domingo, outubro 28, 2007

O sentido do heroísmo

Um livro e uma recordação, ambos trazidos de Paris há uma semana, motivam este “post”.

O livro, uma bêdê de Jean-Michel Beuriot e Philippe Richelle, intitula-se “Maria” e é o terceiro volume da série “Amours Fragiles”. Série, cuja leitura recomendo, que nos conta a vida de alguns alemães no período que vai da ascensão do nazismo ao princípio da derrota na Guerra Mundial. Esta gente narra uma história um pouco diferente da versão maniqueísta dos manuais, em que os aliados são bonitos e bons e os alemães feios e todos uns assassinos nazis. Na realidade existiu uma resistência alemã contra o nazismo, e algumas das personagens de “Maria” travam essa luta desigual contra a máquina totalitária e contra a colaboração mesquinha de uma grande parte de um povo embrutecido pela propaganda.



Podemos dizer que os autores apresentam uma visão na essência pessimista, mas provavelmente ajuizada, sobre a natureza humana: somos tendencialmente e geralmente pusilânimes mas potencialmente e mais raramente sublimes. A capacidade de vergar a nossa tendência para materializar todo o nosso potencial tem que resultar de uma reflexão e de uma decisão nossas, que somos livres de efectuar ou não. Se o fizermos, perderemos algum conforto mas seremos provavelmente melhores pessoas. Àqueles que com grande sacrifício ou risco o fizeram, em momentos particularmente difíceis de perseguição ou guerra, damos o nome de “herói”.

A Maria do livro é uma heroína, sem capa e sem super-poderes. Mãe solteira, secretária de um consultório numa pequena cidade de província, faz aquilo que acha que é seu dever fazer, por amor da sua filha e do seu país. A Maria é uma personagem de ficção, mas representa com muita compostura muitas Marias e Mários que ao longo da História sacrificaram tudo pela liberdade e pela dignidade dos outros.

A recordação, essa, vem de um passeio de muitos quilómetros ao longo do Sena, numa sexta de sol e frio. Aqui e acolá, no chão, nas paredes, discretas, fustigadas da chuva e das solas de sapato, por vezes quase apagadas, plaquinhas relembram que “aqui morreu fulano, defendendo Paris dos normandos” ou que “aqui perdeu beltrano a vida lutando contra os alemães na libertação”. São centenas de pequenas memórias em chapa, lembrando outros tantos dramas e convidando quem passa a um segundo de reflexão. Lisboa, que tanto imita o mobiliário urbano de outras capitais, bem podia daqui tirar algum sentido.


Sou de uma geração que nasceu e vive num território cómodo, num tempo confortável. Gozamos de abundância, paz e liberdade. A fome e a guerra são realidades distantes, de presença meramente televisiva, que lamentamos mas que não nos tiram o sono. Raramente nos ocorre que esta vidinha boa foi construída sobre séculos de luta contra os perigos da existência e a prepotência dos senhores. Que, para que aqui chegássemos, sucessivas gerações construíram o nosso mundo e que homens e mulheres morreram para que a civilização avançasse mais depressa, ou não recuasse na direcção das trevas.

Que faríamos nós se nos víssemos na posição deles? Seríamos capazes de arriscar a vida por valores que achássemos certos? Que faria eu no lugar da Maria? Teria coragem para transportar panfletos contra Hitler, temendo a vigilância dos bufos da vizinhança e as torturas da Gestapo? Ou ficaria tranquilo no meu cantinho, e os outros que resolvessem a crise? Não sei.

Como não sei, acho que o mínimo que posso fazer, ou que podemos fazer, é não os esquecer. É lembrar o seu exemplo e mostrá-lo aos mais novos. É ter consciência de que a liberdade, a prosperidade, a nacionalidade ou qualquer outro bem imaterial de que beneficiamos não vêm à borla, e que podem de vez em quanto ter que ser defendidos. É perceber o enorme mérito que tiveram muitos dos nomes daquelas plaquinhas, gente pequena mas muitas vezes mais nobre de intenções que outra, a quem até erigiram estátuas. É estar, pelo menos durante alguns instantes, grato.

Se não o fizermos, de preguiça ou mesquinhez, roubaremos o sentido ao sentido que aquelas pessoas deram às suas vidas. E até às nossas. Dizia John Reed que há coisas grandes no futuro, pelas quais vale a pena viver e morrer. Nem todos podemos ser heróis. O heroísmo não é obrigatório. Mas o respeito e a gratidão são.

domingo, outubro 14, 2007

A longa e ventosa estrada

Em resposta a desafio de blogue amigo, fiquei de dissertar sobre os Beatles. Tarefa difícil para uma banda ou um fenómeno cultural ou social carequita de ser analisado, dissecado, venerado de todas as maneiras e feitios. Neste assunto é que não há mesmo nada de novo debaixo do sol.

Poderia ir gamar ideias à mais bonita homenagem feita aos Quatro, duas páginas de banda desenhada pelo traço de génio de Marcel Gotlib, de 1972, intituladas “ils étaient quatre”. Gotlib conta-nos que fez umas investigações na sua discoteca para responder à pergunta idiota que na altura se fazia: será o fim dos Beatles? Que concluiu ele? Que o sol de “Good day sunshine” continua a brilhar… Que o Bungalow Bill continua a caçar o tigre, com o elefante e com a mãe… Que o doutor Robert continua a curar toda a gente e que podemos continuar a confiar nele… Que o Rocky Racoon continua a bater-se em duelo com o Danny Boy para recuperar a sua mulher Magill… Que a morsa continua a declarar que vende ovos… Que o campo de morangos continua a não estar maduro no “Strawberry fields forever”… Que a rapariga dos olhos de caleidoscópio continua no torniquete em “Lucy in the sky”… Que em Penny Lane as crianças continuam a rir-se do banqueiro e do seu carro, sob o céu azul dos subúrbios… E assim sucessivamente…

Gotlib concluiu que não havia azar. Os Beatles continuam a ser os Beatles. As duzentas prendas que eles nos deixaram no sapatinho continuam a trabalhar que nem relógios suíços. Eu próprio confirmei este resultado, repetindo a experiência trinta e cinco anos depois e verificando que também funciona em formato digital. A Eleanor Rigby binária continua a apanhar os grãos de arroz na igreja deserta onde o padre Mac Kenzie escreve o seu sermão, passado que está vai para meio século.



Demonstrada a existência, pode-se também fazer prova da unicidade. Os Beatles são efectivamente únicos. Deixa-se a demonstração a cargo do leitor. Para o ajudar, alguns dados científicos sobre os Beatles:

Facto 1: Todas as músicas dos Beatles estão recobertas de cera, um lubrificante natural do canal auditivo. Por isso entram tão bem no ouvido.

Facto 2: Muitas canções dos Beatles libertam um gás volátil com o difícil nome de sin-propanetial-S-óxido, o qual em contacto com a água da mucosa dos olhos produz uma solução diluída de ácido sulfúrico que faz chorar. Tal ocorre, entre outras, com “In my life”, “Here, there and everywhere”, “She’s leaving home”, “The fool on the hill”, “You never give me your money” ou “The long and winding road”. Curiosidade: a cebola liberta o mesmo gás.

Facto 3: Muitas músicas dos Beatles induzem a produção pelo corpo humano de dopaminas (C8H11NO2) e oxitocinas (C43H66N12O12S2). As primeiras aumentam com a paixão e produzem uma sensação de prazer e as segundas estão relacionadas com as actividades afectivas. O ouvinte corre pois o risco de ficar apaixonado. São exemplos “Michelle”, “Yesterday”, “Norwegian wood”, “And I love her”, “Something” ou “I’ve just seen the face”.

Facto 4: A obra dos Beatles sofreu, a partir de meados da década de sessenta, uma tal aceleração criadora que se começaram a verificar efeitos relativistas. Tal como nos filmes de ficção científica em que o herói viaja à velocidade da luz e regressa à Terra no século XXV mas para ele só passaram três meses, muitas músicas dos Beatles chegam aos nossos dias frescas que nem alfaces, como se tivessem sido compostas por putos de Billabong e iPod. Veja-se “Taxman”, “Dr. Robert”, “Ticket to ride”, “Sexy Sadie”, “Get back” ou “Revolution 1”.

Facto 5: Pelas mesmíssimas razões que encontramos na base do facto nº 4, a música dos Beatles apresenta frequentemente um comportamento não-causal, aparecendo adiantada em relação ao seu tempo. Tal ocorre em “A day in a life”, “Fixing a hole”, “I’m only sleeping”, “Magical mystery tour” e em praticamente todo o álbum branco.

Facto 6: Em consequência do facto 5, o trabalho dos Beatles tem fortes propriedades magnéticas. Atraiu muita gente, que copiou descaradamente ou foi pelo menos fortemente influenciada, desde os Stones na época a muita da “pop” britânica de hoje.


Populares e geniais, generalistas e vanguardistas, mito e substância, os Beatles mudaram hábitos, mentalidades e gostos, fazendo música que fazia aquilo que a música é suposta fazer: ser importante na vida das pessoas. Foi importante na minha? Algumas vezes. Posso contar aqui uma história. Igual ou parecida à de milhões de outras histórias de outros colegas de planeta.

No Agosto dos meus dezoito anos, viajei de “inter-rail” e tive um daqueles amores de férias que são infinitos enquanto duram mas que só duram até à partida do próximo comboio. No dia da separação, estando eu já desfeito de saudades, com a obrigatória telha, o mundo desabado sob os meus pés, entrei para fugir a um aguaceiro num McDonalds em Graz, na Áustria. Aí, uma TV a preto e branco passava um desenho animado dos Beatles: “I’ll follow the sun”. E dizia:

One day you'll look and see I've gone,

For tomorrow may rain so I'll follow the sun.
Some day you'll know I was the one,
But tomorrow may rain so I'll follow the sun.

Olhei pela janela e já não chovia. Segui o sol. Até hoje…


Os Beatles foram possivelmente o grupo que mais marcou a minha vida. E mesmo hoje em dia, muitas vezes sou trazido de volta à longa e ventosa estrada que me leva até à sua (deles) porta.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Quando a política apetece…

Nos últimos anos, alguns amigos de longa data, apanhados naquela curva da vida em que se olha para trás e se percebe que o caminho já vai a meio, têm abraçado a causa budista. Um desses, leitor ocasional deste blogue, costuma zurzir-me pela pouca introspecção e espiritualidade dos meus textos, muito dirigidos, segundo ele, para questões pouco nobres de sociedade ou de política. A porca da política…

Qual não foi pois o meu espanto quando ao entrar ontem no “website” da União Budista Portuguesa (UBP) me deparo com uma proposta para subscrever abaixo-assinados para pressionar o governo da Birmânia a respeitar os direitos humanos. Não me pude impedir de sorrir. Afinal, a política é a continuação da espiritualidade, só que por outros meios.

Obviamente, este súbito despertar activista não surge por acaso. Ocorre no momento em que a junta militar que manda naquele país esmagou à pancada um levantamento popular no qual o clero budista teve um papel extremamente relevante. De repente, a vítima ficou mais próxima: já não é o palestiniano que implora a passagem de uma ambulância num “check point” ou a mulher nicaraguense que morre de gravidez ectópica por proibição do aborto clínico ou o trabalhador nova-iorquino que teve o azar de pegar às oito no World Trade Center, a onze de Setembro. Agora, a vítima usava túnica vermelha e laranja e a cabeça rapada e por isso, para grandes males, grandes remédios: abaixo-assinado!

Pode-se fazer política de muitas maneiras: fazendo, não fazendo ou fazendo às vezes. Todas querem dizer qualquer coisa. Fazer às vezes quer dizer que só se faz nas vezes em que vale a pena. E se nessas vezes vale a pena, é porque um valor mais alto se levanta, um valor que justifica a acção. Esse valor, neste caso, é a liberdade ou a vida de um monge budista. Que, de acordo com esta lógica, será superior a outros valores, de mais baixa relevância, como sejam – por exemplo – a liberdade ou a vida de um camponês checheno, que não mereceram ser a excepção que faz com que valha a pena ter uma reflexão política e iniciar um abaixo-assinado.

