sexta-feira, setembro 07, 2007

A Instituição

Em qualquer domínio da existência humana, há sempre um grupo de artistas que se acha eleito por Deus e ungido de uma divina – e logo inatacável – verdade. Entre os povos, o israelita. Entre as classes profissionais, a dos jornalistas. Entre os adeptos de futebol, os benfiquistas.

Os adeptos dos outros clubes têm paixão, exultam na vitória e sofrem na derrota, mas lá no íntimo percebem que tudo não passa de um jogo, ou de um negócio, cujos sucessos e fracassos estão mais dependentes da rajada de vento que desvia para a barra um golo que parecia certo ou então da simpatia ou animosidade, mais ou menos inconscientes, do árbitro da partida do que de qualquer intervenção em seu favor de poderes celestes ou infernais.

O benfiquista, ao contrário, tem fé. Crê que aquele nome de bairro da periferia lisboeta e aquelas camisolas vermelhas, iguais às de milhares de outros clubes mundiais, ganham só por si partidas de futebol. Crê que a história se repete e que o Coluna e o Simões ainda jogam. Crê – sem se rir! – que o Benfica é da igualha do Real Madrid ou do Milan. Crê na multiplicação dos adeptos, tentando resolver o buraco financeiro com a técnica milagreira que Cristo usou nas bodas de Canã. Crê que o tamanho do rebanho chega aos seis milhões. Crê que a vitória, como o Céu, lhe é devida pela fé que tem. Só não crê naquilo que vê quando a equipa está em campo.

Com crença tão fervente, o comportamento do “homo benfiquis” releva mais da antropologia religiosa do que da psicologia de massas. As associações à terminologia e à orgânica das religiões são evidentes. O benfiquista não se desloca ao estádio, vai à “catedral”, para mais da “Luz”. O benfiquista acha que o seu clube, tal como Deus nosso senhor, é “glorioso”, mesmo nas mais tristes figuras. O benfiquista não espera que os dirigentes componham uma equipa de futebol, antes deseja um “salvador”, que opere o “milagre” de ganhar jogos sozinho, como o Santo Eusébio fazia. O benfiquista tem ouvidos para “pregadores” hirsutos e desgrenhados, “santificados” pelo seu reconhecido benfiquismo, sendo normal ver senhores engravatados a aplaudir de pé, nas assembleias-gerais, enquanto o inapresentável Barbas, de cachecol ao cachaço e táxi á porta, grita as maiores cavalidades contra o candidato da oposição. Finalmente, o benfiquista julga que o clube é “imortal”, por muitas tropelias que a Direcção cometa para arrebentar com a solvabilidade da SAD.


Quando a realidade dos resultados se incompatibiliza com as certezas da fé cega, acontecem eventos místicos. No início desta temporada, enquanto os adversários vendiam muito caro alguns jovens promissores para depois reforçar barato as suas equipas, reduzindo dívida que nem formigas, a cigarra Benfica começou por comprar à toa, depois teve que vender à toa as jóias da coroa, depois aleijaram-se uma série deles, depois foram vestidos de cor-de-rosa jogar contra o Leixões e empataram. Tal foi o suficiente para que a congregação lampiona realizasse logo um “auto-da-fé”, imolando o treinador nas chamas de uma rescisão de contrato, pela qual pagaram, aliás, uma bela maquia como clube rico que julgam ser. Afastado o “diabólico” elemento, vai de contratar outro treinador, um espanhol que, não sendo homem de resultados passados (esteve dois anos no Benfica sem ganhar o campeonato, esteve vinte dias no Real Madrid até a sua forte personalidade perceber que os jogadores não o queriam lá, estava há anos sem clube que lhe pegasse), promete resultados futuros com ar porcino e pronúncia manchega. Em consequência, sete mil seguidores apressaram-se a demandar uns abarracamentos que o clube tem no Seixal para assistir à torreira do sol a um treino, pasme-se, em grande manifestação de fé clubística, numa romaria masoquista que lembra a procissão das chagas nas Filipinas. Ao menos esses flagelam-se com um cilício, ganhando em eficácia o que perdem em ridículo.

Como pastor de tão iluminado rebanho (um posto de alto risco, que dá por vezes prisão no fim do mandato), brilha agora um senhor com um bigode que não se acredita e umas orelhas que são um milagre. Se o visual é de ícone, o discurso, esse, é de salmo, tecendo loas miríficas às grandezas da Instituição, como ele apelida com pompa bigoduda ao grémio que superiormente dirige. Quando soe tocar a trompa, não caem as muralhas de Jericó mas esboroam-se as frágeis ligações que seguram as palavras umas às outras, também conhecidas por regras da gramática, e sai para o microfone qualquer coisa a meio caminho entre a onomatopeia e a frase, entre o galego e o dialecto da Alverca, num discurso revelador de milagres que só os iniciados compreendem (do tipo “o Mantorras vale dezoito milhões de contos”) e de que os cépticos riem a bom rir, rebolando pelo chão e limpando as lágrimas com lenços verdes ou azuis.

Neste momento, benfiquista que se tenha posto a ler este texto deve estar certamente em brasa, com pensamentos de arrebanhar esbirros para queimar em santificadora fogueira o herético autor destas linhas mais a sua prosápia diabólica. Talvez valha a pena por isso contribuir com alguma verdade histórica para um acto de contrição e humildade desse amigo lampião ou, dito em português corrente, para um saudável abaixar de garimpa.

Na génese da Instituição está um grupo de rapazolas conhecido pelo “Grupo dos Catataus”, que em 1903 se juntavam para dar uns chutos num areal de Belém. Eu não teria grande orgulho em pertencer a um clube proveniente dos “catataus”, só pela sonoridade. E então se formos ver o sentido! Catatau é vocábulo que tem, no dicionário Houaiss, doze definições díspares, algumas perfeitamente deliciosas: “indivíduo muito baixinho, tampinha”; “besta grande e velha”; “falatório, mexerico, intriga”; “porção de qualquer coisa”; “pénis”. Nobres catataus! Todos nós temos um pénis na nossa origem, mas o Benfica pelos vistos tem vários.

Estes catataus juntaram-se em Fevereiro de 1904 a um outro grupo, de ex-alunos da Casa Pia – Olá! Olha quem eles são! – para fundar o Sport Lisboa. Foram provavelmente estes últimos que trouxeram a componente piedosa e crente que parece estar na massa do sangue benfiquista. O acto fundador teve lugar no restaurante “António das Caldeiradas”, nome que não podia ser mais premonitório do actual estado do clube. A primeira sede, aproveitando uma borla, foi numa farmácia, também em Belém: o “Laboratório Franco – Especialidades Farmacêuticas”. Compreende-se pois a tendência de alguns rapazes do plantel para recorrerem às tais especialidades quando as canetas falham e os adversários correm mais do que devem. Resulta do código genético do clube.

Finalmente, em 1908, o Sport Lisboa fundiu-se com um grupo de Benfica e deu origem ao Sport Lisboa e Benfica. Tinha nascido a Instituição. Curiosamente, numa caldeirada aritmética, o Benfica celebrou o seu centenário em 2004, com pompa e alarde. Encontro para este facto peculiar duas explicações plausíveis: a) o Benfica é tão superior que tem centúrias de noventa e seis anos; ou, mais provável, b) pediram ao Presidente Vieira para fazer as contas.

Amigos benfiquistas! Quem sou eu para vos pedir que reneguem a vossa fé? Afinal eu acredito ferozmente no direito à liberdade religiosa, por isso cada um que acredite no que quiser, por mais incrível que pareça aos outros, nem que seja que o Petit pode ir a uma bola sem fazer falta. Mais: até tenho uma certa ternura por vocês. Agora lembrem-se de uma coisa: o último livro dos Evangelhos é o Apocalipse.

terça-feira, setembro 04, 2007

Croxeth

Durante o período de férias de Verão, uma criança de onze anos foi assassinada em Liverpool com um tiro no pescoço quando regressava a casa de um treino de futebol, guiando a sua bicicleta. Possivelmente foi morta por engano por miúdos pouco mais velhos do que ela, pertencentes a gangues locais. Tenho um filho com onze anos, que também treina futebol, e portanto senti esta dor de uma forma muito minha.

Sobre este crime, a imprensa inglesa deu enfoque, e a portuguesa reproduziu, a dois factos: ao de ser a enésima vítima menor de violência de rua em Inglaterra, este ano, e ao de o rapaz morto morar em Croxeth, o bairro de onde é originário o jogador Wayne Rooney.

Ao enfatizar este último aspecto, a imprensa acaba por estar a escrever nas entrelinhas. Sabe-se ser este um dos mais perigosos (ou, como se diz hoje em dia, “problemáticos”) bairros de Liverpool. Ao referir Croxeth como o fizeram, os jornais estão a adiantar – admito que inconscientemente – um elemento de algum modo explicativo: embora certamente lamentável, parecerá ao leitor mais compreensível que se apanhe com um tiro em Croxeth do que num bairro pipi de Liverpool, exactamente pelo mesmo mecanismo que nos parece uma fatalidade que se pise uma mina em Angola e veríamos com escândalo que tal acontecesse na Avenida da Liberdade.

O mundo não é perfeito, mas que o Reino Unido, uma das pátrias da liberdade ocidental, se resigne a que uma criança de Croxeth tenha mais probabilidade de morrer com um tiro do que outra que more no centro de Liverpool ou de Londres, parece-me imperfeição excessiva e desnecessária. Convém que, tal como os restantes mamíferos superiores, e de modo a merecer o adjectivo, nos organizemos para proteger as nossas crias, morem elas em Croxeth ou em Mayfair.

Isto implica um tipo de organização, começada há milhares de anos na Suméria, em que uma entidade representante dos interesses colectivos recolhe fundos – impostos – para satisfazer esses interesses, sejam eles segurança, água potável ou a redução dos riscos desta vida. Essa entidade, com o nome hoje pejorativo de “Estado”, foi-se refinando ao longo da História, ganhando, nalguns casos de sucesso, em eficiência, em representatividade e em equilíbrio na sua relação com cada indivíduo.

Para satisfazer níveis de protecção que garantam igualdade de oportunidades a todas as crianças (incluindo as de Croxeth), o tal Estado precisa de meios policiais, administrativos e judiciais adequados às exigências de cada momento. Precisa também de promover meios económicos e educacionais que reduzam desigualdades e criem perspectivas. Não tenho a certeza que os Estados escanzelados, financeiramente asfixiados e sem capacidade crítica sobre as malandrices que lhes fazem outros mais espertos do que eles, que nos propõe a “conventional wisdom” actual da política económica e dos “pivots” de têvê, tenham as ferramentas necessárias para cumprir a missão referida.

Ao fim e ao cabo, todos os livros de teoria política podem ser arrumados em apenas duas estantes: a que diz “Lei do mais forte” e a que diz “Primado da Lei”.

Convém pensar um bocadinho de que prateleira queremos tirar o nosso manual de boas práticas, para depois não nos queixarmos.

segunda-feira, agosto 27, 2007

O último pôr-do-sol de Agosto nos Aivados

Dedicado aos que lá estavam


Caso para dizer: fabuloso ocaso!

A maré prostrou-se, em homenagem
E os seixos e a rocha
Subitamente emersos
Entre murmúrios diversos
Respiram de modo cavo
E nem uma brisa (ou aragem)
Perturba o olhar, escravo
Do horizonte em tocha

Lenta, contra o céu de anil,
A silhueta do pescador de ondas
Carrega no braço seu batel
Nos olhos memórias frágeis
Enquanto sobre dunas redondas
Correm negras e ágeis
Pequenas sombras de papel
Em feitiços e risos mil

A Lua espreita impaciente
Gorda de dias, e luzidia
Não esperando que o Sol ponente
Dê oficialmente por findo o dia
No campo a sombra ainda tarda
Que o Sol partindo em glória
Para deixar melhor memória
Todo o brilho para si guarda

Talvez o raio de sol último
Nos traga esta incerta saudade
De outros fins de dia
Nestes sítios, noutra idade
Num tempo que já não volta
Em que preso em nós vivia
O amor agora livre e múltiplo
Que corre descalço à nossa volta

domingo, julho 22, 2007

Do rigor do texto


Perguntou-me um amigo se eu pensava usar de rigor nos meus textos do “Mataspeak”.

