Passemos sobre a atenuante da interruptora não me ter parecido de uma inteligência faiscante. Na realidade, tratava-se de uma daquelas meninas dos departamentos de comunicação. Já perceberam, com certeza, aquilo que eu quero dizer. E limitou-se, por isso, a papaguear o que uma certa “conventional wisdom” cá da paróquia vem propalando um pouco por todo lado, dos relatos dos telejornais aos discursos nas empresas: que ser colaborador é fino e, portanto, que ser trabalhador é grosso.
A utilização de eufemismos para referir quem trabalha não se limita aqui ao burgo. Dei uma volta na “internet” pelas páginas de grandes sociedades inglesas ou francesas e encontrei empregados, assalariados, recursos humanos e até – felizmente de forma mais rara que em Portugal – colaboradores. Trabalhadores não constavam. Aparentemente, ninguém anda a fazer nenhum por esse mundo fora.
Os termos “empregado” ou “assalariado”, ou o neutríssimo “recursos humanos”, ainda se engolem. Possuem, pelo menos, a desculpa da objectividade. De facto, os trabalhadores contam com um emprego e auferem um salário e são humanos na óptica da biologia e recursos na perspectiva da teoria económica. Pelo contrário, já a expressão “colaboradores” me horripila um bocadinho. E não apenas por me recordar, intuitivamente, o abaixamento e a bufaria característica dos regimes totalitários, de Vichy a Ceausescu. O primeiro sentido de colaborador no dicionário é “que ajuda outrem nas suas funções”. Quando, nos relatórios e contas das companhias, a administração agradece o empenho dos colaboradores, está no fundo a significar que o mérito é dela, que as outras centenas ou milhares apenas contribuíram com uma episódica ajuda. Apetece-me lembrar Brecht: “Mas foram os reis que carregaram as pedras?”
No moderno jargão dos “media” e da gestão, o pobre trabalhador tornou-se vocábulo sem cotação, que quase ganhou um sentido de excluído, daquele que está do lado errado da vida e do progresso e azar o dele. Nas notícias dos periódicos, são trabalhadores os que, surpreendidos, dão com o nariz na porta de uma fábrica nortenha que se deslocalizou. Nas soltas dos telejornais, trabalhador é o que se manifesta pela avenida, filmado em plano rasante, de bandeira e boné, enquadrado em sindicatos. Estes e não outros. Porque os outros são os tais que colaboram nas empresas, serenos nas suas qualificações e arrumadinhos nos seus fatos e gravatas, atrás dos “flat screen” cintilantes com que os amarram doze horas diárias, convictos de pertencerem a um admirável mundo novo no qual os primeiros não cabem e até atrapalham. Olham para estes com a sobranceria vaga com que se contemplam realidades tristes mas distantes, como a fome ou a guerra. E nesta alienação não se apercebem que formam um novo proletariado, alimentando com anos de vida uma máquina que os ultrapassa, por medo do mal maior do desemprego e de passar para o lado de lá de uma barreira que mentalmente lhes criaram.Quando a palavra “trabalhador” ganha assim contornos pejorativos, estamos conversados em relação à ética do trabalho na nossa sociedade. Na educação que me deram, na casa como na escola, o trabalho afirmava-se como valor mais do que respeitável: uma obrigação para com os outros que nos promovia como seres humanos e que deveria ter duas formas de compensação, uma material e outra moral, associada à satisfação do cumprimento do dever. Qualquer trabalho, do mais “humilde” ao mais “sonante” possuía igual nobreza: um dos primeiros provérbios que ouvi foi o francês “il n’y a point de sôt métier”. Consequentemente, abominava-se a preguiça, essa sim uma vergonha pessoal e social. Tudo isto já o dizia Péricles, por outras palavras, no seu discurso aos atenienses, dois mil e quinhentos antes da moda dos colaboradores.
A dignidade do trabalho e a memória da construção dessa dignidade devem ser património de qualquer democracia que se tenha na devida conta. Ainda em Portugal uma pessoa podia ir presa por festejar o primeiro de Maio, já eu folgava nesse dia, cortesia da escola francesa que frequentava. Porque na França de De Gaulle se festejava o dia do trabalhador.
O primeiro de Maio tem curiosa origem num facto prosaico: era o primeiro dia do ano fiscal norte-americano, quando terminavam os contratos a prazo e por isso foi a data escolhida pelos sindicatos para iniciar, em 1884, uma luta pelas oito horas diárias. Este processo veio dar a origem a uma sequência de acontecimentos que terminaram com o enforcamento de cinco sindicalistas anarquistas, num dia de 1887 que ficou conhecido como “Black Friday”.
Três anos depois, em Paris, a Segunda Internacional decidiu escolher o primeiro de Maio para realizar manifestações pela imposição, agora na Europa, da tal jornada de oito horas, numa semana de quarenta e oito. As autoridades não deliraram com a medida: no dia um de Maio de 1891, durante a “Fusillade de Fourmies”, no norte de França, um destacamento militar dispara galhardamente sobre manifestantes desarmados. Nove mortos, um homem de trinta anos, dois rapazes de vinte, duas crianças de onze, quatro raparigas entre os dezassete e os vinte. Provavelmente, perigosos subversivos. A coisa não foi portanto fácil.O dedicar de um dia feriado de homenagem ao trabalhador e à sua luta por melhores condições de vida é universal no mundo democrático. Nos Estados Unidos ocorre na primeira segunda de Setembro, o “Labor Day”, em homenagem aos ferroviários em greve que em 1894 enfrentaram doze mil tropas em Kensington, perto de Chicago. No Reino Unido e na Irlanda, vai na primeira segunda-feira de Maio, para proporcionar um fim-de-semana prolongado. Na antípoda australiana, com os seus bichos únicos, têm uma data diferente consoante a província. Na Europa, na América do Sul e na Ásia, serve o primeiro de Maio. Até a Santa Sé institui desde 1955, a um de Maio, a festa de São José, trabalhador do sector da carpintaria.
A percepção de que os direitos dos trabalhadores e a nobreza do trabalho constituem um avanço civilizacional que merece ser celebrado, nem que seja com uma valente folga, é por vezes entendida como património da esquerda. Não é evidente: muitas democracias ocidentais governadas à direita instituíram e mantiveram a celebração de um dia do trabalhador. A América e a França formam exemplos. Vide o caso gaulista, acima citado. Mas isto não deve surpreender: existem muitas direitas, algumas respeitavelmente democráticas, por vezes conservadoras, outras vezes liberais, às vezes libertárias.
Em Portugal, a esquerda tem como preconceito que a direita é básica e reaccionária. A tal “parti pris” não será alheio o facto de a direita portuguesa ser de facto maioritariamente básica e reaccionária. Donde vir de lá tanta prosápia com os colaboradores, como se ser trabalhador – eu sou – envergonhasse. Se não nos precatamos, ainda aparece aí um dia do colaborador. Provavelmente o vinte e nove de Fevereiro, para não afectar a produtividade.






