domingo, maio 25, 2008
My old man
Entretanto, recordo que quando ele fez sessenta e quatro lhe escrevi uma carta. O que estava nessa carta fica entre mim e ele. Mas, em anexo, levava esta letra de uma canção do Ian Dury, que é o poema que eu, enquanto filho, gostava de ter escrito ao meu “velho”:
My old man wore three piece whistles
He was never home for long
Drove a bus for London Transport
He knew where he belonged
Number 18 down to Euston
Double decker move along
Double decker move along
My old man
Later on he drove a Roller
Chauffeuring for foreign men
Dropped his aitches on occasion
Said, "Cor blimey!" now and then
Did the crossword in the Standard
At the airport in the rain
At the airport in the rain
My old man
Wouldn't ever let his governers
Call him 'Billy', he was proud
Personal reasons make a difference
His last boss was allowed
Perhaps he had to keep his distance
Made a racket when he rowed
Made a racket when he rowed
My old man
My old man
My old man was fairly handsome
He smoked too many cigs
Lived in one room in Victoria
He was tidy in his digs
Had to have an operation
When his ulcer got too big
When his ulcer got too big
My old man
My old man
Seven years went out the window
We met as one to one
Died before we'd done much talking
A friendship had begun
All the while we thought about each other
All the best, mate, from your son
All the best, mate, from your son
My old man
My old man
sábado, maio 24, 2008
A fumarada
E para piorar a coisa, numa figurinha digna de menino de escola primária apanhado em flagrante, adiantou à turba jornaleira que não tinha sido só ele (delatou que estava lá outro ministro a dar umas passas), que não sabia que era proibido (assinou a lei que proíbe) e que, assim sendo, ia deixar de fumar!
Deixar de fumar? Ó senhor primeiro-ministro! Que exagero! Não havia necessidade... O Clinton, para conseguir safar o pêlo e a presidência, só teve que pedir desculpa à “moral majority” americana pelo oral deslize com a estagiária reboluda. Não precisou de jurar voto de castidade doravante e até ao fim dos seus dias.
Este é um daqueles episódios que ao princípio se estranha, mas depois se entranha. Porque, pensando bem, diz muito sobre os tempos que correm.
Começa pelo detalhe delicioso do escândalo ser despoletado pelos mesmíssimos jornalistas que seguiam no avião, a convite do governo, para reportar os seus sucessos diplomáticos. Estou a imaginá-los, nos lugares traseiros da aeronave, a cochichar de uns para os outros, enquanto puxavam eles próprios umas baforadas nos seus cigarros: “Olha o gajo a fumar! O gajo não conhece a lei? Ganda bronca!”. E vai daí, toca de bufar para as redacções, para transformar um pequeno vício privado numa barracada pública. Não lhes ocorre que o assunto não só é totalmente irrelevante e distrai dos reais problemas do país, como, ainda por cima, constitui um suíno abuso de confiança para com quem os convidou. Para aliviar as consciências, hão de colocar em itálico no fim dos artigos “o jornalista viajou a convite do governo”. Por mim, à próxima, compram bilhete na TAP ou atravessam o Atlântico a nado. Mas da nossa triste classe jornalística, que é daqueles cães que só rosnam enquanto não lhe servem a malga, pouco mais temos que esperar.
Claro que a florescente oposição deste país, de pêpêdêspêessedês e quejandos, aproveitou esta mísera deixa para se fazer notar, pedindo multas para os governantes fumadores e outras sugestões importantes do mesmo quilate. Para esses, este parágrafo já tem mais linhas do que merecem.
Passando agora ao que importa. O que eu não consigo conceber é que o primeiro-ministro do meu país se rebaixe a fazer um número humilhante destes por causa de umas passas num avião, enxovalhando nesse “hara-kiri” moralista a próprio Nação que representa.É verdade que vivemos tempos idiotas em que se construiu na opinião pública a ideia errónea que quem nos governa tem que ser virginal, branquinho e asséptico que nem um supositório de glicerina. Esta noção é cretina e é perigosa.
Cretina, porque a moralidade pessoal não é condição necessária – nem suficiente – para a eficácia governativa. Porque a moral privada e a moral pública operaram em planos diferentes, com diferentes exigências. Por mim, não me interessa se um político dá umas facadas no casamento, se tem duas multas por excesso de velocidade ou se fumou um havano em sítio sem exaustão de ar independente. Preocupa-me que tenha ideias, que faça frente aos lóbis que tentam (e hoje conseguem) gerir o país por interposta pessoa, que conheça as suas obrigações e os seus limites e que não game.
Perigosa, porque permite que excelentes governantes sejam convenientemente queimados na fogueira mediática alimentada por interesses económicos e políticos, por razões que no fundo são do seu foro íntimo. Porque cria uma sociedade de “voyeurs” e de chibos.
Noutros tempos, o povo esperava dos monarcas que tivessem força de carácter para governar justamente e força de braço para manter a paz ou ganhar a guerra. A sua moral privada relevava pouco para a apreciação que deles faziam os governados. Na realidade, estes estavam-se nas tintas para se os reis tinham amantes ou usavam de crueldade na sua gestão política. O que a malta queria era “realpolitik” que a mantivesse ao abrigo de chatices, e o resto era conversa. Muitos dos antepassados que nos são apontados na primária como pátrio exemplo estavam muito longe de ser exemplos de fino comportamento pessoal.
Consta que Afonso Henriques se hospedou certa vez no castelo de um nobre seu vassalo que, honrado pela visita, foi caçar para o jantar do seu convidado. Em má hora foi, porque o nosso fundador, aproveitando a ausência, logo lhe doneou a mulher, como à época se dizia. Regressado da caça, o novel corno ainda ousou esboçar um protesto, mas o rei imediatamente o ameaçou, lembrando-lhe uma história antiga: “Cuidado! Por menos do que isso o meu avô mandou cegar sete condes.” E só não o mandou comprar um maço de Português Suave porque na altura não se vendia nos quiosques.
Afonso Henriques não abusava só da confiança de maridos desprevenidos. Comportava-se de igual modo com os outros monarcas da península (na prática, seus familiares próximos), assinando e rasgando tratados conforme lhe dava jeito, atacando à traição, o que acontecia muitas vezes. Mas foi este homem de baixa confiabilidade que criou Portugal, multiplicando por três a sua área e legitimando a independência pelo reconhecimento papal, sabiamente pedido com boa argumentação e conseguido com melhor dinheiro.
Outro exemplo flagrante é o de D. Pedro, o cruel e justiceiro, de quem Fernão Lopes conta que “diziam as gentes que tais dez anos nunca houve em Portugal, como estes em que reinara el-rei D. Pedro.” O comportamento pessoal que Pedro sempre exibiu seria qualificado, nos dias de hoje, de total passanço dos carretos. O homem foi um dissoluto sexual e um sádico, que exercia uma justiça draconiana, frequentemente pelas próprias mãos, muitas vezes por mero capricho.Pedro tinha um escudeiro chamado Afonso Madeira que, não sendo de pau, se afeiçoou e chegou a vias de facto com uma Catarina Tosse, mulher de “graciosas prendas” que andava lá pela corte. Ora o rei, a Afonso Madeira, “pelas suas qualidades amava-o muito e fazia-lhe generosas mercês”. Quando soube do ocorrido, D. Pedro, invocando o facto de a senhora ser casada mas na realidade por ciúme, decidiu tratar da tosse ao escudeiro. Fernão Lopes relata o que aconteceu com grande fineza de humor:
“E como quer que o rei muito amasse o escudeiro (mais do que se deve aqui dizer), posta de parte toda a bemquerença, mandou-o tomar na sua câmara e cortar-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm. Afonso Madeira foi pensado e curou-se, mas engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba.”
Apesar de ser ele como era, o povo gostava de D. Pedro. O reinado foi pacífico, a sua justiça, embora bruta, praticava-a sem olhar a classes sociais (o que, na prática, pouco ocorre hoje) e o amor romântico com Inês de Castro ajudou a construir a lenda.
Não resisto a um último episódio. Na sua vida diária, um cavalheiro nunca falta a o respeito a uma senhora. Na política, pode não ser assim. Quando morreu com uma queda de cavalo o único filho legítimo de João II, este apressou-se a tentar legitimar um dos seus bastardos, casando-o com uma princesa de sangue. Para tal, mandou à corte dos Reis Católicos um embaixador, Lourenço da Cunha, para pedir a mão da filha mais nova destes, D. Catarina. A rainha, Isabel de Castela, tratou o nosso embaixador por cima da burra, propondo antes uma filha bastarda do marido. O nosso Lourenço deu-lhe uma resposta à altura: “senhora, el-rei meu senhor não pretende tanto aparentar-se com el-rei D. Fernando como com vossa alteza; por isso, se vossa alteza tem outra filha bastarda, ele a tomará para seu filho.”
Dito de outro modo: chamou puta à rainha de Espanha, em público e em plena corte. Não conseguiu o casamento pretendido, mas D. João II ficou tão satisfeito com a tirada que o premiou com terras em Beja, Serpa e Moura, que rendiam quatro contos. Tipo “spot bonus”.
Claro que esses exemplos têm que ser vistos no contexto das épocas respectivas. Mas ilustram situações em que os ocupantes de cargos públicos tinham os defeitos que tinham, enquanto indivíduos e eram julgados pelos efeitos práticos do que faziam e não pela relativa proximidade a uma imagem ideal de santidade. Obviamente muita coisa mudou e ainda bem. É evidente que constitui um avanço civilizacional que se tenha tornado completamente inaceitável que Sócrates se pudesse manter no poder se mandasse capar um secretário de Estado. Mas, ao revés, não constitui grande progresso que um governo eleito tenha receio de cair pela pressão da rua só porque o seu líder fumou um cigarro ou deu a um charuto uma utilização indevida.
Já estou a ouvir os puristas: ele incumpriu a legislação! Deu uma bicadita numa lei? Se formos por aí, temos todos muito por onde nos preocupar antes da baforada do Sr. Sócrates. Num Estado que não cumpre prazos, não cumpre leis, não paga o que deve mas cobra indevidamente e não devolve, mantém centenas de milhar de trabalhadores precários por falta de coragem para afrontar outras centenas de milhar que não fazem nenhum e “et caetera”, as passas do primeiro-ministro são irrelevantes.
Não sei se são efeitos das sucessivas restrições impostas por Bruxelas à quota do tomate, mas sinto hoje a desagradável impressão de que faltam governantes com um mínimo de coragem, que se foquem no essencial, não se envergonhem de quem são e não vivam escondidos atrás dos consultores de imagem, aterrorizados com o impacto de qualquer pecadilho nas setas para cima e para baixo da contra-capa dos jornais.
Conta-se que quando se tornou público que o presidente Mitterrand tinha uma filha ilegítima e um jornalista o tentou entalar com o assunto, aquele respondeu calmamente “Et alors?” Não sei se esta história ocorreu na realidade, mas, se sim, é exemplar.
