E para piorar a coisa, numa figurinha digna de menino de escola primária apanhado em flagrante, adiantou à turba jornaleira que não tinha sido só ele (delatou que estava lá outro ministro a dar umas passas), que não sabia que era proibido (assinou a lei que proíbe) e que, assim sendo, ia deixar de fumar!
Deixar de fumar? Ó senhor primeiro-ministro! Que exagero! Não havia necessidade... O Clinton, para conseguir safar o pêlo e a presidência, só teve que pedir desculpa à “moral majority” americana pelo oral deslize com a estagiária reboluda. Não precisou de jurar voto de castidade doravante e até ao fim dos seus dias.
Este é um daqueles episódios que ao princípio se estranha, mas depois se entranha. Porque, pensando bem, diz muito sobre os tempos que correm.
Começa pelo detalhe delicioso do escândalo ser despoletado pelos mesmíssimos jornalistas que seguiam no avião, a convite do governo, para reportar os seus sucessos diplomáticos. Estou a imaginá-los, nos lugares traseiros da aeronave, a cochichar de uns para os outros, enquanto puxavam eles próprios umas baforadas nos seus cigarros: “Olha o gajo a fumar! O gajo não conhece a lei? Ganda bronca!”. E vai daí, toca de bufar para as redacções, para transformar um pequeno vício privado numa barracada pública. Não lhes ocorre que o assunto não só é totalmente irrelevante e distrai dos reais problemas do país, como, ainda por cima, constitui um suíno abuso de confiança para com quem os convidou. Para aliviar as consciências, hão de colocar em itálico no fim dos artigos “o jornalista viajou a convite do governo”. Por mim, à próxima, compram bilhete na TAP ou atravessam o Atlântico a nado. Mas da nossa triste classe jornalística, que é daqueles cães que só rosnam enquanto não lhe servem a malga, pouco mais temos que esperar.
Claro que a florescente oposição deste país, de pêpêdêspêessedês e quejandos, aproveitou esta mísera deixa para se fazer notar, pedindo multas para os governantes fumadores e outras sugestões importantes do mesmo quilate. Para esses, este parágrafo já tem mais linhas do que merecem.
Passando agora ao que importa. O que eu não consigo conceber é que o primeiro-ministro do meu país se rebaixe a fazer um número humilhante destes por causa de umas passas num avião, enxovalhando nesse “hara-kiri” moralista a próprio Nação que representa.É verdade que vivemos tempos idiotas em que se construiu na opinião pública a ideia errónea que quem nos governa tem que ser virginal, branquinho e asséptico que nem um supositório de glicerina. Esta noção é cretina e é perigosa.
Cretina, porque a moralidade pessoal não é condição necessária – nem suficiente – para a eficácia governativa. Porque a moral privada e a moral pública operaram em planos diferentes, com diferentes exigências. Por mim, não me interessa se um político dá umas facadas no casamento, se tem duas multas por excesso de velocidade ou se fumou um havano em sítio sem exaustão de ar independente. Preocupa-me que tenha ideias, que faça frente aos lóbis que tentam (e hoje conseguem) gerir o país por interposta pessoa, que conheça as suas obrigações e os seus limites e que não game.
Perigosa, porque permite que excelentes governantes sejam convenientemente queimados na fogueira mediática alimentada por interesses económicos e políticos, por razões que no fundo são do seu foro íntimo. Porque cria uma sociedade de “voyeurs” e de chibos.
Noutros tempos, o povo esperava dos monarcas que tivessem força de carácter para governar justamente e força de braço para manter a paz ou ganhar a guerra. A sua moral privada relevava pouco para a apreciação que deles faziam os governados. Na realidade, estes estavam-se nas tintas para se os reis tinham amantes ou usavam de crueldade na sua gestão política. O que a malta queria era “realpolitik” que a mantivesse ao abrigo de chatices, e o resto era conversa. Muitos dos antepassados que nos são apontados na primária como pátrio exemplo estavam muito longe de ser exemplos de fino comportamento pessoal.
Consta que Afonso Henriques se hospedou certa vez no castelo de um nobre seu vassalo que, honrado pela visita, foi caçar para o jantar do seu convidado. Em má hora foi, porque o nosso fundador, aproveitando a ausência, logo lhe doneou a mulher, como à época se dizia. Regressado da caça, o novel corno ainda ousou esboçar um protesto, mas o rei imediatamente o ameaçou, lembrando-lhe uma história antiga: “Cuidado! Por menos do que isso o meu avô mandou cegar sete condes.” E só não o mandou comprar um maço de Português Suave porque na altura não se vendia nos quiosques.