Evidentemente, todos tendemos a ser mais activos quando a causa da indignação nos toca a nós, ou é geográfica ou afectivamente mais chegada. Não é esse reflexo que aqui se critica. O que se critica é a selectiva mudança de postura: passar de uma posição em que a reflexão sobre os males e os bens da nossa sociedade não merece uma descida dos Himalaias espirituais em que serenamente se procuram as verdades derradeiras para outra em que toca a sacar da esferográfica que estão a dar de “casse-tête” nos monges. De repente, descobrimos aqui uns fulanos que já não têm que suportar passivamente as consequências do seu “karma”. E esta mudança selectiva traz consigo um significado político subliminar mas óbvio: existem seres de primeira e seres de segunda. E daqui poderíamos desenvolver uma longa conversa, que nos levaria muito longe.

Outro comentário que me ocorre é que é de mau tom, já que se está a iniciar uma acção política, começar logo com uma hipocrisia digna da mais baixa politiquice, ao nível do pior que ocorre nas secções concelhias dos partidos do poder. O “slogan” escolhido pela UBP é “Ontem Timor, hoje Myanmar, Tibete, Darfur… – Solidariedade!”. Salta à evidência que Timor e Darfur estão ali como as bolas da anedota do pau de fósforo: só para disfarçar. O que interessa à UBP, e não poderia haver posição mais política do que esta, é o Tibete e Myanmar. Myanmar pelas razões que acima se disseram e o Tibete porque o líder espiritual budista coincide com o líder político tibetano no exílio, na pessoa do Dalai-lama. Dizer que a questão do Tibete é de hoje é esquecer que a invasão pela China foi em 1950 e que o grande granel foi entre essa data e os anos sessenta, em que os tibetanos sofreram tal como os próprios chineses os massacres e loucuras do regime maoísta. Assim sendo, é tão de hoje como a da Palestina, a dos lagos africanos, a de Chipre ou outras que se arrastam há tempo demais.

Quanto a Timor, só faz parte do “slogan” porque faz apelo ao imaginário do maior movimento de solidariedade internacionalista que se verificou em Portugal e o Darfur porque é – ou devia ser – a grande causa humanitária dos dias de hoje. Se a preocupação com o Darfur existia, porquê só agora? A guerra civil sudanesa leva mais de duas décadas e a tragédia humanitária está no auge há anos. Onde tem andado a UBP? Usar as “marcas” Timor e Darfur só para compor o ramalhete é indigno de um movimento que se propõe reflectir sobre o Homem e uma falta de respeito para com aqueles que, naqueles dois sítios esquecidos dos deuses, sofreram a opressão, a guerra e a fome.

Tudo o que disse não tem nada a ver com a admiração que me merecem os birmaneses, monges ou simples gente do povo, que afrontaram o regime nas ruas e o asco que me inspiram os militares da junta. A Birmânia, rica de recursos naturais (gás, petróleo, madeira) tem indicadores de desenvolvimento miseráveis – como um PIB per capita próximo do de Moçambique – que envergonham os seus responsáveis sobretudo em comparação com os de alguns países vizinhos, como a Tailândia ou a Malásia. Por outro lado, e talvez isto explique algumas coisas, possui, relativamente à sua população, o quarto maior exército da Ásia oriental e meridional, só atrás das duas Coreias e de Taiwan.

Infelizmente, e com toda a probabilidade, a junta militar vai continuar. A situação geopolítica é-lhe favorável. A China e a Rússia não permitirão grandes sanções por parte do concerto das nações, os países vizinhos não querem instabilidade e querem o seu gás natural e muitas companhias ocidentais têm lá boas perspectivas de negócio. Se souberem fazer o trabalho sujo com discrição e mantiverem meia dúzia de conversas com a oposição só para parecer que sim, os militares já passaram mais esta crise.



Entretanto, ficaram os presos e os mortos. No passado dia 4, um movimento na “blogosfera” preconizava que todos os blogues do mundo apresentassem um “post” de protesto em solidariedade com as vítimas do regime birmanês. Não soube na altura e vou agora fazê-lo com uma semana de atraso, tempo que não envergonharia nenhuma empresa portuguesa que tivesse que cumprir um prazo. Como homenagem às pessoas que sofrem às mãos de outras pessoas, independentemente de me serem próximas ou distantes.

terça-feira, outubro 09, 2007

A serpente

O Público de hoje relata a insurgência de uma tal Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN) contra um folheto antidroga distribuído pelo Instituto da Droga e Toxidependência. O folheto dirige-se a jovens adultos, foi distribuído em discotecas e festivais de “rock” de verão e contém uma linguagem muito explícita como seja alertando para “não partilhar tubos para snifar” ou o que fazer para, no caso de ocorrer ainda assim consumo, diminuir os riscos de vida dos consumidores.

O presidente da APFN, um tal Ribeiro e Castro, utiliza com galhardia o portentoso vocábulo “horrorosa” para atacar a dita campanha. Não sei porquê, cheirou-me a linha de Cascais e a mofo de sacristia e decidi ir ao “site” da APFN saber quem eram estas luminárias, guardiãs da moral pública.

Logo nos estatutos, artigo 2º,1a, ficamos a saber que o fim da associação é o de “defender os legítimos interesses das famílias numerosas, constituídas a partir de uma base eminentemente afectiva e contratual, celebrada entre pessoas de sexo diferente, que de uma forma estável, duradoura e de acordo com os princípios do direito natural prossigam uma comunhão plena de vida”.

Os sublinhados são meus, os eufemismos são deles. Traduzida para português corrente, a finalidade da APFN é “defender os interesses dos casais católicos ortodoxos que pariram uma ranchada de filhos”.

Para mim, que considero o direito de associação algo de essencial numa democracia, encanta-me que os católicos proliferantes se associem para, no respeito da lei, defender os seus magnos interesses. É-me exactamente igual do que se forem os taxistas de praça, os electricistas da região centro ou os tuaregues emigrados em Monfortinho. Chateia-me já um bocado que escondam a sua essência e reais propósitos por trás de fraseados florais e meias palavras.

Só daquele artigo 2º,1a, retiram-se logo uma série de consequências que dão uma medida da extensão do disparate:

- as famílias numerosas que resultem de casais não convencionais (por exemplo, em união de facto) que vão procurar ajuda noutra freguesia: só podem ser sócios casais mesmo casados (estatutos, artigo 5º,2) ou afins;
- logo, os filhos fora destas santas condições de procriação são inferiores aos outros: tempos houve em que, no direito português, estas crianças – denominadas bastardas -tinham “de jure” menos direitos do que as outras, embora ocasionalmente fossem úteis para iniciar novas dinastias;
- o casamento é para a vida toda: não se divorciem, que deixam de merecer apoio;
- existe uma cena chamada “direito natural”: regras que resultam da própria essência da natureza e que por isso o homem no seu juízo crítico não pode alterar. Excelente ponto de partida para o fundamentalismo.

Para três linhas e meia de estatutos, já não é nada mau.

Se continuarmos pelos estatutos fora, encontramos outras pérolas, como: “defender a liberdade fundamental dos pais à educação dos seus filhos e destes escolherem, livremente, para eles, o modelo de ensino que pretendam, no respeito pelos valores essenciais da pessoa humana”. Aparentemente benemeritíssima, mas exactamente a argumentação que se utiliza para justificar a lavagem cerebral nas “madrassas”, o ensino de baboseiras criacionistas nas aulas de biologia no “corn belt” ou o obscurantismo na educação dos filhos posto em prática pelos Amish ou em muitas comunidades ciganas.

Penso que, como na maior parte das coisas da vida, um Estado democrático tem que se preocupar com um equilíbrio entre direitos igualmente honoráveis: o direito dos pais educarem os seus filhos como acharem que é mais proveitoso ao seu desenvolvimento e de transmitirem aos filhos valores que perfilham, com o direito dos filhos a serem minimamente informados para a vida e, no limite, a serem protegidos de pais que apenas se preocupem com eles próprios.

Noutra entrada do “site”, passamos aos princípios da APFN. Estes princípios conseguem ser piores que os fins: tal como no “slogan” gonçalvista, o fascismo espreita a cada esquina.

Vejamos alguns. “A Família é a primeira comunidade natural da sociedade, anterior ao próprio Estado, pelo que este deve estar ao serviço da Família”. Lido de outra forma: “se formos nós a mandar, as nossas regras serão as que se aplicarão a todos, porque são as únicas que são verdadeiras”. Poderei deduzir que quem pisar o risco será queimado vivo no meio da Praça do Comércio? Ou esta: “as famílias constituídas de forma estável e equilibrada são a melhor prevenção e antídoto natural contra a droga, violência, marginalidade e outras disfunções da sociedade”. Lido bem lido, o que isto quer dizer é que a fonte de todo o mal está nas pessoas que praticam uma vida ou uma moral diferentes da correcta (obviamente aquela que a APFN defende). Desta habilidade, a APFN pretende que resulte legitimidade política para proibir comportamentos que ache incorrectos. Ou ainda: “os valores sobre os quais assentam as sociedade – respeito, tolerância, amor, solidariedade, justiça, verdade, liberdade e responsabilidade – aprendem-se, sobretudo, na Família, pelo exemplo e pela educação”. Obviamente a família (com efe minúsculo) é uma estrutura básica de organização social e uma ferramenta poderosa de formação, inclusive em bons valores, se os pais assim se esforçarem. Mas não é nenhuma garantia. E já agora, porque é que a família tem que ser numerosa? Se os filhos forem só dois já não se transmitem sólidas convicções?

Como cereja em cima do bolo, no final dos estatutos temos a lista dos sócios fundadores da APFN, de manifesto interesse sociológico. Parece um texto anterior à reforma ortográfica de 1911: é só hífenes, tê-agás, consoantes dobradas, ípsilones e apóstrofes. Há Palmeirins e Themudos, Lynces que não da Malcata e D’Oreys, todos sob o olhar protector de alguns espíritos santos.

A meu ver, o Estado deve ajudar as famílias numerosas, dentro do apoio que deve genericamente prestar à Família (não confundir este efe maiúsculo com aquele que a APFN inapropriadamente usa) e à Criança. Se os cidadãos se associarem para prosseguir os mesmos fins, poderá fazer sentido que o Estado os apoie, com meios financeiros ou físicos. Mas esta APFN está-se nas tintas para as famílias numerosas, até porque não se destina a todas. É essencialmente um instrumento de promoção de uma ideologia, por acaso até retrógrada, com uma base social bem definida e restrita, que se julga representante de uma verdade incontestável porque divina e se arvora no direito de falar por todos. Por isto, espero que a APFN não receba um tostão dos meus impostos, senão ficaria danado.



O fundamentalismo cristão parece por vezes coisa do passado. Mas anda aí muito menino que lê os Evangelhos como os wahabitas leram o Corão ou os bolcheviques leram Marx: sem critério e sem juízo. O fundamentalismo cristão está em crescendo no mundo e só não controla a maior potência mundial porque nos Estados Unidos há separação de poderes. E a História demonstra que isto é deveras preocupante. Qualquer livro de História. A de Portugal serve.

A APFN representa em Portugal uma face enganosa deste fundamentalismo cristão. Admito que muitos dos sócios – perdoai-lhes Senhor – nem saibam a quantas andam e achem só aquilo muita giro. Mas grandes calamidades começaram no passado com grupinhos e grupelhos tão anódinos quanto este. Por acaso, eu, que sou pai e casado pela Igreja de papel passado, se me aplicasse um bocadinho até poderia em menos de um ano candidatar-me a sócio da APFN. Mas Deus me livre de tal cãzoada.

domingo, setembro 30, 2007

Sensibilidade e bom senso

Há dias em que leio o jornal e concluo que, ou sou eu que sou estúpido, com um entendimento débil das realidades profundas desta vida, ou serão outros que não eu.