O que não é exemplar é o comportamento de um primeiro-ministro, afrontando as câmaras com carinha de arenque fumado, para entaramelar banalidades e desculpas que nos envergonham enquanto portugueses, à volta de umas passas em tabaco. Se ele chamasse as câmaras e se propusesse pedir perdão ao país pela inexistência de um sistema de aplicação de justiça, pela inumanidade do serviço nacional de saúde ou pela pobreza franciscana do nosso ensino, eu compreenderia. Até talvez lhe desse um desconto e uma nova oportunidade …
Mas do modo que foi, só me apetece dizer como o memorável almirante Pinheiro de Azevedo: é só fumaça!
domingo, abril 27, 2008
O meu Vinte e Cinco de Abril
Eu não sabia bem o que era uma revolução. Faláramos nas aulas da primária da Revolução Francesa, que trouxera liberdade, fraternidade e igualdade em tons de vermelho, branco e azul. A imagem do livro de História, pintada a aguarela, representava o general Lafayette a andar em passo de ganso frente a uma linha de soldados de farda de gala e tricórnio a tocar tambores, durante a Festa da Fraternidade, tudo de libré na cabeça. Outra fonte de confiança encontrava-se nas minhas leituras do Tintin, em que aparecia muito o general Alcazar, o qual volta e meia alternava no poder com o general Tapioca, recorrendo ambos ao método revolucionário para subjugar o adversário, com tropas de cartucheiras cruzadas no peito, uma espingarda na mão e uma garrafa de tequilha na outra, em permanente bezana. Mas havia uma imagem que no meu íntimo mais fortemente representava a revolução: o mexicano zapatista das bandas desenhadas, de bigodes farfalhudos, poncho, chapéu sombreiro e máscara de zorro, a arremessar bombas esféricas, negras e de pavio curto, que lhe rebentavam por vezes na cara sem outro efeito que o deixar mascarrado.
Durante o dia, gozei a conquista revolucionária de uma jornada de gazeta forçada. Pela televisão, fui seguindo os eventos. Não recordo ninguém de libré nem de poncho, embora houvesse muitos bigodes farfalhudos. Afinal, quem estava a fazer a revolução eram meros magalas, daqueles que eu via pelas ruas nos dias de licença, ou na televisão, pelo natal, a debitar em cinco segundos: “Barnabé Policarpo, de A-dos-cunhados, envia um beijo a pai, mãe, irmãos, tios, primos e avó entrevada, que nós por cá ficamos be….” e já o microfone tinha fugido para o Zé Maria de Alcoutim recitar a mesma ladainha.
Em vez de bombas esféricas usavam espingardas e tanques a sério, não como aquele que tínhamos na marquise, mas como os dos filmes de guerra, com um grande canhão que nem o do cartaz gigante que, no Monumental, anunciava “A batalha das Ardenas”. As ruas pareciam cheias de gente, de óculos de massa, gola alta e calças à boca-de-sino, apinhadas como se no futebol. A certo momento, a minha empregada (à época dizia-se criada) indignou-se com as imagens da detenção do Marcelo Caetano. Expliquei-lhe, do alto das minhas habilitações literárias, que as revoluções eram mesmo assim, e que ele havia de voltar no momento próprio, de cartucheiras, carabina e tequilha, para trocar com estes que entravam agora ao serviço.No dia seguinte, a televisão transmitiu, de uma cadeia em Caxias, os mesmos soldados a libertarem presos, que saíam eufóricos, acartando malas, abraçando efusivamente a família que os esperava, gritando nomes e vivas, com muitos “pás” à mistura. Não percebi bem a ideia dos tropas em soltar aquela malta e inquietei-me que, com tanta bandidagem de repente à solta, a cidade ficasse menos segura. Foi então que o meu pai me explicou que aquelas pessoas eram presos políticos, gente detida por ter ideias diferentes dos que mandavam.
Fiquei confuso. Sempre tinha aprendido que as pessoas podiam ser presas se fizessem o mal e um mal bem tipificado: bater, roubar, matar. Prender quem não estivesse de acordo connosco não fazia muito sentido no quadro de valores em que eu fora educado, em que o bem era o bem e o mal era o mal, independentemente de quem o praticasse. O bem e o mal eram conceitos absolutos e não definidos por oposição ao que pensava este ou aquele. Para além disto, na escola, incentivavam-nos a levantar o braço e a dizer o que pensávamos. Alguns colegas meus recebiam más notas por não o fazer, mas não por pensar de forma diferente. Prender gente só por isto não lembraria ao careca, mas pelos vistos lembrara a alguém.Por estas razões, a minha sensibilidade ofendeu-se e senti-me indignado que tivessem engaiolado pessoas que, para mim, não tinham feito nada. Sugeri ao meu pai que os antigos captores, que tinham perpetrado tal injustiça, tivessem o castigo adequado: atados a uma via-férrea até que um comboio os estraçalhasse, o pior tormento que eu – ainda solteiro – conseguia conceber. Em resposta, recebi dele a primeira de muitas lições sobre o que é a democracia: “Não, porque a democracia não é vingativa”. Lição número um: uma democracia, para funcionar, deve ser moralmente superior. Colocar num envelope, selar e entregar no nº 1600 da Pennsylvania Avenue, em Washington.
Nos dias seguintes tive direito a novas lições. Fui entendendo não só o que se passava nas ruas, mas tive a explicação para pequenas coisas passadas que eu, no próprio momento, não entendera. Recordei-me de, muito pequeno, ir no carro, no banco de trás e o meu pai apontar para algo que levava ao lado e dizer à minha mãe “este livro foi proibido”. Como nesse tempo não se usava cinto de segurança, pude-me pendurar nas costas do banco corrido do Simca, muito curioso em saber como seria um livro proibido. Para meu desapontamento, vi um calhamaço igual aos outros que ele lia, com capa, lombada e folhas. Mas como poderia aquele livro ser proibido, se estava ali? Percebia que um gesto fosse proibido, como entrar de carro nas ruas que tinham uma placa vermelha com um risco branco ou mexer em facas, mas não conseguia conceber que um objecto, algo existente e que eu podia tocar se me pendurasse mais no banco do Simca e esticasse a mão, fosse proibido. Mais: parecia-me ridículo. E de facto era-o, como compreendi antes que chegasse ao fim o mês de Abril de 74.
Fez-se-me também claro porque minha mãe me interditara, com cara de caso e uma firmeza inusitada, de repetir uma anedota que eu aprendera na escola: pescadores pescavam uma sardinha, depois concluíam que não tinham dinheiro nem para batatas, nem para legumes, nem para azeite para acompanhar o peixe e decidiam devolvê-lo ao mar; de imediato a sardinha começava a pular fora da água, dando vivas a Marcelo Caetano. Em Abril de 74 compreendi o receio da minha mãe, mas pareceu-me absurdo, como ainda hoje me continua a parecer, que um regime se preocupasse com anedotas deste fraco calibre e que mães proibissem a sua contagem por temor, que não por bom gosto.
Seguiram-se dois anos em que tive a percepção que o tempo, à minha volta, tinha acelerado como a nave “Enterprise”: “Warp” cinco ou seis, pelo menos. Aconteceram coisas grandes, outras graves, muitas divertidas, com folclore vário à mistura. Foram as dores de crescimento do presente.
Nós, crianças, tínhamos a mania que sabíamos de política, adoptávamos partidos e emblemas como quem torce por um clube, pedíamos para ir às manifestações, jogávamos jogos de tabuleiro em que saíam cartões que diziam “pertenceu à PIDE/DGS, fica uma vez sem jogar”. Depois a revolução serenou, como todas as revoluções um dia serenam, e deixou um legado a esses miúdos como eu.
Hoje em dia, poderíamos discutir, com outra maturidade, com outra distância, os ganhos e as perdas do regime salazarista. Poderíamos focar a pobreza ética, a debilidade da visão, o insucesso económico, a anomia social. Mas tudo isto são canhões demasiado grandes para tão pequena mosca. Para debate conclusivo, bastaria apenas perguntar aos pequenos de 2008 sobre que sentido teriam para elas o medo de contar anedotas, a proibição de livros ou a prisão de pessoas só por não concordarem com outras. Estou certo que achariam estas coisas ridículas.
A revolução de Abril não foi uma vitória sobre o fascismo. Foi uma vitória sobre o ridículo. Um ridículo com medo de livros, de ideias ou de anedotas na boca das crianças. Um ridículo de fato coçado e botas, balhelha e míope. Mas um ridículo que às vezes matava.
Para terminar: sei que alguns vão achar parolo ou popularucho, comuna ou esquerdizante ou outra abéculice qualquer do mesmo calibre, mas eu estou-me a … nas tintas, e de alto! Que viva o Vinte e Cinco de Abril, sempre!
sexta-feira, abril 04, 2008
U akordo orthugráphiko
Certa vez, num ditado em língua francesa, consegui acumular asneiras suficientes numa única palavra para levar logo ali com um zero sobre vinte. O professor, pai de uma coleguinha esquálida que sofria de baixas de tensão quando a interrogavam na sala de aula mas que era hipertensa nas festarolas de sexta à noite, tinha fama e proveito de tramado: cortava quatro valores por cada ocorrência que assinalasse na folha de ponto, com um frenético círculo vermelho, por mínima que fosse. Para além deste mau feitio, ainda era fanhoso e as palavras saíam-lhe coladas umas às outras pelo cuspo que se ia acumulando nas comissuras dos lábios, o que lhe dava um ar de buldogue em hora de refeição.
Recordo que era um texto de Camus, tirado do “Estrangeiro”, quando Meursault observa os seus conterrâneos passeando endomingados pela cidade. O feroz docente foi narrando nasalmente, enquanto circulava desconfiado entre carteiras. A dado passo, ditou uma frase que referia uns sapatos de biqueira quadrada – “des souliers à bouts carrés”. Só que eu, talvez na lua ou então confundido pela verborreia assalivada do professor, transformei a tirada em “souliers zaboucarés”, um adjectivo que me pareceu exótico e apropriado aos pezinhos da personagem. Resultado: levei menos quatro pelo “à”, outro tanto pelo “bouts”, idem pelo “carrés”, ainda quatro por inventar uma palavra que não existia e os quatro finais possivelmente como bónus para não ser parvo. Zero.
Bom! Com tais dotes linguísticos e posto perante o problema de ter que acabar os meus estudos liceais, vi-me na contingência de ter que adoptar uma estratégia adequada para as cadeiras humanísticas. Optei por aquela que o Paços de Ferreira utiliza com grande proveito no campeonato da primeira divisão: mais vale não perder do que perder. Lutei pois pelo mediano dezito e dediquei-me mas é às ciências, onde a frase mais complicada que precisava de escrever era “implica que”. E assim obtive meus canudos.
