terça-feira, junho 30, 2009
Exposição fotográfica (XV)
Os novos cadafalsos
Esta é daquelas que devia ser resolvida já, custe o que custar. Gaste-se o que se gastar. Cometam-se loucuras, como emitir dívida pública, ou acertem-se decisões, como proibir os gastos sumptuários com tendas gigantes para inaugurações e gabinetes ministeriais de ligação à comunicação social, mas arranje-se o guito. Se o problema for de falta de médicos, metam-se os doentes no avião e que se operem no estrangeiro.
Portugal foi o primeiro Estado-nação da Europa a abolir a pena de morte para crimes civis, em 1867, naquela que foi uma das nossas melhores horas, com perdão pelo anglicismo. Antes, em 30 de Novembro de 1786, o grão-duque Leopoldo II de Habsburgo promulgou o fim da pena capital na Toscânia e a destruição de todos os equipamentos destinados a execuções. Seguiram-se a efémera República Romana em 1849, a Venezuela em 1863 e São Marino em 1865. E depois nós, mais de um século antes de países com mania, como o Reino Unido ou a França.
Infelizmente, cento e quarenta e dois anos depois, parece que queremos substituir o garrote e a corda pela incúria e a ganância, e o sombrio dos patíbulos pela luz artificial dos corredores do IPO. Por isso, vale a pena lembrar aqui o nome do homem que tomou a iniciativa de acabar com a pena de morte entre nós: Augusto César Barjona de Freitas, ministro da Justiça pelo Partido Regenerador, jurista, deputado e par do Reino. Que a memória do seu exemplo humanista sirva, pelo menos, para envergonhar as cáfilas que vão assistindo com ar herbívoro ao aumentar e diminuir das filas de espera das operações de oncologia, como se fossem a coisa mais natural deste mundo.quarta-feira, junho 24, 2009
Uma história muito triste
Não sei se na prova de matemática os futuros engenheiros receberam uma tabuada para os ajudar nesse passo mais difícil que costuma ser o 7x8 ou se, na de história, uma nota de rodapé lhes lembrava que Afonso Henriques constava como primeiro rei cá da paróquia. Suspeito que alguma magnanimidade deste calibre terá havido.Porque enfim, “fardo”, não brinquemos. Se falássemos de “diglossia”, “pomologia” ou “testilhar”, ainda se compreendia a urgência do ministério em disponibilizar um dicionáriozito, não fosse a malta pensar que “testilhar” significa pôr os “testilhos” a uso. Mas “carregador”? “Ó mai gode”, como terão provavelmente escrito no teste de inglês.
Vamos por mau caminho. Em 1308, D.Dinis teve que enviar os estudantes de Lisboa para Coimbra, por barulhentos. Se vivesse hoje teria que os mandar para onde houvesse bons pastos, por burros. Melhor dizendo, feitos burros, à sua revelia, numa das maiores sabujices organizadas com que alguma vez uma geração, a que tem agora cinquentas e sessentas, terá afligido a seguinte, a que conta hoje de trintas para baixo.
O decaimento da qualidade do ensino primário e liceal em Portugal é flagrante para quem tenha um mínimo de memória, bom senso e contacto com o sistema. Dou aulas a universitários, vai para dezoito anos. Não realizei nenhum estudo estatístico, mas a capacidade – e a vontade – de raciocinar, de expor ideias oralmente ou por escrito, de resolver problemas abertos, em que há que conjecturar um bocadinho, tem baixado a olho nu de ano para ano. Quando apresento uma resposta na aula, muitos se indignam: “Não tinha dito que se podia assumir isto ou fazer aquilo”. Apetece-me responder: “E quando estiverem com a namorada, não vão ter que pensar nalgumas hipóteses sobre como fazer as coisas? Ou vão ficar a olhar para o problema com essas carinhas?”
Com a agravante que estes meus espécimes fazem parte daquele grupo eleito que acabou o liceu com quinze de média ou mais. Pergunto-me como serão os outros. Mas também, com escolas com os entusiasmantes epítetos “C+S” ou “EB2,3”, do que é que estávamos à espera? De Einsteins, se calhar…
A seguir ao 25 de Abril, o país cresceu economicamente e criou as condições para alargar a oferta de ensino a toda a população. O analfabetismo diminuiu, as populações liceal e universitária aumentaram, o número médio de anos de escolaridade cresceu. Resultados muito positivos, mas insuficientes, sobretudo se quisermos atravessar o século XXI num vagão de primeira classe. Tal porque, ao querer aumentar a quantidade, se descurou a qualidade, presumivelmente por um preconceito de que ser-se minimamente exigente era reaccionário e elitista. Erro! Antes pelo contrário.
Contando uma história: quando o meu irmão se doutorou por uma universidade inglesa, fui assistir à cerimónia, com pompa e fanfarra, em que outorgam lá as togas garridas e aqueles quicos com berloques prá cabeça. Na sua alocução solene, o reitor, do púlpito, dirigindo-se a seiscentos novos bacharéis, licenciados, mestres, doutores e “tutti quanti”, começou por perguntar-lhes:
- Quantos de vocês tiveram os pais na universidade?
Um quinto, talvez um quarto, levantou a mão. Prosseguiu:
- E quantos de vocês tiveram os avós na universidade?
Menos de uma dúzia de dedos se viram.
- Então, posso concluir uma de duas coisas. Ou os vossos pais e os vossos avós eram mais estúpidos que vocês ou então vocês tiveram mais oportunidades do que eles. O papel de uma universidade é o de criar oportunidades. Esta universidade foi fundada no século XIX por socialistas utópicos que acreditavam ser possível que os filhos dos operários fossem para a universidade e não apenas os daqueles mais afortunados que os podiam enviar para Cambridge ou Oxford. Na altura, esses disseram-nos: “Ides baixar o nível”. Nós nunca baixámos o nível, mostrando que qualidade e quantidade podem coexistir, se formos exigentes. Só a exigência é igualitária.
Lembro-me de ter saído de lá a pensar que este discurso deveria ser gravado e repetido continuamente e em volume elevado em todos os gabinetes e corredores da 5 de Outubro, do ministro ao contínuo, do nascer ao pôr-do-sol, na esperança ténue que algum sentido pudesse entrar naquelas cachimónias.
Porque de facto só a exigência é igualitária. O que nós temos tido em Portugal é o contrário: um sistema do mais elitista que há, em que a escola republicana abdicou da sua vocação correctora das desigualdades sociais e, pelo contrário, amplifica-as, permitindo que as elites se criem não pelo mérito e pelo esforço mas sim tendencialmente pela hereditariedade. Por outras palavras, aqueles que recebem a cultura em casa, porque os pais a têm, ou em escolas privadas, porque os pais pagam, ganham uma vantagem competitiva, injusta mas fatal como o destino, no acesso à universidade e, depois, ao longo da vida profissional. As poucas excepções que há confirmam a regra e os únicos que não vêem são o ministro e o ministério que lá vão, alegretes, garantido em panglossianos comunicados e entrevistas que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos. O Salazar deve estar a gozar o prato…
Esta desigualdade nota-se logo. Na vida empresarial, uma pessoa jovem que saiba não apenas pensar, mas também vender o seu pensamento, falando ou escrevendo, focando-se no essencial, com capacidade de síntese, essa pessoa sobe depressa porque se faz notar. Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Hoje, numa companhia, pede-se a alguém de menos de trinta anos que redija um texto, com um certo propósito, com um dado tom. Na enorme maioria dos casos, temos que reescrevê-lo para que se perceba pelo menos o que se pretende escrever. Quando tal não acontece, facto raro, estamos na presença de um provável futuro director. Claro que estas diferenças podem eventualmente resultar de talento. Mas, com maior probabilidade, terão por causa um diferencial de competências, adquiridas por um e não por outro, possivelmente em casa que o liceu não se deu a esse trabalho.

E agora, já vamos tarde: foram muitos anos a tratar os garotos deste país como atrasados mentais, a dar anúncios do Big Brother no lugar do Camilo ou Pessoa, a não ensinar integrais nem probabilidades, a responder em história e filosofia a perguntas curtinhas de saber livresco em vez de escrever boas dissertações com princípio, meio e fim, tese, antítese e síntese. Em resumo, a sabotá-los, a não querer pedir-lhes tudo aquilo que eles têm de bom para dar, que sempre têm. E depois inventou-se muito: alterações permanentes dos programas, mecanotecnias e cenas afins, projectos de “área-escola” e outros excelentes pretextos para não abordar, de forma que se veja, português, matemática, história, física, línguas, enfim, coisas que formem, por chatas que sejam.
