formação original. A minha iliteracia informática não me permitiu chegar hoje mais longe, mas espero corrigir isto nos próximos dias.


Para iniciar finalmente a série dos guias ásperos, e correndo o risco de ser já chamado ignaro, vamos começar pelo mais básico: "rock" pedregoso. Música para dedicar o corpo ao ritmo e abanar freneticamente a cabeça, para bater o pé com estrépito e fazer figurinhas irracionais, mas com todo o prazer. Para dar espaço ao animal que vive em nós. Os mais sectários detractores chamar-lhe-ão selvagem. Os mais fiéis seguidores chamar-lhe-ão selvagem. Ambos com muita razão.

Nem só de racionalidades vive o homem, graças a Deus. Os gregos, por exemplo, que nos ensinaram na escola como muito geométricos e ponderados, possuíam como todos nós um lado danado para a brincadeira. O culto de Dionísio, deus trácio, pegou de estaca entre a gregalhada, que adorava aquelas barbaridades (no sentido literal do termo) e se soltava em grandes pagodes nocturnos, com carne crua à dentada, álcool, dança no escuro e tudo o mais que intuímos mas cujo relato não chegou aos nossos dias. Sabemos, no entanto, que abanavam o capacete à noite. Disso, atesta Eurípides em “As Bacantes”, quando as põe a cantar:

Alguma vez voltarão a mim, uma outra vez,
As longas, longas danças,

Na escuridão até desaparecer o brilho das estrelas?

Voltarei a sentir o orvalho na garganta, e o fluxo de vento no meu cabelo?

Lampejarão os nossos pés brancos nas vastidões sombrias?


Desde esses idos até aos nossos dias, o pessoal continuou a procurar o lado livre de si próprio, nas celebrações do estio e nos Carnavais. Na segunda metade do século XX, o “rock” e o seu instrumento primeiro, a guitarra eléctrica, cavalgaram mudanças políticas e culturais e trouxeram de novo às massas as longas, longas danças nas vastidões sombrias. Mais recentemente, com o advento da electrónica e da miniaturização, a festa tornou-se privada e pode ser gozada no metropolitano, na fila de trânsito, na biblioteca.



As doze que se seguem, seleccionei-as por serem graves, telúricas, com um ritmo essencial que parece brotar da terra, como convém a música “rock”. São para mim emblemáticas desse estilo: guitarras distorcidas e velozes, “riffs”, baixo autoritário, batida insidiosa e alta pedalada. Por ordem aproximadamente cronológica:

I’m waiting for the man – The velvet underground
Brown Sugar – The rolling stones
Place in the line – Deep purple
Hocus Pocus – Focus
Tie your mother down - Queen
Real wild child – Iggy Pop
Rock’n’roll nigger – Patti Smith group
Safe European home – The clash
I wanna be sedated – The Ramones
My Sharona - The Knack
Smells like teen spirit – Nirvana
Pretty fly (for a white guy) – The offspring


Acrescento alguns apontamentos sobre a selecção.

“I’m waiting for the man”, com Lou Reed na liderança, poderá parecer um pouco deslocada, não sendo uma música intuitiva, que nos faça imediatamente mexer o pescoço. No entanto o seu carácter obsessivo e negro acaba por subjugar: há que ouvir até ao fim.

Os Stones poderiam concorrer com listas próprias em várias categorias. Para “rock” pedregoso, estive indeciso entre este “Brown Sugar” e o “Bitch”, do mesmo álbum “Sticky Fingers”, daquele que é o período de ouro do grupo, antes de começarem a encher chouriços e a viver dos rendimentos.

Dos Deep Purple, poderia parecer mais apropriado incluir um dos dois clássicos do “Made in Japan” (“Smoke on the water” e “Highway star”). No entanto, sempre encontrei neste “Place in the line”, uma canção que começa “bluesy” e acaba em alta pedalada, o modelo acabado de uma banda a tripar em sintonia. Na realidade, os elementos do grupo estavam já em conflito – a formação separar-se-ia a seguir à gravação do álbum – e nunca chegaram, surpreendentemente para quem ouve esta canção, a estar todos juntos no estúdio a gravar.

