quinta-feira, agosto 06, 2009
O boticário
Este Cordeiro já pouco tem de lãzudo, mas compensa com uma barba à moda de século indefinido, algures entre os Filipes e a Carlota Joaquina. Desculpar-me-ão os amigos farmacêuticos, mas um passa-piolhos destes não traz credibilidade nenhuma à vossa corporação. É como se o bastonário dos engenheiros se apresentasse de cota de malha, o dos médicos de libré ou o dos advogados de braguilha de brocado flamengo.

Consta na melhor imprensa que o senhor é dos mais poderosos de Portugal. Pelo menos, fala – ou, melhor, vocifera – como tal. Em geral, as suas indignações fulminam ideias mais liberalizantes, como a unidose ou a venda de aspirinas nos supermercados, e alertam para riscos iminentes se tais heresias vingarem, riscos esses oscilando entre o fim meteórico da farmácia em Portugal, na versão mais benigna, e a morte da civilização ocidental tal como a concebemos, em dias em que acordou menos disposto.
Sobre isto, tenho que partir do princípio que ele lá saberá o que anda a dizer. Que as cruzes verdes que lampejam nas noites de Londres ou Paris (cidades que adoptaram medidas funestas do género daquelas que ele denodadamente procura evitar neste Portugal desorientado) são meros engodos destinados a convencer o estrangeiro incauto que ainda se vendem nessas metrópoles analgésicos e profiláticos sem ser num mercado negro, apesar das libertinagens que os governos locais tiveram para com os monopólios das farmácias.
No período prévio às férias estivais, o senhor andou activo que nem um princípio activo. Acusou o primeiro-ministro (que ele tolera como interlocutor à falta de mais alta figura governativa) de traidor e mentiroso. Depois apareceu e adoçou o comprimido: afinal tinha sido engano. Não foi a mais feliz das figurinhas mas enfim: isso é lá com ele.
Nestes entretantos, aconteceu o dramático episódio dos seis pacientes de Santa Maria que cegaram na sequência da injecção de um fármaco no globo ocular. E lá volta o Dr. Cordeiro aos ecrãs, entre os quais o meu, a insinuar que o governo tinha culpas no cartório desta cegueira acidental porque autorizara uma farmácia de venda ao público nesse hospital de modo diferente ao que ele recomendara e se calhar até poderia esta ter metido a pata na poça e ele bem avisara e pim e pam e pum.
Rapidamente, médicos e até farmacêuticos vieram a terreiro retorquir, explicando que a farmácia interna do hospital, de onde provêm os medicamentos administrados aos doentes internados, é uma estrutura hospitalar que nada tem a ver com a farmácia de venda ao público situada no espaço do hospital, tal como não tem com a cafetaria ou a tabacaria.
Por acaso também tinha essa ideia, mas também não é o mais relevante. O que interessa é o seguinte: não se aproveita a desgraça de seis seres humanos que perderam a vista, se calhar para sempre, para fazer política corporativa da mais rasteirinha. É uma atitude que define um carácter. Como diz hoje a malta nova: ó Cordeiro, és a base.
E já que a mãezinha dele não se deu em tempo útil à tarefa de lhe ensinar que essas coisas não se fazem, que alguém lhe explique agora. Talvez os sócios da Associação Nacional de Farmácias se queiram encarregar dessa didáctica missão, votando maciçamente a sua destituição, nas próximas eleições para a direcção.
sábado, agosto 01, 2009
Homens honoráveis
So are they all; all honourable men
William Shakespeare, in “Julius Caesar”, III, 2
Aconteceu recentemente algo que, na minha óptica de pagante do pato, é de uma gravidade inusitada, tão inusitada como o fraco burburinho que causou neste país que tanto rosna quando em matilha. Para pouco morder, verdade seja…
O Estado português estendeu até 2042 a concessão do terminal de contentores de Alcântara, em Lisboa, a um grupo privado, sem concurso público e em condições que, naquilo que é do conhecimento público, não parecem nada defensivas para o nosso erário: reforço da taxa de rentabilidade da concessionária, partilha de risco desequilibrada com menor protecção do concedente, perda de valor em relação ao contrato anterior. O Tribunal de Contas tomou sobre o assunto uma posição particularmente forte para os brandos costumes cá da terra, dizendo que não consubstanciava nem um bom negócio, nem um bom exemplo. Será cedo para decidir sobre a primeira conclusão, mas se calhar concordaria já com a segunda.Ainda por cima, quando as coisas são mal feitas, como aparentam, o azar acaba por casar com a incompetência. Por azar, o presidente do conselho de administração da empresa beneficiada é um antigo ministro das obras públicas do partido que governa. Para mais azar, o presidente do Tribunal de Contas é um antigo ministro das finanças do partido que governa. Não podia ser mais picante, nem mais azar…
Já aqui escrevi sobre a presunção de inocência como um valor fundamental numa sociedade decente e que infelizmente em Portugal muito se espezinha. Não vou por isso dizer que o ministro ou o ex-ministro são isto ou são aquilo. Mas, quando um órgão com a importância do Tribunal de Contas afirma com todos os efes-e-erres aquilo que afirma, então existem indícios de algo que na hipótese simpática é incompetência e na pior não o é. Qualquer uma delas potencialmente muito grave e a requerer investigação e esclarecimento. O incómodo, para não dizer a suspeita, são aqui legítimos e expressá-los publicamente não contradiz o respeito que nos merece a possível inocência dos visados nesta história. Estes últimos deveriam aliás ser, nesta óptica, os mais interessados em que a Justiça investigue e conclua, porque neste momento já estão a ser julgados na praça pública.
O ministro optou exactamente pelo caminho contrário e atacou o Tribunal de Contas. Fez muito mal: não entendeu que num sistema de “checks and balances” os outros poderes não são adversários, nem se combatam com a converseta própria da política partidária. Se eu estivesse no lugar dele queria mas é que as investigações começassem rápido para poder provar a minha inocência.
Ao primeiro-ministro ainda não ouvi uma palavra sobre o assunto. Se não a disse, fez muito mal: o governo é dele e – já que o ministro não o faz – deveria ele ser o primeiro a manifestar preocupação pelas conclusões do Tribunal de Contas e a solicitar célere o mais rápido e aprofundado inquérito ao tema. Ao estar caladinho, está-se a atar de livre vontade ao poste onde o ministro já começa a chamuscar, lambido pelas chamas da má-língua.