Respondi que sim, mas em bom rigor deveria primeiro ter tentado compreender rigorosamente de que rigor me falava o perguntante. O Dicionário Houaiss apresenta oito sentidos diferentes para o vocábulo. Entendo que aquele que melhor se aplicaria à pergunta seria “exactidão extremada; rectidão; precisão”. E neste caso a minha resposta afirmativa poderia ser, afinal, mentirosa. De exactidão extremada deverão preocupar-se os editores do “New England Journal of Medicine” e de precisão os fabricantes de cronómetros da “Tag-Heuer”, não eu ou o meu modesto blogue. Da rectidão, talvez já me interesse. Aliás, interpretei a questão que me fora posta no seguinte sentido: “escrevo para defender uma perspectiva, para estabelecer uma “verdade”, usando de seriedade?” Neste sentido, certamente restrito, penso ser rigoroso. Porque o exercício da escrita permite usar caminhos ínvios e na aparência incoerentes para chegar a uma compreensão das coisas, que por vezes não estão ao alcance de abordagens mais… euh… rigorosas. Deus escreve direito por linhas tortas e os homens às vezes também.

Associamos muitas vezes o rigor ao raciocínio dedutivo. Neste, de um conjunto de premissas retiramos uma conclusão que, no fundo, não traz mais informação do que a que já existia nas próprias premissas. Se eu pegar em duas frases que por alguma razão sei de fonte segura serem verdadeiras – por exemplo, “qualquer sportinguista é mais abonado do que qualquer benfiquista” e “eu sou sportinguista” – concluirei que sou mais abonado do que qualquer benfiquista, o que até parece razoavelmente evidente. A matemática funciona assim e por isso, por trás da sua aparente complexidade formal, reveste-se de uma enorme simplicidade: compõe-se de afirmações que se puxam umas às outras, de sucessivas verdades de La Palisse. Como temos que começar nalgum sítio, para servir de motor de arranque desta construção intelectual precisamos de umas verdades irrefutáveis, os axiomas, que irão servir de base a todas as outras. Algumas destas verdades básicas são evidentes na nossa óptica quotidiana, como por exemplo, estabelecer que um e zero não são iguais (com mais rigor, que os elementos neutros da adição e da multiplicação são diferentes). Outras, como a existência de um número imaginário que é igual à raiz quadrada de menos um, não fazem sentido físico nenhum mas permitem construir resultados práticos interessantes, como sejam sintonizar uma telefonia ou pôr as asas de um avião a levantar vôo.



Infelizmente, verdades irrefutáveis não andam para aí aos pontapés e por isso a maioria do nosso saber, mesmo em disciplinas tão insuspeitas como a física ou a medicina, obtém-se por um método dito indutivo, segundo o qual, em bom rigor, nunca temos bem a certeza absoluta de nada. Mas podemos pelo menos chegar a fundamentadas desconfianças – a que também chamaremos, ironicamente, “verdades”.

Como funciona o método indutivo? Vejamos! O tal amigo que me pôs a pergunta joga comigo e com outros colegas a jogos de batota. Por vezes, tem o mau gosto de ostentar uma mão com os trunfos quase todos, o que normalmente provoca nos outros jogadores reacções de desagrado e comentários a despropósito sobre a virtude de parentes próximos. Suponhamos que a primeira vez que tal aconteceu, os parceiros tenham pensado “este tipo tem um chouriço que não é normal”. Ora esta conclusão estaria a ser induzida por única ocorrência e portanto a probabilidade de estar certa seria bastante reduzida.

Se ao longo do tempo a situação se repetisse sistematicamente, para choro e ranger de dentes dos restantes jogadores, a hipótese do “chouriço não normal” poderia ir saindo reforçada, se nenhum outro facto a ela se opusesse. A certo momento, todos acabariam por aceitar como um dado adquirido possuir o meu amigo um “chouriço filha-da-mãe”. Nada garantiria a veracidade deste facto como uma certeza absoluta, apesar de a todos parecer que sim. A hipótese de ele gozar de uma sorte de predestinado teria meramente uma probabilidade elevada de ser verdade, a qual resultaria do grande número de ocorrências verificadas e de nada de evidente a ela se opor.

Agora, se um amigo desse amigo – eu, por exemplo – se desse ao trabalho de verificar o bloquinho onde estavam apontados os resultados dos últimos dois anos e concluísse que os tais “grandes chouriços” estavam contrabalançados por outras tantas derrotas, tão espectaculares como desonrosas, de tal modo que o resultado agregado fosse igual ou pior que o de qualquer outro jogador – eu, por dizer qualquer coisa – então a hipótese “da paia enorme” cairia por terra, varrida para sempre por um simples contra-exemplo. Haveria a partir daí que procurar uma outra explicação para o conjunto das duas observações (sorte aparente e resultados medíocres), como por exemplo “tem vaca mas joga com os pés” ou “faz um espalhafato de cada vez que tem um jogo imbatível, por isso nota-se mais”.

O facto de se proporem ideias sobre qualquer assunto a partir de um número reduzido de observações não revela por si só falta de rigor, se a coisa se fizer com seriedade intelectual. Assim nasce e se desenvolve grande parte do nosso conhecimento. Depois, a consolidação deste saber pode resultar da sua confirmação por uma abordagem intelectualmente honesta, estudiosa, sistemática, analítica, como a que tem o químico no seu laboratório ou o arqueólogo no seu buraco. Mas tal não é a única via. Existem outros mecanismos que, não usando do rigor no sentido da “exactidão extremada”, permitem com “rectidão” construir com “rigor” o conhecimento. Um destes mecanismos encontra-se na literatura.

Ocasionalmente, a arte e nomeadamente a literatura conseguem a surpresa de induzir em nós (ou de reforçar) a compreensão de factos ou fenómenos que o trabalho científico – dito rigoroso – só com dificuldade esclarece. Um bom livro, a vibração de um poema, uma tirada feliz, um sarcasmo ou mesmo um simples verso operam por vezes o milagre suave de acender luzes nas nossas vidas, permitindo que num momento de magia entendamos aquilo de que nem suspeitávamos, apesar de sempre ter estado sob os nossos olhos.

Um exemplo: sobre o nazismo escreveram-se já milhões de páginas, compilaram-se filmes e fotografias aos milhares, acumularam-se números e testemunhos inúmeros. Todo este manancial de reportagens e teses sempre me pareceu desaguar na mesma pergunta: como foi possível? Como aconteceu que um povo inteiro, para mais dos mais cultos da sua época, se deixasse enrolar por um bando de palhaços fardados liderados por um louco estrangeiro e conduzir de mansinho a colaborar, mais ou menos activamente, numa máquina de morte bárbara que os levou à ruína e à vergonha por muitas gerações? O conhecimento dos factos históricos ou a leitura de explicações ideológicas ou sociológicas ajudava-me a entrever uma parte da resposta, mas sempre de uma forma insatisfatória e incompleta, como se o tempo tivesse lançado uma penumbra sobre os acontecimentos e as razões profundas se tivessem perdido para sempre nalgum recanto escondido do passado.

Um dia, o meu pai ofereceu-me um livro que vira num alfarrabista, uma das suas leituras preferidas de juventude: “O obelisco preto”, de Erich Maria Remarque. Naquelas páginas dobradas, com marcas de outras leituras, descobri Ludwig Bodmer, empregado de uma agência funerária durante o período de hiperinflação da República de Weimar, e o pequeno mundo dos seus colegas, das suas golpadas, dos seus vizinhos de bairro, dos seus amigos e dos seus amores. No final de trezentas páginas de peripécias, de tipos castiços, de historietas do quotidiano carregadas de humor e ternura, tinha compreendido. A questão passara de “como foi possível?” para “isto tinha fatalmente que acontecer”. Ao longo do livro sente-se algo de latente, permeando o dia-a-dia daquela boa gente, algo que se vai adensando como uma névoa de início de noite, como um espectro que absorve a energia de que necessita das dificuldades, das pequenas frustrações, das incompreensões, das invejas, até das alegrias, das personagens, sugando-lhes a vida aos poucos, ganhando volume, aparecendo a espaços, preparando-se para se materializar na sua forma acabada: o nazismo. Este não surgiu pois do nada, misteriosamente. Cresceu no meio de todos sem se fazer notar e alimentou-se do pior que cada um tinha para lhe oferecer: o ressentimento, a cupidez, a brutalidade, a ignorância, a cobardia ou, meramente, a indiferença. Tudo características daninhas que continuam vivas e aos pulos no seio da humanidade, nos bairros como nas chancelarias. Por isso seria tonto cometer a imprudência de afirmar que o nazismo foi coisa de malucos dos anos trinta, que foi um acidente, que não volta a acontecer. Nada disso, como aliás a recente guerra da Jugoslávia o demonstrou. O nevoeiro continua por aí, convém estar atento.

A leitura certa pode funcionar como um muito poderoso indutor do conhecimento, que valha por longas horas de reflexão honesta ou de argumentação empenhada. Escrevi recentemente um “post” sobre a presunção de inocência. Melhor teria feito em recomendar a leitura de “Uma confidência de Maigret”, no qual o meu detective favorito relembra com amargura um caso que terminou na execução de um condenado de cuja culpa Maigret nunca esteve convencido. Para que se entenda a iniquidade da pena de morte, leia-se “O último dia de um condenado”, de Vítor Hugo. O melhor que há nas pessoas, podemos aprendê-lo na cena da noite na Ilha do Pico, após a caça ao cachalote, que Vitorino Nemésio nos deixou no “Mau tempo no canal”. O porquê de valer a pena, em “A Peste” de Camus. O ser português, em “A ilustre casa de Ramires”, do Eça. And so on…

Para terminar, como novo exemplo, transcrevo a seguinte passagem de “O hóspede de Job”, do José Cardoso Pires. Passa-se durante o Estado Novo, no Alentejo, e narra o momento em que uma velhota analfabeta, a Casimira Sota, desce da sua aldeia de Cimadas à vila para tentar ver a neta Floripes (a quem ela chama Nina), que a polícia levara presa por não querer delatar uns vizinhos:

“Misérias”, resumia a Casimira Sota, e perguntava lá no íntimo o que faria a sua neta entre tanto desgraçado.
Corria na vila que em breve a haviam de mudar para Lisboa, como aconteceu a Aleixo Serrador e outros, depois do levantamento de Ferreira.
“A Casimira das Cimadas bem pode dizer adeus à neta”, sentenciavam alguns.
“Ela que crie as mais novas, que aquela já não a vê criada”, entendiam outros.
A vila discutia e pasmava. “Jesus, Jesus”, murmurava a velha de Cimadas.
Agarrada à cesta da roupa e à bolsa das maçãs, ela vai agora pelo meio da praça, direita à cadeia. Vem gente às portas do comércio, os miúdos ficam quedos, muito atentos. Cala-se tudo a vê-la avançar. E ela, como se estivesse sozinha em plena praça, pousa a cesta no chão e segreda forte:
“Nina. Ó Nina.”
Ninguém. Insiste:
“Nina.”
Então faz-se o sol de repente. Floripes aparece às grades e, com ela, outros dois presos.
“Nina!”, grita a velha num salto de alegria.
Floripes sorri-lhe. E toda a praça, em silêncio, assiste à velha, cá em baixo, revolvida pelo choro, a sorrir e a acenar com a saquinha das maçãs.
“Ó Nina. Ó Nina. Ó Nina.”

Esta figura de velhinha que chora no meio da praça de simples amor pela sua neta, com a sacola das maçãs, sem entender bem o que se passa, sem se pronunciar sequer sobre a injustiça, indiferente aos olhares dos outros, diz mais sobre a miséria moral e o obscurantismo do salazarismo do que qualquer ensaio ou tese. Destrói mais a pequenez do cabrãozão do Salazar (com perdão da má palavra, mas há que usar de rigor) do que os mais inflamados panfletos escritos pelos mais encarniçados dos seus opositores. Portanto, uma excelente leitura para o nosso actual primeiro, que anda distraído, a ver se enxota a moscaria que lhe vareja à volta.

sábado, julho 14, 2007

Cenas ridículas (II): o canal noventa e tal

Imaginem que um realizador de cinema se propunha fazer um filme sobre um jogo de futebol. Que para actores seleccionava apenas russos de boa pinta e negros espadaúdos, algo diferentes dos futebolistas do nosso campeonato, estes mais do tipo morcão de Massarelos, de patilha graúda, ou favelado brasileiro, com fácies de assalto à mão armada. Que os perseguia pelo relvado com a câmara, dando-lhes instruções do tipo “chuta com força mas levanta bem a perna”, “finge que o derrubas”, “protesta com o árbitro e faz cara de gandulo”. Que, na proximidade da baliza, ordenava ao guarda-redes que se estirasse pelo chão mas de modo a não defender a bola, recomendando um esgar de frustração pelo tento sofrido. Que instruía os jogadores para se abraçarem a festejar o golo, repetindo três vezes a cena até o entusiasmo lhe parecer algo convincente.