Entretanto passou tempo, o tempo que tudo cura, mesmo algumas faltas de jeito. Fui lendo, bastante, e escrevendo, um pouco. Pedia opiniões e forçava-me a corrigir. Diziam-me: “tens períodos muito longos e vírgulas a mais”. Escrevia e logo em seguida obrigava-me a retirar trinta por cento das vírgulas e introduzir o mesmo número de pontos finais, como se fossem objectivos de gestão. Fui colmatando as minhas lacunas ortográficas. Evoluí. Sem grandes conceitos teóricos, como os músicos que tocam de ouvido, até fui recebendo elogios pelos textos que alinhava. E assim cheguei aos quarentas, mais ou menos seguro dos meus efes-e-erres.
Há dias, li no jornal que o Brasil e Portugal iam finalmente pôr em prática um acordo ortográfico, celebrado nos anos noventa, que alterava quase dois por cento do léxico. Li, não sem alguma perplexidade. Então não é que é logo agora, que eu finalmente conseguia alinhar sem vergonha duas frases no papel, que aparece o raio deste acordo mudando, à má fila e sem avisar, a escrita de uma catrefa de palavras? Como diria o meu bisavô, posto perante a reforma ortográfica da primeira república: já me phoderam!
Corri a verificar as alterações. Não sendo realmente muitas, são de monta. Desaparece, por exemplo, o cê mudo. Logo, o acto passa a ato. Acho fraco e de pouco respeito para com um vocábulo tão simbólico, que usamos para significar o momento de grande pagode responsável pela nossa presença neste triste mundo, onde se mudam regras a meio do campeonacto. Digo, do campeonato. O cê do acto tinha um valor simbólico importante, representando as partes de um todo: afinal, os principais participantes no acto escrevem-se todos com cê no princípio. Todos os quatro, se não houver ninguém aleijado. A palavra acto tem uma pujança que não encontramos em ato, que é vocábulo que não ata nem desata. O cê do acto é mudo mas não está calado: o acto é mais akto do que ato. Um acto sem cê é um acto astrado, que não chega a ser onsumado.
E facto, que passa a fato? Há frases que perdem, de facto, em sentido o que ganham em cómico. Como a senhora, confessando à amiga: “o meu marido anda a enganar-me, de facto”. Agora passa a enganar de fato, levando a cabo o traiçoeiro acto – digo, ato – discretamente pela braguilha da calça cinzenta, sem se dar à maçada de tirar a gravata.Será que os beligerantes, pondo fim à guerra, vão assinar um pato? Imagino os generais, aprumados e reluzentes nos seus uniformes de cerimónia, de caneta em riste, agarrando o marreco a quatro mãos para poderem firmar a rendição. Talvez exagere: não tenho a certeza que o acordo vá tão longe. Mas que o pê de óptimo também foi à vida, lá isso foi. Assim sendo, no final do ato poderemos passar a sussurrar, com enlevo, enquanto acendemos o tradicional cigarro: “querida, foi ótimo”.
Como afectará o acordo as marcas comerciais? Calculo que o X-acto passe a X-ato, isto no exato segundo em que o acordo entrar em vigor, que não sabemos bem quando é, já que exacto também vai à vida.
As alterações são variadas, e vão-nos permitir que quando viajarmos ao Cairo, na receção do hotel, o diretor (um corruto de mau aspeto) nos diga, perentório, que nos desertos do Egito não há catos mas há reptis.
Aparecem também muitas novas regras à volta do hífen. Uma consequente ironia histórica é que antissemita se passa a escrever com “ss”, o que não espanta ninguém.
E entram no nosso abecedário o dâbliu, o ípsilon e o capa, uma boa notícia para os polícias franceses, que vão poder usar képi, e para os amantes de finlandês. A possibilidade de poder usar o “k” com mais liberalidade agradará também à nossa digital juventude, grande consumidora de capas nas suas mensagens de SMS, que pode agora ansiar por um futuro em que o “esse-eme-essês” se torne língua oficial. Provavelmente, na reforma ortográfica de 2040, os “ke keres?” e os “kando axares ké pussível” deixarão de ser grandes asneiradas.
Já expressei o meu mau humor perante as mudanças e a perspectiva de ter que continuar a engrossar a conta do Bill Gates, agora pela aquisição de um “upgrade” do “Word”, para aí uma “Orthographic Deal Deluxe Edition”. Mas tenho que aceitar que, por bera que esteja a minha disposição, a língua evolui, fatalmente como o destino, e não espera por ninguém. Atente-se no seguinte exemplo:“E que mais querya morrer em o provar, fazendo seu dever, que de tal guisa se partir, ca dos synnaes e ventuiras de boos hoomêes nom ham fazer conta onde fossem certos que obram dereitamente, mais devyam continuar ataa mais nom poderem. E que, nom embargando todas suas rezõoes, com a graça do senhor deos entendia filhar a cidade. E por sua merceee foy melhor que se podia peensaar.”
Que acham? Conversa de putos no Messenger entre Chelas e o Seixal? Não. É o nosso rei D. Duarte, escrevendo no “Leal Conselheiro”, explicando as razões que levaram seu pai, o rei D. João I, a arriscar a conquista de Ceuta contra a opinião dos seus … euh... konselheiros.
sábado, março 15, 2008
A gente que madruga
Borges constará sempre de qualquer pequena lista dos meus ene escritores favoritos. Sobre livros, sabe do que fala: escreveu contos fantásticos sobre calhamaços que se liam circularmente e bibliotecas de geometrias e propriedades raras. Livros sobre livros e sobre lugares de livros. E quando não, escreveu sobre pessoas reais que só poderiam na realidade ser personagens de outros livros, que não dele.
Voltando à Byblos e deixando o Borges lá onde ele deve estar, refastelado numa nuvem acolchoada a folhear algum compêndio divinal, informo que padeço de doença neurológica que me impede de sair de uma livraria de mãos a abanar. Compro, portanto, mais leitura do que aquela que consigo ler. Mantenho a esperança que quem me emprega perceba finalmente, um belo dia, o logro em que caiu e me ofereça uma indemnização e uma reforma antecipada que me permitam pôr em dia as prateleiras de leitura que tenho em atraso.
Desta feita, e agora que a fotografia regressou à esfera central dos meus interesses, comprei um pequeno volume da Taschen sobre Robert Doisneau.De entre a centena de magníficas fotos que o livrinho reproduz, houve uma que me captou a atenção e que abaixo reproduzo. Mau grado esta minha preferência, reconheço que não possui nem a originalidade temática, nem o enquadramento inesperado que fazem a glória de outras fotografias deste mestre. Procurei-a em vão na “internet”, apesar desta disponibilizar inúmeras galerias com fotografias de Doisneau. Provavelmente não fará parte das suas imagens mais conhecidas. “Scannei-a” por isso do próprio livro – o que, infelizmente, lhe retirou detalhe e qualidade.
Representa um operário, o senhor Mouchonnet, engastador de jóias, atarefado no seu labor. A legenda proposta por Doisneau esclarece-nos que se trata do melhor operário de França. O que me chamou a atenção nesta fotografia e nela me deteve mais demoradamente? A começar, a construção concêntrica: ao meio, a obra em progresso – o maçarico, o alicate e a jóia que a chama fustiga. Ao seu redor, o artífice: o rosto e as mãos. Depois, por detrás, o ambiente industrial: a oficina e, ainda mais além, a fábrica. Destes círculos, o operário é o que a composição mais destaca, pela artificiosa utilização da luz.Continuando, o conteúdo: vemos um homem de idade, de mãos rugosas, até algo toscas. A que segura o alicate aparece amplificada pela perspectiva, com dedos grossos, apertando com força segura as pegas da ferramenta. A outra, pelo contrário, dir-se-ia leve, mas firme, manejando uma fina vareta, trabalhando a jóia. O olhar é vivo, porém tranquilo e talvez até um pouco cansado, mas, por outro lado, muito focado. Este homem está concentrado, a fazer algo realmente importante. Conseguimo-lo imaginar só naquela oficina, tranquilo no seu mester, num silêncio apenas pontuado pelo sopro do maçarico, sem a pressão do tempo, a engastar uma pedra num anel que selará um noivado feliz.
A testa enrugada, o cabelo branco já sumido, os óculos auxiliando a vista, dão-nos uma medida da idade e das marcas que o tempo deixa, mas também uma secreta lição de serenidade. A fotografia foi tomada na Rue du Mail, em 1941. Sabendo isto, podemos deduzir uma biografia do senhor Mouchonnet, imaginária, mas com alguma probabilidade realista: terá nascido pelos anos 1880; no início do século, seria possivelmente aprendiz junto de um mestre engastador, talvez depois de uma infância de algum aperto; eventualmente, viveu o horror das trincheiras em 1915. Na altura da foto, sofria a amargura de ver a sua terra invadida pela barbárie. Mas mesmo arrastando como uma canga esta história triste, o homem que temos na fotografia alheia-se na hora de exercer o seu ofício. Pelo contrário: no seu labor, conta-nos uma história diferente da sua própria história. Uma história de pacífica dignidade, de prioridade ao ofício e de amor sofrido. Naquela bancada, o senhor Mouchonnet é mais do que ele. Representa milhares de artesãos e representa uma certa ética: a imagem podia intitular-se “A paciência”, “A minúcia”, “A nobreza” ou, mais simplesmente, “O Trabalho”.
Em fotografia existe o conceito de profundidade de campo, definido como o conjunto dos sucessivos planos em que a imagem se apresenta focada. Por extensão de ideias, poderíamos desenvolver um conceito análogo a que chamaríamos “profundidade de tema”: esta seria tanto maior quanto maior fosse o conjunto de temas abordados, evidenciados ou sugeridos, mas presentes na obra. Tal conceito aplica-se bem à fotografia como a qualquer forma de criação artística. Uma criação com grande profundidade de tema é densa e rica. Permite que as nossas razão e emoção, irmãs que nunca deveriam andar separadas, se aventurem à descoberta, se divirtam e, ao mesmo tempo, se apetrechem de novas ideias que possam frutificar de maneiras diversas: pela simpatia, pela consciência, pela acção ou mesmo por via de nova criação.
Desde sempre, os homens procuraram que a sua obra artística dissesse mais do que aquilo que meramente os olhos vêem. Através de símbolos, de referências fugazes, de composições dinâmicas, concentraram no pequeno espaço de uma pintura, de uma partitura ou de um livro, os constituintes de um microcosmos mais ou menos complexo cuja descoberta por nós, que abordamos a obra, é uma forma de conversa intemporal com o autor, através da qual ele comunga connosco as suas ideias, o seu sentir e as suas vivências. Quando os nossos antepassados de Altamira ou do Tassili pintaram na rocha cenas de caça, não representavam apenas bichos e lanças. Contavam-nos da dificuldade e do risco, da esperança de uma boa caçada e da sobrevivência da tribo. As suas obras possuíam profundidade de tema.
A profundidade de tema não é condição necessária para uma grande obra, mas ajuda. O criador fecundo maneja este parâmetro como o fotógrafo roda o anel da sua objectiva à procura da profundidade de campo adequada, o que lhe permite transmitir o necessário e o suficiente.
