
Tempos depois, calhou a minha mãe dizer-me: “Já sei quem aquele actor de quem vocês falavam. Vi-o numa revista no médico. É assim parecido contigo”. Achei piada à comparação e mais à generosidade estética, embora tivesse ficado inquieto sobre a evolução da sua miopia. Mas não haja dúvida, mãe é mãe e o meu macaquinho é sempre o mais bonito. E vou de contar esta história numa roda de amigos e amigas. Entre estas últimas, a reacção foi espectacular, como se eu tivesse desrespeitado o nome de profeta numa convenção de fundamentalistas islâmicos ou insultado o Pinto da Costa numa rua da Afurada. Uma delas, mais devota de S.Brad, esteve mais de cinco minutos a gargalhar da heresia, as lágrimas grossas correndo-lhe cara abaixo até lá se conseguir controlar. Pela noite fora, de cada vez que se lembrava, soltava um risito histriónico, quase arrelinchado.
A história acabou por ganhar contornos de anedota no nosso grupo de amizades e voltou à baila no aniversário que acima referi, para gáudio dos convivas. Dizia-me uma das comensais: “o teu ego aguenta bem esta paródia”. Poderia ter respondido, com a propósito: “não só aguenta com em boa verdade se está a cagar”. De facto, desde a minha já remota adolescência que não me preocupo se o nariz isto, ou os dentes aquilo ou o queixo assado. Neste campo das lindezas ou fealdades, valho-me de duas tiradas do Cristo nazareno: “eu sou aquele que sou” e “quem me ama que me siga”. E tem chegado.
Este frenesim à volta da gireza que patenteiam as minhas amigas que, por muito que lhes custe e não queiram, caminham a passos sorrateiros para serem senhoras de meia-idade, apesar de se julgarem gaiatas, conta-nos muito sobre a natureza feminina. Por isto, valerá a pena dissecarmos aqui o conceito subjacente de “tipo giro”, seus fundamentos e utilidade, não só isoladamente, como por oposição ao seu anti-simétrico entre os homens: “a gaja boa”.
Para intelectualizar a coisa, poderíamos começar pelo plano filosófico, que fica sempre bem num blogue que se dê ao respeito. O tipo giro, tal como suspirado pelo mulherame, vem direitinho que nem um míssil da teoria das ideias de Platão: é um ideal, um limite assimptótico, uma representação imaculada da perfeição masculina, de quem nós, vulgos morcões, somos meras sombras projectadas como na alegoria da caverna. Esta concepção tem um carácter qualitativo: o tipo giro está num patamar superior ao comum dos mortais, estes só toleráveis como segunda escolha, à falta de melhor. Por isso, as garotas, na mais tenra idade, sonham-se belas adormecidas à espera do príncipe encantado, a versão “irmãos Grimm” do tipo giro. E depois, em idades menos tenras, imaginam-se no troloró com os Pitts e Clooneys deste mundo. E suspiram…Já a gaja boa é um universal, um conceito com uma abrangência larga mas muita precisa, e que não tem qualquer valoração positiva. A gaja boa não está no topo de nenhuma escala, antes pelo contrário. Na verdade, os homens abordam as mulheres de uma forma muito mais utilitária, na linha da escola de pensamento anglo-saxónica do século XVIII, onde o que interessa são os resultados e a maximização da felicidade. Consequentemente, a gaja boa corre até o risco de ficar sozinha, como se demonstra na teoria dos jogos: num grupo, os rapazes, julgando que a gaja boa poderá ter muitos pretendentes exactamente por ser boa, atacarão antes alvos secundários, tidos por menos difíceis. Se todos pensarem igual, deixarão a boa a chuchar no dedo.
Tal como o universal “brancura” admite múltiplas materializações (a cor creme do leite, a alvura do papel almaço, o reflexo azulado da neve, o rosa pálido de uma pele clara, o multicromatismo de uma medina à torreira do sol), também o universal “gaja boa” se aplica a muitos tipos diferentes de mulher – mas desde que sejam boas. Esta latitude conceptual causa-lhes a elas dificuldades de entendimento, já que “tipo giro” é uma noção muito mais estreita. Recordo-me, por exemplo, do seguinte diálogo em que a namorada de um colega, algo picada por este se ter referido a uma fulana como sendo boa, se amofinava:
- Mas boa como? Que queres dizer com isso? É alta, é magra?