O caso conta-se em poucas linhas: uma mãe entregou a filha de poucos meses para adopção a um casal sem filhos; este criou-a como se a criança fosse sua, aparentemente com todos os desvelos; o pai, que inicialmente nem quisera saber da filha, apareceu posteriormente a pedir a guarda da criança; o processo de adopção fora irregular; os tribunais sentenciaram – e reconfirmaram agora – que aquela criança, já com cinco anos, deve mudar para uma casa que desconhece, com pais que não sabe quem são e que não reconhece como pais, vide com um nome que não é o dela. Acresce que existem dúvidas algo fundadas sobre a capacidade do pai dito biológico garantir as responsabilidades da paternidade.

Provavelmente por eu ser estúpido, consigo imaginar o terror que viverá aquela criança, no dia em que for arrancada à sua vida para ser enterrada noutra, por ordem do douto juiz, por muitos peluches que tenha à chegada ao novo quarto.

Tenho lido e ouvido advogados e juízes a justificar em abstracto a bondade da decisão. Que não pode ser permitido que, no limite, A rapte o filho de B, o eduque como seu, e que B não possa recuperar seu filho e A não seja punido. Entendo, mas parece-me estar longe de ser o que aconteceu neste caso.

Tenho também lido e ouvido pediatras e psicólogos indignando-se com o caso, certos dos traumas que esta criança vai sofrer. Concordo, e julgo que nem será preciso um canudo em ciências médicas para chegar a essa conclusão.

Ninguém está acima da Lei, nem sequer as leis. Muito menos os juízes. Na minha estúpida perspectiva, a Lei deveria proteger direitos fundamentais, entre os quais o direito à vida e à personalidade. A vida daquela criança começou de uma forma estranha e irregular à luz das leis do burgo, mas tal não dá legitimidade ao Estado para determinar o rasgo daquela personalidade, como se de um documento caduco se tratasse. Admito que haja complexidades, ou culpas a expiar, mas quando a coisa envolve direitos de uma criança devem ser usadas pinças e não o martelo judicial.



A última decisão do tribunal fala inclusive de um período de transição, com detalhes escabrosos dignos do procedimento de arranque de uma máquina, dividindo a miúda no tempo e no espaço entre pais antigos e novos, como se de uma decisão salomónica se tratasse. Só que a história do Livro dos Reis não fala sobre os rigores da lei, antes relata o bom senso de Salomão. E bom senso não me parece que abunde no julgamento deste caso.

Eu, que não tenho as luzes que iluminam os meritíssimos, vejo com vantagem a reformulação do curso superior de magistratura, de modo a que o seu currículo se componha das seguintes cadeiras: Introdução ao bom senso; Teoria do bom senso I e II; Práticas de bom senso; Bom senso aplicado ao direito; Noções básicas de sensibilidade; Estágio final de bom senso; Seminário de modéstia. Para corpo docente, arranjem as primeiras pessoas que passarem na rua. Pior não pode ser, de certeza absoluta.

Um sistema judicial independente e respeitado é um dos pilares de um regime democrático. Para que funcione, tem que ter os meios que infelizmente não tem, situação que faz com que de facto a justiça em Portugal seja hoje um obstáculo ao desenvolvimento e um peso no erário. Para que seja respeitado, acima da beca e dos estrados altos, necessita de juízes que se preocupem mais com a defesa dos Direitos cuja garantia faz da Democracia o regime potencialmente diferente, do que com a letra e a pretensa consistência interna do cafarnaum de leis que, por preguiça, herdámos de sucessivas camadas de legisladores.

Até lá, a democracia será apenas mais uma conversa de café.

sábado, setembro 29, 2007

Quem sabe, não esquece

If we share this nightmare
Then we can dream
Spiritus mundi.

The Police, in "Synchronicity I"


Quarta, vinte e sete anos depois de os ter visto quase de esguelha na cabeceira norte do estádio do Belém, revi os Police no Jamor. Já tinha algumas memórias vívidas das minhas idas ao Estádio Nacional: um golo de mais de cinquenta metros do Artur, julgo que contra a Noruega, que passou rasteirinho por toda a equipa adversária, todos naquela de “alguém há-de lhe pegar” ou, noutro jogo, o burburinho na cabeceira oposta após um atrasado mental ter largado não longe de mim um foguete que atravessou o campo para matar um espectador, gesto que eu não vi por estar a olhar para cima, a amaldiçoar os céus pelo golo injusto e certamente irregular que deu a taça ao Benfica. Junto agora a essas lembranças um espectáculo de arregalar olho e orelha, que me fez dar por bem empregue a nota preta que larguei pelo bilhete e a hora e meia de bicha na A5.

Quando cá vieram pela primeira vez, os Police eram “primus inter uma data de pares” da “new wave”, uns permanentes fazedores de sucessos, uns potenciais sucessores dos Beatles – na altura ainda se discutia a questão da sucessão. Estavam no auge da sua popularidade e o Restelo apinhou-se da juventude de 1980. Apesar de todas estas vantagens, o concerto foi sombrio e fracote, tanto quanto me lembro, e prejudicado por uma acústica menos do que mediana.

Agora, voltou a apinhar-se a juventude de 1980, que a juventude de 2007 trata carinhosamente por “os meus cotas”. No primeiro tinham ido no 27 da Carris, agora foram no 316 da BMW e quejandos. Trocaram as calças rotas no joelho e os “badges” de lapela por um “smart casual” ou mesmo pelo fato e gravata, para os que não puderam ir a casa. E o concerto foi dos maiores. Verdade se diga, em palco não estiveram apenas músicos e músicas, estiveram sobretudo lembranças vivas dos melhores anos das nossas vidas. Mas, mesmo descontando esta preciosa vantagem, o concerto continuou a ser dos maiores.

Vistos nos ecrãs gigantes, os polícias espelhavam o tempo que passa: as madeixas tornaram-se cãs, o Sting escanzelou, Andy Summers ostenta agora tripla papada e o Stewart Copeland precisa de óculinhos para distinguir a tarola. Isso não os impediu de vergar quase duas horas. Usaram de bom senso e alinharam todos os sucessos, mas deram-se liberdade para os modificar, misturar e reinventar. Transformaram “reggae” em “quase metal” e “pop” em “novo pop” ou “jazz”. Excelentes, as versões de “When the world is running down” e “Bring on the night”. Vibrantes de pedalada, “Next to you” e “So lonely”. Tocantes como sempre, “Invisible sun” e, claro, “Roxanne”. O palco, envolvido por sistemas luminosos que possibilitavam originais e soberbos efeitos visuais, dava espectáculo dentro do espectáculo, e era como se o grupo estivesse a actuar dentro de um Pollock ou de um Mondrian.

Conhecidos por se darem pessoalmente muito mal, os três membros da banda completam-se como os três dedos da mão de um tipo que tenha perdido dois dedos. Sting traz carisma, pelo falsete peculiar da voz, pela presença apessoada, pelas causas e outras tangas. Summers contribui com profissionalismo. Com mais liberdade para solar do que há vinte e sete anos, Andy teve excelentes sequências de boa guitarrada, mas falta-lhe sempre aquele golpe de asa. Nunca será um Alvin Lee ou um Rory Gallagher, mas para o efeito não precisa. Porque Steward Copeland traz a componente de génio do grupo.

Copeland pertence a uma espécie em vias de extinção, que devia ser protegida pelo WWF tal como o panda das estepes, a catatua do Nilo ou a águia rosa: é um baterista! Não é um sintetizador, não é uma caixa de ritmos, não brinca com uns batuques: é um baterista. Um grande baterista. Senta-se no banquinho e desenha ritmos, encaixa-os nos interstícios da harmonia com a perícia do artesão e a volubilidade do louco. Bate à bruta quando se pede força e afaga quando se quer meiguice. Às vezes repete, às vezes varia. Traz à música e à mente aquela componente nascida e esquecida num passado seminal, órfica, emotiva, que nos induz comportamentos superiormente irracionais e humaníssimos como a dança e o canto.

Saído do Jamor, dei comigo com dois pensamentos sucessivos: “já não há grupos assim”, seguido de “isto é pensamento de velho”. Não sei. Tenho a imodéstia de não me achar excessivamente faccioso. Obviamente a “new wave” é a música da minha memória, que animou as primeiras festas e embalou os primeiros beijos. Beneficiará sempre de um estatuto especial, de saudade e condescendência. Mas procuro ir ouvindo outras coisas, futuras e passadas. E quando gosto, gosto. Só descobri os Nirvana há dois ou três anos, já o Kurt Cobain estava morto e enterrado. Comprei o “Nevermind” para matar a curiosidade. Ouvido e rendido, não tive dúvidas que estava diante de um melhores álbuns de sempre do “rock”, com uma energia telúrica que é a essência do género, com um negrume cantado que retrata o espírito de uma época. Noutra ocasião, fiquei de lágrima ao canto do olho ao ouvir um fado de um José Pracana, numa colectânea de canções com mais de cinquenta anos, que vinha de brinde num jornal! Um tipo de quem nunca ouvira falar, que tive que andar a perguntar à paternidade se sabia quem era, um tipo de um passado antepassado, recuperado digitalmente para me cantar a tristeza da vida e me deixar enfiado.

Por isto, repito, quando gosto, gosto, sem data marcada. Mas não posso deixar de pensar que a malta anda presentemente pouco empenhada a criar e pouco exigente a ouvir. Na geração dos Police, uma das mais férteis da história do “rock”, houve muita gente diferente a querer contar coisas diferentes de maneiras diferentes. Os Clash falavam de política, os Stranglers do lado negro da sociedade, a Patti Smith das dores da vida, os Police de tudo um pouco. Estes e outros procuravam chegar ao lado bê dos LPs sem ter que encher chouriços e conseguiam-no com uma dúzia de boas canções, para abanar a carola ou simplesmente para estar sentado no chão a ouvir. Aliás, hoje, na era do CD, quando ouvimos os “bonus tracks” que as reedições recuperam, canções gravadas em fitas esquecidas que na altura não foram publicadas, percebemos porque não o foram. Não é porque ocupassem espaço. É porque não mereciam e os seus autores tinham, para além de talento, vergonha na cara e respeito para com o público.

Não vejo muitos “Polices” de vinte anos e pergunto-me quem conseguirá encher os estádios de 2037. O Boss AC? Os Linkin Park? Não me parece.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Chinesices

À Dra. Maria José Nogueira Pinto, conhecida no abafado meio político nacional pelo “petit nom” de Zézinha, deu-lhe uma de “arbeit macht frei” e vai de propor arrebanhar as lojas chinesas de Lisboa e pô-las todas num “Chinatown”. Tudo por via administrativa.

Fiquei de olhos em bico.

Quando os chineses decidem ir todos morar para o mesmo sítio, forma-se um bairro chinês. Quando os chineses (ou os uruguaios, ou os minhotos) são obrigados por um Estado a morar no mesmo sítio, a coisa chama-se um gueto.

Embora a Zézinha tenha a atenuante de partilhar as noites com um dos expoentes do “soft”-salazarismo português, correndo o risco de apanhar ideias estranhas por osmose, surpreende-me ainda assim a extensão da asneira. Que a Zézinha, que sempre foi de algum modo funcionária pública, ache que o Estado tem o direito de obrigar as pessoas a abrir as suas lojas onde ele acha melhor, ainda percebo. Isto, apesar de ela militar por um partido teoricamente de um liberalismo todo “escola de Chicago”. Que a Zézinha ache que essa obrigação possa derivar de um factor étnico, e que não compreenda que isso é racismo no seu pior, já me custa a crer, na minha santa ingenuidade.