Os raios azuis.








E, sobretudo, a “Marca Amarela” é Londres. Não há obra – literária, cinematográfica ou outra – que melhor represente a minha ideia de Londres do que esta. Começando logo, com a fabulosa cena inicial na Torre de Londres, sob um céu de chumbo e uma chuva intemporal. Continuando com as imagens do “Centaur Club”, em Picadilly, ou o passeio do Dr. Vernay da página 11, ou de Limehouse Dock. Sobretudo, a humidade permanente nas lajes de cimento dos passeios que calcorreei tantas vezes e que as encontrei tal e qual as descreve Jacobs em “A Marca Amarela”.







Uns acham que o homem foi criado todo bem-postinho ao sexto dia e que isto é que deveria ser ensinado nas aulas de biologia. Outros pensam que o facto de qualquer idiota poder ser dono de uma arma de fogo não tem nada a ver com as matanças que todos os anos ocorrem nos liceus americanos, quase com a mesma tradicional frequência que o baile de formatura. Há os que julgam que a substituição da educação sexual escolar pela promoção da abstinência entre os adolescentes não está na origem da maior taxa de gravidez precoce do mundo ocidental. Aqueloutros ainda não perceberam que os furacões cada vez mais vezeiros e violentos que levam no toutiço têm origem no aquecimento global promovido pelas carradas de CO2 que a indústria americana debita cá para fora. Verdade seja dita, não devem morar na Louisiana ou na Florida. Outros ainda supõem que a coisa se resolve furando mais poços de petróleo, dê lá onde der. E não me admirava que alguns haja lá para o meio que acreditam mesmo na existência do Santa Claus, “himself”. Já agora, para maluco, maluco e meio.
Admiravelmente, este livrinho vende múltiplas edições, em noventa países e trinta idiomas. Este e não só, porque há o segredo que andou perdido e só agora se revela ou o monge que vendeu o Ferrari porque lhe perturbava a introspectiva meditação ou outras gloriosas promessas do mesmo literário calibre. Milhões de exemplares. Anda portanto muita gente por aí à procura de trocar de vida, que a que tem não lhe serve, nem recauchutada.
Não gastemos pois preciosos segundos a tragar as baboseiras que o mais ignóbil “marketing” editorial nos quer impingir como indispensáveis. Mas se já compraram algum desses malfadados volumes, não se inibam de retirar alguma utilidade desse acto menos reflectido. Há sempre uma mesa a precisar de um calço, um tipo de quem não gostamos a cujo aniversário temos que assistir ou outro destino de igual nobreza para as prosas que querem mudar as nossas pobres vidas.