Ora aqui está uma obra que eu não vou ler. Por pouca paciência, certamente, mas também porque quem tem cu tem medo. E se aquilo por acaso resulta? Por que raio é que eu havia de querer que a minha rica vidinha mudasse? Sinto-me razoavelmente satisfeito com a que tenho, mau grado a injustiça de o Sporting não ser (ainda) campeão europeu, e melhor fico se não arriscar. Dos livros que leio, alguns enriquecem a minha vida, outros divertem-na, uns quantos, felizmente poucos, suspendem-na num intervalo de tédio. Agora mudá-la, até agora não e ainda bem.
Como funcionará um livro que muda a vida de uma pessoa? Qual é a mecânica? Só fará efeito se lido de fio a pavio? Dobra-se a última folha e tocam à porta, a anunciar uma herança milionária de um distante e incógnito parente, ao mesmo tempo que recebemos um SMS da nossa mulher a avisar que foi viver para o Algarve com uma namorada e que não a procuremos? Ou, ao invés, terá um comportamento progressivo? Neste caso, na quinta página já nos chega uma carta das finanças com uma multa por atraso no IRS, ao terceiro capítulo penhoram-nos ordenado e carro e chegados à palavra “fim” vemo-nos envolvidos num “kafkiano” processo de fraude fiscal, no qual nos julgamos inocentes, mas que termina com prisão maior e uma nova existência, eremita e penitente, na cadeia do Linhó.
Num cenário mais ousado, o efeito poderia ser avassalador e imediato, como no célebre “sketch” dos Monthy Python da anedota assassina que nunca conseguimos saber qual é por que todos os que tentam ler o papel onde está escrita morrem de riso à segunda ou terceira palavra. Se assim fosse, à quarta linha lida a mágica leitura produzia efeito e descobríamo-nos do sexo oposto, numa transformação milagreira da nossa estrutura hormonal ou, pior, ensandecidos e sócios do Benfica. Tudo do avesso e nem valia a pena acabar tão transformante canhanho.
Admiravelmente, este livrinho vende múltiplas edições, em noventa países e trinta idiomas. Este e não só, porque há o segredo que andou perdido e só agora se revela ou o monge que vendeu o Ferrari porque lhe perturbava a introspectiva meditação ou outras gloriosas promessas do mesmo literário calibre. Milhões de exemplares. Anda portanto muita gente por aí à procura de trocar de vida, que a que tem não lhe serve, nem recauchutada.E com razão? Será esta existência de ocidental do princípio do século XXI tão vazia de interesses e de motivações que precisemos, maciçamente, comprar a banha da cobra ou o elixir do doutor Doxey que nos canta a loa de uma vida que não é a nossa?
No extremo oposto, recordo um episódio de uma série de viagens da BBC em que Michael Palin, um “Python” que sobreviveu à letal anedota, entrevistava uma habitante de um campo de refugiados no Sahara Ocidental. Esta senhora praticamente nascera, crescera, casara, fora mãe, tudo no perímetro do campo. Sempre vivera numa tenda. Nunca beneficiou de água corrente, nem de luz, nem de qualquer dos pequenos luxos que fazem parte do nosso quadro mental mínimo de referência. Perguntava Palin: “o que é que a faria contente?” Respondia ela: “o que Deus me dá faz-me contente.” Insistia Palin: “Não, mas o que é que precisava para ser feliz?” E a mulher de retorquir, com um risinho: “o que Deus me deu faz-me feliz.” E lá ficou o Michael, de microfone à banda.