Os jornalistas, esses, fizeram pior ainda, para não variar: o tema passou algo despercebido, ou então ligeiro, como se de um mau passo se tratasse, quase como uma tecnicalidade, quando no fundo pode ser uma questão de regime. Sem querer exagerar. Quando comparamos com o banzé que a mesma ministerial figura suscitou com o deserto ao sul do Tejo e com o “jamais”, percebemos o que interessa à nosso magra imprensa, especialmente a televisiva: circo máximo e risco mínimo.
A frase que aparece em epígrafe a este texto veio-me à memória quando li pela primeira vez sobre este caso. Pertence à peça Júlio César, de Shakespeare, e a um notável discurso fúnebre que Marco António diz junto ao cadáver de César logo após a sua morte. Bruto autorizara-o a fazer o elogio do defunto mas proibira-o de criticar os que haviam perpetrado o assassínio. Marco António, que é um sacaninha, obedece mas acaba por conseguir manobrar a plebe e arrebanhá-la para limpar o sebo a Bruto e seus aliados. Fá-lo referindo-se sistematicamente a Bruto e aos seus parceiros como “homens honoráveis”, com crescente ironia. E foi essa levíssima mas feroz ironia (“so are they all, all honourable men”) que me assaltou o pensamento, se calhar irracionalmente, se calhar injustamente. Certamente, com uma carga negativa.

Na peça, Bruto divide-se entre a amizade e admiração que tem por César em quem, no entanto, reconhece uma ambição perigosa e o seu amor pela república romana, que essa ambição põe em causa. Acaba por embarcar no conluio para matar César, por considerar que só assim protege Roma, mas fá-lo assumindo e mesmo antecipando as implicações do seu acto. Se Bruto é ou não um homem honorável, tal questão deixa-a Shakespeare ao critério do espectador.
Por mim, no final, não tive dúvidas: Bruto foi um homem honrado, que agiu como a sua consciência lhe ditava e assumiu as consequências sob a forma de um destino trágico. Voltando às concessões que precipitadamente se renovam sem concurso, gostava de ver o fim da peça e que esta não ficasse a meio, como por cá costuma. E não peço, nem ao nosso primeiro nem aos segundos que comanda, que morram como Bruto, no fio da espada. Peço que percebam que existe um ponto para além do qual a ética democrática não lhes permite que assobiem para o lado, mas lhes recomenda que ajam. Que se preocupem, que investiguem e, se caso for, que assuma as consequências quem tiver que o fazer.
sábado, julho 18, 2009
Que é que andamos aqui a fazer?
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Herberto Hélder, in “Poema do actor”
Pois, amiga: mais do que pensamos.
Ao princípio parece um brinquedo. Divertimo-nos. Mudamos cabeçalhos, ou as cores – enfim, há quem mude – alinhavamos e corrigimos. Ficamos contentes. Depois, umas semanas, dois meses e torna-se um sacerdócio. Insistimos. Vencemos a inércia. Dizemos: há muito tempo que e portanto obrigamo-nos. A dado momento, tornou-se um hábito que nos toma o sábado à noite ou que nos acomete inesperado mas periódico. Até que um dia se torna parte da nossa textura, como mais uma derme.
Durante este processo de ensimesmamento, não escrevemos – é verdade – sobre nós, mesmo quando sobre nós escrevemos. Há, em cada vida, em cada pessoa, matéria para redigir todos os livros do universo. Todos nós procurámos, como Ulisses. Todos amámos, inamovíveis como Romeu ou patéticos como Quixote ou impossivelmente como Carlos da Maia ou tudo isso e mais ainda em simultâneo. Outras vezes, a espaços, fomos estrangeiros na nossa terra e na nossa vida. Tivemos noites em que nos colocámos a pergunta de Hamlet, por outras palavras, sem fantasma e sem caveira. E como o velho, fizemo-nos a mares privativos e lutámos braviamente contra os nossos espadartes de estimação e até conseguimos. Baixámos em visita aos infernos que borbulham cá no fundo, os nossos demónios rindo-se de nós. E assim sucessivamente.
Quando julgamos escrever sobre nós, fazemo-lo afinal de dentro para fora, de nós para o mundo. Pensamos estar numa torre de marfim, isolados de tudo, materializando o nosso íntimo em cargas eléctricas num painel de cristais líquidos e guardando-o ciosamente em longínquas memórias de computador. Pretensão vã: o que estamos é a reflectir a vida lá fora, em todas as direcções, como as facetas de um diamante que não brilha se não receber luz. Dizia Ortega y Gasset que o homem é ele e as suas circunstâncias. Verdade. Mas, como consolo, as circunstâncias também são elas e nós. Porque nós somos o mundo, mais até do que dele fazer parte.
Assim se passa com todos, mesmo os maiores, de quem somos sombras. Sabias que as personagens do Guerra e Paz, excepto as que existiram historicamente, são na maioria representações de familiares do conde Leão Tolstoi? Também ele, um monstro da literatura, pegou no seu mundo pessoal e próximo e transformou-o naquele painel gigante sobre a vida e a História, que a todos diz respeito, geração após geração.
E não duvides que vale a pena. Quando escrevemos e partilhamos, quando nos expomos, quando motivamos um sorriso ou induzimos um pensamento, mesmo que de desdém, damos sentido à vida. Deixamos de ser moléculas presas à pouca latitude das regras quânticas e tornamo-nos espírito, amplo e quase perene. Libertamo-nos das leis da física num orgasmo de individualidade. Está bem, orgasmo será exagerado, mas reconhece que dá um certo gozo.
Quando digitamos nos nossos teclados, quando fazemos o “save now”, usamos da generosidade dos actores. Os nossos blogues são um palco onde representamos as nossas cenas. O estrado é pequeno, apenas alguns “bytes” num servidor, ronronando a um canto numa dependência climatizada, algures. A sala está escura: sabemos que há público, embora não o consigamos distinguir. Interpretamos vários papéis: nós próprios, nos momentos de maior franqueza, embora mais geralmente a imagem que temos de nós, ou por vezes um personagem que construímos para afirmar o que pessoalmente não temos coragem. E isto é bom: como diz o poema, ninguém ama tão desalmadamente como o actor.
Escrevendo para ti, sobre ti, amiga, alumias muito mais à tua volta do que se calhar suspeitas. Orgulha-te durante uns breves segundos.
quarta-feira, julho 15, 2009
segunda-feira, julho 13, 2009
O guia áspero do rock pedregoso
Para iniciar finalmente a série dos guias ásperos, e correndo o risco de ser já chamado ignaro, vamos começar pelo mais básico: "rock" pedregoso. Música para dedicar o corpo ao ritmo e abanar freneticamente a cabeça, para bater o pé com estrépito e fazer figurinhas irracionais, mas com todo o prazer. Para dar espaço ao animal que vive em nós. Os mais sectários detractores chamar-lhe-ão selvagem. Os mais fiéis seguidores chamar-lhe-ão selvagem. Ambos com muita razão.