Doisneau fotografou sempre com grande profundidade de tema, fugindo à platitude do mau fotojornalismo, que é hoje o mais das vezes pobre, quer em fotografia, quer em jornalismo. Disse: “apenas devemos fotografar quando nos sentimos cheios de amor pelo próximo”. Homem de extracção modesta, nunca esqueceu as suas origens. Testemunhou, com enorme sensibilidade e carinho, o dia do povo parisiense mais pobre, as suas alegrias e as suas agruras, as suas dificuldades e as suas lutas. As chapas que bateu suscitam entendimento, empatia e por vezes uma inesperada e saudável revolta. Num certo sentido, Doisneau foi um fotógrafo militante, de uma militância suave mas penetrante. Fotografias como a que figura abaixo, de uma criança que desce a ladeira em direcção à fábrica, ao mundo esconso do trabalho na linha, longe da vista como na Metropolis subterrânea de Fritz Lang, são disto exemplo.
Robert Doisneau comentou certa vez que “os rostos dos que madrugam são muito comoventes”. Existe, na nossa civilização ocidental, uma venerável e já longa tradição de arte empenhada ou pelo menos inquieta, que deu voz, brilho e respeito à vida, aos sucessos e aos desaires dos mais humildes. De Bruegel a Rosselini, de Goya a Hemingway, de Zola a Aquilino, de Gil Vicente aos The Clash, muitos buscaram o melhor de si para narrar a história dos que madrugam.Hoje em dia, parece-me que esta preocupação da obra artística com os mais desmunidos atravessa tempos menos felizes. Não que não exista, mas não está de moda e é pena. Uma criação empenhada funciona como um grilo falante, soprando ao ouvido da sociedade, abrindo-lhe os olhos, indignando-a, gerando mudança. Sem essa forma de consciência colectiva, sem novos Doisneaus que nos acudam, corremos o risco de cair que nem uns patinhos e acreditar piamente, como o Cândido de Voltaire em pleno terramoto de 1755, que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos.
segunda-feira, março 03, 2008
Pouca vergonha
Cranach, nascido Lucas Sunder em Kronach, na Alta Francónia, viveu entre 1472 e 1553. Em 1504, o eleitor da Saxónia, o duque Frederico III o Sábio, já lhe reconhecera dotes artísticos, dedicando-lhe uma renda de cinquenta florins e contratando-o como pintor ducal. Frederico III seria provavelmente um tarado sexual, sem as fortes referências morais dos administradores do metro londrino, para se pôr a delapidar o tesouro saxão com um autor de obras debochadas. Igualmente doidonas – ou pior – teremos que considerar os imperadores Maximiliano de Habsburgo e Carlos V, os quais, não sendo nenhuns badamecos, se deixaram pintar por Cranach. Ou Martinho Lutero, outro possível amante do porno, que foi amigo e compadre do desbragado pintor.Naqueles tempos devassos, em que ainda não tinha sido providencialmente inventada a administração do metro de Londres para acabar com a pouca-vergonha, Cranach acabou por ser coberto de honrarias e vantagens por andar a pintar aquelas porcarias. Vivendo na cidade de Wittenberg, atribuíram-lhe o monopólio da venda de medicamentos, uma licença de impressor com direitos exclusivos de publicação da Bíblia, o posto de burgomestre, tudo coisas de bom rendimento que um ordinário daqueles não mereceria. Incompreensivelmente, até a igreja luterana reservou um dia feriado no calendário para o desavergonhado e incontinente artista.
Felizmente, o “board” do “underground” não dorme em serviço e, do alto da sua pureza de princípios e de dentro dos seus fatos de Saville Row, lá tratou de equiparar a maligna obra do pornógrafo Cranach ao pior ou melhor que ofereciam as páginas da “Gina”, esse verdadeiro manual de biologia do terceiro ano de liceu que pontificou nos escaparates lisboetas dos anos setenta, arregalando olhos e partindo pulsos.
Agora falando sério: eventos como este ou como a famosa histeria colectiva norte-americana a propósito do seio da Janet Jackson têm um ar inócuo, de tão ridículos. Mas não são. Parecem um eczema, mas são um tumor, minando a sociedade por dentro. Revelam uma visão puritana, estreita – melhor dizendo, estúpida – da vida, que está no poder em muitos sítios, dos Estados Unidos ao mundo muçulmano e que começa a fazer preocupantes incursões na Europa Ocidental, até em locais tão insuspeitos como a Grã-Bretanha. Esta tendência contraria uma evolução libertária dos anos sessenta e setenta que enformou a nossa educação e que muitos dávamos por adquirida. Excesso de optimismo…
A visão do corpo como algo eminentemente negativo, corrupto e corruptível, tem raízes profundas na História e está bem estabelecida nas religiões, que opõem geralmente as actividades do espírito, superiores, às do corpo, meramente rasteiras. Encontramo-la em Platão, na sua teoria das Ideias, perfeitas por oposição à imperfeição das coisas reais – leia-se materiais. A influência platónica passou para dentro do Cristianismo através de São Paulo e depois de Santo Agostinho, que andou uns anos na paródia mais devassa e só depois se dedicou às coisas da santidade.
Santo Agostinho, antes de se tornar cristão e doutrinário do Catolicismo, foi adepto do Maniqueísmo, religião que concorreu com o Cristianismo pela maior quota de mercado no Baixo Império Romano, mas cuja influência perdurou muito para além da sua existência enquanto culto organizado. Se entendermos o Maniqueísmo, percebemos de onde vêm muitas das tontices que ainda rastejam no interior dos crânios dos puritanos dos nossos dias, de que os administradores do metropolitano de Londres são apenas um triste exemplo.
O Maniqueísmo foi fundado na Pérsia no século III por um tal Mani. Segundo este, no início de tudo havia dois reinos: o do Bem, simbolizado pela luz e o do Mal, pela escuridão. Viviam separados, mas do lado do Mal, por definição, não se sentiam lá muito bem. Um dia, o Diabo, que chefiava o reino do Mal, espreitou para o outro lado, achou piada e decidiu invadir o reino do Bem. Houve porrada cósmica, da qual resultou o mundo tal como o conhecemos. A matéria do universo resultou da decomposição dos corpos dos príncipes do mal. Ainda mais escatológico, a terra, o húmus, resultou das fezes dos mesmos malignos príncipes. Por isto, o Maniqueísmo determinava um mundo a preto e branco, dividido entre Bem e Mal, representados por Espírito e Matéria.
Tudo o que fosse material era mau, porque oposto ao espiritual, o qual era bom. A matéria decompunha-se, o espírito perdurava. Como consequência, aquilo que se relacionasse com o lado material da existência tinha uma conotação negativa: isso incluía o corpo, a sexualidade, gozo da matéria e fonte de mais matéria, e a mulher, indutora de sexualidade e, pela maternidade, vector de geração de mais matéria. Mas também o materialismo económico, que valoriza de “per se”o crescimento da componente material da vida.
Encontramos esta perspectiva, sob diversos graus e formas, mais ou menos explícita, nas grandes religiões modernas: os Cristianismos, o Judaísmo, os Islamismos ou o Budismo. Em determinadas circunstâncias, esta visão amplifica-se, dando origem a extremismos políticos e puritanismos morais. Para termos uma ideia do ponto irracional a que estas ideias podem chegar, veja-se o Mohammed Atta, um dos terroristas que pilotou um dos aviões que embateram nas “Twin Towers”. O moço deixou instruções expressas para que “mulheres grávidas ou pessoas não limpas” não se aproximassem do seu corpo, para se despedir. São de facto dois portentos de estupidez: já o pedido em si, mas também a esperança que lhe encontrassem qualquer pedaço maior do que um centímetro.O puritano, no sentido mais lato, é aquele fulano que dorme mal à noite, atormentado pela ideia de que alguém, algures, se possa estar a divertir à grande. É essencialmente um obcecado sexual, que não pensa noutra coisa e vê mal em todo o lado. Tal e qual como os administradores do metro de Londres. Há que dar com os pés nessa malta nojenta, senão qualquer dia estamos a lapidar adúlteras e a excisar crianças.
Por isto, se por acaso pretenderem admirar a obra de Lucas Cranach, o Velho, na Royal Academy of Arts, façam-me um favor. Não apanhem o metro. Tomem um táxi ou vão a pé.
domingo, fevereiro 24, 2008
O lugar ao lado
Esta é uma das mais marcadas memórias da minha infância – apenas na medida em que uma memória de infância, por natureza difusa ou esborratada, consegue ser marcada. Uma lembrança cálida, de uma felicidade secreta e banal que o tempo, esmaecendo, refinou.
Passaram-se os anos. Levantei-me do sofá, abri a porta da casa e fiz-me ao mundo. Sempre que me aconteceu voltar, por longa que fosse a ausência, encontrei, acolhedor e imaculado, no sítio onde o deixara, o lugar ao lado. Evoluiu a televisão, que ganhou cores e canais e um comando para a preguiça e um ecrã mais plano e programação mais rafeira. O tecido do sofá tornou-se cabedal, a cor viva do início dos anos setenta matizou-se num tom suave de fim de século. As prateleiras ganharam segunda camada de livros, devidamente acautelados por uma maior densidade de “bibelots”. Instalou-se ar condicionado, luxo antes reservado aos gabinetes mais importantes. Tudo mudou, menos uma coisa: o lugar ao lado, sempre à minha espera, indiferente às evoluções do gosto e da técnica e às possibilidades da carteira.Com o decorrer do tempo, fui vendo as coisas de diferentes modos. Compreendi, por exemplo, a importância para a minha vida, para as nossas vidas, daquele meio metro quadrado de pano, molas e espuma que é o lugar ao lado. Percebi que parte do que observamos à nossa volta se explica se dividirmos a humanidade em dois grupos: os que tiveram um lugar ao lado e os que, infelizmente, não tiveram. Revoltei-me ao ver que havia quem, tendo todas as condições para dar aos seus filhos um lugar ao lado, por egoísmo ou soberba não o fizera.
Preocupa-me pois olhar para a minha beira e ver se deixei junto a mim espaço que chegue para um lugar ao lado, para os meus filhos. Parece-me às vezes que sim, mas não posso ter a certeza. O tempo dirá se fui, ao fim e ao cabo, um fracasso ou um sucesso.
terça-feira, fevereiro 05, 2008
A utilidade dos saberes inúteis
Nessas ocasiões, amigos que julgam vão o conhecimento terreno dizem-me que tenho a cabeça cheia de coisas inúteis. Muito me honram, mas muito se enganam. Cabeça cheia é algo que eu não tenho. Se um cartão de “Trivial” me perguntasse qual o estado da minha cabeça, talvez respondesse “oca” ou “com muito espaço para preencher”. Cheia, repito, sei que não: há tanto que vale a pena conhecer e que eu ignoro! E cada vez que encontro algum facto ou pensamento interessante e o arrumo num recanto da minha caixa craniana, vejo por lá muita prateleira vazia, a ganhar mofo, à espera de melhores dias. Até porque o saber vem empacotado em embalagens pequenas e não ocupa muito lugar, senão, como dizia um velho professor que me deu a quarta classe, os sabichões usariam sacas de batata à guisa de boinas.