Imaginem tal coisa e respondam: isto parecia-vos futebol? Não. Nada que tenha a ver com o Maradona, do baixo da sua barriguinha, a driblar seis talegas inglesas numa Aljubarrota de calções, para enfiar por uma nesga, em queda, o golo do século. Ou com a guarda angélica de um Maldini filho a segurar um zero-a-zero contra o escrete, em cinquenta cortes de carrinho sem uma única falta. Nada que se compare ao nervo miúdo de um “derby” em que o que se disputa é meramente o troféu do puro gozo da vitória sobre o adversário, inútil mas sublime. O futebol faz-se desta amálgama de arte e emoção. O tal filme meramente macaquearia algo na sua essência irreproduzível.

Vem isto a propósito da amável oferta promocional da TV Cabo, que com a nova “Power Box” me proporcionou o acesso nas noites de fim-de-semana a um canal noventa e tal que passa “hard porno”. Zapei e espreitei, me confesso, e o que vi está para “the real thing” como o filme que eu anedoticamente descrevi está para um Argentina-Holanda: não há comparação possível.



Nunca fui fã do género. Mesmo na puberdade, uma boa revista da especialidade talvez me induzisse mais sentimentos nobres que o visionamento duma película pornográfica. A única vez que paguei para ver na tela ocorreu durante uma visita de estudo “ad hoc” da secção masculina da minha aula do quarto ano do liceu, a qual decidiu por sua alta iniciativa completar o programa escolar de biologia, excessivamente enfocado na reprodução do pinheiro-bravo, com uma sessão contínua no cinema Olímpia, ali aos Restauradores.

Recordo que entrámos a meio do filme, assistimos ao “the end”, ao genérico de entrada e decidimos sair quando nos pareceu que já tínhamos visto aquela mesma parte, embora não tivéssemos a certeza. Durante todo o tempo, perto de nós, um velhote aparentemente fugido de um sarcófago varejava o ar com a bengala, incentivando com voz rouca e frases boçais os actores a aplicar-se com mais empenho sobre as actrizes, como se a cobóiada que fervia na tela lhe parecesse insuficiente. Saímos algo angustiados com o facto de a garantia de continuidade da espécie implicar aquelas habilidades um pouco circenses e algo patetas, nas quais não nos imaginávamos lá muito bem, mas ainda assim entusiasmados pelo facto de termos conseguido entrar numa sala de espectáculos para a qual tínhamos setenta por cento da idade necessária por lei.

Hoje, já tendo feito o meu número de pista para a continuidade da espécie, mais uns ensaios e ameaços, quando vejo o novo canal noventa e tal continuo a achar algo pateta, e explico porquê.

A) O enredo

O enredo base do filme “porno” compara em complexidade com o jogo do galo: senhora jeitosona, de saia curta e galochas de salto alto, troca olhar com cavalheiro musculado, funciona a química, chega ao pé, toca um solo de trompete remirando com olhar guloso e passam à continuidade da acção, normalmente em posição acrobática em cima de um balcão, de uma mesa de cozinha ou de outro lugar desconfortável que esteja à mão de semear.

Na maioria das vezes, por um azar dos Távoras, são surpreendidos em flagrante movimento harmónico simples por um amigo/amiga. Quando amigo, este, em vez de se retirar discretamente, junta-se à festa como quem quer a coisa, dando assim pleno cabimento à regra máxima do cinema pornográfico, que é a de que três é a conta que Deus fez. Quando amiga, esta finge que se vai embora escandalizada, mas não o suficientemente depressa para não ser convencida a ficar depois de reticências menores e duas ou três olhadelas furtivas para o equipamento do senhor.

Existem depois variantes, com marcianos, espiões, enfermeiras ou caixeiros-viajantes, mas basicamente não passa disto.

B) Os diálogos

Os diálogos lembram o monólogo do burro ibérico com fome, só que a duas vozes:

Ela: - Hin!
Ele: - Hon!
Ela: - Hiin!
Ele: - Hoon!
Ela: - Hiiin!
Ele: - Hooon!

E assim sucessivamente, em ritmo progressivamente acelerado. Até a cena inicial do “2001-odisseia no espaço” tem conversa de maior conteúdo.

C) Os actores

Pelo arzinho dos actores, os “castings” devem ser subcontratados à Carris, que angaria os artistas entre os passageiros da carreira nocturna 40 (Picheleira – Cais do Sodré). Em geral, o critério de selecção será a metragem, neles, e a volumetria, nelas. De molde a realçar os seus dotes de representação, passam todos com a “Epilady” dos pés até ao pescoço. Usam por norma pseudónimos inacreditáveis como “Ted Missile” ou “Mae Boobs”.


D) Os truques de realização

Todo o género tem os seus “clichés” e o porno não foge à regra. Um deles tenta atalhar uma dificuldade técnica básica: como filmar a ejaculação, cereja em cima do bolo de todo o processo? Porque neste caso, a cereja acontece dentro do bolo… Uma possibilidade passaria por usar uma fibra óptica, tipo canal Discovery, que descesse aos abismos para registar “in loco” tão espástico momento. Talvez fosse um pouco incómodo para os artistas.

Os realizadores resolveram o problema de outra maneira. Quando aquilo está quase-quase-quase, o mancebo retira-se de súbito e entra em modo manual, espalhando “urbi et orbi” a boa semente, muitas vezes também na fronha da parceira. Voltando à comparação com o futebol, seria como se, no culminar de uma grande jogada, com a baliza à mercê para o golo que vai fazer explodir cinquenta mil adrenalinas no estádio, o avançado estacasse de repente e se pusesse a dar toquezinhos sem deixar cair a bola no chão. Anti-clímax total…

Outro “cliché” curioso ocorreu após o advento da SIDA. Os grandes planos às partes móveis dos artistas passaram a mostrar à evidência o uso do profilático, não fosse haver algum azar mau grado a sólida formação moral dos actores. Esse preservativo desaparece normalmente antes da cena final, deixando o espectador na dúvida se houve um erro de montagem ou se se consumiu com a fricção (durante a montagem, diria eu).

E) Os realizadores

Se ouvirem uma entrevista a um realizador destas películas, irão constatar que ele acha que produz sétima arte, discursando sobre o “Branca de Neve e os sete matulões” como se de o “Couraçado Potemkine” se tratasse. Mas tal é a natureza humana. A Margarida Rebelo Pinto também pensa que os seus livros são parecidos com os do Tolstoi, só porque ambos são de papel com letras impressas e uma capa à volta.


Em suma, para quem se lembrar da física de liceu tem no “porno” uma aplicação típica do princípio de Heisenberg: a observação do fenómeno altera o próprio fenómeno. Tenta-se filmar sexo e a imagem que a câmara capta já não tem nada a ver com sexo, mas mais com uns pantomineiros aos pinotes.

Heisenberg pensava que o seu princípio só se aplicava a objectos muitíssimo pequenos, mas pelos vistos também funciona com outros razoavelmente grandes.

domingo, junho 24, 2007

A boa e a má tristezas

Tal como o colestrol e os raios ultra-violetas, também existe uma tristeza boa, que em doses apropriadas nos faz bem, e uma tristeza má, que quanto menos melhor.

A questão que se traz, suscitam-na recentes intervenções em blogues da vizinhança sobre o tema da felicidade. Nestes, enfrentavam-se no fundo duas visões da felicidade: uma correspondente a uma vivência globalmente positiva, outra a um estado ideal ao qual se acede pela eliminação de elementos negativos. Nesta última óptica, a tristeza, a dor moral, seriam sempre mais nefastas que a sua ausência. Penso convencidamente que tal nem sempre acontece.

Note-se que não haverá lugar aqui a nenhuma apologia romântica da tristeza. É melhor ser alegre do que ser triste, dizia o Vinicius de Moraes, provavelmente homenageando La Palisse de tão óbvio que soa. E claro que existem muitas tristezas duríssimas, que tornam muito difícil ou impossível atingir a felicidade, como a morte de um filho, ferida que nunca fecha e acontecimento que marca uma vida indelevelmente com um ferrete em brasa de infelicidade. Mas o que será falado serão outras tristezas, que nos transtornam os dias mas não a existência e sem as quais dificilmente nos poderíamos habilitar a estar inscritos no clube humano.

Certa vez, eu e minha mulher comentávamos o desejo que alguém exprimira de ser cremado e de ter as suas cinzas espalhadas em lugar incerto e ela disse algo que me ficou, algo como “quando os meus pais forem, quero ter um lugar onde possa de vez em quando ir chorar por eles”. Não há nada de estruturalmente negativo nesta tristeza. Obviamente que não queremos que os nossos pais se vão. Mas um dia, pela ordem da vida, tal acontece e vamo-nos sentir muito tristes, depois um pouco menos, mas sempre algo tristes. Porque o nosso mundo ficou mais pobre e pequeno, porque intuímos a nossa própria hora, porque esta é a nossa natureza, magnificamente humana. A partir daí, quando nos lembrarmos, sentiremos tristeza. Poderemos, consoante o nosso modo de ser, vivê-la no nosso íntimo ou expressar uma lágrima. Mas sentiremos, e ao sentir estaremos revitalizando a nossa memória dessa pessoa, comunicando de algum modo com ela, insuflando vida em algo que outros julgam morto.

A alternativa, terrível, é o oblívio. Certamente, esquecer seria mais cómodo. E segundo algumas perspectivas a meu ver erradas, trar-nos-ia felicidade por não nos trazer infelicidade. Recordo a talhe de foice uma leitura de Milan Kundera que descrevia uma viúva que, aos poucos, naturalmente, ia perdendo a lembrança de traço após traço do marido e que no seu esforço para recordar acabava por confundir tudo, até perder toda a memória dele. E, nesse dia, ele de facto morrera de vez. A memória de um ente querido traz continuidade, lança uma ponte e também uma homenagem. Por isto mesmo, quando há mais de cinquenta mil anos os nossos primos remotos Neandertais começaram a praticar cerimónias fúnebres, saímos da era da macacada para passar a ser gente. A dignidade na morte tornara-se um espelho da dignidade da vida humana.

Dito isto, essa tristeza não faz de nós infelizes, nem sequer, de um certo modo, menos felizes. Quando alguém próximo morre na sua hora, depois de uma longa vida, a tristeza não nos impedirá de olhar para trás e dizer: “Teve uma vida boa. Amou e foi amado. Divertiu-se. Fez isto e aquilo. Gozou filhos e netos. Marcou-os por esta ou aquela suas características. Deixou boas lembranças. Valeu a pena.” E o nosso sentimento triste será ponderado por um balanço positivo, e coexistirá pacífico na nossa própria felicidade, como uma ruga de maturidade que não desfeia um rosto bonito. Infelicidade, na minha perspectiva, seria não pensar mais no assunto.

A frustração de um estudante que sofreu um desaire ou de um atleta que chora na derrota pode ser catalizadora de uma reacção de brio que os motive para um sucesso ainda maior logo de seguida. A melancolia que nos toca ao vermos um filme dramático ou ouvirmos uma canção de sentimento faz parte de uma reflexão intuitiva sobre a nossa condição humana e tem associada uma perspectiva solidária, que muitas coisas boas tem trazido à humanidade. As pequenas contrariedades que puxam a lágrima às crianças também as formam, tornando-as mais capazes de interagir com o mundo à sua volta. São um pequeno investimento de tristeza que pode dar um alegre retorno ao longo da vida. Nenhuma destas formas de tristeza se incompatibiliza com a essência da felicidade. São meras pedras no caminho, em que tropeçamos para logo levantar, sacudir a poeira e seguir, se calhar com maior noção do equilíbrio.

Quando assistimos a desgraças inomináveis no telejornal, será bom sinal que fiquemos tristes. Relativizar certas coisas só por egoísmo de sofá. Recordarei para sempre uma cena transmitida durante o massacre da escola de Beslan, em que um pai segurava em pranto o corpo morto do filho, aí de uns dez anos, e a mãe, gritando, tentava esticar os braços para tocar na criança mas, quando estava quase, estes retraíam-se como se dotados de vida própria, como se não quisessem aceitar o horror. Nessa noite chorei convulsivamente de raiva, como se aquele fosse um filho meu – de certo modo era-o – e só partilhando uma migalha daquela dor infinita percebi o que realmente ocorrera naquela escola, muito para além das causas políticas, religiosas ou étnicas. Sempre que relembro essa imagem fico momentaneamente infeliz, mas mais infeliz seria no fundo se estas coisas me passassem alegremente ao lado.