Nem só de racionalidades vive o homem, graças a Deus. Os gregos, por exemplo, que nos ensinaram na escola como muito geométricos e ponderados, possuíam como todos nós um lado danado para a brincadeira. O culto de Dionísio, deus trácio, pegou de estaca entre a gregalhada, que adorava aquelas barbaridades (no sentido literal do termo) e se soltava em grandes pagodes nocturnos, com carne crua à dentada, álcool, dança no escuro e tudo o mais que intuímos mas cujo relato não chegou aos nossos dias. Sabemos, no entanto, que abanavam o capacete à noite. Disso, atesta Eurípides em “As Bacantes”, quando as põe a cantar:
Alguma vez voltarão a mim, uma outra vez,
As longas, longas danças,
Na escuridão até desaparecer o brilho das estrelas?
Voltarei a sentir o orvalho na garganta, e o fluxo de vento no meu cabelo?
Lampejarão os nossos pés brancos nas vastidões sombrias?
Desde esses idos até aos nossos dias, o pessoal continuou a procurar o lado livre de si próprio, nas celebrações do estio e nos Carnavais. Na segunda metade do século XX, o “rock” e o seu instrumento primeiro, a guitarra eléctrica, cavalgaram mudanças políticas e culturais e trouxeram de novo às massas as longas, longas danças nas vastidões sombrias. Mais recentemente, com o advento da electrónica e da miniaturização, a festa tornou-se privada e pode ser gozada no metropolitano, na fila de trânsito, na biblioteca.

As doze que se seguem, seleccionei-as por serem graves, telúricas, com um ritmo essencial que parece brotar da terra, como convém a música “rock”. São para mim emblemáticas desse estilo: guitarras distorcidas e velozes, “riffs”, baixo autoritário, batida insidiosa e alta pedalada. Por ordem aproximadamente cronológica:
I’m waiting for the man – The velvet underground
Brown Sugar – The rolling stones
Place in the line – Deep purple
Hocus Pocus – Focus
Tie your mother down - Queen
Real wild child – Iggy Pop
Rock’n’roll nigger – Patti Smith group
Safe European home – The clash
I wanna be sedated – The Ramones
My Sharona - The Knack
Smells like teen spirit – Nirvana
Pretty fly (for a white guy) – The offspring
Acrescento alguns apontamentos sobre a selecção.
“I’m waiting for the man”, com Lou Reed na liderança, poderá parecer um pouco deslocada, não sendo uma música intuitiva, que nos faça imediatamente mexer o pescoço. No entanto o seu carácter obsessivo e negro acaba por subjugar: há que ouvir até ao fim.
Os Stones poderiam concorrer com listas próprias em várias categorias. Para “rock” pedregoso, estive indeciso entre este “Brown Sugar” e o “Bitch”, do mesmo álbum “Sticky Fingers”, daquele que é o período de ouro do grupo, antes de começarem a encher chouriços e a viver dos rendimentos.
Dos Deep Purple, poderia parecer mais apropriado incluir um dos dois clássicos do “Made in Japan” (“Smoke on the water” e “Highway star”). No entanto, sempre encontrei neste “Place in the line”, uma canção que começa “bluesy” e acaba em alta pedalada, o modelo acabado de uma banda a tripar em sintonia. Na realidade, os elementos do grupo estavam já em conflito – a formação separar-se-ia a seguir à gravação do álbum – e nunca chegaram, surpreendentemente para quem ouve esta canção, a estar todos juntos no estúdio a gravar.
Os Focus foram uma fabulosa banda holandesa dos anos setenta, hoje esquecida, com grandes músicos como o guitarrista Jan Akkerman ou o teclista Thijs van Leer, que fundiu um “rock” por vezes pesado, por vezes psicadélico, com um som suave, de marcada influência erudita. A ouvir, este “Hocus Pocus” e depois tudo o que deste grupo vos vier parar à mão.Dos Queen, que tocaram um pouco de tudo, recuperei um dos momentos mais desbragados, o “Tie your mother down” do álbum “A day at the races”, com um Brian May em momento inspirado, um Freddie Mercury em grande e os coros característicos daquela fase da banda.
Do iguana e padrinho do “punk”, escolhi “Real Wild Child”, um “remake” de um êxito dos anos cinquenta de Johnny O’Keefe. Ligeiramente mais ligeira que a generalidade da selecção.
Da diva Patti Smith, um momento mais belicoso, gravado ao vivo.
Os Clash começaram “punks” mas no terceiro disco, o grande “London Calling”, já faziam o que lhes apetecia. Pelo meio, na transição, gravaram o menos conhecido “Give’em enough rope”, com vários excelentes momentos de “rock” pedregoso, entre os quais este “Safe European home”.Os saudosos Ramones (“uan-tu-fi-fó”, “gabba gabba hey” e outras credenciais equivalentes) fizeram carreira só com três acordes, assim diz a lenda. Banda de “rock’n’roll” aceleradíssimo, não poderiam faltar aqui.
“My sharona” representa o lado mais pedregoso da fértil “new wave” do final da década de setenta. Momento único dos “The Knack”, que se consumiram no esforço e desapareceram do mapa.
Quando ouvi pela primeira vez os Nirvana, já o Kurt Cobain tinha morrido. Mas desde logo não tive dúvidas que o “Nevermind” era um dos maiores discos de “rock” de sempre. Estive indeciso entre este “Smells like teen spirit” e o “Lithium”, que tem aquele verso no qual devíamos pensar todos os dias: “today I’m so happy/cause I found my friends/in my head”.
Para terminar em paródia, os Offspring, banda mediana que se excedeu neste “Pretty fly for a white guy”, de 1998.
Desde aí para cá, nada de novo na frente leste.
P.S. Fico com a sensação que falta aqui um eicidicizito...
sábado, julho 11, 2009
Crítica literária – o alegre magazine
Those disco synthesizers,
those daily tranquilizers,
those body building prizes,
those bedroom alibis,
all this, but no surprises for this year's girl.