Possuo, é verdade, boa memória para informações pequenas. Por isso arrasto, como uma grilheta, este “vade mecum” de nomes, datas, acontecimentos pontuais, respostas prontas. Uso-o para espantar os meus filhos, respondendo por antecipação às perguntas que embaraçam, na televisão, os concorrentes ao “Quem quer ser milionário?” ou ao “Um contra todos”. Ou então para irritar o pessoal, somando vitórias no “Trivial Pursuit”.
Não me empenhei, de modo algum, em aprender este saber miúdo. Nunca me pus a ler a enciclopédia britânica, nem o borda-d’água, nem decorei malévola e clandestinamente as respostas dos cartões. Li, no entanto, outras coisas, debrucei-me sobre alguns temas, procurei perceber alguns assuntos que achava interessantes. E nesse caminho que percorri e ainda percorro apanhei esses saberes inúteis, colados aos neurónios como as espigas do mato rasteiro que se prendem às meias e aos atacadores durante um passeio de Verão.
Este saber de feira, de respostas azuis e verdes, tem pois pouca importância para mim. É um resíduo, um resquício, uma borla, às vezes uma piada. Mas há outros saberes que são, esses sim, importantes, saberes que nos ajudam a perceber a realidade, a ajudar melhor tanto os outros como a nós próprios ou a manter vivos valores que vale a pena que não se percam. Saberes que nos trazem, mais do que saber, sabedoria, e nos apoiam na nossa errante e errática procura por um pouco de entendimento e alguma felicidade.
Gosto, por exemplo, de ler História. Ler História traz-nos identidade, entendimento e humildade. Que já são três mais-valias seguras. Identidade porque, ao lê-la, apreendemos melhor o nosso envolvimento em certas estruturas incorpóreas, como a nacionalidade, a língua, um bloco civilizacional ou uma ideologia, e ao compreendê-las melhor compreendemo-nos melhor a nós próprios e damos um sentido adicional à nossa existência. Entendimento porque existem fenómenos de hoje que têm raízes profundas no passado ou que repetem situações com que outros homens se depararam há mil atrás. Diz o provérbio oriental que a experiência é uma candeia que só ilumina o caminho andado e o provérbio nortenho que prognósticos só no fim do jogo. Por isso, nada como aprender com a experiência dos outros. Finalmente, humildade, porque quando conhecemos melhor os homens e mulheres do passado, verificamos que – contrariamente a certas ideias feitas – não somos nem um pozinho mais espertos ou sofisticados do que eles ou, pelo menos, parte deles. Não possuindo MSN nem ar condicionado, alguns poderiam dar-nos banhos de bola no que toca a coragem, sagacidade ou engenho.
Como vantagem adicional, tudo o que podemos aprender com a História vem em histórias com muita acção, intriga, pancada, sexo de todo o tipo, paixão e romance, batalhas com milhares de figurantes que nem no Senhor dos Anéis parte III, gajos de saias, mistério e até magia. Enfim, tudo o que a BBC e a Fox pretendem oferecer, sem ter que aturar os chatos da TV Cabo: aprendizagem e entretenimento, juntos e ao vivo!

Noutro plano, interessa-me também ir conhecendo a reflexão que se tem em Filosofia, num sentido lato que inclui a Ciência (dantes chamada filosofia da natureza) e a evolução que nelas tiveram as ideias, políticas, morais, científicas, etc. Por vezes os filósofos escrevem de forma difícil: lê-los requer esforço e obriga a ginástica mental, a suar um pouco, a pôr o cérebro a correr na passadeira e a encher cinquenta. Tal como no ginásio, em que a canseira tem múltiplas compensações, desde barrigas menos flácidas a arregalar o olho na boa que se esforça na máquina de pesos, penar duzentas páginas de Filosofia pode trazer vantagens várias.
Primeiro, pode ajudar-nos a aclarar e confirmar as nossas ideias ou, pelo contrário mas melhor ainda, permitir-nos perceber que andávamos redondamente enganados. Quando esta última situação ocorre, a Filosofia proporciona-nos uma ocasião ímpar para mudar de ideias, experiência clarificadora mas que muita gente, por razões que não entendo, acha tão penosa como reconhecer que anda a ser encornada. Depois, conhecendo a evolução das ideias ao longo dos tempos, verificamos que muita malta inteligente passou completamente ao lado da realidade, simplesmente por que foi incapaz de pôr de lado um conceito que não prestava. Isto alerta-nos para a necessidade de ter uma mente aberta e um espírito permanentemente crítico, que toque a sirene e acenda luzes vermelhas e verdes à mínima incoerência. Sistema que, confesso, não tenho nem estou próximo de ter.
O prémio máximo que a leitura de um livro de Filosofia nos pode trazer é chegarmos à última página e, tendo percebido o que o autor queria dizer, concluirmos que ele é um perfeito idiota, por muitos galões e referências que tenha em compêndios escolares e teses de doutoramento. Nada como alguma iconoclastia, nestes tempos que correm em que se seguem mestres de forma excessivamente piedosa.
Divirto-me ainda a ler Literatura. Há de facto tipos que brincam com as palavras e as ideias com a graça e a segurança do malabarista, jogando-as no ar e deixando-as tombar no momento certo, no sítio certo. Para além da beleza deste movimento, muitos escritores são também dos melhores historiadores e dos melhores filósofos, oferecendo-nos uma visão da História e da Filosofia vista do interior da vida, com todo o seu calor e frenesim, que completa e contrasta com a percepção distante e fria que têm os que escrevem e estudam respaldados numa visão mais cartesiana e académica.São estes alguns dos saberes que me interessam, por me parecer que me ajudam: a entender melhor a mim e ao mundo, a agir de uma forma mais positiva para mim e para os demais, a dar sentido à minha vida e a passar um testemunho que recebi e que deve continuar por outras mãos, no dia em que eu já cá não estiver.
Dito isto, não tenho – honestamente – a pretensão de saber muito, nem o suficiente, nem mais do que os outros. E claro que nem só nos livros se encontram estes saberes, nem possui-los nos dá grande autoridade. Por vezes, pessoas com uma bagagem que pretensiosamente julgamos pequena trazem dentro da trouxa tesouros de bom senso. Quando terminei o mestrado, recordo-me de o meu avô paterno me ter perguntado em que é que eu tinha ficado com esses últimos estudos, a que eu respondi, patetamente orgulhoso, “mestre”. E ele, que era um homem simples, de não muitas letras e que tinha uma carteira profissional de uma carreira administrativa qualquer que lhe dava como categoria “mestre de segunda classe”, comentou, com uma ironia meiga: “Então, andaste estes anos todos para ficar só igual a mim?”
Não, avô, não fiquei igual a ti, porque ainda não tinha acabado de ouvir tudo o que me tinhas para dizer, e muito há, do que me disseste, que só agora, com o passar do tempo, vou percebendo por inteiro.
domingo, janeiro 27, 2008
Um ataque pelas costas
“Os fundamentalistas crêem que os mercados tendem para o equilíbrio e que se serve melhor o interesse comum se se permitir que os participantes ajam em interesse próprio. Isso é um equívoco óbvio, porque foi a intervenção das autoridades que evitou que os mercados financeiros entrassem em colapso, não foram os próprios mercados. No entanto, o fundamentalismo de mercado instalou-se como ideologia dominante nos anos oitenta, quando os mercados financeiros começaram a tornar-se globalizados e os Estados Unidos começaram a sofrer um défice da balança de transacções correntes.”
Quem soltou este miserável ataque às virtudes do Mercado? Um jacobino, como está em Portugal incrivelmente na moda apodar quem tenha a veleidade de duvidar da bondade da mão invisível? Não! O Jerónimo de Sousa ou qualquer outra relíquia comunista? Também não! O fantasma do Lenine em pessoa, falando às tropas em transe pela boca de uma mãe-de-santo, nalgum terreiro de candomblé da Baía? Frio, muito frio…
Nada menos que George Soros, um dos tipos que mais cacau ganhou a investir em mercados financeiros, alcandorando a sua conta bancária à confortável posição de 80ª fortuna do mundo. Do género de menino que, apostando na descida da libra, vergou o Banco de Inglaterra. Um fulano que se o virem a enfiar-se por um buraco, vão buscar uma pá, porque ele não se está a enterrar: há dinheiro lá em baixo.
E é logo um tipo destes, e não um troglodita em quem seja fácil bater, que vem dizer estas coisas que lançam dúvidas maldosas sobre a omnipresença, a omnipotência, a omnisciência e a natureza una mas trinitária do Mercado. Que chatice! Que maçada para os senhores jornalistas económicos que, com as suas gravatas de seda e as suas dificuldades com a gramática, andaram sempre a dizer o contrário. É só rir!
Já agora, o artigo completo, que vale a pena ler para conhecer uma visão interessante sobre os dias que correm, saiu não no “Avante!” mas no “Financial Times” e pode encontrar-se em http://www.georgesoros.com/?q=worst_in_60years.
terça-feira, janeiro 22, 2008
O Lago dos Cisnes
De convites em punho, cristalizados que nem fruta do bolo-rei pelo vento de Dezembro à beira-Tejo, fomos andando na procissão das almas, na direcção dos Santos Porteiros. Marchávamos sobre um tapete vermelho, ladeado de velas da loja do gato preto que, bruxuleando ao sabor da intempérie, ameaçavam a todo o momento pegar fogo ao meu sobretudo. Labaredas enormes! Passados finalmente os picas, vimo-nos atribuídos os lugares prái 1480 e 1482 da quarta fila, com perspectiva dimétrica sobre o palco.
Primeiro acto
Apagam-se as luzes. Sobe o pano. Outro pano, branco com traços coloridos, representando aves ao longe, em formação de picada. O técnico de luzes diverte-se a simular a parte final do “2001 – Odisseia no Espaço”, metralhando o dito trapo com fotões variados. Os altifalantes vão debitando a abertura, Opus 20. Sobe o segundo pano. Aparece um gajo de “collants” aos saltos, com uma coquilha de jogador de râguebi a tapar a melhor natureza e uns glúteos de profissional. É o príncipe Siegfried. Vai entrando mais malta pelos lados, simpaticamente nas pontas dos pés para não acordar a minha cara-metade, que já ronca no 1482. O público, desconhecedor de que a peça se divide em actos para se poder aplaudir no fim destes, bate palmas por tudo e por nada. Os artistas aproveitam para parar a cada dois passos, avançando o torso em pose de Nureyev do Beato, gerando mais palmaria.
O Siegfried faz anos e os reais paizinhos dão uma festarola. Os paizinhos também estão de “collants”, mas com um “outfit” melhorado e umas carapuças importadas directamente do Espaço 1999. De prenda pelo feliz dia, o Siegfried tem direito a uma besta para ir aos patos. A besta vai das mãos do rei para as da rainha, do príncipe, do amigalhaço do príncipe, de uma pequena que lá estava ao pé e acaba por dar a volta à Companhia Nacional de Bailado. De cada vez, dador e receptor apontam simultaneamente para o peito e para a arma, com as mãos em pose de “Ai fofa! Não me digas!” e uma carinha de “Olha que bela besta!”
