Acabei hoje – incrivelmente a bordo de um C-130, escuro, de um cagarim impressionante, trepidante de válvulas em alívio e hidráulicos em acção – um livro cuja leitura recomendo: “Civilization” de Roger Osborne.São quinhentas páginas de letra miúda, portanto apropriadas a uma quinzena de férias de praia, a uma pena leve de prisão ou à convalescença de uma fractura do fémur. Ainda assim um volume pouco espesso, se soubermos que o autor aborda nada menos do que a história da civilização ocidental desde há quarenta mil anos até aos nossos dias. Contas feitas, sempre são oitenta anos por página, um número algo ambicioso para encafuar nuns míseros vinte centímetros de papel.
Apesar do risco do empreendimento, a coisa correu-lhe bem: encontramos lá quase tudo, concisão com riqueza de detalhe, encadeamento, tese e aquela ligeireza de redacção que só os ingleses e o Fernão Lopes sabem que a boa História merece. Enciclopédico, Osborne, tal como o realizador de cinema que alterna o grande plano com a grande angular, vai buscar São Tomás de Aquino quando precisa e os The Who quando estes fazem sentido, a pequena história conjugal e as grandes batalhas, tudo para desenvolver uma ideia de quem nós, ocidentais, somos na realidade.
Osborne não é historiador de formação ou profissão. Licenciado em geologia, dedica-se à escrita. Pode, por isso, gozar de toda a liberdade para pegar nos acontecimentos e recompô-los à maneira dele, sem que os seus pares o chateiem. Isto pelo simples facto de não ter pares: muito poucos geólogos se dedicam à história do Ocidente. Talvez graças a esta invulgar combinação histórico-geológica, obtemos como resultado uma perspectiva liberta e inovadora sobre aquela História que a simplicidade redutora dos manuais escolares formatou nas nossas cabeças. Aqui e ali iconoclasta, mas nunca rupturista, Osborne não procura uma História diferente, de cabalas secretas e factos escondidos, tão em voga nestes tempos. É exactamente a mesma que demos no liceu, a verdadeira, a da Bayer, só que pelo olhar de um tipo que se afastou um pouco para a ver de outro ângulo, talvez de cima de um muro, um pouco mais alto. Exemplos dessa perspectiva diferente encontramo-los no relevo que dá às culturas ditas “bárbaras”, pré-romanas, e ao papel que os francos tiverem na génese dos centros de poder no Ocidente.
Mas, para quem não tiver o saco suficientemente fundo para aviar quinhentas páginas de erudição mindinha, há um plano B para tirar grande proveito deste livro. Basta ler o último capítulo, sobre o mundo pós-guerra. Neste, Osborne não escreve sobre o passado, escreve sobre o nosso presente – que também é o dele, globalizado, neo-liberal e essas tretas. E, surpreendentemente, consegue aparentar um distanciamento tal que aquilo até parece tirado de um futuro livro de história, escrito com toda a frieza para aí no ano 2400.
Ao ler este capítulo final, se conseguirmos munir-nos de alguma honestidade intelectual, vamos poder sorrir de nós próprios e de algumas ideias enraizadas na “sabedoria convencional” dos nossos dias, de “políticos”, “economistas” e “jornalistas”. Ideias que socialmente julgamos tão inevitáveis e certas como certas foram consideradas, em seu tempo, a naturalidade da escravatura ou a rotação do sol em torno da Terra. Mas ideias que são meramente a ideologia dominante da nossa época.
Que conclui Osborne de mais importante sobre a “civilização ocidental”?
A sua tese nuclear é a de que o Ocidente, apesar da sua capacidade de gerar progresso económico e cultural, possui uma tendência histórica para derrapar para o abismo, infligindo sofrimento metódico e inigualável não só aos outros como a si próprio. Como se diz na contra-capa, “por cada Beethoven há um campo de concentração, por cada Edifício Chrysler há um massacre de My Lai”. O exemplo acabado desta tendência é a Primeira Grande Guerra, sem bases racionais tanto para o modo disparatado como começou como para a maneira enguiçada como acabou.