Elvis Costello, in “This year’s girl”
Afligido com um problema de carácter pneumático e abdominal, inscrevi-me num ginásio com o objectivo de reduzir por via mecânica as larguras generosas que não soube atalhar pela disciplina alimentar. No acto de associação ganhei, apesar dos meus protestos, uma assinatura da revista Happy Woman, conhecida entre as leitoras mais fiéis simplesmente por Happy. Esta publicação, mais a tender para o compêndio que para o folheto, passou a atravancar mensalmente a minha parca caixa de correio, concorrendo em volume com os catálogos da “La Redoute” e em inutilidade com a magnífica folha a quatro cores com que a Junta de Freguesia publicita, a expensas do contribuinte, os valorosos feitos do seu presidente (descerramentos de placas alusivas à sua presença e outros que tal).
Normalmente, a Happy segue directamente para o papelão sem passar pela casa Partida, tão virginal como chegou. Ainda considerei colocá-la na casa de banho, mas o papel acetinado tem um dobre anguloso que não o recomenda para tarefas de pós-processamento.
Hoje, acometido de súbita curiosidade antropológica, decidi debruçar-me sobre o número de Julho de 2009, num exercício de perda de tempo semelhante ao folhear das Nova Gente que se empilham nas mesinhas das salas de espera da nossa classe médica, provavelmente com propósitos anestésicos. Perda de tempo que passo a partilhar com o leitor, que se está aqui é porque também não deve ter mesmo mais nada para fazer.
Começando na capa, assalta-nos uma fulana com canivetes de maratonista etíope, tez pálida, rímel carregado e cavalgando uns saltos altos de quinze centímetros, exibindo os riscos de uma dieta vegetariana, numa pose mais pretensa do que pretensiosamente “sexy”. À sua volta, os títulos dos sumarentos artigos desta edição: adoro sexo (testemunhos de mulheres sem preconceitos); a dois (a terapia de casal salvou o meu casamento); acupunctura (como perdi seis centímetros em três sessões); novo sex toy (testámos o brinquedo que faz sexo oral); tendência (elas gostam deles mais novos); e outras do mesmo maciço calibre, certamente de pedagógico interesse para qualquer moça casadoira.
No interior, habitam 210 generosas páginas. Só que – dei-me ao trabalho de contar – 68 são de publicidade, da oficial, com “Pub.” no canto da página e quase outras tantas são da outra, da encapotada. Aliás, a Happy foi construída de maneira a que não se distinga a publicidade do resto, resultando numa orgia de anúncios só suplantada pelos intervalos nas noites de cinema da SIC e da TVI.
Passando ao conteúdo, se é que se pode usar o termo, abramos ao acaso.
Página 65: rúbrica “Privado”. Vulgo horóscopo, mas dedicado à atitude laboral. À guisa de introdução, a Happy informa que um tal de Michel Gauquelin, especialista em estatística e psicólogo, descobriu que o sucesso na carreira está relacionado com a motivação. Pois. Grande guru. Com mais algum esforço de pesquisa teria descoberto que as escadas nos edifícios de escritórios sobem para cima e descem para baixo. Vou à “net”, descubro que este Michel era mas é astrólogo e percebo. Freud fica melhor do que a Maya na bagagem da menina moderna. Adiante.
Página 134. Colar a 1490 € na Pianegonda. Não sei onde fica este estabelecimento como nome de rainha visigótica, mas com preços tão bárbaros devia ser proibido fazer-lhe publicidade, por perigo para a economia familiar. Rapidamente adiante ou atrás, tanto faz.
Na 94 e seguintes, entrevista com o maquilhador da casa Dior, José Teixeira. Ora eis um mester que nem eu, nem o corrector do “Word”, sabíamos que existia. Este Zé afiança à cabeça que “a pele dourada, com um efeito nude mostra-nos que um look natural é o que é trendy este verão”. Agree totalmente, ó Joseph. E also estamos de acordo that “para os olhos imperam as cores ácidas, como o rosa fluorescente e o azul-turquesa”. Não sei como é que medes o pH das cores, mas se gostas de acidez a sério, experimenta o azul-sulfuroso que vais ver o que é que é imperioso. Vamos andando que isto pode-se pegar.
Página 148, na rúbrica “a dois”, a manchete titula “Material girl – três mulheres experimentaram Sasi, o masturbador feminino”. Finalmente, alguma ciência. O Sasi dispõe de duas velocidades e várias coreografias de movimentos. Sim, coreografias. Estava lá escrito. Suspeito que varie entre o movimento pendular do cantochão alentejano e o ritmo sobrenatural da macumba brasileira, passando pela polca e pelo “street rap”. Três voluntárias prestaram-se a um ensaio de condução. A Cláudia de 42 anos adorou, apesar de “ter perdido meia-hora a ler as instruções e a adaptar a ficha às tomadas” e ainda “de ter que esperar uma hora e quarenta e cinco minutos para que as baterias carregassem na totalidade”. Chatice, isso de fazerem manuais com três parágrafos completos. Mas compreendo que, após duas horas e quinze de escaldante espera, o Sasi não precisou de muito para brilhar. Ao invés, a Carla, de 32 anos, ficou algo decepcionada e estranhou, porque normalmente “vai facilmente ao rubro” – eu também, mas só em Alvalade, quando o Liedson dá uma de Sasi na baliza do Benfica. Carla, tens que compreender que no dia anterior, após duas horas e um quarto de lânguida espera, a Cláudia deve ter deixado o Sasi feito num oito. E mesmo os electrodomésticos precisam de se recompor. Finalmente, a Isabel, de 29 anos, achou o Sasi “fofinho, mas quase inerte”. Sasi, não te rales, elas às vezes são assim. Levo-te a beber uma cerveja para descomprimires e poderes desabafar.
Na folha 74, artigo de tese disserta sobre mulheres que seduzem homens mais novos. Mais uma tendência Primavera-Verão, que me vai obrigar a falsificar o bilhete de identidade para não me calhar nenhuma avozinha. Detalhe irónico: as pequenas que ilustram o artigo (aliás todos os artigos) têm no máximo vinte anos e aquele ar de girafa sem manchas. Detalhe jocoso: um dos subtítulos afiança “o sexo é muito bom”. Folgamos em saber. Nunca tínhamos reparado.
Página 130. Carteira da Prada a 1250 € na Fashion Clinic. Ala que se faz tarde!
Página 106. Chocolate “zen”, os melhores tratamentos com cacau. Na Ana Teresa Estética, no Porto, “tratamento cem por cento vegetal, à base de grão de cacau micronizado, talco e cereais, iniciando-se com esfoliação suave seguida de envolvimento com máscara de cacau e etc.”. Módicos 90 euros. Em Braga, na Angels Clinic, só 65 euros, mas calculo que o chocolate seja daquele em barra para mousse. Andando.
