Sempre houve cunhas em Lisboa. Só na lista telefónica encontrei próximo de seiscentos, incluindo uma Aida Purificação, um Albérico, uma Anália, uma Carmelita (suponho que das calçadas), um Gumercindo, uma Liseta, uma Osmia e um Otílio. Mas tão peculiares antropónimos não são metade do estranho que são os casos de cunha que o Expresso relata. E estes, o mais estranho – e preocupante – que têm é o facto de já não estranharmos.
Como nós não estranhamos, os cunhados e os afilhados também já não. Escolho um apenas como emblemático exemplo. Funcionário da tipografia da Câmara de Lisboa, foi-lhe atribuído nos anos oitenta um T1 em Telheiras, porque estava em processo de divórcio e tinha um filho a cargo. Piedosa atenção da edilidade, assumamos que justa. Pois hoje, o então indigente já subiu a pulso até director camarário (vamos generosamente supor que por mérito), casou outra vez, comprou nova habitação, mas mantém a casa atribuída pela CML e, não ciente do abuso que comete, ainda disparata do seguinte modo: “O meu filho é que mora lá. Não tenho dinheiro para lhe comprar uma casa nova”. E alonga-se mais: “É a minha casa de reserva. Se amanhã tiver que me separar outra vez, para onde é que eu vou?” E agora digo eu: “Olha, vai para o caralho!” Com perdão aos meus leitores pela má palavra, mas não consegui encontrar nos seis gordos volumes do dicionário Houaiss outro vocábulo que melhor se aplicasse aqui. E juro que procurei.
Então o teu filho, que agora pelas minhas contas andará a caminho dos trinta anos, não pode arranjar casa sozinho, como o resto das tropas? Agora o direito a tê-uns em Telheiras tornou-se hereditário? Coitado, o rapaz deve ter saído a ti! E tu, se não queres ir para o olho da rua, não te separes. Põe-te à tabela. Torna-te indispensável. Vai a uma consulta de andrologia ou compra umas caixas de Viagra®. Mas devolve lá a casinha ao erário público, que eu, que pago imposto municipal, não tenho nada a ver com os teus problemas sentimentais.
Não haverá na Praça do Município alguém de coração misericordioso que cometa a caridade de oferecer a este senhor uma tardia oportunidade de aprender a desenrascar-se sozinho, despedindo-o sumariamente?

Quando me casei, comprei um apartamento na periferia de Lisboa. A mensalidade custava 75% do meu salário. Como não tinha dinheiro para a mobilar, vivi dois anos numa casa dos meus pais (não atribuída por qualquer autarquia) até me poder mudar. Consequentemente, a câmara retirou-me dois anos de isenção de contribuição autárquica, um direito que eu tinha, sob o pretexto que não habitava lá. Pudera! Só se me deitasse no chão! Ainda me desloquei às Finanças, mas o funcionário, embora simpático para com a minha situação, explicou-me que nada havia a fazer. Aplicava-se a letra da lei, não o seu espírito.
Este meu caso nem sequer é dos mais danosos ou chocantes, quando comparado com outros que conheço e, suponho, muitos outros que desconheço, de prepotência sobre os contribuintes. Mas todos eles fazem com que os abusos que o Expresso hoje relata e, sobretudo, a ligeireza desculpabilizadora com que os beneficiados se justificam se revistam de uma gravidade extrema.
Ficar com um T1 em Telheiras que não se lhe pertence é, na prática, como roubar 150.000 €. Quando um bandido assalta uma agência do Espírito Santo e leva uma quantia destas, vê-se a braços com a justiça se apanhado. A quem se apropria indevidamente de um valor imobiliário de igual montante, ou a quem deixa apropriar, não lhe deveria acontecer exactamente o mesmo? A única diferença entre as duas situações reside na identidade dos lesados: no primeiro, o Dr. Ricardo Salgado e os restantes accionistas do BES; no segundo, eu e os demais habitantes de Lisboa.

A corrupção, o clientelismo, o nepotismo, são dos maiores cancros que um regime democrático pode ter. Porque minam o próprio âmago do que faz ou deveria fazer a força das democracias: a igualdade de deveres e oportunidades diante da Lei, a condução da coisa pública na procura desinteressada do bem comum, a superioridade moral que advém de a todos atender de igual modo, de acordo com as necessidades de cada um e as possibilidades existentes.