A aversão ao estrangeiro, ao outro que nos rouba o pão, continuará a fazer mossa por aí, apesar das teses contrárias dos economistas teóricos e das estatísticas contrárias do Instituto Nacional de Estatística. Atente-se na Zézinha, que deixa escapar dislates daquele calibre enquanto vai reconhecendo o jeito que lhe dá comprar pilhas AA e lenços de papel na loja do Sr. Chang, provavelmente sem se dar à antipática maçada de pedir factura.

Tucídides relata um elogio da Democracia que Péricles pronunciou durante uma cerimónia fúnebre aos mortos da Guerra do Peloponeso. É um texto que deveria ser lido todos os dias em voz alta na Assembleia da República, nas autarquias, nos restaurantes da Rua de S.Bento e noutros locais de reunião da nossa paupérrima classe política, a ver se encornavam alguns valores básicos.

Nesse elogio, entre muitas outras coisas, diz Péricles sobre os estrangeiros em Atenas: “Somos também superiores aos nossos adversários na nossa preparação para a guerra no seguinte aspecto: mantemos nossa cidade aberta a toda a gente e nunca, por actos discriminatórios, impedimos alguém de conhecer e ver qualquer coisa que, não estando oculta, possa ser vista por um inimigo e ser-lhe útil. A nossa confiança baseia-se menos em preparativos e estratagemas do que na nossa bravura no momento da acção.”

A Democracia baseia-se em cidades abertas a todos, não em mundos fechados. Que faria Péricles no lugar da Zézinha? Provavelmente exigiria meramente das lojas chinesas que cumprissem as leis da República relativas à sua actividade, e nunca entraria em tontices baseadas na cor da pele ou no ângulo de fecho das pálpebras. Mas por isso é que Péricles ficou para a História, enquanto a Zézinha se ficará pela histeria.

sexta-feira, setembro 07, 2007

A Instituição

Em qualquer domínio da existência humana, há sempre um grupo de artistas que se acha eleito por Deus e ungido de uma divina – e logo inatacável – verdade. Entre os povos, o israelita. Entre as classes profissionais, a dos jornalistas. Entre os adeptos de futebol, os benfiquistas.

Os adeptos dos outros clubes têm paixão, exultam na vitória e sofrem na derrota, mas lá no íntimo percebem que tudo não passa de um jogo, ou de um negócio, cujos sucessos e fracassos estão mais dependentes da rajada de vento que desvia para a barra um golo que parecia certo ou então da simpatia ou animosidade, mais ou menos inconscientes, do árbitro da partida do que de qualquer intervenção em seu favor de poderes celestes ou infernais.

O benfiquista, ao contrário, tem fé. Crê que aquele nome de bairro da periferia lisboeta e aquelas camisolas vermelhas, iguais às de milhares de outros clubes mundiais, ganham só por si partidas de futebol. Crê que a história se repete e que o Coluna e o Simões ainda jogam. Crê – sem se rir! – que o Benfica é da igualha do Real Madrid ou do Milan. Crê na multiplicação dos adeptos, tentando resolver o buraco financeiro com a técnica milagreira que Cristo usou nas bodas de Canã. Crê que o tamanho do rebanho chega aos seis milhões. Crê que a vitória, como o Céu, lhe é devida pela fé que tem. Só não crê naquilo que vê quando a equipa está em campo.

Com crença tão fervente, o comportamento do “homo benfiquis” releva mais da antropologia religiosa do que da psicologia de massas. As associações à terminologia e à orgânica das religiões são evidentes. O benfiquista não se desloca ao estádio, vai à “catedral”, para mais da “Luz”. O benfiquista acha que o seu clube, tal como Deus nosso senhor, é “glorioso”, mesmo nas mais tristes figuras. O benfiquista não espera que os dirigentes componham uma equipa de futebol, antes deseja um “salvador”, que opere o “milagre” de ganhar jogos sozinho, como o Santo Eusébio fazia. O benfiquista tem ouvidos para “pregadores” hirsutos e desgrenhados, “santificados” pelo seu reconhecido benfiquismo, sendo normal ver senhores engravatados a aplaudir de pé, nas assembleias-gerais, enquanto o inapresentável Barbas, de cachecol ao cachaço e táxi á porta, grita as maiores cavalidades contra o candidato da oposição. Finalmente, o benfiquista julga que o clube é “imortal”, por muitas tropelias que a Direcção cometa para arrebentar com a solvabilidade da SAD.


Quando a realidade dos resultados se incompatibiliza com as certezas da fé cega, acontecem eventos místicos. No início desta temporada, enquanto os adversários vendiam muito caro alguns jovens promissores para depois reforçar barato as suas equipas, reduzindo dívida que nem formigas, a cigarra Benfica começou por comprar à toa, depois teve que vender à toa as jóias da coroa, depois aleijaram-se uma série deles, depois foram vestidos de cor-de-rosa jogar contra o Leixões e empataram. Tal foi o suficiente para que a congregação lampiona realizasse logo um “auto-da-fé”, imolando o treinador nas chamas de uma rescisão de contrato, pela qual pagaram, aliás, uma bela maquia como clube rico que julgam ser. Afastado o “diabólico” elemento, vai de contratar outro treinador, um espanhol que, não sendo homem de resultados passados (esteve dois anos no Benfica sem ganhar o campeonato, esteve vinte dias no Real Madrid até a sua forte personalidade perceber que os jogadores não o queriam lá, estava há anos sem clube que lhe pegasse), promete resultados futuros com ar porcino e pronúncia manchega. Em consequência, sete mil seguidores apressaram-se a demandar uns abarracamentos que o clube tem no Seixal para assistir à torreira do sol a um treino, pasme-se, em grande manifestação de fé clubística, numa romaria masoquista que lembra a procissão das chagas nas Filipinas. Ao menos esses flagelam-se com um cilício, ganhando em eficácia o que perdem em ridículo.

Como pastor de tão iluminado rebanho (um posto de alto risco, que dá por vezes prisão no fim do mandato), brilha agora um senhor com um bigode que não se acredita e umas orelhas que são um milagre. Se o visual é de ícone, o discurso, esse, é de salmo, tecendo loas miríficas às grandezas da Instituição, como ele apelida com pompa bigoduda ao grémio que superiormente dirige. Quando soe tocar a trompa, não caem as muralhas de Jericó mas esboroam-se as frágeis ligações que seguram as palavras umas às outras, também conhecidas por regras da gramática, e sai para o microfone qualquer coisa a meio caminho entre a onomatopeia e a frase, entre o galego e o dialecto da Alverca, num discurso revelador de milagres que só os iniciados compreendem (do tipo “o Mantorras vale dezoito milhões de contos”) e de que os cépticos riem a bom rir, rebolando pelo chão e limpando as lágrimas com lenços verdes ou azuis.

Neste momento, benfiquista que se tenha posto a ler este texto deve estar certamente em brasa, com pensamentos de arrebanhar esbirros para queimar em santificadora fogueira o herético autor destas linhas mais a sua prosápia diabólica. Talvez valha a pena por isso contribuir com alguma verdade histórica para um acto de contrição e humildade desse amigo lampião ou, dito em português corrente, para um saudável abaixar de garimpa.

Na génese da Instituição está um grupo de rapazolas conhecido pelo “Grupo dos Catataus”, que em 1903 se juntavam para dar uns chutos num areal de Belém. Eu não teria grande orgulho em pertencer a um clube proveniente dos “catataus”, só pela sonoridade. E então se formos ver o sentido! Catatau é vocábulo que tem, no dicionário Houaiss, doze definições díspares, algumas perfeitamente deliciosas: “indivíduo muito baixinho, tampinha”; “besta grande e velha”; “falatório, mexerico, intriga”; “porção de qualquer coisa”; “pénis”. Nobres catataus! Todos nós temos um pénis na nossa origem, mas o Benfica pelos vistos tem vários.

Estes catataus juntaram-se em Fevereiro de 1904 a um outro grupo, de ex-alunos da Casa Pia – Olá! Olha quem eles são! – para fundar o Sport Lisboa. Foram provavelmente estes últimos que trouxeram a componente piedosa e crente que parece estar na massa do sangue benfiquista. O acto fundador teve lugar no restaurante “António das Caldeiradas”, nome que não podia ser mais premonitório do actual estado do clube. A primeira sede, aproveitando uma borla, foi numa farmácia, também em Belém: o “Laboratório Franco – Especialidades Farmacêuticas”. Compreende-se pois a tendência de alguns rapazes do plantel para recorrerem às tais especialidades quando as canetas falham e os adversários correm mais do que devem. Resulta do código genético do clube.

Finalmente, em 1908, o Sport Lisboa fundiu-se com um grupo de Benfica e deu origem ao Sport Lisboa e Benfica. Tinha nascido a Instituição. Curiosamente, numa caldeirada aritmética, o Benfica celebrou o seu centenário em 2004, com pompa e alarde. Encontro para este facto peculiar duas explicações plausíveis: a) o Benfica é tão superior que tem centúrias de noventa e seis anos; ou, mais provável, b) pediram ao Presidente Vieira para fazer as contas.

Amigos benfiquistas! Quem sou eu para vos pedir que reneguem a vossa fé? Afinal eu acredito ferozmente no direito à liberdade religiosa, por isso cada um que acredite no que quiser, por mais incrível que pareça aos outros, nem que seja que o Petit pode ir a uma bola sem fazer falta. Mais: até tenho uma certa ternura por vocês. Agora lembrem-se de uma coisa: o último livro dos Evangelhos é o Apocalipse.

terça-feira, setembro 04, 2007

Croxeth

Durante o período de férias de Verão, uma criança de onze anos foi assassinada em Liverpool com um tiro no pescoço quando regressava a casa de um treino de futebol, guiando a sua bicicleta. Possivelmente foi morta por engano por miúdos pouco mais velhos do que ela, pertencentes a gangues locais. Tenho um filho com onze anos, que também treina futebol, e portanto senti esta dor de uma forma muito minha.

Sobre este crime, a imprensa inglesa deu enfoque, e a portuguesa reproduziu, a dois factos: ao de ser a enésima vítima menor de violência de rua em Inglaterra, este ano, e ao de o rapaz morto morar em Croxeth, o bairro de onde é originário o jogador Wayne Rooney.

Ao enfatizar este último aspecto, a imprensa acaba por estar a escrever nas entrelinhas. Sabe-se ser este um dos mais perigosos (ou, como se diz hoje em dia, “problemáticos”) bairros de Liverpool. Ao referir Croxeth como o fizeram, os jornais estão a adiantar – admito que inconscientemente – um elemento de algum modo explicativo: embora certamente lamentável, parecerá ao leitor mais compreensível que se apanhe com um tiro em Croxeth do que num bairro pipi de Liverpool, exactamente pelo mesmo mecanismo que nos parece uma fatalidade que se pise uma mina em Angola e veríamos com escândalo que tal acontecesse na Avenida da Liberdade.

O mundo não é perfeito, mas que o Reino Unido, uma das pátrias da liberdade ocidental, se resigne a que uma criança de Croxeth tenha mais probabilidade de morrer com um tiro do que outra que more no centro de Liverpool ou de Londres, parece-me imperfeição excessiva e desnecessária. Convém que, tal como os restantes mamíferos superiores, e de modo a merecer o adjectivo, nos organizemos para proteger as nossas crias, morem elas em Croxeth ou em Mayfair.

Isto implica um tipo de organização, começada há milhares de anos na Suméria, em que uma entidade representante dos interesses colectivos recolhe fundos – impostos – para satisfazer esses interesses, sejam eles segurança, água potável ou a redução dos riscos desta vida. Essa entidade, com o nome hoje pejorativo de “Estado”, foi-se refinando ao longo da História, ganhando, nalguns casos de sucesso, em eficiência, em representatividade e em equilíbrio na sua relação com cada indivíduo.