Se quisermos pôr isto tudo no são, só com muito choro e ranger de dentes, que já não vamos lá com “soft landings”. Terá que infelizmente ocorrer um choque, com uma subida brusca dos níveis pedidos, chumbos maciços durante uns tempos e umas fornadas de jovens sacrificados à incompetência do actual sistema.
E antes haverá que resolver o problema do ministério da educação e dos seus pedagogos, pedagogias e pedagogismos. Discute-se muito a valia de investir no novo aeroporto de Lisboa ou nas linhas de TGV. Se sobrar algum dinheiro, um investimento de interesse nacional e retorno garantido seria o de pagar àquela malta do ministério para ficar em casa, sem fazer nenhum e sem tocar em nada, tal e qual o macaco da anedota.
segunda-feira, junho 08, 2009
Exposição fotográfica (XIV)
domingo, junho 07, 2009
Sol ou sombra
O debate entre adeptos da tourada e defensores da bicharada é relativamente minoritário em Portugal, mas quando surge ferve muito em água pouca. Habituámo-nos a ver nos frente-a-frente televisivos entre políticos um exercício delicodoce entre pares do mesmo ofício, cheio de “sô doutor” para aqui e para acolá e protestos da mais elevada consideração. Mas se puserem num estúdio lado-a-lado um comentador taurino e um membro de uma qualquer sociedade protectora da bicheza, podem ter a certeza que a coisa não é assim. Em menos de cinco minutos teremos um confronto a sério, com insulto e peixeirada garantidos. Rapidamente os argumentos racionais sairão de cena para dar lugares a ferozes acusações dirigidas pelo defensor dos animais ao fã tauromáquico, do género “bárbaros” e “que maus”, a que este retorquirá com insinuações, mais explícitas do que menos, sobre a falta de masculinidade do opositor. Quem tiver a felicidade de assistir a tal choque de titãs não se arrependerá do preço do bilhete.
Sei que para almas mais sensíveis ou algo analíticas, uma tourada compara com as matanças de bebés-foca à paulada: uma barbaridade indigna do excelente século onde vivemos, século de genomas desnudados e redes planetárias de computador (e em que se mata gente à paulada com visionamento no “Youtube”, mas isso são fenómenos sociologicamente explicáveis que não têm por que ferir as sensibilidades mais ecológicas). Por outro lado, a tal esquerda da moda associa touradas ao latifúndio marialva, de patilha e boné, sapato italiano e camisa aberta no peito, gabiru e reaccionário, pilar do antigo de regime e bem-sucedido no novo, como fielmente o descreveu José Cardoso Pires na “Cartilha” e noutros textos, e por isso acha mal.

Creio que são duas visões algo exageradas. Para começar, e restringindo-nos à corrida à portuguesa, os únicos bichos que correm risco de vida na arena são o toureiro ou o forcado. Não me recordo de nenhum touro que tivesse saído do redondel com mais do que feridas superficiais, mas sei de cavaleiros que foram retirados de maca em estado terminal e primeiros-cabos que passaram a falar fininho após uma pega menos sucedida. Não me recordo, por acaso, de ver os defensores dos animais preocupados com a saúde destes bichos-homem. Se calhar até acham piada, confessem lá!
Retorquirão que os touros vão para matadouro após a corrida. É também esse o destino do boi doméstico e não me parece que o grosso da população portuguesa esteja preparado para deixar de comer bifes. O touro sempre tem uma vida de liberdade e uma oportunidade única de arrumar de vez com um bandarilheiro, tudo muito mais digno que a existência de rações e engorda do seu primo boi. Sem touradas, extinguia-se o touro bravo, o que não abonaria a causa da biodiversidade. Na prática, touro e toureiro constituem um ecossistema e, por isso, a posição de certos ecologistas de repúdio da festa brava não prima pela consistência.
Quanto ao vínculo ao período do Estado Novo, será visão porventura redutora. Muito antes de Salazar andar de fraldas já a tourada unia em Portugal monarcas e governados num mesmo entusiasmo. Segundo se relata, já no século XVIII, D. José assistiu “in loco” à morte do Conde de Arcos após uma faena mal-sucedida, mais um que saiu da praça carregado por quatro. Almeida Garrett contava de Alhandra, a toireira. Fialho de Almeida, em “Os gatos”, descreve-nos o ambiente de uma “ferra” na Azóia: “há uma algazarra alegre em toda a quadra, gargalhadas, apupos, falatório, uma confusão de chapéus e lenços, cintas, saiotes por cima dos poiais, que bole de mistura continuamente os seus mosaicos de cores bárbaras.”
A tourada é uma tradição cultural da civilização do sol que circundou o Mediterrâneo. Já os cretenses a praticavam e com ela ilustraram as paredes de Cnossos. Sintetiza, no umbigo do mundo que é a praça, valores de esforço e coragem, momentos de alguma astúcia e de certa loucura, laivos de petulância e cores de tragédia. Marialva? Sim, sem dúvida. Mas nós, portugueses, somo-lo no melhor sentido que a palavra pode ter. Leiam a “Ilustre casa de Ramires” e percebam: nós somos assim. E, de certo modo, ainda bem.

Repito, regressando ao primeiro parágrafo, que não sou aficionado. Mas sou filho de um filho da Barquinha que, não sendo ele próprio aficionado, sentia a tauromaquia como parte essencial do ser ribatejano, da sua memória e da sua cultura. Por feliz coincidência ou talvez não, a sua última ida a um restaurante foi ao Redondel, sob a bancada da praça de touros de Vila Franca de Xira. Que outros não gostem, tranquilo. Que critiquem, perfeito. Que se achem no direito de impedir, de proibir e, pior, de se achar mais espertos, já me aborrece como protótipo de mentalidade fascistóide.
Este vínculo, umbilical e sanguíneo, entre o Ribatejo e o mundo taurino, encontrem-no em Miguel Torga, num capítulo belíssimo do seu “Portugal”, que assim termina: “Na sua planura fofa e ubérrima, na melodia dos seus chocalhos e na harmonia da sua cor, a terra ribatejana é um grito de felicidade incontida no corpo da tristeza lusa. É uma faixa escarlate e festiva à cinta de Portugal.”
Teoria da relatividade
Era porém justo que houvesse banquete e festa, porque este teu irmão estava morto, e reviveu, tinha-se perdido e foi encontrado. (São Lucas, 15,32)
Quem tem cu tem medo (Adágio popular)
Nestas semanas que passaram, apanhei o susto da vida. Um dos meus filhos doente, análises inconclusivas, alguma preocupação dos médicos num resultado sublinhado a caneta. Havia que esperar. Imprudência minha, coloquei a pergunta errada: pode ser o pior? Levei com a resposta redonda: não espero mas não posso descartar. E o chão fugiu-me debaixo dos pés.
À minha volta, teciam-se considerações estatísticas. Havia que serenar e pensar no frequente, não no raro. No provável e não na improbabilidade funesta. Seguros destes argumentos, todos ao meu redor viam o céu azul. Mas eu olhava e encontrava uma nuvem negra, pequenina, lá ao fundo. Repetiam-me: não te preocupes, fará sol amanhã. E eu: mas a nuvem parece-me preta e a crescer. Que não, que não pensasse em chuva. Porquê olhar para o único canto escuro do céu quando quase todo ele irradiava luz?
Tentei fugir-lhe e a nuvem pôs-se a caminho, sempre por cima da minha cabeça. Mirava por cima do ombro e achava-a mais gorda, espapaçada de chuva, prometendo borrasca. À noite, quando me deitava, olhava para o tecto e lá estava ela, anafando-se, avolumando-se, exagerando o negrume para melhor me estoirar na vida.
Passei mal. Dormi apenas as poucas horas que o cansaço, já próximo da aurora, aceitou conceder-me. Pintei, na tela frágil dos meus medos, os cenários mais sombrios, construídos de dor em carne viva. Perguntava-me: e se for? Que lhe digo quando ele me perguntar? E de cada vez que me decidia a seguir em frente, varrendo este mal da minha cabeça, a nuvem, lesta, contornava-me, barrando-me o caminho, subjugando-me com malícia.
Finalmente, estando em Paris, recebi a melhor das chamadas: confirma-se, está tudo bem. Olhei para cima. A nuvem – que viera comigo de avião, sendo mesmo a única do lado de dentro do aparelho – esfumara-se quase instantaneamente, só sobrando uns farrapos que, vogando, se afastavam, como penugem ao vento.