Se a democracia for forte e as pessoas sentirem que estes princípios de justiça e igualdade são aplicados, aceitarão pacificamente que sobre elas se faça o exercício do poder, uma vez que reconhecerão que é para o bem de todos. Se, pelo contrário, a democracia for fraca e as pessoas verificarem que o poder é exercido por uns em proveito de poucos, afastar-se-ão progressivamente do regime e, ao primeiro tropeção da situação (crise económica, aumento de insegurança, escândalo maior, etc.), virar-se-ão para soluções mais nefastas, como derivas autoritárias, homens providenciais, sanhas moralistas e outras que tais. A História assim o demonstra, no modo como terminou a nossa Primeira República e na tele-democracia de Berlusconi, da subida ao poder de Júlio César à subida ao poder de Adolf Hitler, do peronismo ao bonapartismo.
A democracia portuguesa é recente e ainda não está suficientemente escorada, sobretudo na mentalidade dos governantes e na dos governados. Na dos primeiros, para quem o poder ainda é um fim e não meramente um meio e que vêem com frequência os bens públicos como sendo deles, quando são de todos. Na dos segundos porque ainda toleram excessivamente os primeiros. E tolerar excessivamente aqui significa tolerar, nem que seja marginalmente, aquilo que é intolerável, como o clientelismo e a corrupção. Significa, por exemplo, voltar a votar, com o pretexto de que não há alternativa, num partido que aceita sem nada fazer situações como as descritas. Há sempre alternativa, nem que seja dar maciçamente o nosso voto àquele partido dos Açores que tem uma ave no emblema.
Conta a anedota que perguntaram uma vez a um lorde inglês o que era preciso para construir uma democracia, ao que ele respondeu: várias gerações. Temos portanto a desculpa de ainda ter algum tempo, mas convém ir começando.
Uns acham que o homem foi criado todo bem-postinho ao sexto dia e que isto é que deveria ser ensinado nas aulas de biologia. Outros pensam que o facto de qualquer idiota poder ser dono de uma arma de fogo não tem nada a ver com as matanças que todos os anos ocorrem nos liceus americanos, quase com a mesma tradicional frequência que o baile de formatura. Há os que julgam que a substituição da educação sexual escolar pela promoção da abstinência entre os adolescentes não está na origem da maior taxa de gravidez precoce do mundo ocidental. Aqueloutros ainda não perceberam que os furacões cada vez mais vezeiros e violentos que levam no toutiço têm origem no aquecimento global promovido pelas carradas de CO2 que a indústria americana debita cá para fora. Verdade seja dita, não devem morar na Louisiana ou na Florida. Outros ainda supõem que a coisa se resolve furando mais poços de petróleo, dê lá onde der. E não me admirava que alguns haja lá para o meio que acreditam mesmo na existência do Santa Claus, “himself”. Já agora, para maluco, maluco e meio.
Admiravelmente, este livrinho vende múltiplas edições, em noventa países e trinta idiomas. Este e não só, porque há o segredo que andou perdido e só agora se revela ou o monge que vendeu o Ferrari porque lhe perturbava a introspectiva meditação ou outras gloriosas promessas do mesmo literário calibre. Milhões de exemplares. Anda portanto muita gente por aí à procura de trocar de vida, que a que tem não lhe serve, nem recauchutada.
Não gastemos pois preciosos segundos a tragar as baboseiras que o mais ignóbil “marketing” editorial nos quer impingir como indispensáveis. Mas se já compraram algum desses malfadados volumes, não se inibam de retirar alguma utilidade desse acto menos reflectido. Há sempre uma mesa a precisar de um calço, um tipo de quem não gostamos a cujo aniversário temos que assistir ou outro destino de igual nobreza para as prosas que querem mudar as nossas pobres vidas.

Claro que todos têm direito a alterar a sua opinião, que mais vale tarde que nunca, que a constituição portuguesa consagra o direito à asneira e mais todo o blá-blá. Sei tudo isso. Mas também sei que deveria haver vergonha na cara, que nessa gente escasseia. Quando a ouço, tão segura e sectariamente anti-esquerdista como no passado fora comunista, só me apetece dizer como o rei Juan Carlos: “porque no te callas?”