Para satisfazer níveis de protecção que garantam igualdade de oportunidades a todas as crianças (incluindo as de Croxeth), o tal Estado precisa de meios policiais, administrativos e judiciais adequados às exigências de cada momento. Precisa também de promover meios económicos e educacionais que reduzam desigualdades e criem perspectivas. Não tenho a certeza que os Estados escanzelados, financeiramente asfixiados e sem capacidade crítica sobre as malandrices que lhes fazem outros mais espertos do que eles, que nos propõe a “conventional wisdom” actual da política económica e dos “pivots” de têvê, tenham as ferramentas necessárias para cumprir a missão referida.

Ao fim e ao cabo, todos os livros de teoria política podem ser arrumados em apenas duas estantes: a que diz “Lei do mais forte” e a que diz “Primado da Lei”.

Convém pensar um bocadinho de que prateleira queremos tirar o nosso manual de boas práticas, para depois não nos queixarmos.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último pôr-do-sol de Agosto nos Aivados

Dedicado aos que lá estavam


Caso para dizer: fabuloso ocaso!

A maré prostrou-se, em homenagem
E os seixos e a rocha
Subitamente emersos
Entre murmúrios diversos
Respiram de modo cavo
E nem uma brisa (ou aragem)
Perturba o olhar, escravo
Do horizonte em tocha

Lenta, contra o céu de anil,
A silhueta do pescador de ondas
Carrega no braço seu batel
Nos olhos memórias frágeis
Enquanto sobre dunas redondas
Correm negras e ágeis
Pequenas sombras de papel
Em feitiços e risos mil

A Lua espreita impaciente
Gorda de dias, e luzidia
Não esperando que o Sol ponente
Dê oficialmente por findo o dia
No campo a sombra ainda tarda
Que o Sol partindo em glória
Para deixar melhor memória
Todo o brilho para si guarda

Talvez o raio de sol último
Nos traga esta incerta saudade
De outros fins de dia
Nestes sítios, noutra idade
Num tempo que já não volta
Em que preso em nós vivia
O amor agora livre e múltiplo
Que corre descalço à nossa volta

domingo, julho 22, 2007

Do rigor do texto


Perguntou-me um amigo se eu pensava usar de rigor nos meus textos do “Mataspeak”.

Respondi que sim, mas em bom rigor deveria primeiro ter tentado compreender rigorosamente de que rigor me falava o perguntante. O Dicionário Houaiss apresenta oito sentidos diferentes para o vocábulo. Entendo que aquele que melhor se aplicaria à pergunta seria “exactidão extremada; rectidão; precisão”. E neste caso a minha resposta afirmativa poderia ser, afinal, mentirosa. De exactidão extremada deverão preocupar-se os editores do “New England Journal of Medicine” e de precisão os fabricantes de cronómetros da “Tag-Heuer”, não eu ou o meu modesto blogue. Da rectidão, talvez já me interesse. Aliás, interpretei a questão que me fora posta no seguinte sentido: “escrevo para defender uma perspectiva, para estabelecer uma “verdade”, usando de seriedade?” Neste sentido, certamente restrito, penso ser rigoroso. Porque o exercício da escrita permite usar caminhos ínvios e na aparência incoerentes para chegar a uma compreensão das coisas, que por vezes não estão ao alcance de abordagens mais… euh… rigorosas. Deus escreve direito por linhas tortas e os homens às vezes também.

Associamos muitas vezes o rigor ao raciocínio dedutivo. Neste, de um conjunto de premissas retiramos uma conclusão que, no fundo, não traz mais informação do que a que já existia nas próprias premissas. Se eu pegar em duas frases que por alguma razão sei de fonte segura serem verdadeiras – por exemplo, “qualquer sportinguista é mais abonado do que qualquer benfiquista” e “eu sou sportinguista” – concluirei que sou mais abonado do que qualquer benfiquista, o que até parece razoavelmente evidente. A matemática funciona assim e por isso, por trás da sua aparente complexidade formal, reveste-se de uma enorme simplicidade: compõe-se de afirmações que se puxam umas às outras, de sucessivas verdades de La Palisse. Como temos que começar nalgum sítio, para servir de motor de arranque desta construção intelectual precisamos de umas verdades irrefutáveis, os axiomas, que irão servir de base a todas as outras. Algumas destas verdades básicas são evidentes na nossa óptica quotidiana, como por exemplo, estabelecer que um e zero não são iguais (com mais rigor, que os elementos neutros da adição e da multiplicação são diferentes). Outras, como a existência de um número imaginário que é igual à raiz quadrada de menos um, não fazem sentido físico nenhum mas permitem construir resultados práticos interessantes, como sejam sintonizar uma telefonia ou pôr as asas de um avião a levantar vôo.



Infelizmente, verdades irrefutáveis não andam para aí aos pontapés e por isso a maioria do nosso saber, mesmo em disciplinas tão insuspeitas como a física ou a medicina, obtém-se por um método dito indutivo, segundo o qual, em bom rigor, nunca temos bem a certeza absoluta de nada. Mas podemos pelo menos chegar a fundamentadas desconfianças – a que também chamaremos, ironicamente, “verdades”.

Como funciona o método indutivo? Vejamos! O tal amigo que me pôs a pergunta joga comigo e com outros colegas a jogos de batota. Por vezes, tem o mau gosto de ostentar uma mão com os trunfos quase todos, o que normalmente provoca nos outros jogadores reacções de desagrado e comentários a despropósito sobre a virtude de parentes próximos. Suponhamos que a primeira vez que tal aconteceu, os parceiros tenham pensado “este tipo tem um chouriço que não é normal”. Ora esta conclusão estaria a ser induzida por única ocorrência e portanto a probabilidade de estar certa seria bastante reduzida.

Se ao longo do tempo a situação se repetisse sistematicamente, para choro e ranger de dentes dos restantes jogadores, a hipótese do “chouriço não normal” poderia ir saindo reforçada, se nenhum outro facto a ela se opusesse. A certo momento, todos acabariam por aceitar como um dado adquirido possuir o meu amigo um “chouriço filha-da-mãe”. Nada garantiria a veracidade deste facto como uma certeza absoluta, apesar de a todos parecer que sim. A hipótese de ele gozar de uma sorte de predestinado teria meramente uma probabilidade elevada de ser verdade, a qual resultaria do grande número de ocorrências verificadas e de nada de evidente a ela se opor.

Agora, se um amigo desse amigo – eu, por exemplo – se desse ao trabalho de verificar o bloquinho onde estavam apontados os resultados dos últimos dois anos e concluísse que os tais “grandes chouriços” estavam contrabalançados por outras tantas derrotas, tão espectaculares como desonrosas, de tal modo que o resultado agregado fosse igual ou pior que o de qualquer outro jogador – eu, por dizer qualquer coisa – então a hipótese “da paia enorme” cairia por terra, varrida para sempre por um simples contra-exemplo. Haveria a partir daí que procurar uma outra explicação para o conjunto das duas observações (sorte aparente e resultados medíocres), como por exemplo “tem vaca mas joga com os pés” ou “faz um espalhafato de cada vez que tem um jogo imbatível, por isso nota-se mais”.

O facto de se proporem ideias sobre qualquer assunto a partir de um número reduzido de observações não revela por si só falta de rigor, se a coisa se fizer com seriedade intelectual. Assim nasce e se desenvolve grande parte do nosso conhecimento. Depois, a consolidação deste saber pode resultar da sua confirmação por uma abordagem intelectualmente honesta, estudiosa, sistemática, analítica, como a que tem o químico no seu laboratório ou o arqueólogo no seu buraco. Mas tal não é a única via. Existem outros mecanismos que, não usando do rigor no sentido da “exactidão extremada”, permitem com “rectidão” construir com “rigor” o conhecimento. Um destes mecanismos encontra-se na literatura.

Ocasionalmente, a arte e nomeadamente a literatura conseguem a surpresa de induzir em nós (ou de reforçar) a compreensão de factos ou fenómenos que o trabalho científico – dito rigoroso – só com dificuldade esclarece. Um bom livro, a vibração de um poema, uma tirada feliz, um sarcasmo ou mesmo um simples verso operam por vezes o milagre suave de acender luzes nas nossas vidas, permitindo que num momento de magia entendamos aquilo de que nem suspeitávamos, apesar de sempre ter estado sob os nossos olhos.

Um exemplo: sobre o nazismo escreveram-se já milhões de páginas, compilaram-se filmes e fotografias aos milhares, acumularam-se números e testemunhos inúmeros. Todo este manancial de reportagens e teses sempre me pareceu desaguar na mesma pergunta: como foi possível? Como aconteceu que um povo inteiro, para mais dos mais cultos da sua época, se deixasse enrolar por um bando de palhaços fardados liderados por um louco estrangeiro e conduzir de mansinho a colaborar, mais ou menos activamente, numa máquina de morte bárbara que os levou à ruína e à vergonha por muitas gerações? O conhecimento dos factos históricos ou a leitura de explicações ideológicas ou sociológicas ajudava-me a entrever uma parte da resposta, mas sempre de uma forma insatisfatória e incompleta, como se o tempo tivesse lançado uma penumbra sobre os acontecimentos e as razões profundas se tivessem perdido para sempre nalgum recanto escondido do passado.

Um dia, o meu pai ofereceu-me um livro que vira num alfarrabista, uma das suas leituras preferidas de juventude: “O obelisco preto”, de Erich Maria Remarque. Naquelas páginas dobradas, com marcas de outras leituras, descobri Ludwig Bodmer, empregado de uma agência funerária durante o período de hiperinflação da República de Weimar, e o pequeno mundo dos seus colegas, das suas golpadas, dos seus vizinhos de bairro, dos seus amigos e dos seus amores. No final de trezentas páginas de peripécias, de tipos castiços, de historietas do quotidiano carregadas de humor e ternura, tinha compreendido. A questão passara de “como foi possível?” para “isto tinha fatalmente que acontecer”. Ao longo do livro sente-se algo de latente, permeando o dia-a-dia daquela boa gente, algo que se vai adensando como uma névoa de início de noite, como um espectro que absorve a energia de que necessita das dificuldades, das pequenas frustrações, das incompreensões, das invejas, até das alegrias, das personagens, sugando-lhes a vida aos poucos, ganhando volume, aparecendo a espaços, preparando-se para se materializar na sua forma acabada: o nazismo. Este não surgiu pois do nada, misteriosamente. Cresceu no meio de todos sem se fazer notar e alimentou-se do pior que cada um tinha para lhe oferecer: o ressentimento, a cupidez, a brutalidade, a ignorância, a cobardia ou, meramente, a indiferença. Tudo características daninhas que continuam vivas e aos pulos no seio da humanidade, nos bairros como nas chancelarias. Por isso seria tonto cometer a imprudência de afirmar que o nazismo foi coisa de malucos dos anos trinta, que foi um acidente, que não volta a acontecer. Nada disso, como aliás a recente guerra da Jugoslávia o demonstrou. O nevoeiro continua por aí, convém estar atento.