Quando regressei levei nas orelhas, de todos os quadrantes. “Vês? Era preciso tanto sofrimento? Espero que tenhas aprendido.” Pus a mão na consciência: de facto, aprendera qualquer coisa. Não saíra a mesma pessoa desta experiência, deste mês de convívio com a minha nuvem negra particular.
Tive prova disso dias depois, quando me surgiu um aborrecimento no trabalho. Uma viagem para uma reunião inesperada, que não me parecia de grande utilidade, marcada pela chefia em altura que não dava jeito. Danei-me. Mas, de repente, veio-me a memória da nuvem, balofa e inquietante. Pensei: que preocupação de chacha! Venha a viagem! Não merece que dedique um ião que seja nos meus neurónios a aborrecer-me com isto.
Concluo, de facto, que há infelicidades absolutas, indeléveis, como a perda de um filho, ao lado das quais as pequenas agruras da vida são orvalho que se afasta com a palma da mão. Mais: não sofrer uma infelicidade absoluta é em si uma felicidade absoluta, que deveria ser imbeliscável pelos aborrecimentos mindinhos. Ao lado dela, tudo o mais é relativo.
Eu só andei umas semanas com a chaga da pequenina nuvem a reboque, que se desvaneceu num instante à luz das boas notícias. Mas há pais e filhos que voam permanentemente no meio da tormenta, bem no coração de um “cumulus nimbus”, levando com granizo e trovoada, agitados para cima e para baixo, sem esperança de bom porto. Uns, determinados, de semblante estóico. Outros, de olhos destroçados. Todos, certamente, rasgados por dentro. Que consequências podemos retirar da sua dor?
Várias: éticas, morais, até políticas. Sobre o sentido da felicidade. Sobre o valor único da vida e do Homem. Sobre a fibra daqueles que o defendem. Sobre a barbárie dos que condescendem. E mais sobre as quais, em tempo, aqui conversaremos.
Lembremos, por exemplo, que crianças há que morrem de fatalidade, de acidente, de doença, o que já em si é uma tragédia sem retorno. Mas outras vão-se ao tiro e à bomba, às mãos do mal absoluto em que os homens são férteis. Nestes casos, não há espaço para relativizar.
Da próxima vez que ouvirem algum filho-da-puta de merda, político ou jornalista, referir-se a crianças desfeitas por mísseis de alguma “bem
sucedida operação” com a expressão “danos colaterais”, atentem e percebam que os palavrões obscenos são estas últimas palavras e não os vocábulos bem objectivos que alinhavei no início desta frase. A talhe de foice: vocábulos aplicáveis a juízes que mandam crianças apanhar porrada na Rússia, desculpando-se depois do indesculpável e a ministros que tergiversam sobre o assunto, tentando disfarçar o indisfarçável da sua mesquinhez.
sábado, maio 30, 2009
A marinhada
Passara-me ao lado no próprio dia, mas em boa hora um amigo enviou-me um “link” (http://www.youtube.com/watch?v=wZLaLO-tTJU) para o vídeo mais visto na “Internet” portuguesa: o desmadre ocorrido sexta-feira passada entre a locutora de continuidade Manuela Moura Guedes (MMG) e o homem que segura o bastão dos advogados, António Marinho Pinto (AMP), que amarinhou pelas paredes numa verdadeira batalha campal ao lado da qual Atoleiros e as Linhas de Torres fazem figura de escaramuça de bancada de bola.
Adorei!
Poder-se-á ressalvar que AMP não prima pela subtileza, mas neste caso ainda bem porque no que toca a MMG só se perdem as que não acertam no alvo. Como dizia D. João II, que dessa poda sabia muito, há uma hora da coruja e uma hora do falcão. E quando se trata da MMG só pode ser esta última. Do falcão, da águia, do milhafre, do condor, do abutre e de toda a passarada que não canora ou de pose sábia, mas que bique e que bique forte.
AMP soltou-lhe muita coisa acertada: que não deixa falar ninguém, que faz julgamentos sumários disfarçados de entrevistas, que faz acusações e afirmações e não perguntas, que não faz puto ideia do que quer dizer ética jornalística, que foi lá posta, que abusa da posição que tem. Só falhou numa coisa: acusou-a de péssimo jornalismo. Ó Marinho! Nessa lá te espalhaste. Porque chamar jornalismo, mesmo que mau, àquela verborreia abotoxada é como considerar bel-canto as actuações do Quim Barreiros nas festas de Nossa Senhora da Murtalhosa.
Também o munífico esposo, por azar dos Távoras director da estação e com aquele petisco para gerir, lá veio mais uma vez de vassourinha e balde, tentar compor os estragos, defendendo o “jornalismo” da estação com o argumento do mais alto “share”. Está enganado. Se quota de mercado fosse sinal de qualidade, o “The Sun” e o “Daily Mirror” eram jornais de referência, para já não falar do Diário do Povo, editado pelo PC Chinês em tiragens de dezenas de milhões. Para além disto, o tal de “share” bota-se à frente do televisor não para ouvir jornalismo mas para assistir à peixeirada, naquela onda coprofílica do quanto pior melhor.
Nem marido, nem mulher fazem a mínima ideia do que seja jornalismo sério e a sério. Conceitos como investigação trabalhada, procura incondicional da verdade, cruzamento de fontes, audição da opinião contrária ou presunção de inocência – sim, esta também se aplica no jornalismo – não constam das preocupações da TVI. O que lhes interessa é espectáculo, utilizando os “entrevistados” como meros figurantes para que a MMG, entre esgares e caretas, interrompendo malcriadamente e esganiçando a toda a hora, debite os seus lugares-comuns populistas. Ao ver o jornal de sexta da TVI, não nos lembramos do “it’s the press, baby, it’s the press” do Bogart, mas mais do “I love the smell of napalm in the morning” do Coppola.
Tudo isto existe e tudo isto é triste, porque o bom jornalismo, independente excepto da verdade (mesmo que alinhado), iconoclasta quando preciso e respeitador quando devido, é um pilar de uma democracia. Há jornalistas que dão o peito às balas, literalmente, pelo que o nome da sua profissão não deve ser invocado em vão. O circo fácil que a TVI monta nada faz pela luta contra a corrupção ou a imoralidade dos políticos da qual a auto-proclamada justiceira MMG pretende ser paladina. Pelo contrário: é no campo adubado pelas MMGs deste mundo que essas chagas mais medram. A TVI e o “establishment” político português são duas faces da mesma moeda, que não se olham nem se enxergam.
Terminando pelo bastonário: geralmente não aprecio o estilo trauliteiro, mas neste caso teve pelo menos o mérito de pôr finalmente uns pontos nuns is que andavam órfãos e ainda o de realizar o milagre de proporções bíblicas de calar a matraca à senhora. Noutros tempos da fidalguia, o Rei de Portugal, embora achando-o popularucho, tê-lo-ia compensado pela galhardia e pelo a-propósito, concedendo-lhe uma tença ou um viscondado com uns hectares de vinha e olival que lhe rendessem uns contos de reis.
segunda-feira, maio 25, 2009
O menino do rio
Trezentos e sessenta e cinco dias depois…
A campa do meu pai nasce na serra de Albarracín a mil e seiscentos metros de altitude e desagua no mar à vista de Lisboa.
Pelo caminho, ainda em Espanha, banha Toledo, Aranjuez, Talavera de la Reina e depois, já cá, Almourol e Santarém. Tudo nomes que recendem a lembranças de taifas mouras e escudos cristãos, de cujo embate nasceram nações, como Portugal, e modos de ser, como a hombridade, virtude tão ibérica que caracteriza quem meramente faz aquilo que deve ser feito. Que assim seja não será uma coincidência.
Como lápide serve-lhe uma rocha triangular, quase plana, tosca, empoleirada no lameiro da margem junto ao antigo cais da Barquinha, num sítio em que o Tejo se espelha no céu molengão da lezíria. Aí, onde em menino brincou, a seu pedido o deixámos sossegado. Há dias, numa visita que lhe fiz, sobre essa mesma pedra um pescador domingueiro gozava o seu momento de triunfo. Sentado num banquinho de lona, a cara vermelhucha rasgada por um sorriso glorioso, enrolava placidamente o carreto, a guita tensa e saltitante sob o peso do peixe gordo que, passados minutos, já estrebuchava na cesta. Metros à frente, colegas de vício, segurando a cana imóvel, miravam com olhar enciumado o sucesso do comparsa. Pedra sortuda, portanto.