Esta Saaraui exibe, certamente com cândido exagero, uma característica que muito deve faltar aos fiéis leitores dos livros que mudam vidas: contentamento. Será por vítima de obscurantismo, por ignorância do que está para lá das dunas que desenham o horizonte do campo de refugiados, por religiosa alienação, por todas essas excelentes razões. Mas, e com todas as ressalvas que aqui possamos colocar com receio da ira do politicamente correcto, aquele sorriso tímido mirando a câmara da BBC faz pensar. Não que a minha tese seja a de que devíamos todos morar em tendas num deserto e que aí tudo iria pelo melhor no melhor dos mundos. Não sou muito atreito ao mito do bom selvagem. Mas contemplo a sumária serenidade daquela mulher, descontextualizo-a, isolo-a e encapsulo-a. Que obtenho? Algo que procuram aqueles que, por essas Europas e Américas, apanham grandes barrigadas de auto-ajuda e outra literatura salvadora.
O contentamento tem uma receita simples. Procurar gozar, em cada momento, o lado bom da vida – há (quase) sempre um, neste privilegiado hemisfério norte. Saborear mais o que se tem do que sofrer o que não se pode ter. Viver. Deixar viver. Não se mortificar com a pouca cilindrada do carro ou com o pensamento remoto de que não havemos de cá ficar ou com a nossa miserável falta de notoriedade, que temos todos pinta de vedeta e ninguém nos conhece. E o que é que isso interessa? “Carpe diem!” E, aos mais receosos com o mistério das coisas, relembrar Alberto Caeiro: “Sei lá o que é o mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério.”
Quem está contente não precisa de mudar a vida, o que não implica que não faça por a melhorar: um bocadinho, imenso ou meramente o necessário. Contentamento não quer dizer resignação ou fatalismo. Pelo contrário, sobre ele se pode construir a mudança, em nós como nos outros. Viver o dia não obsta a que se prepare o futuro.
Não gastemos pois preciosos segundos a tragar as baboseiras que o mais ignóbil “marketing” editorial nos quer impingir como indispensáveis. Mas se já compraram algum desses malfadados volumes, não se inibam de retirar alguma utilidade desse acto menos reflectido. Há sempre uma mesa a precisar de um calço, um tipo de quem não gostamos a cujo aniversário temos que assistir ou outro destino de igual nobreza para as prosas que querem mudar as nossas pobres vidas.

Claro que todos têm direito a alterar a sua opinião, que mais vale tarde que nunca, que a constituição portuguesa consagra o direito à asneira e mais todo o blá-blá. Sei tudo isso. Mas também sei que deveria haver vergonha na cara, que nessa gente escasseia. Quando a ouço, tão segura e sectariamente anti-esquerdista como no passado fora comunista, só me apetece dizer como o rei Juan Carlos: “porque no te callas?”
Recordo-me, em criança, de uma fase em que as mulheres pintavam a cascaria nestas cores proletárias. Mas tal pancada deve ter acabado a meio dos anos setenta, porque daí até cá, só pintavam a unha de vermelho as velhas que geriam o “métier” e as novas que o praticavam, bamboleando avenida acima e avenida abaixo. Agora, numa estatística rápida mas confiável, são para aí quatro em cada cinco, numa praga que atingiu púberes e caducas, tias e mitras, desconhecidas e até amigas minhas que eu pensava estarem ao abrigo das modas mais tolas. Não deixo de me rir para dentro ao imaginá-las corcovadas na cama, pincelando em esforço as unhas longínquas, de papelotes nos espaços interdigitais, os dedos da pantufa abertos em leque como se estivessem a atingir o sétimo céu.
Justificou-me uma amiga, em tom de desculpa, quando a descobri de unha rubi nos pés achinelados: “olha, decidi dar largas à minha feminilidade”. Porreiro. Também quero. Rapazes! Vamos dar largas à nossa masculinidade, mas versão anos setenta. Todos a deixar crescer a patilha à Ramalho, o bigode à turco, a unha do mindinho a tornear o canal auditivo em voltinha higiénica, com os colarinhos da camisa que nem as asas de um Airbus e a parte de baixo das calças de ganga como os carrilhões do convento de Mafra.