A leitura certa pode funcionar como um muito poderoso indutor do conhecimento, que valha por longas horas de reflexão honesta ou de argumentação empenhada. Escrevi recentemente um “post” sobre a presunção de inocência. Melhor teria feito em recomendar a leitura de “Uma confidência de Maigret”, no qual o meu detective favorito relembra com amargura um caso que terminou na execução de um condenado de cuja culpa Maigret nunca esteve convencido. Para que se entenda a iniquidade da pena de morte, leia-se “O último dia de um condenado”, de Vítor Hugo. O melhor que há nas pessoas, podemos aprendê-lo na cena da noite na Ilha do Pico, após a caça ao cachalote, que Vitorino Nemésio nos deixou no “Mau tempo no canal”. O porquê de valer a pena, em “A Peste” de Camus. O ser português, em “A ilustre casa de Ramires”, do Eça. And so on…

Para terminar, como novo exemplo, transcrevo a seguinte passagem de “O hóspede de Job”, do José Cardoso Pires. Passa-se durante o Estado Novo, no Alentejo, e narra o momento em que uma velhota analfabeta, a Casimira Sota, desce da sua aldeia de Cimadas à vila para tentar ver a neta Floripes (a quem ela chama Nina), que a polícia levara presa por não querer delatar uns vizinhos:

“Misérias”, resumia a Casimira Sota, e perguntava lá no íntimo o que faria a sua neta entre tanto desgraçado.
Corria na vila que em breve a haviam de mudar para Lisboa, como aconteceu a Aleixo Serrador e outros, depois do levantamento de Ferreira.
“A Casimira das Cimadas bem pode dizer adeus à neta”, sentenciavam alguns.
“Ela que crie as mais novas, que aquela já não a vê criada”, entendiam outros.
A vila discutia e pasmava. “Jesus, Jesus”, murmurava a velha de Cimadas.
Agarrada à cesta da roupa e à bolsa das maçãs, ela vai agora pelo meio da praça, direita à cadeia. Vem gente às portas do comércio, os miúdos ficam quedos, muito atentos. Cala-se tudo a vê-la avançar. E ela, como se estivesse sozinha em plena praça, pousa a cesta no chão e segreda forte:
“Nina. Ó Nina.”
Ninguém. Insiste:
“Nina.”
Então faz-se o sol de repente. Floripes aparece às grades e, com ela, outros dois presos.
“Nina!”, grita a velha num salto de alegria.
Floripes sorri-lhe. E toda a praça, em silêncio, assiste à velha, cá em baixo, revolvida pelo choro, a sorrir e a acenar com a saquinha das maçãs.
“Ó Nina. Ó Nina. Ó Nina.”

Esta figura de velhinha que chora no meio da praça de simples amor pela sua neta, com a sacola das maçãs, sem entender bem o que se passa, sem se pronunciar sequer sobre a injustiça, indiferente aos olhares dos outros, diz mais sobre a miséria moral e o obscurantismo do salazarismo do que qualquer ensaio ou tese. Destrói mais a pequenez do cabrãozão do Salazar (com perdão da má palavra, mas há que usar de rigor) do que os mais inflamados panfletos escritos pelos mais encarniçados dos seus opositores. Portanto, uma excelente leitura para o nosso actual primeiro, que anda distraído, a ver se enxota a moscaria que lhe vareja à volta.

sábado, julho 14, 2007

Cenas ridículas (II): o canal noventa e tal

Imaginem que um realizador de cinema se propunha fazer um filme sobre um jogo de futebol. Que para actores seleccionava apenas russos de boa pinta e negros espadaúdos, algo diferentes dos futebolistas do nosso campeonato, estes mais do tipo morcão de Massarelos, de patilha graúda, ou favelado brasileiro, com fácies de assalto à mão armada. Que os perseguia pelo relvado com a câmara, dando-lhes instruções do tipo “chuta com força mas levanta bem a perna”, “finge que o derrubas”, “protesta com o árbitro e faz cara de gandulo”. Que, na proximidade da baliza, ordenava ao guarda-redes que se estirasse pelo chão mas de modo a não defender a bola, recomendando um esgar de frustração pelo tento sofrido. Que instruía os jogadores para se abraçarem a festejar o golo, repetindo três vezes a cena até o entusiasmo lhe parecer algo convincente.

Imaginem tal coisa e respondam: isto parecia-vos futebol? Não. Nada que tenha a ver com o Maradona, do baixo da sua barriguinha, a driblar seis talegas inglesas numa Aljubarrota de calções, para enfiar por uma nesga, em queda, o golo do século. Ou com a guarda angélica de um Maldini filho a segurar um zero-a-zero contra o escrete, em cinquenta cortes de carrinho sem uma única falta. Nada que se compare ao nervo miúdo de um “derby” em que o que se disputa é meramente o troféu do puro gozo da vitória sobre o adversário, inútil mas sublime. O futebol faz-se desta amálgama de arte e emoção. O tal filme meramente macaquearia algo na sua essência irreproduzível.

Vem isto a propósito da amável oferta promocional da TV Cabo, que com a nova “Power Box” me proporcionou o acesso nas noites de fim-de-semana a um canal noventa e tal que passa “hard porno”. Zapei e espreitei, me confesso, e o que vi está para “the real thing” como o filme que eu anedoticamente descrevi está para um Argentina-Holanda: não há comparação possível.



Nunca fui fã do género. Mesmo na puberdade, uma boa revista da especialidade talvez me induzisse mais sentimentos nobres que o visionamento duma película pornográfica. A única vez que paguei para ver na tela ocorreu durante uma visita de estudo “ad hoc” da secção masculina da minha aula do quarto ano do liceu, a qual decidiu por sua alta iniciativa completar o programa escolar de biologia, excessivamente enfocado na reprodução do pinheiro-bravo, com uma sessão contínua no cinema Olímpia, ali aos Restauradores.

Recordo que entrámos a meio do filme, assistimos ao “the end”, ao genérico de entrada e decidimos sair quando nos pareceu que já tínhamos visto aquela mesma parte, embora não tivéssemos a certeza. Durante todo o tempo, perto de nós, um velhote aparentemente fugido de um sarcófago varejava o ar com a bengala, incentivando com voz rouca e frases boçais os actores a aplicar-se com mais empenho sobre as actrizes, como se a cobóiada que fervia na tela lhe parecesse insuficiente. Saímos algo angustiados com o facto de a garantia de continuidade da espécie implicar aquelas habilidades um pouco circenses e algo patetas, nas quais não nos imaginávamos lá muito bem, mas ainda assim entusiasmados pelo facto de termos conseguido entrar numa sala de espectáculos para a qual tínhamos setenta por cento da idade necessária por lei.

Hoje, já tendo feito o meu número de pista para a continuidade da espécie, mais uns ensaios e ameaços, quando vejo o novo canal noventa e tal continuo a achar algo pateta, e explico porquê.

A) O enredo

O enredo base do filme “porno” compara em complexidade com o jogo do galo: senhora jeitosona, de saia curta e galochas de salto alto, troca olhar com cavalheiro musculado, funciona a química, chega ao pé, toca um solo de trompete remirando com olhar guloso e passam à continuidade da acção, normalmente em posição acrobática em cima de um balcão, de uma mesa de cozinha ou de outro lugar desconfortável que esteja à mão de semear.

Na maioria das vezes, por um azar dos Távoras, são surpreendidos em flagrante movimento harmónico simples por um amigo/amiga. Quando amigo, este, em vez de se retirar discretamente, junta-se à festa como quem quer a coisa, dando assim pleno cabimento à regra máxima do cinema pornográfico, que é a de que três é a conta que Deus fez. Quando amiga, esta finge que se vai embora escandalizada, mas não o suficientemente depressa para não ser convencida a ficar depois de reticências menores e duas ou três olhadelas furtivas para o equipamento do senhor.

Existem depois variantes, com marcianos, espiões, enfermeiras ou caixeiros-viajantes, mas basicamente não passa disto.

B) Os diálogos

Os diálogos lembram o monólogo do burro ibérico com fome, só que a duas vozes:

Ela: - Hin!
Ele: - Hon!
Ela: - Hiin!
Ele: - Hoon!
Ela: - Hiiin!
Ele: - Hooon!

E assim sucessivamente, em ritmo progressivamente acelerado. Até a cena inicial do “2001-odisseia no espaço” tem conversa de maior conteúdo.

C) Os actores

Pelo arzinho dos actores, os “castings” devem ser subcontratados à Carris, que angaria os artistas entre os passageiros da carreira nocturna 40 (Picheleira – Cais do Sodré). Em geral, o critério de selecção será a metragem, neles, e a volumetria, nelas. De molde a realçar os seus dotes de representação, passam todos com a “Epilady” dos pés até ao pescoço. Usam por norma pseudónimos inacreditáveis como “Ted Missile” ou “Mae Boobs”.


D) Os truques de realização

Todo o género tem os seus “clichés” e o porno não foge à regra. Um deles tenta atalhar uma dificuldade técnica básica: como filmar a ejaculação, cereja em cima do bolo de todo o processo? Porque neste caso, a cereja acontece dentro do bolo… Uma possibilidade passaria por usar uma fibra óptica, tipo canal Discovery, que descesse aos abismos para registar “in loco” tão espástico momento. Talvez fosse um pouco incómodo para os artistas.

Os realizadores resolveram o problema de outra maneira. Quando aquilo está quase-quase-quase, o mancebo retira-se de súbito e entra em modo manual, espalhando “urbi et orbi” a boa semente, muitas vezes também na fronha da parceira. Voltando à comparação com o futebol, seria como se, no culminar de uma grande jogada, com a baliza à mercê para o golo que vai fazer explodir cinquenta mil adrenalinas no estádio, o avançado estacasse de repente e se pusesse a dar toquezinhos sem deixar cair a bola no chão. Anti-clímax total…

Outro “cliché” curioso ocorreu após o advento da SIDA. Os grandes planos às partes móveis dos artistas passaram a mostrar à evidência o uso do profilático, não fosse haver algum azar mau grado a sólida formação moral dos actores. Esse preservativo desaparece normalmente antes da cena final, deixando o espectador na dúvida se houve um erro de montagem ou se se consumiu com a fricção (durante a montagem, diria eu).

E) Os realizadores

Se ouvirem uma entrevista a um realizador destas películas, irão constatar que ele acha que produz sétima arte, discursando sobre o “Branca de Neve e os sete matulões” como se de o “Couraçado Potemkine” se tratasse. Mas tal é a natureza humana. A Margarida Rebelo Pinto também pensa que os seus livros são parecidos com os do Tolstoi, só porque ambos são de papel com letras impressas e uma capa à volta.


Em suma, para quem se lembrar da física de liceu tem no “porno” uma aplicação típica do princípio de Heisenberg: a observação do fenómeno altera o próprio fenómeno. Tenta-se filmar sexo e a imagem que a câmara capta já não tem nada a ver com sexo, mas mais com uns pantomineiros aos pinotes.

Heisenberg pensava que o seu princípio só se aplicava a objectos muitíssimo pequenos, mas pelos vistos também funciona com outros razoavelmente grandes.

domingo, junho 24, 2007

A boa e a má tristezas

Tal como o colestrol e os raios ultra-violetas, também existe uma tristeza boa, que em doses apropriadas nos faz bem, e uma tristeza má, que quanto menos melhor.

A questão que se traz, suscitam-na recentes intervenções em blogues da vizinhança sobre o tema da felicidade. Nestes, enfrentavam-se no fundo duas visões da felicidade: uma correspondente a uma vivência globalmente positiva, outra a um estado ideal ao qual se acede pela eliminação de elementos negativos. Nesta última óptica, a tristeza, a dor moral, seriam sempre mais nefastas que a sua ausência. Penso convencidamente que tal nem sempre acontece.

Note-se que não haverá lugar aqui a nenhuma apologia romântica da tristeza. É melhor ser alegre do que ser triste, dizia o Vinicius de Moraes, provavelmente homenageando La Palisse de tão óbvio que soa. E claro que existem muitas tristezas duríssimas, que tornam muito difícil ou impossível atingir a felicidade, como a morte de um filho, ferida que nunca fecha e acontecimento que marca uma vida indelevelmente com um ferrete em brasa de infelicidade. Mas o que será falado serão outras tristezas, que nos transtornam os dias mas não a existência e sem as quais dificilmente nos poderíamos habilitar a estar inscritos no clube humano.

Certa vez, eu e minha mulher comentávamos o desejo que alguém exprimira de ser cremado e de ter as suas cinzas espalhadas em lugar incerto e ela disse algo que me ficou, algo como “quando os meus pais forem, quero ter um lugar onde possa de vez em quando ir chorar por eles”. Não há nada de estruturalmente negativo nesta tristeza. Obviamente que não queremos que os nossos pais se vão. Mas um dia, pela ordem da vida, tal acontece e vamo-nos sentir muito tristes, depois um pouco menos, mas sempre algo tristes. Porque o nosso mundo ficou mais pobre e pequeno, porque intuímos a nossa própria hora, porque esta é a nossa natureza, magnificamente humana. A partir daí, quando nos lembrarmos, sentiremos tristeza. Poderemos, consoante o nosso modo de ser, vivê-la no nosso íntimo ou expressar uma lágrima. Mas sentiremos, e ao sentir estaremos revitalizando a nossa memória dessa pessoa, comunicando de algum modo com ela, insuflando vida em algo que outros julgam morto.