Os Focus foram uma fabulosa banda holandesa dos anos setenta, hoje esquecida, com grandes músicos como o guitarrista Jan Akkerman ou o teclista Thijs van Leer, que fundiu um “rock” por vezes pesado, por vezes psicadélico, com um som suave, de marcada influência erudita. A ouvir, este “Hocus Pocus” e depois tudo o que deste grupo vos vier parar à mão.

Dos Queen, que tocaram um pouco de tudo, recuperei um dos momentos mais desbragados, o “Tie your mother down” do álbum “A day at the races”, com um Brian May em momento inspirado, um Freddie Mercury em grande e os coros característicos daquela fase da banda.

Do iguana e padrinho do “punk”, escolhi “Real Wild Child”, um “remake” de um êxito dos anos cinquenta de Johnny O’Keefe. Ligeiramente mais ligeira que a generalidade da selecção.

Da diva Patti Smith, um momento mais belicoso, gravado ao vivo.

Os Clash começaram “punks” mas no terceiro disco, o grande “London Calling”, já faziam o que lhes apetecia. Pelo meio, na transição, gravaram o menos conhecido “Give’em enough rope”, com vários excelentes momentos de “rock” pedregoso, entre os quais este “Safe European home”.

Os saudosos Ramones (“uan-tu-fi-fó”, “gabba gabba hey” e outras credenciais equivalentes) fizeram carreira só com três acordes, assim diz a lenda. Banda de “rock’n’roll” aceleradíssimo, não poderiam faltar aqui.

“My sharona” representa o lado mais pedregoso da fértil “new wave” do final da década de setenta. Momento único dos “The Knack”, que se consumiram no esforço e desapareceram do mapa.

Quando ouvi pela primeira vez os Nirvana, já o Kurt Cobain tinha morrido. Mas desde logo não tive dúvidas que o “Nevermind” era um dos maiores discos de “rock” de sempre. Estive indeciso entre este “Smells like teen spirit” e o “Lithium”, que tem aquele verso no qual devíamos pensar todos os dias: “today I’m so happy/cause I found my friends/in my head”.

Para terminar em paródia, os Offspring, banda mediana que se excedeu neste “Pretty fly for a white guy”, de 1998.

Desde aí para cá, nada de novo na frente leste.


P.S. Fico com a sensação que falta aqui um eicidicizito...

sábado, julho 11, 2009

Crítica literária – o alegre magazine

Those disco synthesizers,
those daily tranquilizers,
those body building prizes,
those bedroom alibis,
all this, but no surprises for this year's girl.


Elvis Costello, in “This year’s girl”


Afligido com um problema de carácter pneumático e abdominal, inscrevi-me num ginásio com o objectivo de reduzir por via mecânica as larguras generosas que não soube atalhar pela disciplina alimentar. No acto de associação ganhei, apesar dos meus protestos, uma assinatura da revista Happy Woman, conhecida entre as leitoras mais fiéis simplesmente por Happy. Esta publicação, mais a tender para o compêndio que para o folheto, passou a atravancar mensalmente a minha parca caixa de correio, concorrendo em volume com os catálogos da “La Redoute” e em inutilidade com a magnífica folha a quatro cores com que a Junta de Freguesia publicita, a expensas do contribuinte, os valorosos feitos do seu presidente (descerramentos de placas alusivas à sua presença e outros que tal).


Normalmente, a Happy segue directamente para o papelão sem passar pela casa Partida, tão virginal como chegou. Ainda considerei colocá-la na casa de banho, mas o papel acetinado tem um dobre anguloso que não o recomenda para tarefas de pós-processamento.