Página 152. Surpresa, surpresa, outro artigo sobre sexo! “The love doctor – como a terapia de casal salvou o meu casamento”. Não tive pachorra para ler.
Folha 140. Momento de introspecção: “descubra a sua personalidade erótica”. Parece-me apropriado, até porque ainda não tínhamos falado sobre sexo nesta edição.
Logo de enfiada, salvo seja, na página 144, testemunho. “Adoro sexo” como discreto título. Passamos a saber, em caixa, que Patrícia, advogada, 41 anos, pagou 500 dele para ter sexo com um profissional. Ora aqui está um senhor que merece todo o meu respeito e consideração, já que no meu emprego pagamos para os advogados nos “sexarem” e nunca o contrário. Parabéns, ó meu, e aumenta-me essa tabela de honorários que o mercado não foge!
A Happy, um terço anúncios e outro terço sexualidades mais ou menos exóticas, vende, ao que consta, mais que qualquer outra revista feminina em Portugal. Dirige-se segundo a sua editora a uma “mulher moderna, cosmopolita, aspiracional, que sabe o que quer e que, certamente, quer mais da vida”. Vou ser apodado de careta, senão pior, mas se o segmento a que a Happy aponta é o das modernas e cosmopolitas, então venham as antiquadas e rurais. Porque a imagem que a Happy nos dá das mulheres (felizmente a milhas da verdade) é a de umas fúteis meramente à cata de compras e, sobretudo, de umas aguadas desesperadas pelo que é que é com o primeiro que aparecer, nem que seja o Sasi. Nas fotografias que servem de pano de fundo às peças, não há uma única mulher de verdade. Só modelos esquálidos, em poses improváveis, com o olhar vazio. Por isso, bem ponderadas as coisas, a Happy é literatura da mais machista que já me passou pelas mãos, conseguindo neste campo bater, de modo perverso, a velhinha Crónica Feminina do tempo das nossas avós, com as suas receitas, os seus lavores e as suas puritanas recomendações. Mais cómica, no entanto.
terça-feira, junho 30, 2009
Exposição fotográfica (XV)
Os novos cadafalsos
Esta é daquelas que devia ser resolvida já, custe o que custar. Gaste-se o que se gastar. Cometam-se loucuras, como emitir dívida pública, ou acertem-se decisões, como proibir os gastos sumptuários com tendas gigantes para inaugurações e gabinetes ministeriais de ligação à comunicação social, mas arranje-se o guito. Se o problema for de falta de médicos, metam-se os doentes no avião e que se operem no estrangeiro.
Portugal foi o primeiro Estado-nação da Europa a abolir a pena de morte para crimes civis, em 1867, naquela que foi uma das nossas melhores horas, com perdão pelo anglicismo. Antes, em 30 de Novembro de 1786, o grão-duque Leopoldo II de Habsburgo promulgou o fim da pena capital na Toscânia e a destruição de todos os equipamentos destinados a execuções. Seguiram-se a efémera República Romana em 1849, a Venezuela em 1863 e São Marino em 1865. E depois nós, mais de um século antes de países com mania, como o Reino Unido ou a França.
Infelizmente, cento e quarenta e dois anos depois, parece que queremos substituir o garrote e a corda pela incúria e a ganância, e o sombrio dos patíbulos pela luz artificial dos corredores do IPO. Por isso, vale a pena lembrar aqui o nome do homem que tomou a iniciativa de acabar com a pena de morte entre nós: Augusto César Barjona de Freitas, ministro da Justiça pelo Partido Regenerador, jurista, deputado e par do Reino. Que a memória do seu exemplo humanista sirva, pelo menos, para envergonhar as cáfilas que vão assistindo com ar herbívoro ao aumentar e diminuir das filas de espera das operações de oncologia, como se fossem a coisa mais natural deste mundo.quarta-feira, junho 24, 2009
Uma história muito triste
Não sei se na prova de matemática os futuros engenheiros receberam uma tabuada para os ajudar nesse passo mais difícil que costuma ser o 7x8 ou se, na de história, uma nota de rodapé lhes lembrava que Afonso Henriques constava como primeiro rei cá da paróquia. Suspeito que alguma magnanimidade deste calibre terá havido.Porque enfim, “fardo”, não brinquemos. Se falássemos de “diglossia”, “pomologia” ou “testilhar”, ainda se compreendia a urgência do ministério em disponibilizar um dicionáriozito, não fosse a malta pensar que “testilhar” significa pôr os “testilhos” a uso. Mas “carregador”? “Ó mai gode”, como terão provavelmente escrito no teste de inglês.
Vamos por mau caminho. Em 1308, D.Dinis teve que enviar os estudantes de Lisboa para Coimbra, por barulhentos. Se vivesse hoje teria que os mandar para onde houvesse bons pastos, por burros. Melhor dizendo, feitos burros, à sua revelia, numa das maiores sabujices organizadas com que alguma vez uma geração, a que tem agora cinquentas e sessentas, terá afligido a seguinte, a que conta hoje de trintas para baixo.
O decaimento da qualidade do ensino primário e liceal em Portugal é flagrante para quem tenha um mínimo de memória, bom senso e contacto com o sistema. Dou aulas a universitários, vai para dezoito anos. Não realizei nenhum estudo estatístico, mas a capacidade – e a vontade – de raciocinar, de expor ideias oralmente ou por escrito, de resolver problemas abertos, em que há que conjecturar um bocadinho, tem baixado a olho nu de ano para ano. Quando apresento uma resposta na aula, muitos se indignam: “Não tinha dito que se podia assumir isto ou fazer aquilo”. Apetece-me responder: “E quando estiverem com a namorada, não vão ter que pensar nalgumas hipóteses sobre como fazer as coisas? Ou vão ficar a olhar para o problema com essas carinhas?”
Com a agravante que estes meus espécimes fazem parte daquele grupo eleito que acabou o liceu com quinze de média ou mais. Pergunto-me como serão os outros. Mas também, com escolas com os entusiasmantes epítetos “C+S” ou “EB2,3”, do que é que estávamos à espera? De Einsteins, se calhar…
A seguir ao 25 de Abril, o país cresceu economicamente e criou as condições para alargar a oferta de ensino a toda a população. O analfabetismo diminuiu, as populações liceal e universitária aumentaram, o número médio de anos de escolaridade cresceu. Resultados muito positivos, mas insuficientes, sobretudo se quisermos atravessar o século XXI num vagão de primeira classe. Tal porque, ao querer aumentar a quantidade, se descurou a qualidade, presumivelmente por um preconceito de que ser-se minimamente exigente era reaccionário e elitista. Erro! Antes pelo contrário.