Um grande número escolheu a via arbitral, invocando o empurrão nas costas do Paulo Ferreira pelo Ballack antes do cabeceamento final, a que o árbitro, mancomunado com interesses obscuros e germanófilos, teria feito vista grossa. Segundo essa facção, que nem se indigna com batotas mas que lamenta sobretudo que Portugal não tenha na UEFA influência para influenciar as arbitragens, não quer dizer absolutamente nada o facto de os dois supostos melhores centrais do mundo (Carvalho e Pepe, para os mais distraídos) nem sequer lá estarem para ser empurrados.
Compreende-se agora que os dois mais importantes adjuntos de Scolari sejam o Murtosa, modelo de seguidismo canino, e a Virgem do Caravaggio, promotora de paia milagreira. Mas fidelidade e sorte não são adversárias credíveis para a organização e para o talento, sobretudo quando o nome que se apanha pela frente é o da Itália ou da Alemanha e não o da Bélgica ou da Letónia.
Passando agora ao que importa. O que eu não consigo conceber é que o primeiro-ministro do meu país se rebaixe a fazer um número humilhante destes por causa de umas passas num avião, enxovalhando nesse “hara-kiri” moralista a próprio Nação que representa.
Outro exemplo flagrante é o de D. Pedro, o cruel e justiceiro, de quem Fernão Lopes conta que “diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal, como estes em que reinara el-rei D. Pedro.” O comportamento pessoal que Pedro sempre exibiu seria qualificado, nos dias de hoje, de total passanço dos carretos. O homem foi um dissoluto sexual e um sádico, que exercia uma justiça draconiana, frequentemente pelas próprias mãos, muitas vezes por mero capricho.
Em vez de bombas esféricas usavam espingardas e tanques a sério, não como aquele que tínhamos na marquise, mas como os dos filmes de guerra, com um grande canhão que nem o do cartaz gigante que, no Monumental, anunciava “A batalha das Ardenas”. As ruas pareciam cheias de gente, de óculos de massa, gola alta e calças à boca-de-sino, apinhadas como se no futebol. A certo momento, a minha empregada (à época dizia-se criada) indignou-se com as imagens da detenção do Marcelo Caetano. Expliquei-lhe, do alto das minhas habilitações literárias, que as revoluções eram mesmo assim, e que ele havia de voltar no momento próprio, de cartucheiras, carabina e tequilha, para trocar com estes que entravam agora ao serviço.
Fiquei confuso. Sempre tinha aprendido que as pessoas podiam ser presas se fizessem o mal e um mal bem tipificado: bater, roubar, matar. Prender quem não estivesse de acordo connosco não fazia muito sentido no quadro de valores em que eu fora educado, em que o bem era o bem e o mal era o mal, independentemente de quem o praticasse. O bem e o mal eram conceitos absolutos e não definidos por oposição ao que pensava este ou aquele. Para além disto, na escola, incentivavam-nos a levantar o braço e a dizer o que pensávamos. Alguns colegas meus recebiam más notas por não o fazer, mas não por pensar de forma diferente. Prender gente só por isto não lembraria ao careca, mas pelos vistos lembrara a alguém.
Para terminar: sei que alguns vão achar parolo ou popularucho, comuna ou esquerdizante ou outra abéculice qualquer do mesmo calibre, mas eu estou-me a … nas tintas, e de alto! Que viva o Vinte e Cinco de Abril, sempre!
E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.
Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:
Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.
Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.
Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.
A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.
Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.
Divirto-me ainda a ler Literatura. Há de facto tipos que brincam com as palavras e as ideias com a graça e a segurança do malabarista, jogando-as no ar e deixando-as tombar no momento certo, no sítio certo. Para além da beleza deste movimento, muitos escritores são também dos melhores historiadores e dos melhores filósofos, oferecendo-nos uma visão da História e da Filosofia vista do interior da vida, com todo o seu calor e frenesim, que completa e contrasta com a percepção distante e fria que têm os que escrevem e estudam respaldados numa visão mais cartesiana e académica.
Já agora, o artigo completo, que vale a pena ler para conhecer uma visão interessante sobre os dias que correm, saiu não no “Avante!” mas no “Financial Times” e pode encontrar-se em