Dissemos até à próxima e subi a pequena rampa que se debruça sobre as águas. A poucos metros, junto à primeira árvore da alameda que leva ao casario do centro da vila, um rapaz roubava um beijo à rapariga que, enlevada, se deixava roubar. Um pouco mais à direita, ao fundo, num relvado para lá do ribeiro onde uma rã ocasional soltava um coaxo periódico, miúdos jogavam à bola e os seus gritos entusiasmados reforçavam o silêncio daquelas três da tarde. Tudo no seu lugar, como se uma dona-de-casa cósmica ali tivesse estado a espanejar e a arrumar “bibelots”. Como um quadro do Monet ou do Seurat, só que sem as manchas e as pintinhas.
Boa lembrança teve quando nos informou que é ali que quer estar. Houve na família quem estranhasse, mas ele, que é homem de bom gosto, insistiu, determinante. E vê-se agora que bem: de facto, não há comparação possível com as Massamás funéreas em que se acotovelam os mortos deste país, empilhados na morte como empilhados viveram. Avisada escolha.
Dirigi-me ao coração da vila, à rua onde ele morara. Lá de mim para mim, interrogava-me sobre as razões profundas desta escolha. Todos nós somos uma sucessão de etapas no contínuo do tempo. Sonho ou surpresa de amor, embrião, feto, nascituro, bebé, criança, adolescente, jovem, adulto, maturado, velho, finalmente memória na memória dos outros, tudo isto somos sucessiva e, de uma forma esconsa, simultaneamente. No caso do meu pai, quando toda aquela sucessão de gente se pôs à conversa a ver onde queria repousar, a voz que falou mais alto foi a da criança, de um menino do rio, daquele rio que continua o mesmo rio por muita água que lá tenha passado. Aliás, se por acaso existe um sítio para onde se vai depois da morte, o meu pai lá estará com o Parménides e o Heraclito, a assistir à sempiterna disputa, ouvindo muito e falando pouco, como tem por hábito, e a dar razão ao primeiro: o rio é o que é, independentemente das diferentes águas que lá escoam. Como as coisas na vida são o que são, não obstante os detalhes ou os devaneios que nos distraem do essencial.
Nestas meditações, vi-me na praceta onde, como em todas as pequenas vilas, se evocam os filhos da terra que não regressaram da Primeira Guerra. Aí, cheguei à conclusão que não conhecia aquele menino, o do rio. Algumas fotografias naquele preto-e-branco cálido dos anos quarenta, uma ou outra história, por regra anedótica, que lhe ouvira a ele ou à minha avó, e pouco mais. Induzia dessas poucas memórias que tivera uma infância feliz, mas nada sabia dele: a que brincava, de que pratos gostava, quais as pequenas alegrias e tristezas que vivera. Aquela criança, cuja opinião vergara todas as outras na hora de uma decisão tão grave como a de onde passar a eternidade, era para mim uma desconhecida.
E do homem, que sei eu? Eu e o meu pai andamos nisto juntos vai para quarenta e seis anos. Há muito dele que desconheço, porque a nossa intersecção no tempo físico não deu para tudo. Foi mais ou menos a normal entre pai e filho, apenas um pouco mais curta do que ambos gostaríamos. É sempre curta demais quando as coisas correm bem… Lembro-me do adulto, embora numa recordação já desfocada pelo tempo e algo enviesada pelo olhar feliz de criança – ou muito vagamente rebelde de adolescente – imagem que tenho que reconstruir com o auxílio da minha própria vivência adulta. Recordo, vividamente, o homem maduro ou já idoso (não sei bem), o avô sereno, o companheiro dos últimos tempos. Até porque com esse encontro-me todos os dias.
Verdade. Vemo-nos mais hoje do que dantes. Curiosamente, ele, que sempre se assumiu como pessoa de muito recato, que fazia cerimónia até a visitar os filhos e as casas onde sempre foi bem-vindo, telefonando antes a perguntar se podia, passou a aparecer quando lhe dá na gana e sem avisar as hostes. Para o que lhe havia de dar agora! Basta eu distrair-me e lá vem ele, das maneiras mais diversas: uma memória repentina, uma imagem, uma voz, um riso, às vezes uma lágrima teimosa. Ou muito simplesmente uma presença na minha mente, indefinível mas incontornável. Na rua, aqueles que se preocupam a achar coisas dos outros tomam-me por maluco: “Olha! Aquele vai a chorar sozinho”.
Exemplifico. Neste Agosto, no último dia das primeiras férias depois da sua morte, enquanto carregava o carro, de cada vez que olhava para a porta da casa lá estava ele de mão na ombreira, com ar de gozo. Explico porquê: costumo alugar uma casa na costa alentejana para as férias de verão e ele passava sempre dois ou três dias connosco. Da primeira vez, quando vinha a caminho, eu telefonei-lhe, insistindo:
- Vou buscá-lo à entrada da aldeia, que é difícil dar com isto.
- Tá bem, quando estiver mais próximo ligo.
Passada meia hora, ouvi os miúdos aos berros, desarvorando escada abaixo. “O avô! O avô!” Olhei e vi-o todo desportista, saco a tiracolo, braço esticado e mão apoiada no arco da porta, o sorriso discreto mas jocoso: “Com que então não conseguia cá chegar? Vocês julgam que os ribatejanos são saloios mas os saloios são de Lisboa.” Toda a razão: da Malveira e de Caneças, às portas da capital.
Surge-me amiúde nos momentos mais aéreos, nos corredores plásticos dos aeroportos, cheios de passageiros e vazios de gente, nas filas de trânsito que serpenteiam por caminhos conhecidos, transportando mundos isolados em carapaças metálicas, nos passeios de Lisboa quando os percorro sozinho, cabeça baixa, seguindo as ondulações da calçada e os pés dos transeuntes, frenéticos e separados do corpo. Olá, estás aí? Ele não me responde, embora apenas do modo a que eu estava habituado. Deve lá ter a sua técnica, porque a cada encontro fico com a sensação de o ir conhecendo cada vez melhor.
Há um ano e meio julgava eu que sabia quem o meu pai é, mas julgava erradamente. Nestes dezoito meses, desde que a doença se anunciou até hoje que faz um ano que não lhe apeteceu mais aturar as maleitas do corpo, tem-me ensinado muito sobre ele e sobre a vida e sobre muitas – mesmo muitas – outras coisas.
No hospital, então, sentou-se de cátedra e foram umas a seguir às outras.
Pediu que lhe levassem o portátil e ainda tentou escrever um artigo que tinha prometido a uma revista de hotelaria, mesmo quando a doença já não o deixava teclar e lhe levara o entendimento de como funcionava um sistema operativo. Tentou tratar pelo telefone de assuntos do banco que já não conseguia certamente dominar, preocupado que estava com o bem-estar da minha mãe. Nunca faltou com o agradecimento ou uma palavra educada ao pessoal que tratava dele, até quando já quase não tinha fala. Ora um homem que se encontra internado com o mal de que ele padecia numa unidade de cuidados paliativos tem à sua disposição a melhor justificação do mundo para não fazer nada disso: está a morrer. E aqui uma primeira lição: ele nunca usou essa desculpa, a maior possível, porque simplesmente não há desculpas para não se fazer o que se espera de nós ou para não pensar nos outros ou para não se ser gentil. Simplesmente não há.
Outra: perdera o domínio de uma das pernas e a minha mãe tentava movimentá-lo, pedindo-lhe para mexer a perna boa. E ele, com um sorriso que estou a ver daqui, vencendo a dor, pousou carinhosamente a mão no joelho da minha mãe e sussurrou, discreto mas audível: “perna boa é esta”. Segunda lição: podemos perder o uso de uma perna, ou até das duas, mas só deixamos de ser gente quando perdemos o uso do humor.
Outra ainda e mais derradeira, em duas aulas sucessivas. Dias antes do último, ainda assistiu na televisão ao seu Sporting numa final da taça, abraçado durante os noventa minutos a um dos netos. Já não conseguia seguir o jogo, nem sequer distinguir as equipas, mas sabia que era o seu neto que ali estava e sabia do abraço que lhe dava. Depois, horas antes daquilo a que chamamos por abuso o fim, quando lhe fui desejar uma boa noite e lhe segurei a mão, puxou-ma tenuemente até aos lábios, como quem esboça um beijo, com o sorriso possível e o brilho nos olhos de sempre. Terceira lição, magistral, sobre o que há de mais essencial na natureza humana. Já se tinham ido a capacidade de raciocinar, de falar, de andar, até de comer. Mas a capacidade de amar ainda lá estava e foi a última a partir, se por acaso partiu. Talvez ainda haja esperança para nós enquanto espécie.