Agora, andam para aí ao que parece uns seres excepcionais que se reputam os mais felizes da galáxia e arredores, por conseguirem afastar da brilhante carola qualquer pensamento negativo. Os seus electroencefalogramas revelariam apenas boas ondas, lembranças florais, memórias entusiásticas, cores lindas e outros alegres pensamentos que tais. Em suma, uma ganda tripe.

Confesso que estes e outros super-homens – à excepção dos da Marvel – sempre me causaram alguma desconfiança. Primeiro, porque ninguém teve a amabilidade e o bom senso de me convidar para tão excelso agrupamento. Se se tivessem lembrado, talvez eu condescendesse. E tal inábil atitude não pode deixar de me causar suspeita, até porque ainda não conheci ninguém que me fizesse sentir da terceira divisão. Porque é que haviam agora de ser esses senhores gajos? Por outro lado, a História demonstra em títulos tristes escritos a tinta de sangue que as manias de superioridade deram sempre raia, com dor e ranger de dentes em doses industriais. No século que passou, foram umas dezenas de milhões de mortos para o “übermensch” nazi e outras tantas para o “homem novo” soviético.

Com a excepção das senhoras maritalmente mal servidas, porque raio é que haveríamos de querer um homem novo se ainda não esgotámos tudo o que de bom tem para dar o homem velho e se calhar nem vamos esgotar? Como “homem velho”, podemos ser criativos, construtivos, progressivos e até felizes. Com os seus defeitos e maleitas, com todos os riscos inerentes a viver a vida, o “homem velho”, o “homo sapiens sapiens”, o verdadeiro, o da Bayer, dá-nos um excelente enquadramento para realizar grandes obras e levar uma vida gratificante, que chegue para nós e sobre para os outros.

E isso pode acontecer sendo nós simplesmente quem somos. Gente com alegrias, com tristezas, que chora, que ri, que às vezes tem dores de dentes. Gente que olha para si e se vê construída de momentos bons e outros tristes, mas que consegue em cada instante conceber um balanço e que eventualmente ousa declarar-se feliz. Gente que seja de facto feliz, mesmo que a espaços não o esteja, mesmo que por vezes sofra com um dia mau, com um revés, com um pensamento de solidariedade para com os que realmente vivem na infelicidade porque têm fome ou porque viram os seus pais mortos por soldados ou um filho abatido por um condutor que decidiu ser sua aquela passadeira.

Uma mente só com pensamentos alegres? Porra! Que coisa mais triste!

sábado, junho 16, 2007

O cão nauseabundo

(Private joke)


Não sei qual dia fora
De um mês que já passou
Em que algures na Beloura
Eram cinco a jogar Tarot.
Por sobre a toalha vermelha
Ferviam cortes e puxadas
E acusações de ser aselha
Por mor de um seis de espadas.

Vai um dado momento,
Tudo de soslaio a mirar:
Um jogador menos atento
Acabara de se largar.
Fora discreto o autor
No som, mas não no resto:
Compensava pelo odor
O silêncio de tal gesto.

Ora havia na casa um cão
Que não devia nada à limpeza:
Estava ele por trás da razão
Do mal-estar naquela mesa.
Olhando os jogadores arfava,
Com um arzinho satisfeito,
E o pessoal enquanto jogava
Ia trocando um olhar suspeito.

Até que o dono da casa, agoniado,
Explicou a todos a situação.
Não fora pois nenhum convidado:
Quem se borrara fora o cão.
E arrumando cartas com alarde
Passou-as ao vizinho já cortadas:
Preferiu não arriscar uma “garde”
Para ir escancarar as portadas.

domingo, junho 10, 2007

Prazeres exóticos

Hoje, no escaparate de livros em destaque da FNAC, lado a lado, duas propostas: “Casei com um Masai” e “O meu casamento com um Bérbere”. Como agora a actividade editorial anda muito de modas, presumo que procurarão títulos para esta nova etnografia por via uterina. Aqui vão algumas sugestões:

- o meu matrimónio com um índio quichua;
- bodas com um cingalês;
- desposei um esquimó (que me emprestou ao vizinho do iglu ao lado);
- na cama com um congolês (“extended stick mix”);
- cobóiada num albergue com uma data de espanhóis;
- sexo agitado com um alentejano;
- noite de núpcias não consumada com um benfiquista.

O pessoal não terá mais nada para ler?

quarta-feira, junho 06, 2007

Os gatos

Num momento de fraqueza, cedi às loas de uma amiga militante da causa felina, que conseguiu tornear o meu bom senso fazendo-me ceder à pretensão das crianças em ter um gato. Foi assim que um dia cheguei a casa e me deparei com a família de rabo para o ar, a tentar tirar de debaixo do sofá uns assustados quinze centímetros de pêlo cinza e pernitas magricelas, já nomeados Silvestre à minha revelia, em homenagem ao incompetente dos desenhos animados que nunca conseguia abocanhar o enervante canário.

Durante os dias seguintes, testemunhei uma sucessão de pequenas alegrias – o Silvestre já comeu, já adormeceu, já arreou o calhau, olha entrou para dentro de um saco – alternadas com grandes dramas – o Silvestre engasgou-se ou, pior, o Silvestre desapareceu. Os desaparecimentos do Silvestre originavam grossas angústias e verdadeiras batidas pela casa, que podiam demorar horas, com lanternas e paus e que terminavam por norma quando o Silvestre de espontânea vontade se materializava debaixo dos nossos olhos, bocejando indiferente, acabadinho de chegar da quinta dimensão.

Descobri por essas alturas a monumental indústria que gravita à volta dos gatos. Um verdadeiro “cluster” da nossa economia, para usar a expressão do Michael Porter. Entrei então em corredores do supermercado cuja existência nem suspeitava, onde se amontoavam variedades impensáveis de comida para gato, em lata ou em sacas, pequenas, médias ou grandes, com diferentes cores e composições consoante as idades, para gatos gordos e para gatos débeis, de pelagem rala ou farfalhuda, activos ou mais dorminhocos, tónicas ou dietéticas, tudo a preço de caviar “beluga”. Rapidamente o Silvestre passou a ter despesas de veterinário e um boletim de saúde como não o têm os velhotes do interior, plano de vacinas e desparasitagens. Fiquei a saber que se o bichano viesse a andar enervado, existem psicólogos especializados em dar conforto mental à gataria, por valores menos que módicos. A antiga caixa de serradura das minhas memórias de infância fora substituída por uma autêntica estação de compostagem, com uma areia sintética cheia de aromas e agregantes, dispendiosíssima, que produzia uns calhaus muito práticos mas que provocavam o rápido desaparecimento da dita areia – e a consequente e irritante necessidade de comprar mais! A esta renda havia que somar os brinquedos, o tronco de afiar unhas, as cestas para dormir mais os cobertores, o cesto para deslocações e os “bibelots” que se iam partindo.

Perante a parafernália e a despesa, a minha mãe, que em criança sempre tivera gatos de quintal que comiam espinhas e bebiam água das poças, comentava com bastante filosofia que até para se ser gato é preciso ter sorte.




Passados uns tempos, o “lobby” da bichanada voltou a atacar e conseguiu-me convencer de que se um gato incomodava muita gente, dois gatos incomodariam muito menos. O argumentário girava à volta de que assim se fariam companhia um ou outro, andariam menos nervosos, encheriam menos o saco, etc. Deste modo mentiroso chegou o Tommy a nossa casa.

O Silvestre era um bicho com algum “pedigree”, arraçado de Bosque da Noruega, com uma belíssima pelagem cinzenta, luzidia e suave como uma gola de marta. O Tommy, malhado que nem uma charolesa, de pêlo áspero, assumidamente rafeiro e com a pata muito leve. Rapidamente pôs o mais velho na ordem. Passado poucas semanas, já comia primeiro da malga, numa lição de liderança. Pusemos uma segunda tigela para o Silvestre, e ainda assim este esperava que o outro terminasse, numa lição de submissão. Estranho mundo dos gatos que tão bem imita o dos homens!

Mudou a minha vida e mudou a minha casa. Nunca sabia quando um qualquer gesto do quotidiano, uma luz que se acendia, o sentar num sofá, um passo inadvertido, iriam desencadear um tropel pelo corredor fora, um eriçar de pêlo bufante ou um mero olhar redondo de desprezo. No desprezo, aliás, eram exímios. Tinham uma maneira de olhar de soslaio, erguendo o pescoço ao de leve, de bocejar num vago aborrecimento, de virar costas e seguir caminho sem passar cartão, que só poucas mulheres – e nenhum homem. Quando soube que a esperança de vida destes animais podia exceder os catorze anos, percebi o logro em que caíra: pela ordem natural das coisas, os meus filhos sairiam de casa antes dos gatos. Desesperei com a ideia dos dois em frente à têvê, cada um com o seu felino ao colo, esperando em vão um telefonema dos ingratos.

Mas, pouco a pouco, os gatos fizeram ninho nas nossas vidas. Impuseram os seus hábitos e a sua linguagem: um olhar para a janela, põe-me aqui um banco; um mio para a maçaneta, abre-me a porta; um rebolar aos pés, dá-me festas. Estabeleceram preferências: por pessoas, por lugares, por momentos. Havia uma hora para a Sofia, outra para cada miúdo e outra para mim (infelizmente a meio da noite). Numa palavra, tornaram-se da família, com aquele jeito insinuante e lunar que me lembra o poema do Alexandre O’Neill:

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?


Sei que com os meus gatos aprendi a resposta, e não é “dono” de certeza.

quinta-feira, maio 31, 2007

Cenas ridículas (I): Os óculos escuros

Lembro-me de ter passado o tempo, no pára-arranca de um IC qualquer, numa curiosa estatística. Contando os carros que deslizavam nervosos em sentido contrário para o ponto das nove, fui verificando quantos condutores de óculos fumados: sim, não, sim, sim, não, sim, sim, dez, dezasseis, trinta! Trinta e tal em quarenta de óculos escuros numa manhã chuvosa de Novembro.

Jovens comerciais de cabelo espetado em gel, esquálidas doutoras da contabilidade em apetrechos matinais, tias engelhadas no BMW do tio, tudo arvorava o olhar moscardo, mirando pela lente escura a queda do amarelo, com o nervo do carneiro que se atrasa no caminho para o matadouro.

O que levará tão grande percentagem de lisboetas a querer ver por lentes negras um dia já cinzento? Hipersensibilidade fotónica ocular? Mania que ficam com ar matador? Admiração exacerbada pelas personagens do Matrix? Sinal de reconhecimento e identificação entre burguesia suburbana? Não sei. Sei que tal fenómeno não pode ser inocente num país em que se marra com os cornos ao volante por dá cá aquela palha.


Se estabelecermos a correlação estatística entre o uso das cangalhas pretas e os acidentes viários, veremos que a coisa joga. Possível cenário: o pessoal entra para o Corsa dezasseis válvulas, mete os pintosos óculos escuros, tudo se apaga, e aí vai ele num Ferrari 599 a curvar a parabólica de Monza a duzentos e setenta quilómetros por hora. Curva apertada à direita, batendo “in extremis” um Porsche de uma escuderia alemã, chicana, duas ultrapassagens, uma quase saída de estrada evitada no limite, com muita perícia, até embater no que julga ser o “aileron” traseiro de um concorrente atrasado mas que afinal é a caixa aberta de uma “pick-up” de uma empresa de construção civil, que ia levar umas sacas de cimento ali para uma obra no Murtal.

Enquanto os bombeiros o desencarceram, há-de tactear o banco do morto à procura dos óculos, único elo economicamente acessível a esse mundo de “glamour” automóvel, que lhe saltaram da penca com o embate e que convém não perder, a pensar já na próxima corrida.

Se não fossem as lunetas de sol, talvez a gente visse mais a estrada e menos a pista.

Recordando que Pedro o Grande iniciou a modernização da Rússia mandando os boiardos cortar as barbas e Kemal Ataturk trouxe a Turquia para a Europa obrigando os funcionários públicos a usar chapéu em vez de fez, também a nossa Prevenção Rodoviária Portuguesa deveria começar o combate à sinistralidade automóvel com uma medida fortemente simbólica. Proibição de conduzir de óculos escuros, que é para ver se abrem os olhos! E já!

terça-feira, maio 29, 2007

A chamada de longa distância

Este sábado, atendi o telemóvel. Lá longe, no mar Egeu, de uma ilha cujo nome de exotismo histórico e veraneante não consegui fixar, ouvi entrecortada a voz de meus amigos. Os meus amigos interromperam por instantes o seu sábado de cruzeiro paradisíaco para, em frente aquela praia de areia branca – ou seria, menos poeticamente, cascalho? – se lembrarem de mim.