Afonso Henriques não abusava só da confiança de maridos desprevenidos. Comportava-se de igual modo com os outros monarcas da península (na prática, seus familiares próximos), assinando e rasgando tratados conforme lhe dava jeito, atacando à traição, o que acontecia muitas vezes. Mas foi este homem de baixa confiabilidade que criou Portugal, multiplicando por três a sua área e legitimando a independência pelo reconhecimento papal, sabiamente pedido com boa argumentação e conseguido com melhor dinheiro.
Outro exemplo flagrante é o de D. Pedro, o cruel e justiceiro, de quem Fernão Lopes conta que “diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal, como estes em que reinara el-rei D. Pedro.” O comportamento pessoal que Pedro sempre exibiu seria qualificado, nos dias de hoje, de total passanço dos carretos. O homem foi um dissoluto sexual e um sádico, que exercia uma justiça draconiana, frequentemente pelas próprias mãos, muitas vezes por mero capricho.Pedro tinha um escudeiro chamado Afonso Madeira que, não sendo de pau, se afeiçoou e chegou a vias de facto com uma Catarina Tosse, mulher de “graciosas prendas” que andava lá pela corte. Ora o rei, a Afonso Madeira, “pelas suas qualidades amava-o muito e fazia-lhe generosas mercês”. Quando soube do ocorrido, D. Pedro, invocando o facto de a senhora ser casada mas na realidade por ciúme, decidiu tratar da tosse ao escudeiro. Fernão Lopes relata o que aconteceu com grande fineza de humor:
“E como quer que o rei muito amasse o escudeiro (mais do que se deve aqui dizer), posta de parte toda a bemquerença, mandou-o tomar na sua câmara e cortar-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm. Afonso Madeira foi pensado e curou-se, mas engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba.”
Apesar de ser ele como era, o povo gostava de D. Pedro. O reinado foi pacífico, a sua justiça, embora bruta, praticava-a sem olhar a classes sociais (o que, na prática, pouco ocorre hoje) e o amor romântico com Inês de Castro ajudou a construir a lenda.
Não resisto a um último episódio. Na sua vida diária, um cavalheiro nunca falta a o respeito a uma senhora. Na política, pode não ser assim. Quando morreu com uma queda de cavalo o único filho legítimo de João II, este apressou-se a tentar legitimar um dos seus bastardos, casando-o com uma princesa de sangue. Para tal, mandou à corte dos Reis Católicos um embaixador, Lourenço da Cunha, para pedir a mão da filha mais nova destes, D. Catarina. A rainha, Isabel de Castela, tratou o nosso embaixador por cima da burra, propondo antes uma filha bastarda do marido. O nosso Lourenço deu-lhe uma resposta à altura: “senhora, el-rei meu senhor não pretende tanto aparentar-se com el-rei D. Fernando como com vossa alteza; por isso, se vossa alteza tem outra filha bastarda, ele a tomará para seu filho.”
Dito de outro modo: chamou puta à rainha de Espanha, em público e em plena corte. Não conseguiu o casamento pretendido, mas D. João II ficou tão satisfeito com a tirada que o premiou com terras em Beja, Serpa e Moura, que rendiam quatro contos. Tipo “spot bonus”.
Claro que esses exemplos têm que ser vistos no contexto das épocas respectivas. Mas ilustram situações em que os ocupantes de cargos públicos tinham os defeitos que tinham, enquanto indivíduos e eram julgados pelos efeitos práticos do que faziam e não pela relativa proximidade a uma imagem ideal de santidade. Obviamente muita coisa mudou e ainda bem. É evidente que constitui um avanço civilizacional que se tenha tornado completamente inaceitável que Sócrates se pudesse manter no poder se mandasse capar um secretário de Estado. Mas, ao revés, não constitui grande progresso que um governo eleito tenha receio de cair pela pressão da rua só porque o seu líder fumou um cigarro ou deu a um charuto uma utilização indevida.
Já estou a ouvir os puristas: ele incumpriu a legislação! Deu uma bicadita numa lei? Se formos por aí, temos todos muito por onde nos preocupar antes da baforada do Sr. Sócrates. Num Estado que não cumpre prazos, não cumpre leis, não paga o que deve mas cobra indevidamente e não devolve, mantém centenas de milhar de trabalhadores precários por falta de coragem para afrontar outras centenas de milhar que não fazem nenhum e “et caetera”, as passas do primeiro-ministro são irrelevantes.