“But, no free bestas in life!” Os paizinhos querem que o Siegfried aproveite o evento para escolher uma gajinha para o tal e coiso e continuar a linhagem, já que é herdeiro do trono. Apesar de se contarem em palco para cima de vinte delas – algumas com visíveis dotes de dona-de-casa – o rapaz não se entusiasma, lançando dúvidas sobre a sua seriedade. Rodopia, saltita, corre, pula e vai mas é à caça do cisne, experimentar a besta.
Segundo acto
O Siegfried assesta a arma a um bando de cisnes, de saiotes e fru-frus brancos, e prepara-se para trepanar uma meia-dúzia assim que aterrarem. Mas um dos cisnes aproxima-se e deixa-o espantado, estado que nos é representado por uns olhos esbugalhados que nem uma garoupa e várias torções rápidas do pescoço. Afinal o cisne é meio-mulher, meio-cisne. Perante a aberração, o príncipe, que acabara de rejeitar vinte boas de borla há dez minutos atrás, revela o seu lado “kinky” e apaixona-se, extravasando o seu sentimento com pulos que nem um cabrito-montês.
A mutante informa Siegfried que se chama Odete e que também é princesa de profissão. Calha bem. Ficou naquele triste estado por causa de um feiticeiro mau, com nome de comandante de uma coluna de “panzers”: Von Rothbart. Os pais dela choraram tanto, coitadinhos, que as suas lágrimas formaram o Lago dos Cisnes, só ultrapassado pelo Mar de Alvalade. Ouvido isto, o Siegfried, que é tosco e acredita no que as mulheres contam, apaixona-se ainda mais.
Entretanto aparece em palco, com fanfarra e fumarada, o dito Rothbart. Traja “collant” e jaquetão preto e capacete integral ou coisa parecida, numa inspiração Darth Vader. Siegfried faz-lhe um daqueles números de Marvila, só que na ponta dos pés: “anda cá que eu te desfaço”, “agarrem-me que eu dou cabo dele” e outras do género. Mas Odete agarra-o mesmo. Se Rothbart morrer, o feitiço nunca mais será quebrado e ainda faltam dois actos.
Intervalo
Romaria ao urinol. Pinguins servem cafezinhos de saco. Tenho dezassete chamadas não atendidas e seis mensagens de voz de uma mesma amiga, desesperada ao partir um dente com uma trinca num bacalhau mal demolhado, azar só explicável por outra maldição do Von Rothbart. Regresso à quarta fila, enquanto apago da memória (não da minha) aquela orgia de esse-eme-esses.
Terceiro Acto
O príncipe regressa ao baile, que ainda verga ao som do DJ Pyotr T. O feiticeiro também lá vai, disfarçado, mas eu topei-o logo. Leva a sua filha Odília, que ele transformou para ser igualzinha à Odete, com nome de costureira e tudo, só que vestida de preto em vez de branco. O Siegfried, que além de estúpido deve ser daltónico, ou então que está com a cabeça à roda de tanto voltear, baralha-se e anuncia ao “party” que está apanhado pela Odília. Quando se apercebe do erro, ao ver a Odete lixada a deslizar em “pas de deux” para trás de um cenário, já é tarde demais.

Quarto Acto
Siegfried regressa à floresta enquanto prepara um discurso do género “percebeste mal, era só uma amiga.” Encontra a Odete e dá-lhe a tanga. Dançam durante um quarto de hora. Levo uma cotovelada cúmplice da minha mais-que-tudo a avisar que agora sou eu que estou a passar pelas brasas.
Na austera versão original russa, os dois amantes afogavam-se no lago dos cisnes, num “sepuku” aquático, convencidos da invencibilidade da maldição do bruxo. Nesta mais latina adaptação, o amor vence e o Von Rothbart cai nos fundos dos infernos, aproveitando um alçapão ao fundo do palco de onde saem umas luzes avermelhadas e os restos da máquina de fumos. Os nossos heróis, agora livres, já podem receber a ovação final do público.
Epílogo.
O momento mais cultural da noite. Ceia volante oferecida pela organização. Ultrapasso o Siegfried em destreza e elasticidade, gerindo prato, copo de vinho e dois talheres, só com duas mãos e em pé. Isto sim, é “ballet”!
sábado, janeiro 19, 2008
O socrático sucesso
“Se um homem for feito prisioneiro de guerra e não houver quem sustente sua esposa, ela deverá ir para outra casa, e a mulher estará isenta de toda e qualquer culpa.”
Código de Hammurabi, 1700 A.C.
Descia eu a Fontes Pereira de Melo na quinta passada. Uma cacimba espessa, anunciando chuva, convidava a um passo apressado. Em sentido contrário, uma senhora de idade, nitidamente nos setenta, subia a calçada. Ao cruzarmo-nos, abordou-me, numa voz sumida: “Desculpe, o senhor não se importava…” Estava bem vestida e arranjada, e por isso naquele segundo esperei um “…de me dizer onde fica a rua tal” ou um “… de me dizer onde se apanha o autocarro xis” ou meramente que me perguntasse as horas.
Mas não. Baixando os olhos, continuou, num tom que quase não se ouvia: “… preciso de ir à farmácia e não tenho dinheiro.” Quando nos voltámos a fitar, enquanto eu lhe dava uma moeda para a mão, reparei na sua expressão mista de vergonha e alívio. Murmurou um agradecimento e eu segui, ou melhor, escapuli-me, desgostoso. Tudo ocorreu em segundos, de forma discreta. Os fatos e gravata e os “tailleurs” que nos cruzavam nem deram por nada, no seu afã de eficiência satisfeita.
E eu, prosseguindo o meu caminho, perguntei a mim mesmo: “Que merda é que nós andamos a fazer?” Já não era a primeira, nem a segunda vez que encontrava esta mendicidade envergonhada, de mulheres e homens sós no fim de uma vida honesta, a quem a doença e o abandono tornaram os meses compridos demais. Onde andamos nós a falhar tão redondamente enquanto sociedade, para que esta mulher, esta avó de todos nós, se visse reduzida a palmilhar ruas à chuva, pedindo em voz baixa, empurrada pela necessidade, toldada pela vergonha do que pensa ser seu fracasso, quando o fracasso é nosso, total e miseravelmente nosso?A grandeza de uma sociedade mede-se pela justiça com que trata os seus mais fracos. Deveríamos sentir tanto constrangimento em ver um velho a pedir como o que a maioria de nós desenvolveu em relação à mendicidade infantil. Há trinta a quarenta anos atrás, ainda me recordo de muita gente em pose de boa gente achar um facto da vida, vagamente lamentável mas certamente natural, que as crianças de famílias pobres pedissem na rua. Algumas até lhes chamavam umas malandras. Hoje em dia, se alguém assim pensar provavelmente terá vergonha na cara suficiente para o manter para si. E esta evolução do pensamento colectivo acabou por servir para, pelo menos, convencer a sociedade de que é sua obrigação gastar recursos a proteger as crianças.
Falta completar – ou reencontrar – um percurso mental semelhante para os velhos. Que deve começar por aceitar a velhice como um facto da vida (no fundo, todos esperamos lá chegar) e não dar uma carga negativa ao vocábulo. Esqueçam terceiras idades, idosos, faixas etárias avançadas ou populações seniores. Sénior é a equipa do Sporting e não anda a jogar um cartucho. Velhos! Com todo o respeito e veneração que a palavra nos merece.
Tudo isto se passou no dia em que um banco privado decidiu atribuir ao seu recém-despachado presidente do conselho de administração, quadragenário, uma pensão vitalícia, módica, próxima dos cem salários mínimos mensais. Provavelmente para que não o tivéssemos que ver, na Baixa, de fato cinzento e mão esticada, a implorar a caridade alheia, para um café ou um mata-ratos. O que seria incómodo.
quarta-feira, janeiro 16, 2008
Os cumes
A cadeira subia etérea
A sua estrada unifilar
Daquela amurada aérea
Os cumes a alvejar
Ao longe chamavam
Como sereias esvoaçando
Em torno de Ulisses regressando
O cabo em súbita paragem
Deixou-me suspenso
Da beleza da paisagem
Que soberba a Montanha
Como um Deserto ou o Espaço
Ou o longilíneo infinito dos Rios
Curioso é que tão absolutos vazios
Nos encham a alma de forma tamanha
sexta-feira, janeiro 04, 2008
A tentação esotérica
Frequentei, desde pequeno, o Liceu Francês de Lisboa – a minha escola – uma escola muito laica, que nos ensinava que, da Revolução Francesa, interessavam mais as ideias que trouxe do que alguns excessos guilhotinescos, que o século XVIII fora das luzes da razão face à obscuridade da crendice e onde o sistema canalizava os melhores alunos para a área científica, onde um espírito cartesiano era condição essencial de sobrevivência.
Ao fim do dia, saindo os portões do liceu, deparava-me com uma sociedade portuguesa a viver um período “pós-vinte e cinco de Abril” em que a religião, basicamente a religião católica, aparecia associada ao obscurantismo salazarista. As estruturas religiosas existentes em Portugal andaram por isso uns tempos de bola baixa e o país aproveitou a deixa para mudar um pouco a sua mentalidade, especialmente na classe média dos meios urbanos. Debatia-se muita política, e cada um tentava levar o outro a mudar de ideias pela razão dos seus argumentos. Neste processo de mudança, a tecnologia foi muito valorizada – infelizmente mais do que o saber, mas isso é outra história.
Acresce que eu, em criança, lia muito sobre astronomia, física, evolução do homem e assuntos similares e, para mim, Deus encaixava mal naquilo tudo. Andei na catequese entre os sete e os dez anos e tudo o que me lá contavam parecia ilógico, afastado da realidade.
Na verdade, neste mundo de argumentos racionais, de maravilhamento com a ciência e as suas conquistas, de centragem na liberdade individual recém-reconquistada, havia pouco espaço para deuses e divindades. Acreditar em Deus era coisa de avós velhinhas e gente do campo. Se eu soubesse de um colega de escola que fosse crente, logo trataria de lhe fazer notar, com toda a arrogância, quão estúpido ele era ou desencaminhado andava.
Aquando do meu ingresso na universidade, quase todos os meus amigos, que tinham percorrido um percurso similar, eram como eu: ateus, convictos das suas razões, quando não anti-religiosos e anti-clericais.
Vinte e cinco anos passaram e algo mudou. Desse meu grupo de indefectíveis descrentes, mais de metade encetou um caminho a que eles chamam “espiritual”. Normalmente, não pelo regresso à nossa matriz cultural católica mas seguindo por uma via mais introspectiva, de procura pela diferenciação e de algum esoterismo. Um deles anunciou recentemente que vai passar quatro anos isolado do mundo num retiro budista, causando um choque de proporções cósmicas no pequeno universo dos seus amigos, que teve pelo menos a virtude de animar alguns jantares de natal.