A alternativa, terrível, é o oblívio. Certamente, esquecer seria mais cómodo. E segundo algumas perspectivas a meu ver erradas, trar-nos-ia felicidade por não nos trazer infelicidade. Recordo a talhe de foice uma leitura de Milan Kundera que descrevia uma viúva que, aos poucos, naturalmente, ia perdendo a lembrança de traço após traço do marido e que no seu esforço para recordar acabava por confundir tudo, até perder toda a memória dele. E, nesse dia, ele de facto morrera de vez. A memória de um ente querido traz continuidade, lança uma ponte e também uma homenagem. Por isto mesmo, quando há mais de cinquenta mil anos os nossos primos remotos Neandertais começaram a praticar cerimónias fúnebres, saímos da era da macacada para passar a ser gente. A dignidade na morte tornara-se um espelho da dignidade da vida humana.

Dito isto, essa tristeza não faz de nós infelizes, nem sequer, de um certo modo, menos felizes. Quando alguém próximo morre na sua hora, depois de uma longa vida, a tristeza não nos impedirá de olhar para trás e dizer: “Teve uma vida boa. Amou e foi amado. Divertiu-se. Fez isto e aquilo. Gozou filhos e netos. Marcou-os por esta ou aquela suas características. Deixou boas lembranças. Valeu a pena.” E o nosso sentimento triste será ponderado por um balanço positivo, e coexistirá pacífico na nossa própria felicidade, como uma ruga de maturidade que não desfeia um rosto bonito. Infelicidade, na minha perspectiva, seria não pensar mais no assunto.

A frustração de um estudante que sofreu um desaire ou de um atleta que chora na derrota pode ser catalizadora de uma reacção de brio que os motive para um sucesso ainda maior logo de seguida. A melancolia que nos toca ao vermos um filme dramático ou ouvirmos uma canção de sentimento faz parte de uma reflexão intuitiva sobre a nossa condição humana e tem associada uma perspectiva solidária, que muitas coisas boas tem trazido à humanidade. As pequenas contrariedades que puxam a lágrima às crianças também as formam, tornando-as mais capazes de interagir com o mundo à sua volta. São um pequeno investimento de tristeza que pode dar um alegre retorno ao longo da vida. Nenhuma destas formas de tristeza se incompatibiliza com a essência da felicidade. São meras pedras no caminho, em que tropeçamos para logo levantar, sacudir a poeira e seguir, se calhar com maior noção do equilíbrio.

Quando assistimos a desgraças inomináveis no telejornal, será bom sinal que fiquemos tristes. Relativizar certas coisas só por egoísmo de sofá. Recordarei para sempre uma cena transmitida durante o massacre da escola de Beslan, em que um pai segurava em pranto o corpo morto do filho, aí de uns dez anos, e a mãe, gritando, tentava esticar os braços para tocar na criança mas, quando estava quase, estes retraíam-se como se dotados de vida própria, como se não quisessem aceitar o horror. Nessa noite chorei convulsivamente de raiva, como se aquele fosse um filho meu – de certo modo era-o – e só partilhando uma migalha daquela dor infinita percebi o que realmente ocorrera naquela escola, muito para além das causas políticas, religiosas ou étnicas. Sempre que relembro essa imagem fico momentaneamente infeliz, mas mais infeliz seria no fundo se estas coisas me passassem alegremente ao lado.

Agora, andam para aí ao que parece uns seres excepcionais que se reputam os mais felizes da galáxia e arredores, por conseguirem afastar da brilhante carola qualquer pensamento negativo. Os seus electroencefalogramas revelariam apenas boas ondas, lembranças florais, memórias entusiásticas, cores lindas e outros alegres pensamentos que tais. Em suma, uma ganda tripe.

Confesso que estes e outros super-homens – à excepção dos da Marvel – sempre me causaram alguma desconfiança. Primeiro, porque ninguém teve a amabilidade e o bom senso de me convidar para tão excelso agrupamento. Se se tivessem lembrado, talvez eu condescendesse. E tal inábil atitude não pode deixar de me causar suspeita, até porque ainda não conheci ninguém que me fizesse sentir da terceira divisão. Porque é que haviam agora de ser esses senhores gajos? Por outro lado, a História demonstra em títulos tristes escritos a tinta de sangue que as manias de superioridade deram sempre raia, com dor e ranger de dentes em doses industriais. No século que passou, foram umas dezenas de milhões de mortos para o “übermensch” nazi e outras tantas para o “homem novo” soviético.

Com a excepção das senhoras maritalmente mal servidas, porque raio é que haveríamos de querer um homem novo se ainda não esgotámos tudo o que de bom tem para dar o homem velho e se calhar nem vamos esgotar? Como “homem velho”, podemos ser criativos, construtivos, progressivos e até felizes. Com os seus defeitos e maleitas, com todos os riscos inerentes a viver a vida, o “homem velho”, o “homo sapiens sapiens”, o verdadeiro, o da Bayer, dá-nos um excelente enquadramento para realizar grandes obras e levar uma vida gratificante, que chegue para nós e sobre para os outros.

E isso pode acontecer sendo nós simplesmente quem somos. Gente com alegrias, com tristezas, que chora, que ri, que às vezes tem dores de dentes. Gente que olha para si e se vê construída de momentos bons e outros tristes, mas que consegue em cada instante conceber um balanço e que eventualmente ousa declarar-se feliz. Gente que seja de facto feliz, mesmo que a espaços não o esteja, mesmo que por vezes sofra com um dia mau, com um revés, com um pensamento de solidariedade para com os que realmente vivem na infelicidade porque têm fome ou porque viram os seus pais mortos por soldados ou um filho abatido por um condutor que decidiu ser sua aquela passadeira.

Uma mente só com pensamentos alegres? Porra! Que coisa mais triste!

sábado, junho 16, 2007

O cão nauseabundo

(Private joke)


Não sei qual dia fora
De um mês que já passou
Em que algures na Beloura
Eram cinco a jogar Tarot.
Por sobre a toalha vermelha
Ferviam cortes e puxadas
E acusações de ser aselha
Por mor de um seis de espadas.

Vai um dado momento,
Tudo de soslaio a mirar:
Um jogador menos atento
Acabara de se largar.
Fora discreto o autor
No som, mas não no resto:
Compensava pelo odor
O silêncio de tal gesto.

Ora havia na casa um cão
Que não devia nada à limpeza:
Estava ele por trás da razão
Do mal-estar naquela mesa.
Olhando os jogadores arfava,
Com um arzinho satisfeito,
E o pessoal enquanto jogava
Ia trocando um olhar suspeito.

Até que o dono da casa, agoniado,
Explicou a todos a situação.
Não fora pois nenhum convidado:
Quem se borrara fora o cão.
E arrumando cartas com alarde
Passou-as ao vizinho já cortadas:
Preferiu não arriscar uma “garde”
Para ir escancarar as portadas.

domingo, junho 10, 2007

Prazeres exóticos

Hoje, no escaparate de livros em destaque da FNAC, lado a lado, duas propostas: “Casei com um Masai” e “O meu casamento com um Bérbere”. Como agora a actividade editorial anda muito de modas, presumo que procurarão títulos para esta nova etnografia por via uterina. Aqui vão algumas sugestões:

- o meu matrimónio com um índio quichua;
- bodas com um cingalês;
- desposei um esquimó (que me emprestou ao vizinho do iglu ao lado);
- na cama com um congolês (“extended stick mix”);
- cobóiada num albergue com uma data de espanhóis;
- sexo agitado com um alentejano;
- noite de núpcias não consumada com um benfiquista.

O pessoal não terá mais nada para ler?

quarta-feira, junho 06, 2007

Os gatos

Num momento de fraqueza, cedi às loas de uma amiga militante da causa felina, que conseguiu tornear o meu bom senso fazendo-me ceder à pretensão das crianças em ter um gato. Foi assim que um dia cheguei a casa e me deparei com a família de rabo para o ar, a tentar tirar de debaixo do sofá uns assustados quinze centímetros de pêlo cinza e pernitas magricelas, já nomeados Silvestre à minha revelia, em homenagem ao incompetente dos desenhos animados que nunca conseguia abocanhar o enervante canário.

Durante os dias seguintes, testemunhei uma sucessão de pequenas alegrias – o Silvestre já comeu, já adormeceu, já arreou o calhau, olha entrou para dentro de um saco – alternadas com grandes dramas – o Silvestre engasgou-se ou, pior, o Silvestre desapareceu. Os desaparecimentos do Silvestre originavam grossas angústias e verdadeiras batidas pela casa, que podiam demorar horas, com lanternas e paus e que terminavam por norma quando o Silvestre de espontânea vontade se materializava debaixo dos nossos olhos, bocejando indiferente, acabadinho de chegar da quinta dimensão.

Descobri por essas alturas a monumental indústria que gravita à volta dos gatos. Um verdadeiro “cluster” da nossa economia, para usar a expressão do Michael Porter. Entrei então em corredores do supermercado cuja existência nem suspeitava, onde se amontoavam variedades impensáveis de comida para gato, em lata ou em sacas, pequenas, médias ou grandes, com diferentes cores e composições consoante as idades, para gatos gordos e para gatos débeis, de pelagem rala ou farfalhuda, activos ou mais dorminhocos, tónicas ou dietéticas, tudo a preço de caviar “beluga”. Rapidamente o Silvestre passou a ter despesas de veterinário e um boletim de saúde como não o têm os velhotes do interior, plano de vacinas e desparasitagens. Fiquei a saber que se o bichano viesse a andar enervado, existem psicólogos especializados em dar conforto mental à gataria, por valores menos que módicos. A antiga caixa de serradura das minhas memórias de infância fora substituída por uma autêntica estação de compostagem, com uma areia sintética cheia de aromas e agregantes, dispendiosíssima, que produzia uns calhaus muito práticos mas que provocavam o rápido desaparecimento da dita areia – e a consequente e irritante necessidade de comprar mais! A esta renda havia que somar os brinquedos, o tronco de afiar unhas, as cestas para dormir mais os cobertores, o cesto para deslocações e os “bibelots” que se iam partindo.

Perante a parafernália e a despesa, a minha mãe, que em criança sempre tivera gatos de quintal que comiam espinhas e bebiam água das poças, comentava com bastante filosofia que até para se ser gato é preciso ter sorte.




Passados uns tempos, o “lobby” da bichanada voltou a atacar e conseguiu-me convencer de que se um gato incomodava muita gente, dois gatos incomodariam muito menos. O argumentário girava à volta de que assim se fariam companhia um ou outro, andariam menos nervosos, encheriam menos o saco, etc. Deste modo mentiroso chegou o Tommy a nossa casa.

O Silvestre era um bicho com algum “pedigree”, arraçado de Bosque da Noruega, com uma belíssima pelagem cinzenta, luzidia e suave como uma gola de marta. O Tommy, malhado que nem uma charolesa, de pêlo áspero, assumidamente rafeiro e com a pata muito leve. Rapidamente pôs o mais velho na ordem. Passado poucas semanas, já comia primeiro da malga, numa lição de liderança. Pusemos uma segunda tigela para o Silvestre, e ainda assim este esperava que o outro terminasse, numa lição de submissão. Estranho mundo dos gatos que tão bem imita o dos homens!