Não sei se são efeitos das sucessivas restrições impostas por Bruxelas à quota do tomate, mas sinto hoje a desagradável impressão de que faltam governantes com um mínimo de coragem, que se foquem no essencial, não se envergonhem de quem são e não vivam escondidos atrás dos consultores de imagem, aterrorizados com o impacto de qualquer pecadilho nas setas para cima e para baixo da contra-capa dos jornais.
Conta-se que quando se tornou público que o presidente Mitterrand tinha uma filha ilegítima e um jornalista o tentou entalar com o assunto, aquele respondeu calmamente “Et alors?” Não sei se esta história ocorreu na realidade, mas, se sim, é exemplar.
O que não é exemplar é o comportamento de um primeiro-ministro, afrontando as câmaras com carinha de arenque fumado, para entaramelar banalidades e desculpas que nos envergonham enquanto portugueses, à volta de umas passas em tabaco. Se ele chamasse as câmaras e se propusesse pedir perdão ao país pela inexistência de um sistema de aplicação de justiça, pela inumanidade do serviço nacional de saúde ou pela pobreza franciscana do nosso ensino, eu compreenderia. Até talvez lhe desse um desconto e uma nova oportunidade …
Mas do modo que foi, só me apetece dizer como o memorável almirante Pinheiro de Azevedo: é só fumaça!
Em vez de bombas esféricas usavam espingardas e tanques a sério, não como aquele que tínhamos na marquise, mas como os dos filmes de guerra, com um grande canhão que nem o do cartaz gigante que, no Monumental, anunciava “A batalha das Ardenas”. As ruas pareciam cheias de gente, de óculos de massa, gola alta e calças à boca-de-sino, apinhadas como se no futebol. A certo momento, a minha empregada (à época dizia-se criada) indignou-se com as imagens da detenção do Marcelo Caetano. Expliquei-lhe, do alto das minhas habilitações literárias, que as revoluções eram mesmo assim, e que ele havia de voltar no momento próprio, de cartucheiras, carabina e tequilha, para trocar com estes que entravam agora ao serviço.
Fiquei confuso. Sempre tinha aprendido que as pessoas podiam ser presas se fizessem o mal e um mal bem tipificado: bater, roubar, matar. Prender quem não estivesse de acordo connosco não fazia muito sentido no quadro de valores em que eu fora educado, em que o bem era o bem e o mal era o mal, independentemente de quem o praticasse. O bem e o mal eram conceitos absolutos e não definidos por oposição ao que pensava este ou aquele. Para além disto, na escola, incentivavam-nos a levantar o braço e a dizer o que pensávamos. Alguns colegas meus recebiam más notas por não o fazer, mas não por pensar de forma diferente. Prender gente só por isto não lembraria ao careca, mas pelos vistos lembrara a alguém.
Para terminar: sei que alguns vão achar parolo ou popularucho, comuna ou esquerdizante ou outra abéculice qualquer do mesmo calibre, mas eu estou-me a … nas tintas, e de alto! Que viva o Vinte e Cinco de Abril, sempre!
E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.
Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:
Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.
Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.
Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.
A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.
Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.
Divirto-me ainda a ler Literatura. Há de facto tipos que brincam com as palavras e as ideias com a graça e a segurança do malabarista, jogando-as no ar e deixando-as tombar no momento certo, no sítio certo. Para além da beleza deste movimento, muitos escritores são também dos melhores historiadores e dos melhores filósofos, oferecendo-nos uma visão da História e da Filosofia vista do interior da vida, com todo o seu calor e frenesim, que completa e contrasta com a percepção distante e fria que têm os que escrevem e estudam respaldados numa visão mais cartesiana e académica.
Já agora, o artigo completo, que vale a pena ler para conhecer uma visão interessante sobre os dias que correm, saiu não no “Avante!” mas no “Financial Times” e pode encontrar-se em 


Sobre isto, vem-me agora à memória um “videoclip” que estava a passar na TV do restaurante onde almocei hoje: “Jealous Guy”, do John Lennon. Se se recordarem, Lennon justifica o seu comportamento perante a amada invocando um defeito muito comezinho: “I’m just a jealous guy”. Daqui nasce a poesia: o que é sublime (o amor, o perdão) pode ser originado e justificado por um vício tão humano quanto o ciúme. Não teria um vinte avos da piada se fosse um guru qualquer a cantar “I did not hurt you and I did not make you cry. I’m just a perfect guy”.

O problema da Helena está em não ter percebido que a ciência não se discute como se discute um conceito ético ou metafísico. A ciência discute-se pondo mais ciência em cima, contrapondo ciência, melhor ciência, à ciência. Se a Helena não quer fazer má figura, que trabalhe os dados, melhor do que os cientistas que o fazem. Ou então que se cale!