Senti que fazia lá falta, senti que me faziam falta, arrependi-me de não ter ido. Mas fiquei de dia feito.

Pelo auricular, no meio dos “como vão, como está o tempo”, vieram as primeiras certezas e as primeiras dúvidas, copos de cerveja em mesas de fórmica à beira-praia, o silêncio do estudo de madrugada, passes magistrais para golo (e alguns grandes frangos), confidências eufóricas e segredos bem guardados, ténis à porta das tendas, luzes de discoteca, psicadélicas, e angústias de fim de festa, igualmente psicadélicas, mãos que seguraram as mãos dos meus filhos, risota de segunda fila em dia de casamento, curvas apertadas nos carros emprestados pelas mães, orgulhos de primeiro emprego, noites de conversa mole e dura à luz da lua, sorrisos que abriam a porta. E também umas quantas zangas, poucas, uma ou outra irritação, alguma desanda mais ou menos merecida.

Eu e os meus amigos, contas feitas, estamos à moda do Porto: não há dívidas pendentes entre nós. O que devemos uns aos outros pusemos numa conta comum, já com uns anitos de juro e um capital de respeito.

Perguntou-me um dia a minha legítima: “porque é que não casaste com eles?” A bem dizer, não sei. O facto de serem feios e felpudos terá contribuído de forma não desprezável. Ou talvez porque o nosso sacramento não se celebra em casa, mas em qualquer esquina, de Paris, de Atenas ou da Charneca da Caparica, onde um tipo calhe de se encontrar.

Se calhar nunca vos disse, seus cabrões! Mas gosto muito de vocês!

sábado, maio 19, 2007

Anúncio: Cenas ridículas

Mataspeak vai lançar uma série de pequenos “posts” em que procurará retratar o ridículo do quotidiano moderno. No cinquentenário de “O meu tio”, serão uma singela homenagem à câmara de Jacques Tati, sempre pronta a expor o ângulo traiçoeiro que revelava a idiocia das nossas pequenas vaidades.

Estejam atentos…

Presuntos implicados

Contrariamente ao que arenga a sabedoria convencional, um democrata para o ser tem que ser um fundamentalista.

O conceito de fundamentalismo nasceu associado a movimentos de carácter religioso que assumiam o carácter infalível e regulador de textos sagrados ou de certos dogmas, mas acabou por se estender a qualquer grupo que julgue que existem preceitos que se devem aplicar, invariavelmente, a todas as pessoas e em todas as situações. Exactamente neste sentido, o democrata é obrigatoriamente fundamentalista. Porque para ele existirão valores que serão sempre correctos, quer o sirvam a ele, quer ao seu maior inimigo; valores que não poderão nunca ser beliscados; valores para os quais não há “ses” nem “talvez”.

A lista desses valores ainda é grandota. Inclui concepções sobre o poder (que deve ser submetido a regras, representativo, consentido, repartido, transparente e equilibrado por contra-poderes), sobre as obrigações de comportamento individual e colectivo (para as quais é central o conceito de liberdade individual e que passam por normas adequadas ao funcionamento simultâneo de seis biliões de liberdades individuais) ou, ainda, sobre a dignidade humana (através da protecção da vida ou da igualdade diante da sociedade e das leis).

Poderemos com alguma justiça definir como democracias apenas as sociedades em que uma parte substancial da população tenha assimilado, como componente da sua cultura, estes conceitos. Em que os políticos, os juízes, os enfermeiros e os limpa-chaminés os achem óbvios. Sociedades como Portugal, em que existam instituições e leis democráticas, mas em que as pessoas não sintam esses valores como seus, são meramente regimes democráticos, não democracias. E tais sociedades, não se alicerçando sobre um fixe – um “bedrock”, como dizem os ingleses – de valores imperturbáveis, abanam com frequência, por vezes perante sismozitos insignificantes.

Um dos valores em questão é a presunção de inocência. Um daqueles que se percebe logo: ninguém gostaria de ser acusado em vão de gamar uma carteira, ou de benfiquismo ou de qualquer outra coisa assim grave. Uma falsa acusação fere o sentido de justiça e pode estragar a vida a um tipo. Para evitar tal coisa, o progresso da civilização criou alguns princípios básicos: todo o acusado está inocente até ser condenado; tal condenação carece de prova; o ónus da prova fica com quem acusa; e a prova deve estabelecer a culpa para além de qualquer dúvida razoável. No fundo, quem quiser viver numa sociedade em que não se ande vestido de peles, com mocas numa mão e mulher arrastada pelos cabelos na outra, tem que aceitar que mais vale deixar um crime sem castigo de que correr o risco de engaiolar o gajo errado.

Deixa-nos indignados que um crime hediondo fique por punir? Deixa, mas eu ficaria muito mais ofendido se preso por algo que não fiz. A vida é assim: imperfeita. Ocorrem tremores de terra de grau oito, morrem crianças de leucemia e não se encontram culpados de sabujices atrozes. Quem quiser estar em jogo sabe que são estas as regras e os riscos. Mas a vida, além de imperfeita, é preciosa e irrepetível. Por isso, há que usar de toda a prudência antes de estragar a de alguém por engano.



Há dias, reportando as investigações ao rapto da pequena inglesa no Algarve, a RTP deu – financiada pelos meus impostos! - um festival de alarvidade noticiosa à volta de um fulano que foi interrogado pela polícia. Filmaram à porta de sua casa e deram o nome da vivenda, de modo a que toda a gente pudesse saber quem ele era. Uma senhora gaja descabelada, identificada abusivamente como “jornalista”, gritou ao microfone banalidades sem conteúdo como se fossem notícias. Revelou, com ar de inconfidência fundada, que pessoas da vizinhança lhe teriam dito que o indivíduo apresentava um comportamento “anómalo”! Como anómalo? Matava pessoas com uma serra eléctrica? Lia mais de dez livros por ano? Votava na Carmelinda Pereira para as presidenciais? Ouvia os “Irmãos Catita”? Almoçava túbaros? Não usava fato-de-banho na praia? Em Portugal, todos estes comportamentos são fora da norma, mas só o da serra eléctrica constitui crime, penso eu de que! Fechei o televisor enojado, interrompendo a idiota do micro a meio de mais uma cretinice, deixando-a lá longe no seu labor sujo de crucificar um homem na praça pública.

Não sei se o homem tem ou não culpa no cartório. Tal é totalmente irrelevante, uma vez que não me cabe, nem a mim nem à gajola da RTP, decidir sobre esse assunto. A mim e à pindérica cabe-nos pensar que, até prova em contrário, aquele senhor é tão respeitável como o nosso paizinho e tomar as precauções inerentes. O facto de o crime em causa ser dos mais hediondos que possa haver, dos que mais fere a nossa humanidade e o nosso sentir interior de pessoas e pais, não diminui a necessidade de cautela, antes reforça-a. Um crime gravíssimo e moralmente repelente pode ser o teste mais drástico à solidez dos nossos princípios. Se neste momento difícil a nossa convicção na presunção da inocência fraquejar, bem nos podemos juntar ao magote disponível para babar ódio instigado pelos pelourinhos televisivos e pelas Manuela Moura Guedes deste triste mundo, versão moderna das turbas grosseiras do passado que aplaudiam no rossio da vila os corpos enforcados dependurados do cadafalso.

Se não soubermos distinguir entre um “presunto implicado”, como dizem os espanhóis, e um culpado, rapidamente o transformaremos em simples “presunto”, no sentido menos simpático que tal palavra tem no “bas-fond” da favela carioca.

sábado, maio 12, 2007

World Godless Photo: da arte e do vazio (II)

Continuação de post de 1 de Maio


Ao redor de 1562, Pieter Bruegel o Velho pintou “O triunfo da Morte”. Embora feito num século em que o Homem retomou o seu destino entre mãos, “O triunfo da Morte” respira ainda a Idade das Trevas. Num cenário de fim do mundo, exércitos de esqueletos arrebatam e matam quem encontram, individualmente ou em grupo. No primeiro plano, a reacção das pessoas é diversa: há quem combata, há quem se esconda, há quem se submeta. Alguns fogem para dentro de uma caixa com uma cruz na entrada, procurando refúgio num símbolo seguro, mas aquela não parece ter saída. O combate surge como desigual e, logo, sem esperança: um infinito de esqueletos espera do lado direito para entrar em acção, todos munidos de escudos e lanças. Ao centro, como um rio descendo o vale, aproxima-se mais tropa maligna. Todas as classes sociais sofrem de igual modo diante do triunfo da Morte: no canto inferior esquerdo, um rei com a sua armadura e manto de arminho. Mais adiante, burgueses, guerreiros, doentes, menestréis, damas, a todos espera-os o mesmo destino. À medida que o nosso olhar se afasta para o horizonte, vamos sendo informados, pelos detalhes que Bruegel foi distribuindo pelo segundo plano, que não vale a pena ir para lado nenhum: a Terra está em chamas, os Céus enchem-se de negro, cadafalsos exibem enforcados, vítimas ajoelhadas esperam a queda da espada que os decapite. Só no canto direito do quadro, sobre o mar, se pode encontrar alguma luz, um resto de paz. Mas não creio que esteja lá para dar um sinal de esperança, até porque a fumarada, soprada pelo vento, ameaça cobrir em breve esse último refúgio. Penso que essas derradeiras pinceladas de luz servem apenas para equilibrar a composição e para puxar o nosso olhar através dos sucessivos planos que compõem a imagem.



Para o homem medieval, existia um universo oculto e maligno, mas tão real como o visível, habitado por demónios e outros seres danados, comandados por esse contraponto caído personificado no Diabo. Esse lado da existência, num tempo de incertezas e noites escuras, amedrontava e ao mesmo tempo fascinava. Este quadro foi certamente influenciado por essa visão do mundo: Bruegel retratou mais do que uma vez imaginários povoados de seres disformes e obscenos, possivelmente inspirado pelo estilo do seu compatriota Bosch. Mas aqui foi um pouco mais além: o lado positivo deixou de existir. Deus e a esperança de redenção que traz não marcam presença nesta pintura. A morte não é mais uma porta para um além desconhecido, que pode ser o da existência eterna ou o do fim sem fim dos tormentos no inferno. A Morte torna-se a essência do mundo: os seus exércitos inspiram medo, e não esperança, pelo que a Morte vem retratada como o Mal ou o Fim. Bruegel parece estabelecer aqui um princípio filosófico particularmente pessimista sobre a natureza das coisas. Contrariamente às fotos da exposição, em que a guerra gera o mal e este surge como consequência e testemunho da guerra, no quadro manifesta-se um Mal estrutural, que aparece neste caso sob a forma da guerra, como poderia aparecer como peste ou fome.

Bruegel foi certamente influenciado pelo tom e pelos acontecimentos da sua época. Em 1567, o Duque de Alba chegou a Bruxelas, mais a sua tropa. Filipe II de Espanha tinha-o incumbido da simpática tarefa de converter à força os protestantes e o duque levou a coisa à letra, levando à morte milhares de pessoas e em última instância à cisão dos Países-Baixos. Inaugurou por aquelas bandas um estilo de acção política rígido nos princípios e contraproducente nos resultados: terá sido o primeiro eurocrata de Bruxelas. Em justa homenagem, ainda se hoje se chama duque de alba a um tipo de estrutura portuária suficientemente bruta para aguentar o embate da acostagem dos navios.

Não se sabe se Bruegel tomou partido entre católicos e protestantes: talvez se tenha prudentemente mantido na retranca. Mas pode deduzir-se, de algumas das suas obras, que tinha suficiente simpatia pelos protestantes para dar umas bicadas subtis no Duque de Alba, pintando um cavaleiro de armadura negra em situações menos simpáticas. Podemos especular que o quadro “O triunfo da Morte” pretendia também transmitir uma mensagem política, ao representar uma identidade entre a guerra e o Mal. Se atentarmos que o tipo de representação do cenário de guerra (as forcas, os incêndios, as rodas de tortura) nos recorda muitas das imagens da época sobre as guerras de religião e sobre a Guerra dos 30 anos, esta pintura procuraria induzir uma associação entre os exércitos de esqueletos e outros bem reais que espalhavam o terror pela terra: os espanhóis de Filipe II.


Se no primeiro exemplo os espanhóis são os maus da fita, no segundo são as vítimas. Em 2 de Maio de 1808, na Madrid ocupada pelos exércitos napoleónicos, um soldado francês foi mandado do cavalo abaixo e levou um enxerto de porrada. O general Murat, que ganhara os galões de marechal a comer uma irmã do imperador, proclamou que sangue francês tinha sido derramado e tratou de organizar a desforra, No dia seguinte, a França mostrou a sua grandeza fuzilando cerca de quatrocentos civis, entre pedintes, monges, mercadores e outros perigosos terroristas. Como a História se repete! Seis anos depois, Goya retratou o massacre num quadro intitulado “O três de Maio de 1808”.