Entretanto, eu fiquei na mesma. Talvez um pouco menos radical, porque leio os Evangelhos, o Corão ou ensinamentos budistas com prazer e consigo lá encontrar, por vezes, interessante filosofia, mas continuo ateu e racionalista. E assim sendo, em que acho esses meus amigos diferentes de mim?
Comecemos pelo ateísmo. Eu, como ateu, acho que sou e um dia vou deixar de ser. Não vai haver mais nada, nem consciências universais, nem almas para o paraíso, nem reencarnações em fauna exótica. Nada. Zero. Só umas moléculas por aí. E não é nenhum drama. A vida não deixa de ser coisa boa e continua a fazer todo o sentido. Pelo contrário: cada dia é uma dádiva, só que sem dador, e do que faço em cada dia posso e devo retirar gozo mas também utilidade, contribuindo para a melhoria ou maior perenidade de coisas maiores do que a minha modesta pessoa: o mundo onde vivo, a espécie a que pertenço, a cultura que partilho, a língua que falo, os valores que julgo importantes. Abster-me-ei de incluir nesta lista o glorioso Sporting, porque esse é imortal.
Não consigo deixar de pensar que os crentes não conseguem encarar bem de frente esta fria realidade. De facto, deve ser reconfortante pensar que algo continua depois. O que explica, aliás, o grande número de conversões à vigésima quinta hora, no leito de morte. O medo da morte é algo natural, provavelmente resultante, até, do processo de evolução por selecção natural: calculo que os bicharocos que ficavam, destemidos, a ver os tiranossauros a aproximar-se, deixaram menos descendência do que os cobardolas que se puseram a milhas em grande velocidade. Mas o facto do medo da morte ser natural não impede que o tentemos perceber e dominar, como fazemos ao longo da nossa vida com tantos outros receios.
A recusa da morte física poderia ser emblemática de um desconforto que esses meus amigos sentem com a realidade existente – tantas vezes difícil – e que os leva a deduzir que existe outra realidade, paralela à que é evidente, mas todavia mais perfeita e mais essencial. Essa realidade secreta oscila, consoante os casos, entre regras de funcionamento subtis mas mais poderosas (por exemplo, o equilíbrio “karmico”), que consubstanciam um universo afinal perfeito (a dor, o sofrimento, passam a ter uma explicação, ver mesmo uma razão de ser), até sociedades secretas e herméticas, que controlam a nossa existência, manietando-nos em nome de um bem ou de um mal superiores (neste caso, aquilo que para nós não faz sentido na sociedade aparente em que vivemos é explicado ou, melhor, legitimado pelos superiores interesses dos que secretamente nos controlam).

Para mim, o mundo real é o mundo real. Tem evoluído um pouco para melhor, com alguns altos e baixos. No entanto, paredes ou fronteiras meias com gente feliz, continuam a existir a fome, a guerra, a doença, a iniquidade. É um facto triste, mas tenho que reconhecer que é assim que as coisas funcionam. Consigo encontrar explicação para muitos dos desmandos políticos e sociais que observo no dia-a-dia na dinâmica de poder que se estabelece entre indivíduos e grupos, nas virtudes e sobretudo nos defeitos da humanidade e num ou noutro acaso. Não preciso de dados ocultos ou regras especiais para explicar o que vejo. Aceito, com pesar, que desgraças ocorram, por muito bem que nos organizemos. Não estamos a salvo de que nos morra um filho e que soframos durante toda a vida um sentimento de revolta e injustiça. A vida não é apenas finita, é também arriscada, mas é um risco que vale a pena correr.
Esta diferenciação entre realidade “aparente” e realidade “escondida” levanta um problema prático a esses meus amigos. A realidade “aparente” quadra bem com a realidade aparente, mas a realidade “escondida” não. A realidade “aparente” pode ser descrita por modelos ou medida por aparelhos. A ciência, o saber, são fontes de autoridade poderosas que validam a realidade “aparente”. Perante este problema, observo que são propostos dois tipos de solução: nuns casos, pretendem que a realidade “aparente” é forjada, em mais uma manipulação em proveito da tal sociedade hermética que nos controla; noutros, afirmam que a realidade “aparente” é incompleta, bem como as suas fontes de legitimação, sendo a realidade “escondida” mais global e atestada pela autoridade de certas personagens (mais sabedoras, mais clarividentes, mais experientes, mais perfeitas, mais felizes, em resumo, superiores).
Este é outro aspecto em que me sinto muito diferente destes meus amigos. A noção de que existiriam pessoas com uma autoridade especial que lhes advém de uma superioridade estrutural é uma noção que me horripila, para falar com franqueza. Pela simples razão que uma superioridade estrutural é incontestável. Quem o ataca só pode estar, por definição, errado e pode, no limite, ser calado. Esse limite tende, infelizmente, a ser atingido muitas vezes, como a História demonstra. Uma superioridade moral ou intelectual com um carácter estrutural, permanente, só pode gerar um sistema de ideias que seja fechado, no sentido que Popper deu à expressão, inacessível do exterior.
Na minha opinião, nenhum homem tem uma autoridade intelectual ou moral absoluta sobre outro homem, uma autoridade que não possa em dado momento ser contestada. Claro que existem pessoas mais sábias, mais ponderadas, mais inteligentes do que eu. Claro que faz todo o sentido ouvi-las com atenção e absorver o que têm para nos ensinar. Mas nada impede que eu possa ter razão, num determinado momento, num assunto de que pouco sei, contra o melhor dos especialistas. São as ideias que se confrontam, não as pessoas.
Vou mesmo um pouco mais longe, neste aspecto. Penso que o Homem só o é com as suas virtudes e as suas fraquezas. Cada um de nós pode alterar o seu comportamento, aprender com os outros, aproveitar as suas qualidades e mitigar os seus vícios. Mas será mais feliz uma sociedade em que saibamos controlar os nossos defeitos e perdoar os dos outros do que outra constituída por seres perfeitos, em constante beatitude.
Sobre isto, vem-me agora à memória um “videoclip” que estava a passar na TV do restaurante onde almocei hoje: “Jealous Guy”, do John Lennon. Se se recordarem, Lennon justifica o seu comportamento perante a amada invocando um defeito muito comezinho: “I’m just a jealous guy”. Daqui nasce a poesia: o que é sublime (o amor, o perdão) pode ser originado e justificado por um vício tão humano quanto o ciúme. Não teria um vinte avos da piada se fosse um guru qualquer a cantar “I did not hurt you and I did not make you cry. I’m just a perfect guy”.Dito isto, amigos como dantes. E ao que vai quatro anos para o retiro: que encontres o que procuras e, se não, que voltes depressa.
quinta-feira, dezembro 27, 2007
Portugal dos pequeninos
De Oriente a Ocidente jaz, fitando.
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Fernando Pessoa , in “Mensagem”
Nós, os portugueses, somos moldados desde pequenos num complexo de inferioridade terrível. Bem lá no fundo, sentimo-nos anões deste mundo, vemo-nos como um “Lilliput” à beira-mar plantado, cercado de gente que ganha campeonatos europeus, prémios Nobel e ordenados mais vultuosos.
Por isso, desde que me lembro, sempre nos vi a exacerbar qualquer sucesso internacional, por ridículo que fosse, como se de uma Aljubarrota se tratasse. Recordo hoje com um sorriso (amarelo) as figuras que em criança fazia a vibrar com as vitórias de Portugal em hóquei em patins sobre a Guatemala e afins, mais de quarenta a zero. Seguia liturgicamente estas proezas nas noites de Julho, de orelha colada ao transístor, com o comentador a atropelar-se a si próprio nos gritos de golo, urrados durante minutos. Quarenta a zero – que pátrio orgulho! Teve que ser o meu pai a pôr as coisas em perspectiva, lembrando-me que os guatemaltecos mal sabiam patinar e só lá estavam para que o campeonato, supostamente mundial, contasse com uns centro-americanos. E que o hóquei patinado, sendo uma modalidade apenas praticada num país (Portugal), numa cidade (Barcelona) e numa rua de San Juan na Argentina, não valia, portanto, a ponta de um papo-seco.

Havia quem fizesse piores figuras. Certa vez, um apresentador de telejornal relatou-nos, com entusiasmado ar de proeza, que Portugal conseguira um terceiro lugar no torneio triangular de atletismo Portugal/Espanha/Marrocos. Claro! Um terceiro lugar sempre soa melhor que último. Ainda bem que o conseguimos.
Quando o Futre foi jogar, nos anos oitenta, para o Atlético Madrid, sendo pioneiro no que constitui hoje um dos nossos principais produtos de exportação – artistas da bola – os nossos noticiários passaram a apresentar periodicamente uns “flashes” dos jogos dessa equipa, permitindo aos comentadores novas e até aí inimagináveis façanhas de exagero lusitano. Se o Futre marcava, o Atlético tinha ganho graças a um golo de Futre, mesmo que o resultado tivesse sido de cinco a zero. Se o Futre intervinha numa jogada bem sucedida, era a classe de Futre que estava na origem do golo: o caramelo que lá tinha ido cabecear no meio dos defesas, expondo os dentes à cotovelada mas metendo-a lá dentro, nem sequer era referido. Se o Futre tocara na bola três minutos antes de um golo, tratava-se de “um tento com a participação de Paulo Futre”.
Claro que optimismos tão patetas tinham que ter reversos de medalha, sob a forma de monumentais cacholas. E a nossa medalha até tinha mais coroas do que caras, numa geometria esotérica. Quanto tinha doze anos, assisti a altas horas da madrugada, num hotel do Carvoeiro, à final dos dez mil metros dos Jogos Olímpicos de Montréal. Todo o hotel estava na sala de têvê: empregados, clientes e penetras. Durante vinte e tal minutos, vibrámos com o nosso Carlos Lopes, cuja vitória, tal como a nossa confiança, se adensava a cada passada. Na última volta, porém, o finlandês Lasse Viren ligou os reactores, passou o nosso Lopes já entretido a voltar a meter os pulmões para dentro da caixa torácica e ganhou aí com uns bons cinquenta metros de avanço. Não me lembro, em toda a minha vida, de um silêncio tão sepulcral como o que então caiu, nem nos velórios menos concorridos. Nos dias seguintes, os jornais ventilavam rumores de que o Viren ganhara recorrendo a expedientes obscuros, no limite dos regulamentos e para lá de toda a ética desportiva. Falava-se de transfusões sanguíneas e oxigenação de glóbulos vermelhos. Oxigenação era o que o meu cérebro precisava, que me indignei a ler essas patranhas.
Consolámo-nos nessa altura com uma medalha de prata. Entretanto, as coisas foram piorando, porque os etíopes e os quenianos começaram vir às meias-dúzias e a limpar tudo o que eram maratonas e corta-matos. O orgulho nacional, na sua versão televisiva, logo encontrou solução para o problema: fulano tal, português, décimo terceiro na meia-maratona de Mangualde, foi o “melhor europeu” ou o “primeiro não-africano”. Como quem diz: à parte os pretos, que não contam, ganhámos. Que portento!