Hoje, acometido de súbita curiosidade antropológica, decidi debruçar-me sobre o número de Julho de 2009, num exercício de perda de tempo semelhante ao folhear das Nova Gente que se empilham nas mesinhas das salas de espera da nossa classe médica, provavelmente com propósitos anestésicos. Perda de tempo que passo a partilhar com o leitor, que se está aqui é porque também não deve ter mesmo mais nada para fazer.


Começando na capa, assalta-nos uma fulana com canivetes de maratonista etíope, tez pálida, rímel carregado e cavalgando uns saltos altos de quinze centímetros, exibindo os riscos de uma dieta vegetariana, numa pose mais pretensa do que pretensiosamente “sexy”. À sua volta, os títulos dos sumarentos artigos desta edição: adoro sexo (testemunhos de mulheres sem preconceitos); a dois (a terapia de casal salvou o meu casamento); acupunctura (como perdi seis centímetros em três sessões); novo sex toy (testámos o brinquedo que faz sexo oral); tendência (elas gostam deles mais novos); e outras do mesmo maciço calibre, certamente de pedagógico interesse para qualquer moça casadoira.


No interior, habitam 210 generosas páginas. Só que – dei-me ao trabalho de contar – 68 são de publicidade, da oficial, com “Pub.” no canto da página e quase outras tantas são da outra, da encapotada. Aliás, a Happy foi construída de maneira a que não se distinga a publicidade do resto, resultando numa orgia de anúncios só suplantada pelos intervalos nas noites de cinema da SIC e da TVI.


Passando ao conteúdo, se é que se pode usar o termo, abramos ao acaso.


Página 65: rúbrica “Privado”. Vulgo horóscopo, mas dedicado à atitude laboral. À guisa de introdução, a Happy informa que um tal de Michel Gauquelin, especialista em estatística e psicólogo, descobriu que o sucesso na carreira está relacionado com a motivação. Pois. Grande guru. Com mais algum esforço de pesquisa teria descoberto que as escadas nos edifícios de escritórios sobem para cima e descem para baixo. Vou à “net”, descubro que este Michel era mas é astrólogo e percebo. Freud fica melhor do que a Maya na bagagem da menina moderna. Adiante.


Página 134. Colar a 1490 € na Pianegonda. Não sei onde fica este estabelecimento como nome de rainha visigótica, mas com preços tão bárbaros devia ser proibido fazer-lhe publicidade, por perigo para a economia familiar. Rapidamente adiante ou atrás, tanto faz.


Na 94 e seguintes, entrevista com o maquilhador da casa Dior, José Teixeira. Ora eis um mester que nem eu, nem o corrector do “Word”, sabíamos que existia. Este Zé afiança à cabeça que “a pele dourada, com um efeito nude mostra-nos que um look natural é o que é trendy este verão”. Agree totalmente, ó Joseph. E also estamos de acordo that “para os olhos imperam as cores ácidas, como o rosa fluorescente e o azul-turquesa”. Não sei como é que medes o pH das cores, mas se gostas de acidez a sério, experimenta o azul-sulfuroso que vais ver o que é que é imperioso. Vamos andando que isto pode-se pegar.