Finalmente, se calhar cansado de tanta matéria que nos deu, aproveitou uma aberta de sol num dos Maios mais chorosos de que há memória e fechou os olhos, deixando-nos para aqui um bocado desasados.
Nos dias seguintes, passámos pela lufa-lufa das condolências, da funerária, das cerimónias. Nesses mesmos dias, fui sabendo mais sobre ele, mais do que até ai pensava. Nas lágrimas de homens que eu não imaginava tão próximos, nas vozes embargadas que ao telefone procuravam a palavra certa, na enchente da igreja, nas mensagens vindas de longe.
E passado um ano sobre estes acontecimentos, continuo a inteirar-me melhor, dia após dia, do homem que o meu pai … Espera! O menino do rio! Com esta conversa esquecemo-nos dele! Por onde andará?
Acho que sei. Parece-me vê-lo às vezes quando chego a minha casa ao fim da tarde. Encontro-o sentado no sofá, a beber um “nesquick” e a jogar na “playstation”. Vira para mim uma cara igualzinha à das tais fotografias naquele preto-e-branco cálido dos anos quarenta e cumprimenta-me, numa voz de entusiasmo infantil: “olá, pai!”
Nessas alturas, percebo finalmente o que ele quis dizer com as últimas palavras que por interposta pessoa nos dirigiu, na sua própria missa de corpo presente:
- Como vêem, está tudo bem…
sexta-feira, maio 08, 2009
O meio-dia
O gato ronrona branco
Sobre listas amarelas dormindo
Adossado a uma toalha azul
O disco do sol a sul
Esbraseia o barrocal
De tantas fagulhas refulgindo
Tu na espreguiçadeira
A leitura suspensa num pensamento
O olhar perdido no horizonte de amendoeira
E eu simplesmente atento
Figurante de um quadro de Setembro
Dando graças por aquele momento
sábado, maio 02, 2009
A História aguarda à esquina (de naifa afiada)
Em 494 a.C., quando a nobreza patrícia que liderava a jovem república romana mandou a plebe pegar em armas para defender a cidade que vinha aí malta mal intencionada, aconteceu aquilo a que hoje chamaríamos uma greve. Os cidadãos de Roma pousaram as armas, entrincheiraram-se na colina Aventina e recusaram-se a combater. Em vez de reclamar um maior acesso aos lugares de topo do Estado (os consulados), os populares criaram uma estrutura paralela, encimada pelos tribunos do povo, e o conflito só acabou quando estes tribunos foram reconhecidos pelos patrícios como parte integrante do sistema político da república.
A partir daí e até o império acabar com essas liberalidades já na nossa era, o povo e o senado constituíram duas fontes de poder rivais mas interligadas e intermutáveis: em 172 a.C., os dois cônsules escolhidos pelo senado eram plebeus e, pela inversa, muitos nobres, entre os quais o jovem Júlio César, foram eleitos tribunos em assembleia popular.
Esta esquizofrenia essencial do sistema político estava gravada, inclusive, nas insígnias romanas que ostentavam a águia e as iniciais SPQR, “Senatus Populusque Romanus”: o senado e o povo romanos.
Ora passeando há pouco por Roma, reparei que as tampas das sarjetas, que em Portugal ostentam as iniciais das câmaras municipais, arvoram aí a sigla SPQR. Achei estranho que essas orgulhosas letras, que antes levavam o terror aos povos que a máquina militar romana subjugava, levassem agora duvidosas águas residuais e mais os respectivos boiantes até às ETAR e emissários submarinos
Italianos explicaram-me, algo incomodados com o paralelo, que tal se devia ao facto da companhia das águas e esgotos ser camarária e que podemos encontrar as mesmas iniciais nas fontes. Tive oportunidade de passar na afamada Fontana de Trevi, mas não vislumbrei nenhuma placa SPQR, embora admita que os dez mil japoneses que circundavam a fonte, disparando “flashes” aleatórios, não ajudaram a minha pesquisa. Agora tampas de sarjeta, pisei-as por toda a cidade, sempre com o SPQR em garboso relevo, silenciosas sentinelas dos mais obscuros fluxos e refluxos urbanos.
Às vezes, querer recuperar, à força toda, os esplendores históricos leva a situações destas. O que é hoje a Itália foi, durante mais de meio milénio, a super-potência mundial. Já não é. Quando olhamos para cima, para o Coliseu ou para as termas de Caracala, ainda agora impressionantes, e depois baixamos os olhos e vemos o SPQR no redondo dos bueiros, não podemos deixar de achar irónico. As tampas dos esgotos do município romano não suscitam memórias de grandeza antiga. Realçam, à evidência, a diferença entre o antes e o depois.
Num exemplo ainda mais flagrante: quando olhamos para as pirâmides de Gizé, lá no local, se nos abstrairmos dos dez mil japoneses que circulam às “flashadas” por Queops, Quefren e Miquerinos, e das centenas de guias, dromedários, falsos guias, vendedores de pacotilha, meros cravas e outros chatos, até conseguiremos sentir o poderio dos faraós, telúrico, maciço, intemporal.
Mas se olharmos para trás e virmos o oceano de bairros degradados da periferia do Cairo, a perder de vista, todo em tijolo e tosco à vista, a aproximar-se sorrateiramente do perímetro de Gizé, a pergunta que nos fazemos é “como é que estes tipos, que viveram uma civilização gloriosa, caíram tão baixo?” E a sombra monumental das pirâmides só torna mais triste o triste dia-a-dia que se vive nas barracas com vista para uma das sete maravilhas do mundo.
Pelas costas das vizinhas, vejo as minhas, diz o adágio popular. Já não somos um povo de navegantes. Não caiamos no ridículo de comparar o Magalhães, computador, ao Magalhães, navegador, como faz a propaganda governamental. Andamos sempre com os descobrimentos na boca, como se a grandeza dos Gama e dos Albuquerque fosse fungível e se pudesse aplicar tal e qual ao anúncio do crescimento da colecta fiscal ou ao beberete de lançamento de um estudo de viabilidade de uma obra qualquer. Quando o fazemos, fazemos a figurinha dos romanos e das suas tampas de esgoto.
Claro que nos podemos envaidecer desse momento áureo do nosso percurso colectivo. E claro que é útil compreendê-lo. Escrutinar a nossa história dos séculos XV e XVI pode-nos ajudar a perceber porque lampejámos na altura e hoje sofremos na anomia. Se entendermos que, a montante da chegada a Calecut e da tomada de Malaca, existia uma ideia e uma estratégia, que houve a escola de Sagres e os almirantes Pessanha, a melhor cartografia e seguros navais inovadores, diplomacia cuidada e a Casa da Índia, para além de coragem, reflexão, alguma temeridade e uma certa sorte, vemos a diferença para os dias que correm, governados cada vez mais por escrivães de Bruxelas. O desígnio de educar as nossas crianças para o futuro, tratar dos nossos doentes com dignidade e proporcionar justiça nos nossos diferendos é tão nobre, ou mais, que a pimenta e a canela. Se o soubermos alcançar, mereceremos a comparação com os descobridores. Se não, é tudo mais conversa de tampa de sarjeta e a História há-de se rir de nós.
Porque a História é uma amante volúvel. Aquilo que em tempo dá, em tempo tira. É ela que define quais as memórias que permanecerão. Os que dela querem constar, o que têm a fazer é dar o seu melhor e esperar pelo julgamento. E os aprendizes de feiticeiro que pensam que a podem manipular correm o risco de lhes sair o tiro pela culatra.
Veja-se por exemplo o pai Bush, que não lhe chegando ter sido presidente, quis lançar uma dinastia, usando o seu peso político para promover o filho George W. a candidato presidencial, à conta de muito “marketing” e muitas explicações particulares de geografia (“…o Japão fica na Ásia, a Espanha na Europa…”). Eh, eh: pecado de orgulho… Oito anos depois o nome Bush ficou para a história, mas pelos maus motivos: indelevelmente ligado à ignorância, à arrogância e ao fracasso de um momento menos feliz dos Estados Unidos.