Contando uma história: quando o meu irmão se doutorou por uma universidade inglesa, fui assistir à cerimónia, com pompa e fanfarra, em que outorgam lá as togas garridas e aqueles quicos com berloques prá cabeça. Na sua alocução solene, o reitor, do púlpito, dirigindo-se a seiscentos novos bacharéis, licenciados, mestres, doutores e “tutti quanti”, começou por perguntar-lhes:
- Quantos de vocês tiveram os pais na universidade?
Um quinto, talvez um quarto, levantou a mão. Prosseguiu:
- E quantos de vocês tiveram os avós na universidade?
Menos de uma dúzia de dedos se viram.
- Então, posso concluir uma de duas coisas. Ou os vossos pais e os vossos avós eram mais estúpidos que vocês ou então vocês tiveram mais oportunidades do que eles. O papel de uma universidade é o de criar oportunidades. Esta universidade foi fundada no século XIX por socialistas utópicos que acreditavam ser possível que os filhos dos operários fossem para a universidade e não apenas os daqueles mais afortunados que os podiam enviar para Cambridge ou Oxford. Na altura, esses disseram-nos: “Ides baixar o nível”. Nós nunca baixámos o nível, mostrando que qualidade e quantidade podem coexistir, se formos exigentes. Só a exigência é igualitária.
Lembro-me de ter saído de lá a pensar que este discurso deveria ser gravado e repetido continuamente e em volume elevado em todos os gabinetes e corredores da 5 de Outubro, do ministro ao contínuo, do nascer ao pôr-do-sol, na esperança ténue que algum sentido pudesse entrar naquelas cachimónias.
Porque de facto só a exigência é igualitária. O que nós temos tido em Portugal é o contrário: um sistema do mais elitista que há, em que a escola republicana abdicou da sua vocação correctora das desigualdades sociais e, pelo contrário, amplifica-as, permitindo que as elites se criem não pelo mérito e pelo esforço mas sim tendencialmente pela hereditariedade. Por outras palavras, aqueles que recebem a cultura em casa, porque os pais a têm, ou em escolas privadas, porque os pais pagam, ganham uma vantagem competitiva, injusta mas fatal como o destino, no acesso à universidade e, depois, ao longo da vida profissional. As poucas excepções que há confirmam a regra e os únicos que não vêem são o ministro e o ministério que lá vão, alegretes, garantido em panglossianos comunicados e entrevistas que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos. O Salazar deve estar a gozar o prato…
Esta desigualdade nota-se logo. Na vida empresarial, uma pessoa jovem que saiba não apenas pensar, mas também vender o seu pensamento, falando ou escrevendo, focando-se no essencial, com capacidade de síntese, essa pessoa sobe depressa porque se faz notar. Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Hoje, numa companhia, pede-se a alguém de menos de trinta anos que redija um texto, com um certo propósito, com um dado tom. Na enorme maioria dos casos, temos que reescrevê-lo para que se perceba pelo menos o que se pretende escrever. Quando tal não acontece, facto raro, estamos na presença de um provável futuro director. Claro que estas diferenças podem eventualmente resultar de talento. Mas, com maior probabilidade, terão por causa um diferencial de competências, adquiridas por um e não por outro, possivelmente em casa que o liceu não se deu a esse trabalho.

E agora, já vamos tarde: foram muitos anos a tratar os garotos deste país como atrasados mentais, a dar anúncios do Big Brother no lugar do Camilo ou Pessoa, a não ensinar integrais nem probabilidades, a responder em história e filosofia a perguntas curtinhas de saber livresco em vez de escrever boas dissertações com princípio, meio e fim, tese, antítese e síntese. Em resumo, a sabotá-los, a não querer pedir-lhes tudo aquilo que eles têm de bom para dar, que sempre têm. E depois inventou-se muito: alterações permanentes dos programas, mecanotecnias e cenas afins, projectos de “área-escola” e outros excelentes pretextos para não abordar, de forma que se veja, português, matemática, história, física, línguas, enfim, coisas que formem, por chatas que sejam.
Se quisermos pôr isto tudo no são, só com muito choro e ranger de dentes, que já não vamos lá com “soft landings”. Terá que infelizmente ocorrer um choque, com uma subida brusca dos níveis pedidos, chumbos maciços durante uns tempos e umas fornadas de jovens sacrificados à incompetência do actual sistema.
E antes haverá que resolver o problema do ministério da educação e dos seus pedagogos, pedagogias e pedagogismos. Discute-se muito a valia de investir no novo aeroporto de Lisboa ou nas linhas de TGV. Se sobrar algum dinheiro, um investimento de interesse nacional e retorno garantido seria o de pagar àquela malta do ministério para ficar em casa, sem fazer nenhum e sem tocar em nada, tal e qual o macaco da anedota.
segunda-feira, junho 08, 2009
Exposição fotográfica (XIV)
domingo, junho 07, 2009
Sol ou sombra
O debate entre adeptos da tourada e defensores da bicharada é relativamente minoritário em Portugal, mas quando surge ferve muito em água pouca. Habituámo-nos a ver nos frente-a-frente televisivos entre políticos um exercício delicodoce entre pares do mesmo ofício, cheio de “sô doutor” para aqui e para acolá e protestos da mais elevada consideração. Mas se puserem num estúdio lado-a-lado um comentador taurino e um membro de uma qualquer sociedade protectora da bicheza, podem ter a certeza que a coisa não é assim. Em menos de cinco minutos teremos um confronto a sério, com insulto e peixeirada garantidos. Rapidamente os argumentos racionais sairão de cena para dar lugares a ferozes acusações dirigidas pelo defensor dos animais ao fã tauromáquico, do género “bárbaros” e “que maus”, a que este retorquirá com insinuações, mais explícitas do que menos, sobre a falta de masculinidade do opositor. Quem tiver a felicidade de assistir a tal choque de titãs não se arrependerá do preço do bilhete.
Sei que para almas mais sensíveis ou algo analíticas, uma tourada compara com as matanças de bebés-foca à paulada: uma barbaridade indigna do excelente século onde vivemos, século de genomas desnudados e redes planetárias de computador (e em que se mata gente à paulada com visionamento no “Youtube”, mas isso são fenómenos sociologicamente explicáveis que não têm por que ferir as sensibilidades mais ecológicas). Por outro lado, a tal esquerda da moda associa touradas ao latifúndio marialva, de patilha e boné, sapato italiano e camisa aberta no peito, gabiru e reaccionário, pilar do antigo de regime e bem-sucedido no novo, como fielmente o descreveu José Cardoso Pires na “Cartilha” e noutros textos, e por isso acha mal.