Recordo-me, em criança, de uma fase em que as mulheres pintavam a cascaria nestas cores proletárias. Mas tal pancada deve ter acabado a meio dos anos setenta, porque daí até cá, só pintavam a unha de vermelho as velhas que geriam o “métier” e as novas que o praticavam, bamboleando avenida acima e avenida abaixo. Agora, numa estatística rápida mas confiável, são para aí quatro em cada cinco, numa praga que atingiu púberes e caducas, tias e mitras, desconhecidas e até amigas minhas que eu pensava estarem ao abrigo das modas mais tolas. Não deixo de me rir para dentro ao imaginá-las corcovadas na cama, pincelando em esforço as unhas longínquas, de papelotes nos espaços interdigitais, os dedos da pantufa abertos em leque como se estivessem a atingir o sétimo céu.
Justificou-me uma amiga, em tom de desculpa, quando a descobri de unha rubi nos pés achinelados: “olha, decidi dar largas à minha feminilidade”. Porreiro. Também quero. Rapazes! Vamos dar largas à nossa masculinidade, mas versão anos setenta. Todos a deixar crescer a patilha à Ramalho, o bigode à turco, a unha do mindinho a tornear o canal auditivo em voltinha higiénica, com os colarinhos da camisa que nem as asas de um Airbus e a parte de baixo das calças de ganga como os carrilhões do convento de Mafra.

Um grande número escolheu a via arbitral, invocando o empurrão nas costas do Paulo Ferreira pelo Ballack antes do cabeceamento final, a que o árbitro, mancomunado com interesses obscuros e germanófilos, teria feito vista grossa. Segundo essa facção, que nem se indigna com batotas mas que lamenta sobretudo que Portugal não tenha na UEFA influência para influenciar as arbitragens, não quer dizer absolutamente nada o facto de os dois supostos melhores centrais do mundo (Carvalho e Pepe, para os mais distraídos) nem sequer lá estarem para ser empurrados.
Compreende-se agora que os dois mais importantes adjuntos de Scolari sejam o Murtosa, modelo de seguidismo canino, e a Virgem do Caravaggio, promotora de paia milagreira. Mas fidelidade e sorte não são adversárias credíveis para a organização e para o talento, sobretudo quando o nome que se apanha pela frente é o da Itália ou da Alemanha e não o da Bélgica ou da Letónia.
Passando agora ao que importa. O que eu não consigo conceber é que o primeiro-ministro do meu país se rebaixe a fazer um número humilhante destes por causa de umas passas num avião, enxovalhando nesse “hara-kiri” moralista a próprio Nação que representa.
Outro exemplo flagrante é o de D. Pedro, o cruel e justiceiro, de quem Fernão Lopes conta que “diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal, como estes em que reinara el-rei D. Pedro.” O comportamento pessoal que Pedro sempre exibiu seria qualificado, nos dias de hoje, de total passanço dos carretos. O homem foi um dissoluto sexual e um sádico, que exercia uma justiça draconiana, frequentemente pelas próprias mãos, muitas vezes por mero capricho.
Em vez de bombas esféricas usavam espingardas e tanques a sério, não como aquele que tínhamos na marquise, mas como os dos filmes de guerra, com um grande canhão que nem o do cartaz gigante que, no Monumental, anunciava “A batalha das Ardenas”. As ruas pareciam cheias de gente, de óculos de massa, gola alta e calças à boca-de-sino, apinhadas como se no futebol. A certo momento, a minha empregada (à época dizia-se criada) indignou-se com as imagens da detenção do Marcelo Caetano. Expliquei-lhe, do alto das minhas habilitações literárias, que as revoluções eram mesmo assim, e que ele havia de voltar no momento próprio, de cartucheiras, carabina e tequilha, para trocar com estes que entravam agora ao serviço.
Fiquei confuso. Sempre tinha aprendido que as pessoas podiam ser presas se fizessem o mal e um mal bem tipificado: bater, roubar, matar. Prender quem não estivesse de acordo connosco não fazia muito sentido no quadro de valores em que eu fora educado, em que o bem era o bem e o mal era o mal, independentemente de quem o praticasse. O bem e o mal eram conceitos absolutos e não definidos por oposição ao que pensava este ou aquele. Para além disto, na escola, incentivavam-nos a levantar o braço e a dizer o que pensávamos. Alguns colegas meus recebiam más notas por não o fazer, mas não por pensar de forma diferente. Prender gente só por isto não lembraria ao careca, mas pelos vistos lembrara a alguém.
Para terminar: sei que alguns vão achar parolo ou popularucho, comuna ou esquerdizante ou outra abéculice qualquer do mesmo calibre, mas eu estou-me a … nas tintas, e de alto! Que viva o Vinte e Cinco de Abril, sempre!
E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.
Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:
Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.
Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.
Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.
A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.
Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.