Quando já ninguém se lembrar que existiu um presidente George H. Bush, ainda o nome Bush perdurará no anedotário, associado à burrice como instintivamente associamos César ao génio militar, Pol Pot ao horror da tirania ou Einstein à inteligência superior. O nome Bush permanecerá também, pelo menos por uns tempos, na palavra “Bushville”, que designa os campos de tendas que abrigam os novos descamisados da crise de 2008 e substitui a velhinha “Hooverville” da crise de 1929. Honrosa distinção. Grande galo!
“Mais valia terem estado quietos!”, há-de dizer a História que, como tem todo o tempo do mundo, esperou calmamente pelos Bush atrás de uma esquina, para lhes mostrar depois quem manda e aplicar o seu veredicto final: “Queriam a eternidade? Pois vão tê-la, mas à minha maneira.”
segunda-feira, abril 27, 2009
Originalidades portuguesas
“Aqui aprendeu a ler e a escrever Adolf Hitler, 1895-1897. Não saúdem. “Des-saúdem”. Trouxe morte e destruição a milhões de pessoas.”
Na mesma placa, encontra-se encastrado um pedaço das “escadas da morte” do campo de concentração de Mauthausen.

A morada natal de Mussolini, em Predappio, na Emília-Romana, encontra-se hoje numa Via Varano Costa Nuova. Alberga agora um museu onde se realizam exposições de arte ou de documentação histórica. Na cave desse edifício fica a cripta Mussolini, onde repousam os seus restos mortais, depois de muitas atribulações. Mussolini e a sua amante Clara Petacci morreram executados por “partisans” comunistas na aldeia de Giulino di Mezzegra em 27 de Abril de 1945. No dia seguinte, penduraram os seus corpos de uns ganchos, de cabeça para baixo, numa praça de Milão e a populaça apedrejou-os. O féretro de Mussolini foi enterrado numa campa anónima num cemitério municipal milanês mas, em 1946, um grupo de neo-fascistas encontrou o local e desenterrou-o para lhe prestar sentida homenagem. O cadáver andou depois em bolandas durante uns meses, levado daqui para ali pelos seus admiradores, até ser recuperado numa mala numa aldeia da periferia de Milão. A nova república italiana não sabia bem o que fazer com aquilo, pelo que o que sobrou do “duce” aguardou dez anos em armazém até finalmente regressar à casa de partida para terminar na citada cripta, com uma entrada discreta, uma urna de mármore, um busto e uma decoração com os feixes de vime romanos: os “fasci”.
Em todo o caso, à superfície da cidade que o viu nascer, não há cá “vias” ou “piazzas” Mussolini. Curiosamente, a tal Varano Costa Nuova onde ficam casa e cripta entronca com ironia numa rua Giacomo Matteoti, deputado socialista italiano que denunciou no parlamento, com provas, a violência fascista que originou a falsificação dos resultados das eleições de Abril de 1924, tendo por isso sido assassinado em Roma nesse mesmo ano. Ainda mais ironicamente, segue para a Via Mazzini, republicano e revolucionário, membro da Carbonária.Francisco Franco nasceu na Galiza, em Ferrol, na rua Maria. Em Espanha ainda se pode percorrer uma ou outra artéria com o nome do caudilho, como por exemplo na conhecidíssima aldeia de Tapia de Casariego – descubram-na no Google Earth– ou na igualmente célebre Zorita de los Canes, seja lá onde isso ficar. Mas não em grandes (e mesmo pequenas) cidades e certamente não na terra do próprio Franco.
Em Portugal, para variar, há várias avenidas homenageando o ditador cá do burgo e Santa Comba Dão, onde o homem viu o dia, denomina orgulhosamente em sua memória o pequeno rectângulo a que chama praça central da vila: largo Oliveira Salazar. Mais: o autarca local, eleito por um partido que até tem a palavra “democrata” no nome, aproveita o dia vinte e cinco de Abril para inaugurar uns trabalhos de cantaria a que chama obras de remodelação da praça. A nova placa com o nome do largo, em azulejo de finíssimo gosto, apresenta eufemisticamente Salazar como professor universitário e estadista, coisas mais polidas e suaves do que aquilo que ele realmente foi.
Na televisão, esse presidente da Câmara afirma que inaugurar a mega-obra no dia em que se celebra a queda do anterior regime não passa de uma coincidência e diz que não percebe a polémica. Enterrando-se ainda mais, recomenda a quem o critica: “O passado é passado. Exorcizem os fantasmas que têm na cabeça.”
Há três tipos de políticos que eu não aprecio: os cínicos, os idiotas e os idiotas cínicos. O presidente de Santa Comba candidata-se com alarde a esta última categoria. Ainda assim talvez alemães e austríacos, italianos e espanhóis lhe consigam explicar porque é que as democracias não dão a ruas ou pracetas nomes de ditadores fascistas.

Recordo-me de uma vez, teria eu dezanove anos, em que recebi em Lisboa uns holandeses que conhecera no “inter-rail”. Levei-os a passear à Baixa e o meu pai deu-nos boleia. Ao passar no Marquês de Pombal, os meus amigos, vendo o monumento enorme, perguntaram de quem se tratava. O meu pai, provavelmente mais sensível ao martelo que quebrou os ossos do duque de Aveiro do que à obra de reconstrução posterior ao terramoto, respondeu: “He was a dictator. In Portugal, we always worship our dictators.”
“We still do, old man. We still do.”
domingo, abril 19, 2009
Exposição fotográfica (XII)
O guia áspero da boa música
O meu avô materno foi músico de província. Tocou, antes da segunda guerra, na orquestra de um paquete que fazia a ligação às colónias. Depois, dava aulas particulares, por vezes pagas em géneros alimentícios, por vezes não pagas de todo. Dele herdámos inúmeros instrumentos e, só no caso do meu irmão, algum talento. Quanto a mim, diagnosticou-me ele próprio uma grande falta de ouvido. Talvez por isso, safei-me a uma educação formal em música. Não toco, não sei ler partituras e canto quase tão mal como o João Pedro Pais.
Tão ignaro estatuto não me impediu de gostar de música e de nela investir tempo e dinheiro. Possuo uma boa colecção que álbuns que continuo a ampliar, comprando cêdês. Sim, porque eu compro, para desespero dos meus filhos que não param de me lembrar o desperdício que é, agora que está tudo na Internet. Para eles, aquele meu hábito de dedilhar nas prateleiras da FNAC e pagar pela música que vou ouvir é mais um sinal da minha caducidade, a juntar ao facto de usar acentos nas mensagens de telemóvel e de cortar o cabelo num sítio onde se fuma e lê o Diário de Notícias, pelos mãos de um velhote chamado Nogueira, com ar de gajo que é gajo.
A base da minha discoteca é de “pop” e “rock”, o estilo que eu ouvia quando a música serviu de pano de fundo para momentos importantes da minha vida. Nessa altura, gostava dos êxitos, do que animava as pistas, mas também do que aparecia mais lateralmente. Ouvia e ouço com gosto Frank Zappa, Ian Dury, Roxy Music ainda com o Brian Eno, Amon Düul II, Talking Heads, Iggy Pop, Focus, Propaganda, para lembrar alguns que não amarinhavam propriamente pelas tabelas de vendas acima.
Com o tempo, fui alargando o objecto da minha curiosidade, adoptando como mote o belo verso de Fernando Pessoa: sê plural como o universo. Comecei a pescar noutras águas. Comprava por recomendação, por reputação, por gostar da capa. Hoje, tenho bem representados o “jazz” e a “chanson”, “blues” e “motown”, a música dita erudita, de várias épocas, música portuguesa, do fado aos Wraygunn, africana e sul-americana, “house” e “chill” e outras coisas, para além das novas gerações do “pop/rock”. Vou-me divertindo e surpreendendo. De vez em quando, deleito-me com grandes achados. Lembro-me, nessas alturas, das palavras de Ry Cooder no Buena Vista Social Club: que procurar música é como o trabalho do arqueólogo – mexe-se em muito cascalho até encontrar um tesouro.
Ao princípio, ainda tentava partilhar as minhas descobertas com os amigos, mas percebi que estava a ser um chato quando, tendo dado boleia a uma amiga e posto a tocar uma colectânea de intérpretes do Mali e da Guiné, que eu prezava particularmente, ela suspirou, ao aproximarmo-nos do nosso destino: “Porra! Estava a ver que não chegávamos. Que trampa de música!”. Acabei por desistir. Ainda assim, a reputação ficou e se hoje ameaçar escolher a música, dizem logo:
- Lá vem o gajo com “disco sound” argelino!