Para Osborne, o mal estrutural do Ocidente reside num tendência para um poder centralizado, com uma perspectiva nacionalista, convicto da sua superioridade racionalista, impor a sua visão, destruindo o que encontra pelo caminho, nomeadamente outras estruturas de equilíbrio social e cultural, baseadas em tradições ou laços de comunidade localizados. Quando esse poder centralizado justifica através de uma perspectiva ideológica (muitas vezes racista) a sua pretensa superioridade moral sobre terceiros, e quando o poder tecnológico e bélico é grande, então acontecem massacres e genocídios. Se ao ler isto, vos vêm à mente os óbvios nazis, desenganem-se: o autor está também a pensar nos civilizadíssimos ingleses e franceses, e estes não durante os tempos longínquos da Guerra dos Cem Anos, mas há pouco mais de cem anos.
No final do século XIX, os franceses deslocaram os nativos da Nova Caledónia para terras inférteis. Quando estes, à fome, se revoltaram, foram massacrados e a cabeça do seu líder foi levada para Paris – como diz Osborne, a Paris de Renoir e Degas – como troféu! Pela mesma altura, morria na Tasmânia o último indígena da ilha, após um trabalho cruel e metódico pelos britânicos de matança da população local. Tal limpeza étnica, como se diria hoje, foi levada a cabo durante setenta anos e incluiu detalhes tão sórdidos como a utilização de pessoas como alvos de caça desportiva e de prática de tiro. Curiosamente, é hoje muito mais conhecida e deplorada a extinção do lobo da Tasmânia do que a extinção do próprio homem da Tasmânia. Sensibilidades ecológicas!
Finalmente, o autor considera que vivemos, no presente, um momento em que esse mal estrutural está de novo muito activo e em que o conceito de “civilização ocidental” volta a ser usado com contornos de superioridade moral, para atacar terceiros. Por exemplo, pela administração Bush. Osborne chega mesmo à afirmação pessimista que actualmente, e contrariamente ao que acontecia há poucos anos, as populações europeias sentem, de forma generalizada, que nos encaminhamos para tempos muito piores do que os actuais.
As reflexões deste livro são a mais das vezes pertinentes e por isso a sua leitura tem grande utilidade para que entendamos por que caminhos nos levam. Isto, embora eu não partilhe com Osborne um sentimento tão negativo em relação a esse conceito, tão lato que ele é, de “civilização ocidental”. O autor de “Civilization”, se lido nas entrelinhas, surge muitas vezes como um romântico, saudoso do “bom selvagem” de Rousseau, que a civilização afasta do seu recto caminho e que viveria mais feliz num mundinho aldeão de hábitos e tradições, com o seu “pubezito” de fim de tarde, para uma cerveja e conversa mole.
Por mim, estou contente de ter nascido e de viver como “ocidental”, mesmo estando ciente das limitações que demonstrámos no passado. No entanto, na história dos povos, como na história das nossas próprias vidas, devemos valorizar os momentos altos e não nos focarmos apenas no que foi menos feliz. Temos que ter orgulho não só nas pedras de Notre-Dame e nos rabiscos de Picasso, mas também no facto de termos sido capazes de promover ambientes em que a mortalidade infantil é desprezável, em que toda a gente sabe ler e escrever e em que se consegue levar uma nave à Lua. E estes sucessos são fruto do racionalismo ocidental e não se repetiram muito noutras culturas.
Embora este pormenor possa ser menos simpático para os meus leitores, é graças à “civilização ocidental” que posso estar aqui despreocupadamente a escrever estes meus disparates. Isto porque a liberdade de pensamento e expressão, bem como a possibilidade e o dever de crítica às formas de autoridade, são ganhos mentais da nossa forma de civilização que nunca tiveram noutras sociedades – verdade se diga – a mesma valorização ou a mesma amplitude de presença.
Não posso deixar de concordar com Osborne, quando ele diz que a “civilização ocidental” levou no passado, muitas vezes, ao sofrimento maciço de milhões de pessoas. Mas não creio que isso acontecesse por racionalismo dos governos e dos povos. Penso que isso aconteceu por estupidez dos governos e dos povos. E à estupidez convém chamar estupidez, tal como à razão convém chamar razão, justamente para que os dois conceitos não se confundam.