Página 148, na rúbrica “a dois”, a manchete titula “Material girl – três mulheres experimentaram Sasi, o masturbador feminino”. Finalmente, alguma ciência. O Sasi dispõe de duas velocidades e várias coreografias de movimentos. Sim, coreografias. Estava lá escrito. Suspeito que varie entre o movimento pendular do cantochão alentejano e o ritmo sobrenatural da macumba brasileira, passando pela polca e pelo “street rap”. Três voluntárias prestaram-se a um ensaio de condução. A Cláudia de 42 anos adorou, apesar de “ter perdido meia-hora a ler as instruções e a adaptar a ficha às tomadas” e ainda “de ter que esperar uma hora e quarenta e cinco minutos para que as baterias carregassem na totalidade”. Chatice, isso de fazerem manuais com três parágrafos completos. Mas compreendo que, após duas horas e quinze de escaldante espera, o Sasi não precisou de muito para brilhar. Ao invés, a Carla, de 32 anos, ficou algo decepcionada e estranhou, porque normalmente “vai facilmente ao rubro” – eu também, mas só em Alvalade, quando o Liedson dá uma de Sasi na baliza do Benfica. Carla, tens que compreender que no dia anterior, após duas horas e um quarto de lânguida espera, a Cláudia deve ter deixado o Sasi feito num oito. E mesmo os electrodomésticos precisam de se recompor. Finalmente, a Isabel, de 29 anos, achou o Sasi “fofinho, mas quase inerte”. Sasi, não te rales, elas às vezes são assim. Levo-te a beber uma cerveja para descomprimires e poderes desabafar.


Na folha 74, artigo de tese disserta sobre mulheres que seduzem homens mais novos. Mais uma tendência Primavera-Verão, que me vai obrigar a falsificar o bilhete de identidade para não me calhar nenhuma avozinha. Detalhe irónico: as pequenas que ilustram o artigo (aliás todos os artigos) têm no máximo vinte anos e aquele ar de girafa sem manchas. Detalhe jocoso: um dos subtítulos afiança “o sexo é muito bom”. Folgamos em saber. Nunca tínhamos reparado.


Página 130. Carteira da Prada a 1250 € na Fashion Clinic. Ala que se faz tarde!


Página 106. Chocolate “zen”, os melhores tratamentos com cacau. Na Ana Teresa Estética, no Porto, “tratamento cem por cento vegetal, à base de grão de cacau micronizado, talco e cereais, iniciando-se com esfoliação suave seguida de envolvimento com máscara de cacau e etc.”. Módicos 90 euros. Em Braga, na Angels Clinic, só 65 euros, mas calculo que o chocolate seja daquele em barra para mousse. Andando.


Página 152. Surpresa, surpresa, outro artigo sobre sexo! “The love doctor – como a terapia de casal salvou o meu casamento”. Não tive pachorra para ler.


Folha 140. Momento de introspecção: “descubra a sua personalidade erótica”. Parece-me apropriado, até porque ainda não tínhamos falado sobre sexo nesta edição.


Logo de enfiada, salvo seja, na página 144, testemunho. “Adoro sexo” como discreto título. Passamos a saber, em caixa, que Patrícia, advogada, 41 anos, pagou 500 dele para ter sexo com um profissional. Ora aqui está um senhor que merece todo o meu respeito e consideração, já que no meu emprego pagamos para os advogados nos “sexarem” e nunca o contrário. Parabéns, ó meu, e aumenta-me essa tabela de honorários que o mercado não foge!


A Happy, um terço anúncios e outro terço sexualidades mais ou menos exóticas, vende, ao que consta, mais que qualquer outra revista feminina em Portugal. Dirige-se segundo a sua editora a uma “mulher moderna, cosmopolita, aspiracional, que sabe o que quer e que, certamente, quer mais da vida”. Vou ser apodado de careta, senão pior, mas se o segmento a que a Happy aponta é o das modernas e cosmopolitas, então venham as antiquadas e rurais. Porque a imagem que a Happy nos dá das mulheres (felizmente a milhas da verdade) é a de umas fúteis meramente à cata de compras e, sobretudo, de umas aguadas desesperadas pelo que é que é com o primeiro que aparecer, nem que seja o Sasi. Nas fotografias que servem de pano de fundo às peças, não há uma única mulher de verdade. Só modelos esquálidos, em poses improváveis, com o olhar vazio. Por isso, bem ponderadas as coisas, a Happy é literatura da mais machista que já me passou pelas mãos, conseguindo neste campo bater, de modo perverso, a velhinha Crónica Feminina do tempo das nossas avós, com as suas receitas, os seus lavores e as suas puritanas recomendações. Mais cómica, no entanto.