Goya pintou-o, juntamente com outras obras, por razões muito pulhamente materialistas: para manter o seu salário de funcionário real, dando graxa ao novo monarca absoluto de Espanha, Fernando VII. Este manteve-lhe o cacau mas guardou o quadro num armazém, como prova de absoluta consideração. Hoje em dia, podemos admirá-lo no Prado.



Nele, vemos homens disparando sobre outros homens. Apenas o título da obra nos permite relacionar o facto histórico com o que é representado. Talvez aquela silhueta de igreja seja familiar aos madrilenos. Talvez os barretes dos soldados fossem característicos do exército francês. Mas nitidamente Goya afastou-se de uma realidade formal para que ela não prejudicasse a restituição daquilo que lhe pareceu ser o essencial da cena. O resultado é uma composição quase teatral, como que de actores dispostos num palco, representando a natureza da bestialidade humana. Com a excepção do rosto do personagem central, as posições e expressões são rígidas e irrealistas, como nos “manga” japoneses, preocupando-se apenas em traduzir de forma eficaz um conceito único: o desespero, a raiva, o medo ou a incompreensão dos condenados, que contrastam com a firmeza cinzenta e monolítica dos soldados.

Goya não presenciou os acontecimentos, nem se preocupou em documentá-los. Para um liberal como ele, para quem a Revolução Francesa representava a ruptura com o passado que ele desejava para Espanha, o comportamento dos soldados franceses deve ter sido dilacerante. Eventualmente por isso, Goya afasta-se de uma mensagem política específica, de crítica da violência napoleónica, para produzir um retrato mais lato da individualidade humana, valor supremo, atacada num acto sacrílego pela força bruta.

No centro do quadro, destacado pela perspectiva, pela cor e por uma luz irrealista, como se um projector celeste o iluminasse, um homem, um homem comum, provavelmente igual a milhares de espanhóis da época, abre os braços e uma cara de espanto ao pelotão de fuzilamento. A sua expressividade, o misto de sentimentos que essa expressão veicula, de incompreensão, receio, angústia, resignação e até de alguma serenidade, contrastam com a frieza sem face dos executores. Aquele homem banal desbanaliza a violência da guerra, ao contrário das fotografias da exposição, tornando a morte e a dor inúteis no problema central do universo. Outros acabaram de ser mortos e uma fila sem fim visível espera o seu destino. Mas no instante que Goya pintou, no preciso momento em que vai ser abatido, este homem simboliza toda uma humanidade vítima do abuso do poder da força e todos as pessoas que morreram sob o jugo daqueles que acham que a razão do colectivo se pode arrogar o direito de destruir a preciosidade irrepetível da nossa individualidade.

Um detalhe, suficientemente discreto para ser um detalhe mas suficiente visível para não deixar de ser visto, reforça esta mensagem: as chagas nas palmas das suas mãos, que juntamente com os braços em cruz nos remetem para a figura de Cristo. Não para nos dizer que este homem seja Cristo, mas para nos lembrar que Cristo foi este homem, sofrendo às mãos de outros e que cada assassinato não é um momento menor da História, mas antes uma repetição desse instante fundamental de rasgo que foi o martírio. Por outro lado, talvez este pormenor traga uma ténue nota de esperança a esta pintura. Afinal, tal como Cristo ressuscitou para ver a sua mensagem vingar pelo mundo, poderá ser que os direitos dos indivíduos vão renascendo das cinzas e que um dia prevaleçam sobre a violência e o arbítrio.

Goya realizou o “O três de Maio de 1808” num enquadramento histórico e filosófico muito diferente daquele em que Brueghel viveu. Uma dezena de anos antes, tinha sido redigida em França a “Declaração universal dos direitos do homem”. Tradições, direitos ancestrais e ideias antigas que pareciam imutáveis sofriam o desafio entusiasmado de um número sempre crescente de pessoas que entendiam que todos tínhamos os mesmos direitos, bem como o dever de defender esses direitos. O homem já não se via como um elemento passageiro e anónimo de um eterno formigueiro, correndo por instinto o carreiro da vida e só fugindo desnorteado perante a morte inesperada, mas antes como “a medida de todas as coisas”, relembrando o conceito platónico que podemos encontrar, de forma intensíssima, no âmago deste quadro.


To be continued…

terça-feira, maio 08, 2007

Meditação ateia

“The brain - that's my second most favourite organ!”
Woody Allen



Para os meus amigos budistas e afins, a revista Visão da semana passada trazia um interessante artigo de divulgação sobre os mais recentes progressos científicos na investigação do funcionamento dos nossos cérebros, com boas e más notícias.

As boas são que a meditação se calhar funciona mesmo. As más resultam do facto desse funcionamento não ter nada a ver com transcendências. Investigadores da Universidade da Califórnia, inspirados nalguns aspectos das práticas de meditação budistas, desenvolveram terapias comportamentais que permitiam inibir certos comportamentos patológicos. Curiosamente, os resultados finais assemelhavam-se aos obtidos através da ingestão de determinadas drogas, mas os mecanismos fisiológicos envolvidos eram substancialmente diferentes. No caso das terapias que usavam a introspecção, o fenómeno em causa advinha da capacidade do próprio pensamento poder afectar a estrutura material do cérebro, através da alteração de ligações neuronais: a neuroplasticidade.

Muitos dos progressos das neurociências parecem aliás indiciar um resultado que a mim surge como intuitivo, mas que pode perturbar certezas a quem tiver a fortuna de as ter: que muitos aspectos do comportamento humano que tendíamos a associar a uma componente imaterial do nosso ser, como as emoções, a consciência, a reflexão, a memória, criam-se a partir de processos físicos, correntes sanguíneas, trocas de iões entre células, ondas eléctricas. Se calhar, consequentemente, não existe uma alma que se apresente a um juízo final ou que se reintegre no todo de um ser superior. Como dizia a voz do Ringo Star no filme “Yellow Submarine”: “It’s all in the mind!”. Ou melhor: “in the brain!”

Milhões pelo planeta fora sentir-se-ão desaforados com tal perspectiva. Não haver nada a seguir é chato, para quem esperava paraísos idílicos, múltiplos regressos sob formas exóticas ou batalhões de virgens à mão de semear. Que isto os ensine a valorizar cada momento da vida de forma mais solene, tanto a deles como a dos outros.

O facto de a nossa capacidade de pensar, de julgar, de sentir ou de amar poder ser mais gerida pelas leis da termodinâmica do que por leis divinas não deve levar a uma perspectiva materialista, pelo contrário.

É ainda mais maravilhoso saber que a nossa admiração diante de um poema, do brilho nos olhos de uma criança, de um prodígio científico ou de um dito de bom espírito, resultam da nossa, humana, capacidade de levar essa amálgama de células e impulsos eléctricos a criar realidades de ordem superior.

Ainda por cima, tal capacidade faz recair sobre nós uma responsabilidade acrescida. Se não houver seres superiores para tomar conta dos nossos disparates ou dizer-nos como nos devemos portar, teremos que ser nós a fazê-lo: a prática da sobrevivência e a ética da vivência tornam-se assunto dos homens, e não dos deuses.

quarta-feira, maio 02, 2007

Para variar, porrada nos franceses!

Para satisfazer alguns comentários que, não sem uma certa razão, me acusaram de estar a branquear comportamentos mais reles que nalguns aspectos desta vida os franceses possam ostentar, decidi para me redimir recuperar um texto meu antigo, a esse mesmo propósito, intitulado “Paris”:


Em 1852, iniciou-se um notável esforço de renovação urbana que iria transformar a Paris suja e apinhada dos Luíses numa capital ordenada e arejada, segundo um padrão geométrico de avenidas e bulevares. Com a participação dos melhores engenheiros e arquitectos da época, surgiu uma grandiosa cidade, com sistema de água e esgotos renovados, belos parques, novos subúrbios. Paris tornou-se magnífica.

O homem por trás da obra foi Georges-Eugène Haussmann, advogado, funcionário público e barão, que durante 17 anos ocupou a prefeitura do Sena para glória do seu mediano soberano, Napoleão III.

Não podia o pobre Georges-Eugène adivinhar que, tendo a história executado um daqueles ganchos apertados do espaço-tempo que a Teoria do Caos chama “catástrofe”, a sua cidade se iria povoar com um número absolutamente desmoralizante de parisienses. E foi aqui que as coisas começaram a correr menos bem. Passo a explicar:


1) A tromba

Se existe uma instituição genuinamente parisiense, é a tromba. O paquidérmico apêndice é ostentado um pouco por toda a parte, na rua, nos "bistrots", nas portarias dos museus, nos transportes públicos ou onde quer que o parisiense tenha que sofrer a experiência medíocre de partilhar o seu oxigénio com terceiros.

Com trombas tão bojudas, tão peludas, tão a rojar pelo chão, punha-se um problema de aparências para resolver. Para dar um ar minimamente civilizado, vagamente compatível com o esplendor neo-clássico dos monumentos novecentistas e com o "art nouveau" das bocas de metro, o parisiense engendrou dois astuciosos ardis: o "monsieur" e o "pardon".

Sempre que se aborda um parisiense para obter uma informação, desliza o "monsieur" de sob a tromba, com o único propósito de arvorar um ar bem-educado. A partir daí, se existir a mínima hipótese de a resposta ser negativa, sê-lo-á, e esse funcionário arvorará a sua melhor "gueule", barrindo silenciosamente o seu momento de glória diário. Ao fim do dia, regressará de metro, vitorioso, à frustrante partilha nocturna de um patamar com uns "beurs" ou uns gaboneses.




Já o "pardon" tem em Paris uma propriedade única no mundo. É não-causal. No resto do planeta, o pedido de perdão segue-se a uma falta involuntária. Ali, precede qualquer pequena sacanice premeditada. Imagina-se sem grande escândalo um parisiense a acelerar sobre uma velhinha numa passadeira, assobiando um "pardon" para que a carnificina não lhe pese na consciência ou na digestão do jantar.

Vi "pardons" para tudo: para passar à frente da fila, para fazer razias de patins a carros de bebé, para empurrar um cego ao qual ninguém no metro oferecera o seu lugar, mesmo jovens "bcbg" refastelados a cinquenta centímetros dele.

No domínio dos "monsieurs", o mais ilustrativo foi na FNAC da "Rue de Rennes" quando me dirigi a uma platinada de colete verde e ocre para perguntar sobre a localização da casa de banho. Assim que cheguei a menos de metro e meio, uma qualquer célula fotoeléctrica detectou a minha presença e foram accionadas duas subrotinas no subconsciente da seráfica: "sorriso de merda" e "monsieur". Ouvida a gravação, inquiri. Aí, o sorriso alargou, rasgou-se e veio um quase triunfante "nous n'en avons pas". Fiquei siderado com o prazer que esta donzela para aí da Courneuve sentia com a possibilidade dos seus clientes se borrarem nas calças. Mais do que bizarro, mais do que estranho, pareceu-me vicioso.

Decidi contra-atacar, numa perspectiva meramente sociológica. O primeiro objecto de estudo que se prestou à moca da minha pesquisa social foi um porteiro do Museu Picasso. O museu encerrava às seis, mas quando cheguei às cinco e dez já a bilheteira fechara, possivelmente por falta de pessoal. À porta, uma fonte de simpatia tipo Castafiore fez-me parte, entre "monsieurs" e "pardons", que não havendo bilheteira já não se podia entrar. Ingleses protestavam em mau francês e japoneses em mau inglês. Resignados embora elucidados sob a gestão francesa de museus, aproveitámos par dar lanche às crianças no sossego do pátio do Hôtel Salé.

Foi aí que o personagem na porta do museu mudou. Saída a hárpia, dominava agora a entrada um sujeito mirrado ao qual, se não fosse o identificativo colete azul, se poderia por engano dar cinco francos pela comiseração que inspirava. "É este", pensei. Eram cinco e quarenta. Aproximei-me da porta. Mesma história, "monsieur", "pardon", "apesar de aberto já fechou".

Pedi o livro de reclamações. Os "64 k" do meu interlocutor começaram a ter dificuldades de resposta. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco, que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes. Disse-lhe que o problema já se pusera às cinco e dez e que por isso queria o livro de reclamações. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco, que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes.