Creio que são duas visões algo exageradas. Para começar, e restringindo-nos à corrida à portuguesa, os únicos bichos que correm risco de vida na arena são o toureiro ou o forcado. Não me recordo de nenhum touro que tivesse saído do redondel com mais do que feridas superficiais, mas sei de cavaleiros que foram retirados de maca em estado terminal e primeiros-cabos que passaram a falar fininho após uma pega menos sucedida. Não me recordo, por acaso, de ver os defensores dos animais preocupados com a saúde destes bichos-homem. Se calhar até acham piada, confessem lá!
Retorquirão que os touros vão para matadouro após a corrida. É também esse o destino do boi doméstico e não me parece que o grosso da população portuguesa esteja preparado para deixar de comer bifes. O touro sempre tem uma vida de liberdade e uma oportunidade única de arrumar de vez com um bandarilheiro, tudo muito mais digno que a existência de rações e engorda do seu primo boi. Sem touradas, extinguia-se o touro bravo, o que não abonaria a causa da biodiversidade. Na prática, touro e toureiro constituem um ecossistema e, por isso, a posição de certos ecologistas de repúdio da festa brava não prima pela consistência.
Quanto ao vínculo ao período do Estado Novo, será visão porventura redutora. Muito antes de Salazar andar de fraldas já a tourada unia em Portugal monarcas e governados num mesmo entusiasmo. Segundo se relata, já no século XVIII, D. José assistiu “in loco” à morte do Conde de Arcos após uma faena mal-sucedida, mais um que saiu da praça carregado por quatro. Almeida Garrett contava de Alhandra, a toireira. Fialho de Almeida, em “Os gatos”, descreve-nos o ambiente de uma “ferra” na Azóia: “há uma algazarra alegre em toda a quadra, gargalhadas, apupos, falatório, uma confusão de chapéus e lenços, cintas, saiotes por cima dos poiais, que bole de mistura continuamente os seus mosaicos de cores bárbaras.”
A tourada é uma tradição cultural da civilização do sol que circundou o Mediterrâneo. Já os cretenses a praticavam e com ela ilustraram as paredes de Cnossos. Sintetiza, no umbigo do mundo que é a praça, valores de esforço e coragem, momentos de alguma astúcia e de certa loucura, laivos de petulância e cores de tragédia. Marialva? Sim, sem dúvida. Mas nós, portugueses, somo-lo no melhor sentido que a palavra pode ter. Leiam a “Ilustre casa de Ramires” e percebam: nós somos assim. E, de certo modo, ainda bem.

Repito, regressando ao primeiro parágrafo, que não sou aficionado. Mas sou filho de um filho da Barquinha que, não sendo ele próprio aficionado, sentia a tauromaquia como parte essencial do ser ribatejano, da sua memória e da sua cultura. Por feliz coincidência ou talvez não, a sua última ida a um restaurante foi ao Redondel, sob a bancada da praça de touros de Vila Franca de Xira. Que outros não gostem, tranquilo. Que critiquem, perfeito. Que se achem no direito de impedir, de proibir e, pior, de se achar mais espertos, já me aborrece como protótipo de mentalidade fascistóide.
Este vínculo, umbilical e sanguíneo, entre o Ribatejo e o mundo taurino, encontrem-no em Miguel Torga, num capítulo belíssimo do seu “Portugal”, que assim termina: “Na sua planura fofa e ubérrima, na melodia dos seus chocalhos e na harmonia da sua cor, a terra ribatejana é um grito de felicidade incontida no corpo da tristeza lusa. É uma faixa escarlate e festiva à cinta de Portugal.”
Teoria da relatividade
Era porém justo que houvesse banquete e festa, porque este teu irmão estava morto, e reviveu, tinha-se perdido e foi encontrado. (São Lucas, 15,32)
Quem tem cu tem medo (Adágio popular)
Nestas semanas que passaram, apanhei o susto da vida. Um dos meus filhos doente, análises inconclusivas, alguma preocupação dos médicos num resultado sublinhado a caneta. Havia que esperar. Imprudência minha, coloquei a pergunta errada: pode ser o pior? Levei com a resposta redonda: não espero mas não posso descartar. E o chão fugiu-me debaixo dos pés.
À minha volta, teciam-se considerações estatísticas. Havia que serenar e pensar no frequente, não no raro. No provável e não na improbabilidade funesta. Seguros destes argumentos, todos ao meu redor viam o céu azul. Mas eu olhava e encontrava uma nuvem negra, pequenina, lá ao fundo. Repetiam-me: não te preocupes, fará sol amanhã. E eu: mas a nuvem parece-me preta e a crescer. Que não, que não pensasse em chuva. Porquê olhar para o único canto escuro do céu quando quase todo ele irradiava luz?
Tentei fugir-lhe e a nuvem pôs-se a caminho, sempre por cima da minha cabeça. Mirava por cima do ombro e achava-a mais gorda, espapaçada de chuva, prometendo borrasca. À noite, quando me deitava, olhava para o tecto e lá estava ela, anafando-se, avolumando-se, exagerando o negrume para melhor me estoirar na vida.
Passei mal. Dormi apenas as poucas horas que o cansaço, já próximo da aurora, aceitou conceder-me. Pintei, na tela frágil dos meus medos, os cenários mais sombrios, construídos de dor em carne viva. Perguntava-me: e se for? Que lhe digo quando ele me perguntar? E de cada vez que me decidia a seguir em frente, varrendo este mal da minha cabeça, a nuvem, lesta, contornava-me, barrando-me o caminho, subjugando-me com malícia.
Finalmente, estando em Paris, recebi a melhor das chamadas: confirma-se, está tudo bem. Olhei para cima. A nuvem – que viera comigo de avião, sendo mesmo a única do lado de dentro do aparelho – esfumara-se quase instantaneamente, só sobrando uns farrapos que, vogando, se afastavam, como penugem ao vento.
Quando regressei levei nas orelhas, de todos os quadrantes. “Vês? Era preciso tanto sofrimento? Espero que tenhas aprendido.” Pus a mão na consciência: de facto, aprendera qualquer coisa. Não saíra a mesma pessoa desta experiência, deste mês de convívio com a minha nuvem negra particular.