terça-feira, junho 30, 2009

Exposição fotográfica (XV)

Ainda Paris em Outubro de 2007


Mãe estátua seguida pelos filhotes, ao longo do Sena (Quai des Tuileries, se bem me lembro)


Concerto de corneta no telhado do Louvre


Design contra design no Grand Palais


Roda na praça da Concorde


Poesia e arte de parede em St. Germain

Os novos cadafalsos

Leio no jornal, com pesar e vergonha do meu país, que todos os anos em Portugal dez mil cirurgias ao cancro se realizam fora dos prazos máximos previstos na lei e consignados na boa prudência médica.

Revela o mesmo artigo que a situação até tem melhorado, o que não deveria servir de consolo a ninguém. Não servirá, certamente, aos 233 que o ano passado contribuíram para o alívio das estatísticas das listas de espera ao decidir morrer inopinadamente.

Esta é daquelas que devia ser resolvida já, custe o que custar. Gaste-se o que se gastar. Cometam-se loucuras, como emitir dívida pública, ou acertem-se decisões, como proibir os gastos sumptuários com tendas gigantes para inaugurações e gabinetes ministeriais de ligação à comunicação social, mas arranje-se o guito. Se o problema for de falta de médicos, metam-se os doentes no avião e que se operem no estrangeiro.

Não temos o direito, enquanto sociedade, de brincar com este assunto. Desculpar-se, seja com estatísticas, seja com suspiros, é a mais cabra das atitudes. Cada uma daquelas pessoas que se vê numa lista de espera de cirurgia oncológica sofre diariamente, lentamente corroída por dentro, os mais estruturalmente humanos dos medos, aqueles que nos fizeram sobreviver a predadores e glaciações, até aqui chegarmos: o receio da dor e o receio da morte. Não podemos, colectivamente, evitar a maleita ou sossegar-lhes a ânsia. Mas podemos – e devemos – mover mundos e fundos para que não falhe qualquer hipótese de reduzir, por infinitesimalmente que seja, a má probabilidade.

Se quisermos habilitarmo-nos minimamente a fazer parte da espécie humana, não nos passe pela ideia tolerar que doentes que poderiam não ser terminais se tornem, vagueando de corredor em corredor e de guiché em guiché, de requisições na mão, pedinchando como um favor ou uma cunha aquilo que é um direito básico: o direito à vida.

Ao falhar um imperativo categórico tão simples, estamos na prática a proferir uma condenação à morte encapotada, em que o capote tem a forma da nossa crueldade e a cor da nossa preguiça.

Portugal foi o primeiro Estado-nação da Europa a abolir a pena de morte para crimes civis, em 1867, naquela que foi uma das nossas melhores horas, com perdão pelo anglicismo. Antes, em 30 de Novembro de 1786, o grão-duque Leopoldo II de Habsburgo promulgou o fim da pena capital na Toscânia e a destruição de todos os equipamentos destinados a execuções. Seguiram-se a efémera República Romana em 1849, a Venezuela em 1863 e São Marino em 1865. E depois nós, mais de um século antes de países com mania, como o Reino Unido ou a França.

Infelizmente, cento e quarenta e dois anos depois, parece que queremos substituir o garrote e a corda pela incúria e a ganância, e o sombrio dos patíbulos pela luz artificial dos corredores do IPO. Por isso, vale a pena lembrar aqui o nome do homem que tomou a iniciativa de acabar com a pena de morte entre nós: Augusto César Barjona de Freitas, ministro da Justiça pelo Partido Regenerador, jurista, deputado e par do Reino. Que a memória do seu exemplo humanista sirva, pelo menos, para envergonhar as cáfilas que vão assistindo com ar herbívoro ao aumentar e diminuir das filas de espera das operações de oncologia, como se fossem a coisa mais natural deste mundo.