- Nem alta, nem magra: é boa.
- Sim, mas é gorda, é magra?
- Nem gorda, nem magra, é boa.
- Não estou a perceber.
E ele, virando-se para outro colega:
- Ó Zé, tu percebes?
- Eu percebo: é boa.
A gente percebe.
No tipo giro, o conteúdo aspiracional é tão forte que funciona como requalificador. Nas conversetas sussurradas, afirmarão, peremptórias: “mas é giro”, o que atenuará outros defeitos que possa ter (ser bronco, larilas, violento, não lhes ligar peva, etc.) e o elevará a potencial bom partido. E suspirarão… Já a gaja boa tem o seu quê de pejorativo. Ao conceito de gaja boa associa-se alguma vacuidade, senão mesmo estupidez. Dirão eles, com frequência, “não passa de uma gaja boa”, como quem diz “coitadinha, dali não sai nada”. Por isto, poderemos encontrar uma rapariga que afirme com orgulho, às amigas, que o namorado é um tipo giro, mas a inversa já não é verdadeira. Do outro lado da pista, a desconhecida poderá ser uma gaja boa, mas assim que haja algo firme falaremos dela aos nossos amigos como sendo uma miúda fixe ou uma mulher muito interessante, consoante a idade que tenhamos. Em conversas masculinas, o tema da gaja boa prestar-se-á às mesmas chacotas que os falhanços do Nuno Gomes à boca da baliza ou as bacoquices de certos políticos. E nenhum gajo que não seja um básico andará por aí suspirar por gajas boas.Em suma, e entrando numa alegoria gastronómica, elas comparam o tipo giro ao néctar e à ambrósia dos deuses do Olimpo, alimentos mitológicos, enquanto, para eles, a gaja boa funciona como o prosaico tremoço dos pires das cervejarias: uma delícia na ocasião certa, mas cuja ausência não impede que se beba uma bojeca e se fale de futebol.
Contrariamente ao que seria de esperar e ao que a sabedoria convencional enuncia, esta diferença de comportamentos amplifica-se com a idade. Na adolescência, ainda os rapazes tem umas urgências secretas pela boazona do colégio, mas isso passa-lhes com o início da vida sexual. As mulheres, mesmo já feitas, vão suspirando pela vida fora. O mito de que os homens pensam com a cabeça da gaita será genericamente falso e só não se aplica com mais propriedade às senhoras por manifesta incompatibilidade anatómica.
No inverno anterior, fui a Nova Iorque em trabalho com um grupo de meia dúzia de pessoas. Ao final da tarde, passeámos na quinta avenida após uma reunião de várias horas. Diante da Abercrombie and Fitch, uma loja de roupa da moda, dois tipos giros descalços e de tronco nu, apenas de “jeans”, a melena sobre a testa e os pelos das axilas rapados, convidavam a entrar e disponibilizavam-se para uma fotografia com as clientes. Para nossa surpresa, a única senhora do grupo, uma recatada e muita casada economista, sempre de discretos “tailleurs” cinza, esvoaçou para o meio dos rapazes, saltitante e risonha, pedindo que se lhe tirássemos um retrato. Só se perturbou quando o fotografante, advogado de profissão e por isso useiro em frases assassinas, lhe perguntou, ainda de telemóvel em punho: “mando para quem, para o teu marido?”
Não imagino nenhum dos homens deste mesmo grupo a perder a compostura se, mais à frente, outra loja ostentasse duas boazudas em “topless” para atrair a clientela. Ainda se fosse por uma traulitada, talvez alguém pesasse prós e contras. Mas por uma fotografia…
Este “post” não vai ter um final feliz, já que este suspirar exacerbado pelo tipo giro, ao continuar pela vida fora, acaba por levar a uma ironia dramática. Porque tipos giros, como objectos ideais que são, não abundam, sobretudo em quantidades que cheguem para todas. E por isso, lá para os vinte-e-muitos-trintas, perante a pressão do apelo uterino, começam elas a encaixar-se a torto e a direito com o primeiro que lhes aparece pela frente. Umas consolam-se, fazendo um “upgrade” mental do companheiro à categoria de tipo giro, apesar das limitações evidentes desta tentativa de colocar o Rossio na rua da Betesga. Sempre que se fala no coitado, empertigam-se e defendem com fervor a gireza teórica do comparsa, ante o sorriso embaraçado e discreto das amigas.Outras resignam-se e é vê-las, sussurrando e suspirando nos jantares pelos Pitts e pelos Nespressos, dependuradas do braço de carecas e narigudos, gordos e vidrinhos, enrugados e barrigudos, enfim, tipos vulgares de Lineu.