A tal colectânea que tanto desespero provocou na minha amiga era um “Rough Guide”. A Rough Guide edita guias de viagem, mas começou já há uns anos a publicar excelentes compilações temáticas de “world music”, complementadas com imagens e informações sobre os países em questão. Possuo vários destes “rough guide”, que me têm ajudado a descobrir muito coisa boa que nunca passaria na Rádio Renascença.
Vai daí, deu-me uma inspiração: porque não criar, aqui no Mataspeak, os meus próprios “rough guides”, os meus guias ásperos, em que divulgasse, por estilos ou por temas ou por quaisquer outras similitudes, o que mais aprecio na minha discoteca? Sempre dava para mais uns “posts” e quem não gostasse punha na borda do prato. E quem quisesse poderia partir à descoberta.
É o que começarei a fazer muito em breve, sempre com o título “o guia áspero do/da…”, agora que está publicada esta explicação.
sábado, abril 18, 2009
They ID
Pendurado na parede por trás do balcão havia um cartaz informando a clientela que “we ID all customers”. Na minha ingenuidade, pensei ser decorativo, como aqueloutros dos anos cinquenta, de anúncios à Coca-cola ou às torradeiras da General Electric, que atapetavam as paredes. Por isso fiquei de cara à banda quando a empregada, estendendo o menu, me pediu a identificação. Também ela tinha, pendurado na lapela, um crachá que afirmava “We ID”.
Vi-me num dilema. Claro que é vergonhoso aceitar sem soltar um basqueiro enorme que um restaurante tenha sequer a lata de me pedir os documentos. Mas, por outro lado, se não mostrasse a papelística, não comia. O meu cérebro acabou pois por se sujeitar à hierarquia de Maslow e pôs a satisfação das necessidades básicas à frente das considerações intelectuais: passei-lhe caninamente o passaporte e mandei vir uma sandes cubana e uma cerveja. Consolei-me com a desculpa de, em países exóticos e terceiro-mundistas, um tipo normalmente fazer umas habilidades que em casa nunca lhe passariam pela tola.
Mas agora, e sem querer ofender ninguém: há coisas em que estes americanos são mesmo atrasados mentais! Anseiam por um mundo tão regrado, tão procedimentado, tão chato que perdem a noção do ridículo.

Como aquelas questões a que há que responder com cruzinhas, nos formulários verdes que distribuem nos aviões, para apresentar à entrada do país: “Pretende vir traficar substâncias ilícitas?” ou “Esteve envolvido em crimes de guerra pelo regime nazi ou seus aliados?”. Eu, para ter sido membro das SS, teria que ter próximo de noventa anos. Só me surpreende não perguntarem também se estive na batalha de Pittsburgh, e se pelos confederados.
Será que as autoridades fronteiriças americanas esperam, genuinamente, que alguém diga que sim a uma interrogação deste calibre: “Vem com intenções de praticar actividades criminosas ou imorais?” Não, não venho torturar presos em Guantanamo, nem ganhar eleições à socapa, podem ficar descansados. E se forem actividades imorais, mas não criminosas, também não se pode? Quem define? De facto, os requisitos daquele formulário emparelham bem, na lista de perguntas que qualquer pessoa com dois dedos de testa não faz, com as clássicas “O peixe é fresco?” e “Foi bom?”.
Passemos sobre o detalhe deste género de números ser mais próprio de regimes fascistas do que de faróis da humanidade. A obsessão com a identificação é um expediente clássico dos governos totalitários para se perpetuar: transmitindo a impressão que se procura um inimigo incerto, legitima-se a própria repressão. Os Estados Unidos não são um regime opressivo, mas foge-lhes muito o pé para a chinela.
O que acho mais relevante é assinalar o que isto significa: medo. Sinto na sociedade norte-americana um cerco, mormente por si própria. Com medo dos estrangeiros, dos gangues dos maus bairros, dos emigrantes de hábitos estranhos. Com medo de um mal estrutural, perverso e gratuito, que abunda nas séries policiais de “prime time”, onde a eficácia dos heróis resolve os problemas, seja por que via for. Um medo, ao qual se responde com armas, que geram tentações e respostas e ainda mais medo. Um medo, sobretudo, inútil: não é a cambiar passaportes por hambúrgueres nos restaurantes nem a fazer perguntas tolas aos turistas que se livram de um novo 11 de Setembro. Para mais segurança, talvez conviesse não armar as Al-Qaedas deste mundo sem pensar nas consequências, como fizeram no Afeganistão dos anos oitenta ou então estabelecer pontes, sacrificando os interesses imediatos em troca de estabilidade futura. E deixarem-se de parvoíces.
sábado, abril 11, 2009
Funny feeling
A dado momento, ouvi, vagamente, um amigo que me berrava ao ouvido, em luta desigual com o “house” que bombeava das colunas:
- Aquele não é o xis? – perguntava, apontando para um homem de pé, junto a um pilar, distraído a olhar os dançantes.
- É capaz! - respondi, gritando.
- Vamos lá falar-lhe?
- Deixa estar.
- Mas vocês não se davam muito no liceu?
- Dávamos. E ele ia a minha casa.
O meu amigo não insistiu. Mas vi que estranhou. E eu também me estranhei a mim próprio, confesso. Fiz, no entanto, aquilo que na altura me apeteceu.
O xis, na época em que terminei o liceu, integrava o grupo dos meus amigos mais próximos. Éramos meia dúzia e durante um ano vivemos tudo juntos, preparando-nos para a universidade: estudámos, bebemos copos, saímos à noite, voltámos a estudar, jogámos à bola e aos matrecos, fomos a festas, entusiasmámo-nos por uma saia (ou por umas calças de ganga mais apertadas), marrámos mais um pouco.
O xis aparecera em Setembro, chegado do estrangeiro. Os restantes, já lá andávamos há anos. Não conhecia ninguém e rapidamente o integrámos. Vinha muito polido: ao princípio, apresentava-se nas aulas de ginástica vestido de branco da camisola ao soquete, contrariando a algazarra de cores das nossas “tee-shirts”.
No início, brincávamos com ele, como daquela vez em que, conjuntamente, o tentámos convencer que a saliva podia provocar gravidezes indesejadas. Ele, claro, suspeitou. Para o fazer ceder, desafiámo-lo a perguntar ao professor de biologia, um tipo bestial, recém-licenciado, com quem os alunos sentiam suficiente confiança para fazer perguntas destas. E que nós já havíamos industriado previamente. Quando abordou o docente, este confirmou-lhe tudo, num discurso recheado de tecnicidades como “amilases” e “ARNs” e recomendou-lhe, paternalmente, que tivesse cautela. Ainda andou uns dias convencido, parece-me. Mas rapidamente, connosco, limou esse excesso de inocência. E não brincámos mais, porque já não era preciso.
Certo dia, a meio do ano, insistiu que fossemos todos almoçar com o pai dele. Encontrámo-nos num restaurante que, para mim, à época, era de um luxo nunca frequentado. Eu sabia que o xis nascera numa das famílias mais ricas de Portugal, embora no nosso quotidiano escolar tal fosse indiferente. Ele apresentou-nos ao pai (“Pai: estes são os meus amigos.”) com o mesmo entusiasmo que no-lo apresentou a nós (“Este é o meu pai!”). O xis tinha grande orgulho no pai, pelo que senti que aquele tratamento biunívoco provava uma grande consideração por nós. Recordo ter ficado contente. Diria, à distância, que grato.
Findo o liceu, deixei de ver o xis, contrariamente ao resto do grupo, com o qual ainda me dou. Fui sabendo algumas coisas dele por terceiros e pelos jornais: licenciara-se, assumira mais tarde a presidência da empresa familiar, frequentava os mais restritos meios económicos e financeiros do país.
Reconheci-o uma vez num centro comercial. Ele pareceu não me ver, seguindo o seu caminho. Eu também estava com pressa. Presumi que nos desencontráramos.
Mais tarde, encontrei-o numa cerimónia inaugural de uma obra da companhia onde eu trabalhava, da qual eu fora responsável. A empresa a que ele presidia participara na construção. Fui cumprimentá-lo. Disse-me apenas, num tom que achei de frieza: “Tás bom? Tás a trabalhar com fulano, não é?” O fulano em questão era o presidente da minha companhia, segundo a imprensa um amigo dele. Ainda esbocei um princípio de conversa, mas percebi que não havia grande resposta e, com o pretexto de ir posar o copo, fui à minha vida.