E para ajudar a não confundir conceitos, nada melhor que relembrar os bons feitos e as grandes asneiras dos nossos avós, de modo a não repetir as cretinices do passado. Também com este intuito, se justifica a leitura de “Civilization”.
Passando agora ao que importa. O que eu não consigo conceber é que o primeiro-ministro do meu país se rebaixe a fazer um número humilhante destes por causa de umas passas num avião, enxovalhando nesse “hara-kiri” moralista a próprio Nação que representa.
Outro exemplo flagrante é o de D. Pedro, o cruel e justiceiro, de quem Fernão Lopes conta que “diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal, como estes em que reinara el-rei D. Pedro.” O comportamento pessoal que Pedro sempre exibiu seria qualificado, nos dias de hoje, de total passanço dos carretos. O homem foi um dissoluto sexual e um sádico, que exercia uma justiça draconiana, frequentemente pelas próprias mãos, muitas vezes por mero capricho.
Em vez de bombas esféricas usavam espingardas e tanques a sério, não como aquele que tínhamos na marquise, mas como os dos filmes de guerra, com um grande canhão que nem o do cartaz gigante que, no Monumental, anunciava “A batalha das Ardenas”. As ruas pareciam cheias de gente, de óculos de massa, gola alta e calças à boca-de-sino, apinhadas como se no futebol. A certo momento, a minha empregada (à época dizia-se criada) indignou-se com as imagens da detenção do Marcelo Caetano. Expliquei-lhe, do alto das minhas habilitações literárias, que as revoluções eram mesmo assim, e que ele havia de voltar no momento próprio, de cartucheiras, carabina e tequilha, para trocar com estes que entravam agora ao serviço.
Fiquei confuso. Sempre tinha aprendido que as pessoas podiam ser presas se fizessem o mal e um mal bem tipificado: bater, roubar, matar. Prender quem não estivesse de acordo connosco não fazia muito sentido no quadro de valores em que eu fora educado, em que o bem era o bem e o mal era o mal, independentemente de quem o praticasse. O bem e o mal eram conceitos absolutos e não definidos por oposição ao que pensava este ou aquele. Para além disto, na escola, incentivavam-nos a levantar o braço e a dizer o que pensávamos. Alguns colegas meus recebiam más notas por não o fazer, mas não por pensar de forma diferente. Prender gente só por isto não lembraria ao careca, mas pelos vistos lembrara a alguém.
Para terminar: sei que alguns vão achar parolo ou popularucho, comuna ou esquerdizante ou outra abéculice qualquer do mesmo calibre, mas eu estou-me a … nas tintas, e de alto! Que viva o Vinte e Cinco de Abril, sempre!
E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.
Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:
Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.
Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.
Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.
A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.
Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.
Divirto-me ainda a ler Literatura. Há de facto tipos que brincam com as palavras e as ideias com a graça e a segurança do malabarista, jogando-as no ar e deixando-as tombar no momento certo, no sítio certo. Para além da beleza deste movimento, muitos escritores são também dos melhores historiadores e dos melhores filósofos, oferecendo-nos uma visão da História e da Filosofia vista do interior da vida, com todo o seu calor e frenesim, que completa e contrasta com a percepção distante e fria que têm os que escrevem e estudam respaldados numa visão mais cartesiana e académica.
Já agora, o artigo completo, que vale a pena ler para conhecer uma visão interessante sobre os dias que correm, saiu não no “Avante!” mas no “Financial Times” e pode encontrar-se em 


Sobre isto, vem-me agora à memória um “videoclip” que estava a passar na TV do restaurante onde almocei hoje: “Jealous Guy”, do John Lennon. Se se recordarem, Lennon justifica o seu comportamento perante a amada invocando um defeito muito comezinho: “I’m just a jealous guy”. Daqui nasce a poesia: o que é sublime (o amor, o perdão) pode ser originado e justificado por um vício tão humano quanto o ciúme. Não teria um vinte avos da piada se fosse um guru qualquer a cantar “I did not hurt you and I did not make you cry. I’m just a perfect guy”.