Tive prova disso dias depois, quando me surgiu um aborrecimento no trabalho. Uma viagem para uma reunião inesperada, que não me parecia de grande utilidade, marcada pela chefia em altura que não dava jeito. Danei-me. Mas, de repente, veio-me a memória da nuvem, balofa e inquietante. Pensei: que preocupação de chacha! Venha a viagem! Não merece que dedique um ião que seja nos meus neurónios a aborrecer-me com isto.
Concluo, de facto, que há infelicidades absolutas, indeléveis, como a perda de um filho, ao lado das quais as pequenas agruras da vida são orvalho que se afasta com a palma da mão. Mais: não sofrer uma infelicidade absoluta é em si uma felicidade absoluta, que deveria ser imbeliscável pelos aborrecimentos mindinhos. Ao lado dela, tudo o mais é relativo.
Eu só andei umas semanas com a chaga da pequenina nuvem a reboque, que se desvaneceu num instante à luz das boas notícias. Mas há pais e filhos que voam permanentemente no meio da tormenta, bem no coração de um “cumulus nimbus”, levando com granizo e trovoada, agitados para cima e para baixo, sem esperança de bom porto. Uns, determinados, de semblante estóico. Outros, de olhos destroçados. Todos, certamente, rasgados por dentro. Que consequências podemos retirar da sua dor?
Várias: éticas, morais, até políticas. Sobre o sentido da felicidade. Sobre o valor único da vida e do Homem. Sobre a fibra daqueles que o defendem. Sobre a barbárie dos que condescendem. E mais sobre as quais, em tempo, aqui conversaremos.
Lembremos, por exemplo, que crianças há que morrem de fatalidade, de acidente, de doença, o que já em si é uma tragédia sem retorno. Mas outras vão-se ao tiro e à bomba, às mãos do mal absoluto em que os homens são férteis. Nestes casos, não há espaço para relativizar.
Da próxima vez que ouvirem algum filho-da-puta de merda, político ou jornalista, referir-se a crianças desfeitas por mísseis de alguma “bem
sucedida operação” com a expressão “danos colaterais”, atentem e percebam que os palavrões obscenos são estas últimas palavras e não os vocábulos bem objectivos que alinhavei no início desta frase. A talhe de foice: vocábulos aplicáveis a juízes que mandam crianças apanhar porrada na Rússia, desculpando-se depois do indesculpável e a ministros que tergiversam sobre o assunto, tentando disfarçar o indisfarçável da sua mesquinhez.
sábado, maio 30, 2009
A marinhada
Passara-me ao lado no próprio dia, mas em boa hora um amigo enviou-me um “link” (http://www.youtube.com/watch?v=wZLaLO-tTJU) para o vídeo mais visto na “Internet” portuguesa: o desmadre ocorrido sexta-feira passada entre a locutora de continuidade Manuela Moura Guedes (MMG) e o homem que segura o bastão dos advogados, António Marinho Pinto (AMP), que amarinhou pelas paredes numa verdadeira batalha campal ao lado da qual Atoleiros e as Linhas de Torres fazem figura de escaramuça de bancada de bola.
Adorei!
Poder-se-á ressalvar que AMP não prima pela subtileza, mas neste caso ainda bem porque no que toca a MMG só se perdem as que não acertam no alvo. Como dizia D. João II, que dessa poda sabia muito, há uma hora da coruja e uma hora do falcão. E quando se trata da MMG só pode ser esta última. Do falcão, da águia, do milhafre, do condor, do abutre e de toda a passarada que não canora ou de pose sábia, mas que bique e que bique forte.
AMP soltou-lhe muita coisa acertada: que não deixa falar ninguém, que faz julgamentos sumários disfarçados de entrevistas, que faz acusações e afirmações e não perguntas, que não faz puto ideia do que quer dizer ética jornalística, que foi lá posta, que abusa da posição que tem. Só falhou numa coisa: acusou-a de péssimo jornalismo. Ó Marinho! Nessa lá te espalhaste. Porque chamar jornalismo, mesmo que mau, àquela verborreia abotoxada é como considerar bel-canto as actuações do Quim Barreiros nas festas de Nossa Senhora da Murtalhosa.
Também o munífico esposo, por azar dos Távoras director da estação e com aquele petisco para gerir, lá veio mais uma vez de vassourinha e balde, tentar compor os estragos, defendendo o “jornalismo” da estação com o argumento do mais alto “share”. Está enganado. Se quota de mercado fosse sinal de qualidade, o “The Sun” e o “Daily Mirror” eram jornais de referência, para já não falar do Diário do Povo, editado pelo PC Chinês em tiragens de dezenas de milhões. Para além disto, o tal de “share” bota-se à frente do televisor não para ouvir jornalismo mas para assistir à peixeirada, naquela onda coprofílica do quanto pior melhor.
Nem marido, nem mulher fazem a mínima ideia do que seja jornalismo sério e a sério. Conceitos como investigação trabalhada, procura incondicional da verdade, cruzamento de fontes, audição da opinião contrária ou presunção de inocência – sim, esta também se aplica no jornalismo – não constam das preocupações da TVI. O que lhes interessa é espectáculo, utilizando os “entrevistados” como meros figurantes para que a MMG, entre esgares e caretas, interrompendo malcriadamente e esganiçando a toda a hora, debite os seus lugares-comuns populistas. Ao ver o jornal de sexta da TVI, não nos lembramos do “it’s the press, baby, it’s the press” do Bogart, mas mais do “I love the smell of napalm in the morning” do Coppola.
Tudo isto existe e tudo isto é triste, porque o bom jornalismo, independente excepto da verdade (mesmo que alinhado), iconoclasta quando preciso e respeitador quando devido, é um pilar de uma democracia. Há jornalistas que dão o peito às balas, literalmente, pelo que o nome da sua profissão não deve ser invocado em vão. O circo fácil que a TVI monta nada faz pela luta contra a corrupção ou a imoralidade dos políticos da qual a auto-proclamada justiceira MMG pretende ser paladina. Pelo contrário: é no campo adubado pelas MMGs deste mundo que essas chagas mais medram. A TVI e o “establishment” político português são duas faces da mesma moeda, que não se olham nem se enxergam.
Terminando pelo bastonário: geralmente não aprecio o estilo trauliteiro, mas neste caso teve pelo menos o mérito de pôr finalmente uns pontos nuns is que andavam órfãos e ainda o de realizar o milagre de proporções bíblicas de calar a matraca à senhora. Noutros tempos da fidalguia, o Rei de Portugal, embora achando-o popularucho, tê-lo-ia compensado pela galhardia e pelo a-propósito, concedendo-lhe uma tença ou um viscondado com uns hectares de vinha e olival que lhe rendessem uns contos de reis.