Recordo, por contraste, que pela mesma altura visitei um clube de “jazz”, com dois antigos companheiros desse grupo de liceu, para ver um concerto de um antigo contemporâneo da mesma escola, o ípsilon, que fizera carreira na América como músico. Fomos pela curiosidade, porque o ípsilon não fora rapaz com quem nos tivéssemos dado muito. Partilháramos o mesmo recreio, as mesmas salas de aula, mas pouco mais. Tínhamos interesses muito diferentes.
Chegámos atrasados, já a banda dele tocava. Pois o ípsilon, quando terminou a primeira parte, saltou do palco, veio à nossa mesa, abraçou-nos, falou da sua família, dos muitos anos da sua vida americana, quis saber de nós, de outros colegas comuns e ainda pediu desculpa porque tinha que regressar para a segunda parte.
Voltando ao xis, acabei por descobrir mais alguma coisa sobre ele num artigo que saiu num revista hebdomadária, num daqueles textos desenhados pelos consultores de imagem, que vendem gestores e depois vão vender lixívias. Mas ainda assim consegui nessa leitura saber dele o que ele em pessoa não me dissera: com quem se casou, onde mora, quantos filhos tem, que “hobbies” pratica, quem são agora os seus influentes amigos.
Provavelmente por isto tudo, não me apeteceu falar-lhe nessa noite. Segui o meu coração, mas, vasculhando os recantos da minha caixa craniana, concluo que a cabeça faria exactamente o mesmo. Admito que possa haver aqui algum ligeiro despeito, mas a minha amizade merece-se. Até por consideração para com aqueles e aquelas que a honram e que são uns quantos – e bons.
Em todo o caso, sinto-me feliz por ter estado presente na existência dele quando ele precisou de amigos. E não esqueço que ele retribuiu bem, na altura. Lá continua, de calças de ganga e ténis Adidas, nas minhas lembranças do que foi um dos tempos mais felizes da minha vida: os meus dezassete anos.
Não deixo de temer que possa estar a ser injusto. Que tenha interpretado mal. Os “quid pro quo” acontecem. Mas se for esse o caso, ele pode falar com fulano e fica a saber logo onde eu estou.
P.S. Este “post” não tem imagens, como normalmente. Não encontrei nenhuma que ilustrasse o meu estado de espírito.
Os eleitos e os danados
Num jornal Público do início deste ano, um artigo de segunda página começava com o seguinte farrapo de horror: “Um caso em particular deixou chocados os trabalhadores do Comité internacional da Cruz Vermelha em Gaza. Numa casa, estavam quatro crianças. Demasiado fracas de fome para se conseguirem pôr de pé. As crianças estavam ao lado dos cadáveres das suas mães. Na casa, havia um total de doze corpos.”
Aproveitando o espírito da quadra de boas festas que então terminava, israelitas e palestinianos haviam iniciado mais um dos useiros e vezeiros conflitos da zona. O movimento Hamas, provavelmente preocupado com a sua perda de popularidade junto da população palestina, não renovou um cessar-fogo e começou a lançar uns “rockets” sobre cidades do sul de Israel. Este achou que não tinha outro remédio senão morder o anzol e decidiu fazer um jeito aos seus supostos inimigos, lançando uma invasão à grande da Faixa de Gaza, com centenas de mortos nas primeiras duas semanas, mais de metade civis, cerca de um terço crianças. Para mim, é óbvio que todos sabiam que desgraças como as do primeiro parágrafo seriam a consequência lógica das suas acções.
Pensei escrever sobre o assunto, mas percebi, nos dias seguintes, que seria perigoso soltar comentários menos abonatórios ao facto da tropa israelita andar a matar crianças com certo à-vontade. A quem, nos jornais, se atreveu a aventar que tal coisa não se fazia, logo levou na volta do correio com o epíteto de anti-semita, num tom rememorador das chamas do inferno nazi, atirado sem pudor pelos seguríssimos escribas do costume, como o director do “Público”. “En passant”, surpreende-me tão razoável jornal se ir aguentando assim bem com tão zeloso zelota ao leme.
Como qualquer português de cepa, terei com alta probabilidade na minha composição sanguínea algumas plaquetas judias como, aliás, restos de hemoglobina árabe. E ainda sueva, latina, visigótica, castelhana, vândala, inglesa, escandinava, berbere e de todos os mais que por cá aproveitaram para foliar entre batalhas.
Talvez por via destes resquícios hebraicos, e também porque não gosto de levar porrada, senti-me um pouco inibido para falar sobre este assunto, não viesse logo aí algum exaltado apodar-me de Himmler das avenidas só por criticar os excessos bélicos de Israel. E deixei passar o tempo. Decidi agora avançar, mas delegando a conversa em quem, por ser judeu de cepa, está melhor posicionado do que eu para dizer o que quer, sem ser insultado. Procurei e encontrei dois que podem substituir-me nesta conversa.
Aproveitei-me , por exemplo, do israelita Yoav Shamir, que em 2003 filmou, no documentário “Checkpoint”, a actuação do exército do seu país nos diversos pontos de controlo que permitem a Israel monitorar os movimentos dos palestinianos. E fê-lo do modo mais perverso: com a câmara quase fixa e sem quaisquer comentários. Nada mais duro e significativo do que uma verdade em bruto, não editada.
O filme mostra-nos, “tal-e-qual-mente”, o que se passa em diversos “checkpoints” na margem ocidental do Jordão e em Gaza. Às vezes as coisas correm bem, outras mal. Nalguns pontos, os soldados, acabados de sair dos pátios de liceu, são simpáticos, apesar do medo. Noutros tratam as pessoas abaixo de cão, com o poder que o gatilho lhes confere: vemos uma ambulância com um doente grave que tem que parlamentar longamente a passagem, exibindo documentos sobre documentos; vemos uma fila à chuva pesada, com velhos e garotos, esperando que o tropa, um rapazote, abrigado na guarita, acabe de mastigar lentamente a sua sandes; vemos muitos tiques de porteiro de discoteca, mas com consequências mais graves na vida de gente.
Que diríamos nós se a nossa avó fosse deixada a encharcar à chuva por um puto magala, a fazer gala do tempo que demorava a almoçar? Éramos capazes de ficar chateados. Se a situação fosse recorrente, talvez achássemos que se aplicaria um certo direito a partir tudo, tal como o definiu Jefferson na declaração de independência americana:
“Mas quando uma longa sequência de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo propósito, evidenciam o desígnio de os reduzir a um despotismo absoluto, é seu direito, é seu dever, deitar fora tal governo e providenciar novos guardas para a sua futura segurança.”
Dirá o lado israelita em sua defesa que há terroristas a movimentar-se por ali. Há certamente, mas isso justifica tudo?
A resposta a esta questão podemos encontrá-la numa segunda e mais definitiva visão: a que nos traz Primo Levi, judeu italiano que sobreviveu ao Holocausto para nos contar no livro “Se isto é um homem”, com uma serenidade que espanta, as suas memórias de Auschwitz. Diz ele, na passagem porventura mais significativa da sua narrativa:
“Um facto, por outro lado, parece-nos digno de atenção: existem nos homens duas categorias particularmente bem distintas, às quais chamaria metaforicamente os eleitos e os danados. Os outros pares de contrários (como por exemplo os bons e os maus, os sábios e os loucos, os sortudos e os azarados) são muito menos nítidos, parece-me que mais artificiais, prestando-se, sobretudo, a uma série de graduações intermédias mais complexas e mais numerosas.”
A avozinha à chuva no ponto de controlo e as crianças abandonadas ao lado dos seus pais mortos são danados, como danados são milhares de milhões por esse planeta fora que vão, como modo de vida, adiando a própria morte. Por outro lado, os governantes israelitas que dão as instruções e eu que escrevo estas linhas e vocês que as lêem, somos eleitos.
E não há considerações políticas, geoestratégicas, militares, religiosas ou ideológicas que relativizem a condição daquelas crianças, absoluta, de danadas. Nem que mitiguem o absoluto direito à revolta que daí resulta.
Foi isto que Levi nos quis dizer, com a autoridade que lhe conferem os anos que deu com os costados no “lager”. E é isto que nós, os eleitos, temos que entender, se por acaso estamos interessados em que a barbárie acabe um dia.