Mudou a minha vida e mudou a minha casa. Nunca sabia quando um qualquer gesto do quotidiano, uma luz que se acendia, o sentar num sofá, um passo inadvertido, iriam desencadear um tropel pelo corredor fora, um eriçar de pêlo bufante ou um mero olhar redondo de desprezo. No desprezo, aliás, eram exímios. Tinham uma maneira de olhar de soslaio, erguendo o pescoço ao de leve, de bocejar num vago aborrecimento, de virar costas e seguir caminho sem passar cartão, que só poucas mulheres – e nenhum homem. Quando soube que a esperança de vida destes animais podia exceder os catorze anos, percebi o logro em que caíra: pela ordem natural das coisas, os meus filhos sairiam de casa antes dos gatos. Desesperei com a ideia dos dois em frente à têvê, cada um com o seu felino ao colo, esperando em vão um telefonema dos ingratos.

Mas, pouco a pouco, os gatos fizeram ninho nas nossas vidas. Impuseram os seus hábitos e a sua linguagem: um olhar para a janela, põe-me aqui um banco; um mio para a maçaneta, abre-me a porta; um rebolar aos pés, dá-me festas. Estabeleceram preferências: por pessoas, por lugares, por momentos. Havia uma hora para a Sofia, outra para cada miúdo e outra para mim (infelizmente a meio da noite). Numa palavra, tornaram-se da família, com aquele jeito insinuante e lunar que me lembra o poema do Alexandre O’Neill:

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?


Sei que com os meus gatos aprendi a resposta, e não é “dono” de certeza.

quinta-feira, maio 31, 2007

Cenas ridículas (I): Os óculos escuros

Lembro-me de ter passado o tempo, no pára-arranca de um IC qualquer, numa curiosa estatística. Contando os carros que deslizavam nervosos em sentido contrário para o ponto das nove, fui verificando quantos condutores de óculos fumados: sim, não, sim, sim, não, sim, sim, dez, dezasseis, trinta! Trinta e tal em quarenta de óculos escuros numa manhã chuvosa de Novembro.

Jovens comerciais de cabelo espetado em gel, esquálidas doutoras da contabilidade em apetrechos matinais, tias engelhadas no BMW do tio, tudo arvorava o olhar moscardo, mirando pela lente escura a queda do amarelo, com o nervo do carneiro que se atrasa no caminho para o matadouro.

O que levará tão grande percentagem de lisboetas a querer ver por lentes negras um dia já cinzento? Hipersensibilidade fotónica ocular? Mania que ficam com ar matador? Admiração exacerbada pelas personagens do Matrix? Sinal de reconhecimento e identificação entre burguesia suburbana? Não sei. Sei que tal fenómeno não pode ser inocente num país em que se marra com os cornos ao volante por dá cá aquela palha.


Se estabelecermos a correlação estatística entre o uso das cangalhas pretas e os acidentes viários, veremos que a coisa joga. Possível cenário: o pessoal entra para o Corsa dezasseis válvulas, mete os pintosos óculos escuros, tudo se apaga, e aí vai ele num Ferrari 599 a curvar a parabólica de Monza a duzentos e setenta quilómetros por hora. Curva apertada à direita, batendo “in extremis” um Porsche de uma escuderia alemã, chicana, duas ultrapassagens, uma quase saída de estrada evitada no limite, com muita perícia, até embater no que julga ser o “aileron” traseiro de um concorrente atrasado mas que afinal é a caixa aberta de uma “pick-up” de uma empresa de construção civil, que ia levar umas sacas de cimento ali para uma obra no Murtal.

Enquanto os bombeiros o desencarceram, há-de tactear o banco do morto à procura dos óculos, único elo economicamente acessível a esse mundo de “glamour” automóvel, que lhe saltaram da penca com o embate e que convém não perder, a pensar já na próxima corrida.

Se não fossem as lunetas de sol, talvez a gente visse mais a estrada e menos a pista.

Recordando que Pedro o Grande iniciou a modernização da Rússia mandando os boiardos cortar as barbas e Kemal Ataturk trouxe a Turquia para a Europa obrigando os funcionários públicos a usar chapéu em vez de fez, também a nossa Prevenção Rodoviária Portuguesa deveria começar o combate à sinistralidade automóvel com uma medida fortemente simbólica. Proibição de conduzir de óculos escuros, que é para ver se abrem os olhos! E já!

terça-feira, maio 29, 2007

A chamada de longa distância

Este sábado, atendi o telemóvel. Lá longe, no mar Egeu, de uma ilha cujo nome de exotismo histórico e veraneante não consegui fixar, ouvi entrecortada a voz de meus amigos. Os meus amigos interromperam por instantes o seu sábado de cruzeiro paradisíaco para, em frente aquela praia de areia branca – ou seria, menos poeticamente, cascalho? – se lembrarem de mim.

Senti que fazia lá falta, senti que me faziam falta, arrependi-me de não ter ido. Mas fiquei de dia feito.

Pelo auricular, no meio dos “como vão, como está o tempo”, vieram as primeiras certezas e as primeiras dúvidas, copos de cerveja em mesas de fórmica à beira-praia, o silêncio do estudo de madrugada, passes magistrais para golo (e alguns grandes frangos), confidências eufóricas e segredos bem guardados, ténis à porta das tendas, luzes de discoteca, psicadélicas, e angústias de fim de festa, igualmente psicadélicas, mãos que seguraram as mãos dos meus filhos, risota de segunda fila em dia de casamento, curvas apertadas nos carros emprestados pelas mães, orgulhos de primeiro emprego, noites de conversa mole e dura à luz da lua, sorrisos que abriam a porta. E também umas quantas zangas, poucas, uma ou outra irritação, alguma desanda mais ou menos merecida.

Eu e os meus amigos, contas feitas, estamos à moda do Porto: não há dívidas pendentes entre nós. O que devemos uns aos outros pusemos numa conta comum, já com uns anitos de juro e um capital de respeito.

Perguntou-me um dia a minha legítima: “porque é que não casaste com eles?” A bem dizer, não sei. O facto de serem feios e felpudos terá contribuído de forma não desprezável. Ou talvez porque o nosso sacramento não se celebra em casa, mas em qualquer esquina, de Paris, de Atenas ou da Charneca da Caparica, onde um tipo calhe de se encontrar.

Se calhar nunca vos disse, seus cabrões! Mas gosto muito de vocês!

sábado, maio 19, 2007

Anúncio: Cenas ridículas

Mataspeak vai lançar uma série de pequenos “posts” em que procurará retratar o ridículo do quotidiano moderno. No cinquentenário de “O meu tio”, serão uma singela homenagem à câmara de Jacques Tati, sempre pronta a expor o ângulo traiçoeiro que revelava a idiocia das nossas pequenas vaidades.

Estejam atentos…

Presuntos implicados

Contrariamente ao que arenga a sabedoria convencional, um democrata para o ser tem que ser um fundamentalista.

O conceito de fundamentalismo nasceu associado a movimentos de carácter religioso que assumiam o carácter infalível e regulador de textos sagrados ou de certos dogmas, mas acabou por se estender a qualquer grupo que julgue que existem preceitos que se devem aplicar, invariavelmente, a todas as pessoas e em todas as situações. Exactamente neste sentido, o democrata é obrigatoriamente fundamentalista. Porque para ele existirão valores que serão sempre correctos, quer o sirvam a ele, quer ao seu maior inimigo; valores que não poderão nunca ser beliscados; valores para os quais não há “ses” nem “talvez”.

A lista desses valores ainda é grandota. Inclui concepções sobre o poder (que deve ser submetido a regras, representativo, consentido, repartido, transparente e equilibrado por contra-poderes), sobre as obrigações de comportamento individual e colectivo (para as quais é central o conceito de liberdade individual e que passam por normas adequadas ao funcionamento simultâneo de seis biliões de liberdades individuais) ou, ainda, sobre a dignidade humana (através da protecção da vida ou da igualdade diante da sociedade e das leis).

Poderemos com alguma justiça definir como democracias apenas as sociedades em que uma parte substancial da população tenha assimilado, como componente da sua cultura, estes conceitos. Em que os políticos, os juízes, os enfermeiros e os limpa-chaminés os achem óbvios. Sociedades como Portugal, em que existam instituições e leis democráticas, mas em que as pessoas não sintam esses valores como seus, são meramente regimes democráticos, não democracias. E tais sociedades, não se alicerçando sobre um fixe – um “bedrock”, como dizem os ingleses – de valores imperturbáveis, abanam com frequência, por vezes perante sismozitos insignificantes.

Um dos valores em questão é a presunção de inocência. Um daqueles que se percebe logo: ninguém gostaria de ser acusado em vão de gamar uma carteira, ou de benfiquismo ou de qualquer outra coisa assim grave. Uma falsa acusação fere o sentido de justiça e pode estragar a vida a um tipo. Para evitar tal coisa, o progresso da civilização criou alguns princípios básicos: todo o acusado está inocente até ser condenado; tal condenação carece de prova; o ónus da prova fica com quem acusa; e a prova deve estabelecer a culpa para além de qualquer dúvida razoável. No fundo, quem quiser viver numa sociedade em que não se ande vestido de peles, com mocas numa mão e mulher arrastada pelos cabelos na outra, tem que aceitar que mais vale deixar um crime sem castigo de que correr o risco de engaiolar o gajo errado.

Deixa-nos indignados que um crime hediondo fique por punir? Deixa, mas eu ficaria muito mais ofendido se preso por algo que não fiz. A vida é assim: imperfeita. Ocorrem tremores de terra de grau oito, morrem crianças de leucemia e não se encontram culpados de sabujices atrozes. Quem quiser estar em jogo sabe que são estas as regras e os riscos. Mas a vida, além de imperfeita, é preciosa e irrepetível. Por isso, há que usar de toda a prudência antes de estragar a de alguém por engano.



Há dias, reportando as investigações ao rapto da pequena inglesa no Algarve, a RTP deu – financiada pelos meus impostos! - um festival de alarvidade noticiosa à volta de um fulano que foi interrogado pela polícia. Filmaram à porta de sua casa e deram o nome da vivenda, de modo a que toda a gente pudesse saber quem ele era. Uma senhora gaja descabelada, identificada abusivamente como “jornalista”, gritou ao microfone banalidades sem conteúdo como se fossem notícias. Revelou, com ar de inconfidência fundada, que pessoas da vizinhança lhe teriam dito que o indivíduo apresentava um comportamento “anómalo”! Como anómalo? Matava pessoas com uma serra eléctrica? Lia mais de dez livros por ano? Votava na Carmelinda Pereira para as presidenciais? Ouvia os “Irmãos Catita”? Almoçava túbaros? Não usava fato-de-banho na praia? Em Portugal, todos estes comportamentos são fora da norma, mas só o da serra eléctrica constitui crime, penso eu de que! Fechei o televisor enojado, interrompendo a idiota do micro a meio de mais uma cretinice, deixando-a lá longe no seu labor sujo de crucificar um homem na praça pública.

Não sei se o homem tem ou não culpa no cartório. Tal é totalmente irrelevante, uma vez que não me cabe, nem a mim nem à gajola da RTP, decidir sobre esse assunto. A mim e à pindérica cabe-nos pensar que, até prova em contrário, aquele senhor é tão respeitável como o nosso paizinho e tomar as precauções inerentes. O facto de o crime em causa ser dos mais hediondos que possa haver, dos que mais fere a nossa humanidade e o nosso sentir interior de pessoas e pais, não diminui a necessidade de cautela, antes reforça-a. Um crime gravíssimo e moralmente repelente pode ser o teste mais drástico à solidez dos nossos princípios. Se neste momento difícil a nossa convicção na presunção da inocência fraquejar, bem nos podemos juntar ao magote disponível para babar ódio instigado pelos pelourinhos televisivos e pelas Manuela Moura Guedes deste triste mundo, versão moderna das turbas grosseiras do passado que aplaudiam no rossio da vila os corpos enforcados dependurados do cadafalso.

Se não soubermos distinguir entre um “presunto implicado”, como dizem os espanhóis, e um culpado, rapidamente o transformaremos em simples “presunto”, no sentido menos simpático que tal palavra tem no “bas-fond” da favela carioca.