Vem-me tudo isto à lembrança agora que Lisboa está cheia de monumentais lonas com garrafais letras a dizer Portugal e brindando o povo com “retratos da Costa Oeste da Europa por Nick Knight”. Uma nova campanha, destinada a promover o bom nome português como costa ocidental da Europa, não sei se por referência a Fernando Pessoa, se como colagem à West Coast californiana.
Ao que é público, a dita campanha, anunciada debaixo das luzes televisivas com ministerial presença, pompa e circunstância, conta com um orçamento de três milhões de euros, trezentos mil dos quais para pagar ao Nick, que ainda se deve estar a rir a esta hora. Aliás, o ministro, inquirido por um jornalista mais perspicaz sobre a razão de pagar com dinheiros públicos trezentas mil broas a um fotógrafo inglês, revelou presença de espírito e sentido de Estado ao afirmar que não tinha nada a ver com o assunto, que perguntassem ao responsável pela campanha. Afinal, não era ele o responsável. É só um detalhe, mas fiquei sem perceber o que é que ele lá andava a fazer.
Continuando, não sei bem que público é o alvo desta campanha, se interno, se externo. Li que em parte será externo, em "revistas de prestígio", mas não deve ser campanha muito massiva, porque descontando o dinheiro para pagar por cá as lonas e os anúncios de revista, mais o cacau do Nick Cavaleiro e a festarola de lançamento, não há-de sobrar muito. Resta a hipótese, que vou explorar de seguida, disto tudo ser para nos fazer a nós, portugueses, festas no ego.
E de que nos devemos orgulhar, de acordo com a campanha? De alguns atletas, um treinador de futebol, uma fadista, um arquitecto, uma artista plástica, uma cientista. Gente certamente notável, que merece toda a nossa admiração, que conseguiu ser excelente entre os melhores do mundo nas sua área de actividade. Feitos económicos, como a maior central solar do mundo ou a presença na crescente indústria da energia eólica, efectivamente louváveis num país com uma economia frágil. Mas que não chegam para que Portugal seja o último dos exemplos. São, meramente, os Futres e os hóqueis dos nossos dias.
Se a campanha se destinasse a promover lá fora a marca Portugal, para atrair turistas e investidores, poderia ser útil, se fosse pensada e desenvolvida com esse propósito. Mas, sendo para dentro, que vende esta campanha aos portugueses? O orgulho de sermos compatriotas daquelas pessoas? Será que os etíopes também acham que vivem no paraíso na terra só porque o Haile Gebrselassie tem o recorde do mundo da maratona?
Cresceremos como país se nos dedicarmos menos à vanglória das nossas excelências e mais à correcção dos nossos defeitos. Foi aliás isso que tiveram que fazer muitos dos nomes que aparecem nesta campanha. Quando o Cristiano Ronaldo chegou ao Manchester, o Ferguson, que come vedetas ao pequeno-almoço, não lhe gabou certamente o jeitinho para dar toques sem deixar cair a bola. Pô-lo no ginásio a fazer músculo, deixou-o no banco enquanto ele não pôs o génio ao serviço da equipa, transformou-o num capitão. Corrigindo o que estava errado, preenchendo o que não existia, em três anos fez dele um dos melhores do mundo.
Com os países passa-se o mesmo. Mais importante do que gastar bom dinheiro a propagandear os circunstanciais sucessos de A ou de B, muitos deles só possíveis por que A e B trabalham no estrangeiro onde lhes dão condições de trabalho e de exigência, interessa corrigir as nossas lacunas, na educação, na saúde, na justiça, na atitude que como um todo temos perante a vida. Se os portugueses sentirem que os seus governos dão o litro nessa tarefa, terão algumas razões para estar satisfeitos. Se as coisas forem melhorando nesses domínios, terão motivos para alguma vaidade.
Por tudo isto, esta campanha acaba por ser, ao mesmo tempo, um desperdício de recursos e uma parolada. Uma fachada para pendurar nas fachadas. Um regozijo estéril, pago por todos nós e promovido por quem deveria investir-se em actividades mais úteis para o país.
sexta-feira, dezembro 14, 2007
A coisa está a aquecer
Espreitando nas entrelinhas, vem-nos espontaneamente a imagem de um Rui todo sensível, de lágrima ao canto do olho perante as maldades do mundo, empolgando-se com multidões embandeiradas, usando garridas calças de algodão do Egipto e sandálias alemãs. Do outro lado, uma Helena muito mulher-macha, arvorando rigores de testosterona, indignada com as fraquezas de carácter do Estado social e as lamúrias mariquinhas dos bons selvagens que preferem a aspereza inútil de uma falésia algarvia a um bom golfe de nove buracos e mil e quinhentas camas.
Lenine escreveu que o esquerdismo era a doença infantil do comunismo. Lenine queria criticar certos comunistas, que de tão obcecados com a pureza dos princípios, perdiam puerilmente o sentido das realidades e a eficácia da luta política. Sem querer ombrear, pobre de mim, com o homem com a pêra mais célebre da história, eu acrescentaria que o direitismo deve ser a doença geriátrica do fascismo. O direitista debita, vai-não-vai, farrapos de ideias velhas, que emergem sem aparente noção da realidade, vindas de uma memória nostálgica e vencida, num autêntico Alzheimer de conceitos.
Obrigados a encher a cada dois dias três colunas de diário, com o cérebro espartilhado pelos esquerdismos ou direitismos que se impuseram, o Tavares e a Matos frequentemente assistem ao próprio pé a fugir para a chinela do disparate. Em menos de um fósforo, aí estão eles a pensar o impensável, agitando um chavão qualquer num vácuo de ideias, freneticamente, como as braçadas que dão os cágados virados de costas.
Há dias, a Helena pulverizou todos os recordes de idiotice, de regionais a interplanetários, atacando as preocupações com o aquecimento global – pelos vistos, uma inquietação esquerdista – com o seguinte e tranquilizador exemplo: na Europa Central, entre 1570 e 1630, três a quatro mil mulheres terão sido queimadas como bruxas na sequência de chuvas, secas e outras pragas que destruíram as colheitas da vizinhança. Donde, já havia desordens climáticas. Donde, não há azar com o CO2 que se anda para aí a debitar. “Quod erat demonstrandum”, versão Helena Matos.
Obviamente, a menina Helena não captou a essência do problema, que se resume nos seguintes passos:
1) Os políticos ou os ecologistas não inventaram o efeito de estufa. O efeito de estufa é um fenómeno conhecido, física e quimicamente bem caracterizado. O efeito de estufa já existia na altura em que os dinossauros andavam aí a contribuir para o problema, exalando dióxido de carbono e bufando metano quando a digestão lhes corria menos bem. O efeito de estufa sempre foi uma das componentes do equilíbrio termodinâmico da nossa atmosfera.
2) A teoria diz-nos que mais emissões de gases de estufa provocarão maior retenção de energia solar na nossa atmosfera e logo temperaturas de equilíbrio mais altas. Faço notar, em proveito das Helenas deste mundo, que a palavra teoria não tem conotações pejorativas. As teorias do electromagnetismo permitem ao pessoal ter luz lá em casa e as teorias da mecânica dos fluidos aguentam no ar algumas toneladas de alumínio, pintadas com as cores da TAP.
3) As grandezas da física da atmosfera apresentam, por natureza, uma enorme variabilidade, no espaço e no tempo. Temperaturas, precipitações, velocidades do vento, flutuam a cada dia, a cada mês, a cada ano. A nossa vivência transmite-nos essa experiência. A nossa memória, essa, funciona como um filtro, valorizando mais os acontecimentos recentes e, sobretudo, os valores extremos. Eu, por exemplo, tenho uma memória muito nítida dos dias dos meus exames finais de liceu, em que uma vaga de calor levou Lisboa acima dos quarenta graus, fazendo com que as meninas se apresentassem às provas de “cai-cai” e mini-saia. É uma imagem que, provavelmente devido ao calor, guardo num cantinho privilegiado da minha lembrança.
4) A matemática, por outro lado, aborda a evolução das grandezas meteorológicas de uma forma mais rigorosa do que a memória humana. Se pegar numa hipotética listagem com todas as temperaturas tiradas ao meio-dia no Terreiro do Paço durante cem anos, um matemático olhará para a sequência de números e colocá-los-á num gráfico para ver o aspecto da evolução ao longo do tempo. A temperatura andará num permanente zigue-zague, para cima e para baixo, sem uma lógica aparente. No entanto, calculando certas grandezas a partir daqueles números (médias, variações e outras mais complicadas), o matemático eliminará a informação que não interessa (a que se chama “ruído”) e encontrará a resposta a muitas perguntas: será que existem comportamentos que se repetem? Provavelmente, são as estações do ano. Será que existe uma tendência para as temperaturas no longo prazo, a mais de um ano, irem subindo? Uma inflação das temperaturas parecida com a que encontraríamos numa série de preços de um bem?
5) No caso das análises a variáveis meteorológicas, o tal ruído é enorme, dificultando a obtenção de conclusões com um grau de certeza muito elevado (as pessoas de ciência, contrariamente à Helena, gostam de graus de certeza elevados para poder tirar conclusões). No entanto, a análise feita pela grande maioria dos especialistas sérios aponta para que exista uma tendência nessas grandezas (subida das temperaturas, aumento do número de furacões por ano gerados por um mar mais quente, diminuição das área das calotes polares que derretem com um ambiente menos frio, etc.). Tendência que aponta para a existência de um aumento global da temperatura do planeta.
6) Existindo um mecanismo teórico que aponta para a existência do fenómeno, havendo números que sugerem que as coisas não estão de facto a correr muito bem, e sendo as consequências potencialmente muito chatas para os que vierem a seguir a nós, se calhar convinha fazer qualquer coisa. A menos que não nos importemos que os nossos descendentes apanhem o cacilheiro no cimo do Parque Eduardo Sétimo e que os futuros Sporting-Benfica possam ser interrompidos por tempestades de areia. Isto, para não falar aqui de coisas piores, como guerras pela água, fomes e outros cenários.
O problema da Helena está em não ter percebido que a ciência não se discute como se discute um conceito ético ou metafísico. A ciência discute-se pondo mais ciência em cima, contrapondo ciência, melhor ciência, à ciência. Se a Helena não quer fazer má figura, que trabalhe os dados, melhor do que os cientistas que o fazem. Ou então que se cale!Por mim, estou moderadamente preocupado. Não me sabe bem que os meus netos nos venham acusar de lhes ter deixado para viver um forno onde se esturrica que nem na fogueira das bruxas, de que falava a Helena. Por outro lado, acredito que se pode fazer algo. Que o problema pode ser controlado ou invertido. Mas, como diria o meu avô, para ganhar a lotaria é preciso comprar um vigésimo. Ou, em linguagem do século XXI, para ganhar o Euromilhões tem que se depositar o boletim.