Percebi então que o indígena não entendia o conceito de "livro de reclamações". Clarifiquei: "nos países avançados as entidades integradas de algum modo na administração estatal e que prestem serviço ao grande público devem ter um livro onde este possa manifestar queixas ou apresentar soluções". E deitei umas gotas de veneno: "como a França é civilizada, deve cá haver um".

O meu interlocutor mostrava indícios de espasmo cerebral. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco (já não eram), que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes, tudo misturado com a metodologia de fecho das salas, a vistoria da polícia, a simpatia dos funcionários, três "pardons" e muitos "monsieurs".

Num canto do cisne intelectual, sugeriu-me que escrevesse ao ministro da Cultura, e seguiu perorando, exausto. Decidi dar por terminada a experiência, aliás fortemente conclusiva.

O parisiense não descende, como os outros cinco biliões, do macaco. Qual ornitorrinco, as suas múltiplas e misteriosas ascendências entroncam em dois jurássicos antepassados: o mastodonte de onde lhe veio a tromba e o "diplodocus" do qual herdou o sorriso ruminante e a noz cerebral, cujas frágeis capacidades eu cruelmente pusera à prova naquele desgraçado porteiro.



2) As velhas e os cães

Para exemplificar a noção de bijectividade, capaz de perturbar os mais ágeis cérebros que assombram os nossos liceus, basta em Paris descer à rua e abrir os olhos: qualquer velha sustem, na ponta de uma trela, um cão; todo o cão arrasta, do outro lado da corda, uma velha. Esta evidência dos "boulevards" tem como consequência - cuja demonstração se deixa como exercício ao leitor- que há em Paris tantos cães quanto velhas, e verifica-se por observação visual que são muitas as velhas e logo são os cães não mais do que as mães mas sim tantos quanto as velhas.

O formalismo matemático deste pitoresco fenómeno não se esgota porém nesta relação biunívoca. Outras leis são aplicáveis. Definindo D como uma dimensão característica da velha e d como o comprimento do cão, verifica-se Dd=K1, constante. Como corolário deste teorema, os cães não são nada grandes. Mais, sendo T a idade da velha tem-se Td=K2 , constante. Destas duas relações infere-se um crescimento do diâmetro das velhas linear com a idade.

Voltando ao tamanho dos bichos, vêem-se em Paris poucos cães de porte altaneiro, que se dêem ao respeito. Um ou outro "boxer" com ar enfiado, aqui e ali um pastor alemão com complexo de raridade, e basta. Cães que se vejam não há, e o que se vê são "pinschers", "chihuahuas", "fox-terriers", "lulus" da Pomerânia e outros roedores do mesmo calibre. Qualquer raça minorca capaz de entrar num bueiro e de sair com o mesmo aspecto é candidata à trela das velhas.


Atreladas, as desgraçadas ratazanas são ainda seviciadas com tótós, mises e permanentes, encasacadas em fraldas e panos de "tweed", e sujeitas a todas as mariquices possíveis ou imagináveis. Naturalmente desforram-se, debitando por todo o lado cócós de um tamanho desproporcionado.

Metade de Paris assemelha-se a um campo minado, e é ver os parisienses a ziguezaguear entre montes e montes, dando ridículos pulos sobre a ponta dos pés. Apesar destes cuidados, uma grande percentagem está pisada e quando pisa, o parisiense tem um comportamento curioso. Em vez de limpar discretamente na borda do passeio, arrasta a pata durante milhas, esborratando o chão com os traços do seu conceito de higiene. Este abominável comportamento, só explicável pela necessidade de partilhar com outros a sua desgraça, resulta em lajes de calçada muito artísticas, da escola abstracta, em que o primarismo dos montes disputa o olhar ao secundarismo dos riscos. Não é arte nova, mas é por certo uma nova arte.

Cães e donas proporcionam espectáculos dos mais inéditos. Numa das "allées" do parque do Champ de Mars, a avenida Anatole France, fechada ao tráfego, duas senhoras com físico de "sumo", já balzaqueanas - ou mesmo corneillianas - passeavam cada qual seu animal. Mas não de qualquer maneira. Seguiam lado a lado, cada uma no seu triciclo a motor com cerca de quarenta centímetros de altura. As pobres máquinas, bufando sangue, debitavam toda a sua potência ao veio para deslocar infinitesimalmente as cargas brutas que as espalmavam. A velocidade era aí de cem centímetros à hora. Para cada lado deste conjunto saía uma longa trela na extremidade da qual um chouriço com quatro pernas tentava desesperadamente arrastar-se até ao relvado. O alçado desta procissão tinha bem uns dez metros de frente. Quem distraidamente caminhasse desde a torre Eiffel, e se deparasse de repente com tão sórdido espectáculo, sentiria na pele os calafrios dos sentinelas alemães das praias da Normandia que na madrugada de 6 de Junho de 1944 olharam bocejando pela fresta do "bunker".

Uma tão grande proliferação de mulheres sós só com cães, sublimando nestes o melhor do seu afecto, tinha que ter uma explicação. E esta encontrei-a junto ao Sena, conforme conta o parágrafo seguinte.


3) O declínio da "baguette"

Passando numa tarde de Domingo em frente ao Hôtel de Ville, fui surpreendido por um espectáculo invulgar. A placidez móvel da praça, que inspirou a Robert Doisneau a imagem imortal de um dos mais torcicolosos beijos da história da arte, fora substituída pela azáfama de uma muito original feira de padeiros.

Singelas barraquinhas representativas dos diversos países comunitários prestavam discreta homenagem a duas vastas tendas brancas onde uma pequena multidão de enfarinhados de touca branca reclamava a representação dos oitenta mil padeiros franceses. Enquanto sob as lonas se batia a massa e se distribuíam brindes com imagens de espigas e maçarocas, um altifalante a roçar a histeria alertava para o diminuição da visibilidade dos padeiros franceses e daí para a importância da feira.

Preocupei-me. A acreditar naqueles bons homens, apesar da idade esforçados diante da abertura afogueada dos fornos, a França já não via o padeiro como noutros tempos, e as consequências sociais deste triste facto podiam não ser as melhores.

Concordei e entrei na primeira tenda. Entre uma tômbola e uma máquina de peneirar, um cartaz de um metro de altura alertava para o declínio da "baguette" francesa. Na fotografia, um cacete empinava-se contra um céu azulado, com uma atitude de cerca de setenta graus. Se bem que um pouco abaixo do preceituado nas exigentes normas em vigor mais a sul, pareceu-me um ângulo perfeitamente honesto. Honesto, mas em perigo de sobrevivência. Os textos, os discursos, as conversas em redor não deixavam dúvidas: ou os franceses mudam de posição e voltam a interessar-se pela arte do pão, ou a "baguete" francesa dará lugar ao "gressino" italiano, ao "panecillo" espanhol, à pesada broa portuguesa ou mesmo ao "pita" (o do Próximo Oriente). O inimigo já espreita de algumas das tendinhas.

Saí desconsolado, mas esperançado que os receios dos bravos padeiros gauleses fossem algo exagerados. Uma subida pela "Rue Vieille du Temple" retirou-me as ilusões. A cada esquina, à porta das boutiques da moda, nas esplanadas dos cafés, entre beijos e abraços, dezenas de mancebos parisienses trocavam a indústria da panificação pelos devaneios da charcutaria.

A continuar assim, à França só lhe resta uma de duas soluções: ou importa mais padeiros ou importa mais cães.


4) Chinelas, patins e outros artefactos

Paris tem uma fauna curiosa. Sentar num banco dos Campos Elísios e ficar a ver os transeuntes subindo e descendo o largo passeio é um exercício intelectualmente motivante que releva do zoólogo mais do que do esteta, apesar de algumas beldades passantes.

Há em Paris uma preocupação de excentricidade que não revejo em nenhuma outra capital da Europa. Desde o executivo ao "punk", passando pelos adolescentes borbulhantes ou pelas serigaitas recauchutadas, toda a gente tenta ser algo diferente de toda a gente. Este esforço universal de fuga à mediania acaba por resultar num conjunto homogeneamente pimba, um espectro plano tipo "ruído branco" em que só se houve o gritante de algumas farçolices com que julgam ficar muito mundanos. Todos diferentes mas todos iguais e igualmente lamentáveis.

Começemos por quem pretende vestir bem. Na Europa há duas escolas de elegância: a italiana e a inglesa. Igualmente respeitáveis, igualmente eficazes, exactamente como conduzir pela esquerda ou conduzir pela direita. É uma questão de sistema. Em Portugal, em Espanha, segue-se a influência italiana, como aconteceu em muitas artes. Na Holanda, nos países nórdicos, predomina um corte inglês. Em França, optou-se por uma bizarria tipo "um país, dois sistemas" que não vai nem pela esquerda nem pela direita, vai pelo meio da estrada a atrapalhar o trânsito, confunde, baralha. Tudo isto polvilhado por influências alemãs adquiridas por osmose fronteiriça ou derrota militar, sabendo-se que os alemães não primam pela sobriedade no equilíbrio das cores.

O quadro francês veste portanto mal. Mesmo quando acerta com o fato e este com os sapatos -o que já será uma feliz coincidência a obsessão local pelo artefacto levá-lo-á a escolher a gravata mais caleidoscópica que esteja disponível. No limite teremos fatos escuros e gravatas com "ratos Mickey" ou "marsupilamis".

O artefacto, pequeno detalhe berrante que pretende criar diferenciação, surge nas mais diversas formas. Penteados de "raper" com roupas betinhas, ténis Nike fluorescentes com "tailleurs" de bom corte, frase intelectualóide num discurso baço tipo "Bernard Pivot". Mais recentemente, na moda das chinelas.

A primeira que vi, justamente nos Campos Elísios, apenas me surpreendeu. "Coitada, distraiu-se ao sair à rua", pensei. Mas alertada a minha atenção, comecei a reparar e embasbaquei. Arrastando-se sobre a calçada, milhares de chinelas chinelavam, correndo desorientadas em todas as direcções. De todas as cores, de todos os formatos, de todos os tamanhos, competindo por um hipotético prémio de beleza que iria fatalmente sair à casa, formavam um longo formigueiro subindo e descendo do Arco do Triunfo ao Obelisco. Os dedos dos pés, esquálidos e com as unhas pintadas de verde ou azul, tentavam minhocar para fora, por qualquer orifício que lhes aparecesse, como cobras fugindo dum incêndio no mato. Este espectáculo de pesadelo parecia indiferente às dondocas que no piso superior arrastavam os pés pela calçada, imperturbáveis na sua convicção de esplendor feminino.

E o telemóvel? Espanta-me que as estatísticas dêem a França como um dos países de mais baixa taxa de penetração do celular. Todos os aparelhos devem estar em Paris, pois não há parisiense sem o seu na mão. Por todo o lado toca, buzina, apita -até no metro. As pequenas atendem, é o amado, e passados três segundos está o caldo entornado: "t'as pas le droit de me parler comme ça !". Ficamos todos a saber os detalhes, e assim se viaja distraidamente até à "Porte de La Vilette". Infelizmente, este género de discussões à distância não dá azo a reconciliações súbitas "a la San-Antonio", do tipo "acoudée au piano", o que também seria interessante de ver.

Outro artefacto na berra é os patins em linha. Com os sapatos às costas e os patins nos pés, Paris desliza pelo passeio em alta velocidade. Atléticos negros e executivos magricelas, jovens estudantes de cai-cai e velhotas momentaneamente sem cão, tudo rola. Convencidos dos seus direitos, os patinadores vão espantando com a tromba os transeuntes menos lestos que não pulam a tempo para a sarjeta ou por uma porta adentro. Pelo caminho vão deixando cair "pardons" para se livrarem da fama de animais.

Alguns patinadores mais timoratos decidiram, provavelmente após algumas quedas aparatosas, recuperar dos arquivos da História um forma de transporte menos perigosa: a trotinete. Disse bem, a trotinete. Imagine-se umas cavalonas com idade para outras provas ciclistas, atravessando de trotinete na passadeira, a dar à chinela. Eu vi, claramente visto, e por pouco não acreditei.

Se este regresso ao passado dos transportes pega moda, corro o risco de na minha próxima vinda a Paris ver quadrigas pelas avenidas, liteiras nas praças de táxis, riquexós e americanos, forragem nas estações de serviço e polícias de trânsito de armadura. E, isto sim, seria algo de verdadeiramente diferente.


5) A glória do Exército

Os Portugueses orgulham-se dos Descobrimentos, e a sua arquitectura monumental é disso um reflexo: a Torre de Belém, os Jerónimos, o Terreiro do Paço, mais recentemente o Padrão das Descobertas e até a Expo exaltam os nossos navegadores como pólo primeiro do orgulho nacional. Em França, os Descobrimentos foram substituídos pela Glória Militar, e por todo o Paris se avivam os feitos da "Armée": nos Invalides, no Dôme, no Arco do Triunfo, na Concorde e por uma miríade de outros sítios.