Deus não dorme, não haja dúvida.




Mas com as crianças passa-se de modo diferente. Não têm nem a consciência informada das vantagens e desvantagens que lhes permita tomar uma decisão destas, nem os meios materiais para a levar a cabo. Por isso, nesta como noutras questões, alguém tem que tomar decisões por elas, na defesa do que se espera ser o melhor entendimento possível dos direitos e interesses delas, crianças. Em geral, a nossa sociedade encarrega os pais deste papel, e verifica-se que acertadamente. Com muitas variantes no modo de o fazer, com mais rigidez ou mais tolerância, com mais carinho ou mais frieza, com maior ou menor desafogo financeiro, os pais, movidos por esse sentimento tão intrinsecamente humano, o amor para com os filhos, lá levam a carta a Garcia.

Mas, já que falamos de cor de pele, seria bom que a eleição de um presidente negro no país mais poderoso do mundo servisse para normalizar o uso das palavras “preto” e “negro”, passando-se a poder usar preto (ou branco) como se faz com louro, moreno, alto ou magro: apenas como a descrição de uma característica física, sem mais.
O nível de ambos viu-se nos discursos da noite eleitoral. Obama teve um discurso envolvente, carismático, empenhado, grandiloquente, entendendo perfeitamente o valor dos símbolos e a historicidade do momento. Sente-se que é um grande político e que poderá fazer, se se rodear da gente certa, uma boa presidência, de que o mundo anda bem necessitado. Mas gostei mais do discurso de McCain, de uma hombridade, de um cavalheirismo e de um patriotismo positivo como raramente ouvi. A democracia também se faz da aceitação da derrota – esta é mesmo uma das características que a diferencia de outros regimes – e serve-se um país ganhando ou perdendo. McCain mostrou ser um senhor, que não merecia as manadas de básicos que constituem parte significativa do eleitorado republicano e de que Sarah Palin constitui acabado exemplo.
No moderno jargão dos “media” e da gestão, o pobre trabalhador tornou-se vocábulo sem cotação, que quase ganhou um sentido de excluído, daquele que está do lado errado da vida e do progresso e azar o dele. Nas notícias dos periódicos, são trabalhadores os que, surpreendidos, dão com o nariz na porta de uma fábrica nortenha que se deslocalizou. Nas soltas dos telejornais, trabalhador é o que se manifesta pela avenida, filmado em plano rasante, de bandeira e boné, enquadrado em sindicatos. Estes e não outros. Porque os outros são os tais que colaboram nas empresas, serenos nas suas qualificações e arrumadinhos nos seus fatos e gravatas, atrás dos “flat screen” cintilantes com que os amarram doze horas diárias, convictos de pertencerem a um admirável mundo novo no qual os primeiros não cabem e até atrapalham. Olham para estes com a sobranceria vaga com que se contemplam realidades tristes mas distantes, como a fome ou a guerra. E nesta alienação não se apercebem que formam um novo proletariado, alimentando com anos de vida uma máquina que os ultrapassa, por medo do mal maior do desemprego e de passar para o lado de lá de uma barreira que mentalmente lhes criaram.






Os raios azuis.








E, sobretudo, a “Marca Amarela” é Londres. Não há obra – literária, cinematográfica ou outra – que melhor represente a minha ideia de Londres do que esta. Começando logo, com a fabulosa cena inicial na Torre de Londres, sob um céu de chumbo e uma chuva intemporal. Continuando com as imagens do “Centaur Club”, em Picadilly, ou o passeio do Dr. Vernay da página 11, ou de Limehouse Dock. Sobretudo, a humidade permanente nas lajes de cimento dos passeios que calcorreei tantas vezes e que as encontrei tal e qual as descreve Jacobs em “A Marca Amarela”.