Tudo bem. Cada povo tem brio no que quer: os ingleses na família real, os brasileiros no escrete, os cubanos no Fidel e é por isso legítimo que os franceses celebrem as suas vitórias militares. Mas há um porém.

Porém se atentarmos, os celebrados são sempre os mesmos: Napoleão, Primeira Grande Guerra (Joffre, Foch, e os táxis do Marne) e Segunda Grande Guerra (libertação de Paris, De Gaulle e - pasme-se - De Lattre de Tassigny). E isto baralha. A França tem uma história longa, e heróis a celebrar, desde as machadadas do Clovis até aos passes milimétricos do Zidane. Pelo meio, um cardeal que não se entendia com o rei e um rei que não se entendia com o banho transformaram o país numa potência mundial e ainda deixaram balanço que deu para duzentos anos. Mas não são Richelieu ou Luís XIV os festejados.

Sendo rigoroso, nos últimos dois séculos a França não se saiu nada bem dos confrontos em que o seu Exército se meteu:

- Napoleão foi sem dúvida um brilhante táctico e comandante militar, mas um míope estratega. Ganhou muitas batalhas mas perdeu a guerra. Devia ter lido Sun Tzu: "O auge da competência é conquistar o inimigo sem lutar. Quando as campanhas são longas, esgotam-se os recursos do Estado" ou "O bom general traz o inimigo para onde quer lutar". E não se mete pela Rússia adentro, acrescentaria eu. A imagem que os ingleses têm de Napoleão, moribundo, visitado por Wellington na hora da morte, é a imagem real. A derrota de Napoleão marca o início do declínio do poderio francês, que ainda continua, à sombra tutelar do bloco anglo-saxónico. É pena que os Franceses não celebrem a obra civil do corso, essa sim inovadora e marcante em toda a Europa.
- Obviamente não muito visível na monumentália local, a Guerra Franco-Prussiana foi a cabazada do século. Paris só não foi arrasada porque não calhou. O Sacré-Coeur, majestosa promessa de dois devotos endinheirados, lá está para nos lembrar a dimensão do susto.
- A vitória da Primeira Guerra é uma vitória à Vale e Azevedo. Vai a reboque dos Estados Unidos. Quem ganha a guerra é o torpedo alemão que motivou o presidente Wilson a enviar os "boys" para a Europa. Os alemães quase chegam a Paris (outra vez). O Joffre, rapaz brilhante, após Verdun e Somme, é substituído pelo Nivelle, que é substituído, para evitar que o pessoal se amotine, pelo Pétain - mais conhecido pelo acocoramento de Vichy. O Foch ainda faz no final alguma figura, mas quem vence a guerra e impõe os termos do armistício são os americanos.
- Na Segunda Guerra, pior ainda. Um exército mal equipado e pior comandado é arrasado num arder de fósforo. O país é totalmente ocupado. Parte das suas chefias acaba por trair a pátria numa república fantoche. Enquanto o De Gaulle se entretem a fazer de Fernando Pessa francês, os ingleses, os americanos e os russos esfalfam-se para ganhar a guerra e ainda têm a gentileza de dar aos franceses um sector da Alemanha e uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Sempre a reboque.
- Depois a Indochina. O De Lattre de Tassigny encontra a glória fazendo-se massacrar por uma bactéria, apesar do nome. Segue-se Dien Bien Phu e o regresso a casa com o rabo entre as pernas. Pelo meio a traição do almirante Thierry D'Argenlieu - começa a ser um hábito.



Perante este panorama, há que reconhecer que em termos militares, desde há muito tempo, a França está numa divisão diferente dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha e até da Rússia. Não se percebe muito bem que raio celebram eles.

Nós, Portugueses, lembramos Aljubarrota mas pelo menos ganhámo-la. Festejamos os Descobrimentos porque conseguimos meter os barcos dentro de água. Se todos fossem como os Franceses, os Portugueses já teriam erigido um grandioso memorial aos sucessos da sua selecção de hóquei no gelo e os Suíços e os Checos cantariam a glória dos seus feitos navais.


6) A França profunda

Numa pequena capela da cripta do Sacré-Coeur, dei de caras com um França da qual só tinha ouvido falar, em livros e em filmes. A cripta não é um lugar piedoso, é beato, muito para além do que se pode ver em Fátima que é para os que crêem um Lugar Santo. Enquanto nesta, apesar dos desvios, dos exageros e das razões históricas, um ateu como eu pode observar de fora -por vezes com ciúme- uma relação entre o Homem e a sua Fé, no Sacré-Coeur é a Igreja que se celebra e parece não haver lugar para Deus.

Na capela, duas estátuas guardam a saída. Dois arcebispos do fim do século XIX, sentados num pedestal de pelo menos um metro e vinte. Há que olhar de baixo para cima. O artista era engenhoso, atingiu os seus intentos, quase que me atrevo a reconhecer uma obra-prima. A curvatura das costas, o olhar patético, a mão estendida, o sorriso ao mesmo tempo amável e comiserado, quase babando, ilustram uma Igreja ciente da sua superioridade esperando dos seus fiéis o sacrifício de si próprios no altar dos homens.

Naquele lugar ainda se acendem velas a uma qualquer Isabelle que por essas alturas foi a Roma, aos treze anos, pedir ao Papa que a deixasse entrar para um carmelo qualquer. Ali, ninguém se parece chocar por uma flor pedir ao jardineiro para morrer no vaso. E isto passava-se quando lá fora, a duzentos metros, Picasso desfazia a mala preparando-se para iniciar uma revolução na pintura.

A França tradicional, desta Igreja e daquele Exército, muito tricolor, desconfiada da diferença, a França que condenou Dreyfus e matou Meursault, estes duzentos ou trezentos anos de França, desapareceram?

Todos os povos têm seus mitos constituintes e reconfortantes. Portugal tem sonhos de grandeza porque foi Grande: país pequeno, estabeleceu um império mundial, promoveu uma revolução tecnológica, alimentou uma transformação cultural, tudo feito com liderança, planificação e uns enormes tomates.

O mito francês não é de grandeza mas de superioridade. Criado pelo poderio dos séculos XVII e XVIII, este mito foi depois exacerbado nos séculos XIX e XX pelos sucessivos líderes de Napoleão a Mitterrand, desligando-se cada vez mais da realidade. Forjou o mito do grande exército, apoiou-se no dossel da Igreja. Só que, se a França foi superior, já deixou de o ser há muito tempo. O facto de os franceses não o terem percebido ou terem dificuldades em engoli-lo é, segundo Kissinger, o drama nacional.

Aquela França não desapareceu porque demorará gerações a desaparecer, tal como o bolor do Salazarismo não sairá tão cedo dos recantos da mentalidade portuguesa. Aquela França é uma França profunda, que já não se sobressalta com uma pintura ou com o sexo, mas que vive nos tiques, nas trombas, nos "pardons" e nos "monsieurs", na pequena boca sobre o árabe ou sobre o português, na necessidade absoluta de se diferenciar para que pelo menos a imagem que tem de si seja superior à essência de um povo a necessitar, pelo que vi, de um "revamping" cívico.


Este texto tem oito anos, o que explica algumas referências. É uma visão sobre o pior dos parisienses, tal como o anterior era uma perspectiva do melhor que a França nos deu.

terça-feira, maio 01, 2007

World Godless Photo: da arte e do vazio (I)

Há tempos, amigos a quem não se recusa um convite convidaram-me a visitar a inauguração da exposição “World Press Photo 2006”, no CCB, em Lisboa. Noite quente de Setembro, lá me encontrei naqueles pátios de palácio sumério, um sítio de que muito gosto, onde Lisboa se eclipsa ao primeiro passo entre paredões de pedra clara. Numa das salas interiores, uma centena de pessoas acotovelava-se a caminho da supostamente indispensável mesa dos copos, comendo pastelitos de bacalhau patrocinados pelo Banco Espírito Santo que pinguins de travessa serviam em acrobáticos rodopios. O bru-á-á reinante convidava quem se sentisse jantado a seguir rápido para a zona de exposição, consideravelmente mais deserta. Era o meu caso e assim fiz.

A mostra dividia-se em categorias e cada uma atribuía vários prémios, somando para cima de quatrocentas fotografias ou seja mais de quatro centenas de desgraças. Sala após sala, exibiam-se a miséria, a fome, a morte que a guerra traz e a morte que a natureza impõe, a velhice, a cupidez e a doença. Em suma, o fracasso da espécie. Aqui, uma bota cardada percutia uma cara de esgar, nalguma rua togolesa. Ali, sobreviventes de um sismo paquistanês esticavam as mãos como que para um Cristo, na esperança de ver-se atribuído um cobertor com o logo da Cruz Vermelha. Acolá, uma criança guatemalteca, oportunamente andrajosa e suja, lançava os braços numa pose de encomenda.

Num rasgo de exibicionismo quase indiferente, um tal de David Guttenfelder atirava-nos com um metro quadrado de pai e filho num hospital terceiro-mundista com rachas na parede, a criança em pranto agarrada pelo seu único braço a um homem de olhar desamparado, enquanto uma mão enluvada lhe aplicava desinfectante num cotozito em primeiro plano. Com tanta sensibilidade, o David não podia deixar de arrancar um primeiro prémio ao júri de seus pares.



E assim continuava, saleta após saleta, pretenso sub-tema após pretenso sub-tema. Para a despedida, uma parede de peitos mastectomizados anunciava o último furo jornalístico da World Press Photo: o cancro existe e causa sofrimento.

Voltei à sala do burburinho a precisar de um banho. O volume baixara um pouco. Alguns resistentes atacavam nos rissóis e num tinto de meio de tabela. Um dos meus convidantes, antigo racionalista agora convertido à fé, ficara à porta, à conversa com uma pessoa. Recomendei-lhe em amigo que não entrasse, porque fé que tivesse podia perdê-la, à vista daquele mundo desertado por Deus, que mais de quatrocentas chapas e as parangonas do catálogo diziam ser o nosso, para mal dos nossos pecados. Passou um empregado de olhar tardio, periclitando copos de sumo de laranja de pacote. Cedi à oferta e emborquei aquela purga, a ver se limpava o sabor a amargo que a visita me deixara, como se o brometo de prata se me tivesse fixado na garganta. E ia pensando: mas seria mesmo? Aquelas fotos estar-nos-iam a contar a história toda? Ou reflectiriam apenas parte?

Em boa verdade, fotografias poucas vi, vi sobretudo reflexos, imagens como que capturadas por um espelho: lineares, objectivas e acríticas. Um espelho é um plano onde se olha para o vazio e se vê uma ilusão. Melhor: é o próprio lugar do vazio. A imagem de um espelho não existe, é uma construção óptica, um truque físico para enganar os nossos sentidos e com eles o nosso conhecimento. O que observamos não só não está lá como está invertido: o que parece esquerdo é direito e o direito esquerdo. Por estas, os antigos viram o espelho como um objecto manipulador, malévolo na representação que projectava do lado de cá para o lado de lá. Quem já sentiu a surpresa dos sentidos ao tentar agarrar nas mãos uma imagem virtual constituída à frente do plano físico, e não atrás, saberá que eles tinham razão.

Poder-me-ão dizer: “Numa exposição de fotografia jornalística, que esperavas? Não devem os jornalistas simplesmente retransmitir o que vêem nos eventos que cobrem?” Sim, mas depende. Que cobrem estes jornalistas: o momento em que um miliciano do presidente Fauré Gnassingbe espeta com um pontapé nos dentes de um oponente indefeso, ou será que cobrem “a guerra”? Duas crianças miseráveis das ruas da Cidade de Guatemala, ou a “condição humana”? Se pretendem cobrir as primeiras, talvez tenham realmente batido “felizes instantâneos”, capturado digitalmente um evento singular, um “delta tê”. Mas se pretendiam reportar as segundas, e não as primeiras, ou seja, a essência e não o instante, falharam redondamente, porque a realidade é – no seu melhor e no seu pior – mais complexa, mais rica e mais viva do que aqueles primeiros e segundos prémios maldosamente pretendem fazer-nos crer.

Pode uma imagem retratar a realidade? Pode, sim. Pode mesmo amplificá-la. Revejamos, como exemplo, sobre o mesmíssimo tema da guerra, de que modo a pintura resolveu esta questão em três exemplos com séculos de intervalo.

To be continued…