quinta-feira, maio 31, 2007

Cenas ridículas (I): Os óculos escuros

Lembro-me de ter passado o tempo, no pára-arranca de um IC qualquer, numa curiosa estatística. Contando os carros que deslizavam nervosos em sentido contrário para o ponto das nove, fui verificando quantos condutores de óculos fumados: sim, não, sim, sim, não, sim, sim, dez, dezasseis, trinta! Trinta e tal em quarenta de óculos escuros numa manhã chuvosa de Novembro.

Jovens comerciais de cabelo espetado em gel, esquálidas doutoras da contabilidade em apetrechos matinais, tias engelhadas no BMW do tio, tudo arvorava o olhar moscardo, mirando pela lente escura a queda do amarelo, com o nervo do carneiro que se atrasa no caminho para o matadouro.

O que levará tão grande percentagem de lisboetas a querer ver por lentes negras um dia já cinzento? Hipersensibilidade fotónica ocular? Mania que ficam com ar matador? Admiração exacerbada pelas personagens do Matrix? Sinal de reconhecimento e identificação entre burguesia suburbana? Não sei. Sei que tal fenómeno não pode ser inocente num país em que se marra com os cornos ao volante por dá cá aquela palha.


Se estabelecermos a correlação estatística entre o uso das cangalhas pretas e os acidentes viários, veremos que a coisa joga. Possível cenário: o pessoal entra para o Corsa dezasseis válvulas, mete os pintosos óculos escuros, tudo se apaga, e aí vai ele num Ferrari 599 a curvar a parabólica de Monza a duzentos e setenta quilómetros por hora. Curva apertada à direita, batendo “in extremis” um Porsche de uma escuderia alemã, chicana, duas ultrapassagens, uma quase saída de estrada evitada no limite, com muita perícia, até embater no que julga ser o “aileron” traseiro de um concorrente atrasado mas que afinal é a caixa aberta de uma “pick-up” de uma empresa de construção civil, que ia levar umas sacas de cimento ali para uma obra no Murtal.

Enquanto os bombeiros o desencarceram, há-de tactear o banco do morto à procura dos óculos, único elo economicamente acessível a esse mundo de “glamour” automóvel, que lhe saltaram da penca com o embate e que convém não perder, a pensar já na próxima corrida.

Se não fossem as lunetas de sol, talvez a gente visse mais a estrada e menos a pista.

Recordando que Pedro o Grande iniciou a modernização da Rússia mandando os boiardos cortar as barbas e Kemal Ataturk trouxe a Turquia para a Europa obrigando os funcionários públicos a usar chapéu em vez de fez, também a nossa Prevenção Rodoviária Portuguesa deveria começar o combate à sinistralidade automóvel com uma medida fortemente simbólica. Proibição de conduzir de óculos escuros, que é para ver se abrem os olhos! E já!

terça-feira, maio 29, 2007

A chamada de longa distância

Este sábado, atendi o telemóvel. Lá longe, no mar Egeu, de uma ilha cujo nome de exotismo histórico e veraneante não consegui fixar, ouvi entrecortada a voz de meus amigos. Os meus amigos interromperam por instantes o seu sábado de cruzeiro paradisíaco para, em frente aquela praia de areia branca – ou seria, menos poeticamente, cascalho? – se lembrarem de mim.

Senti que fazia lá falta, senti que me faziam falta, arrependi-me de não ter ido. Mas fiquei de dia feito.

Pelo auricular, no meio dos “como vão, como está o tempo”, vieram as primeiras certezas e as primeiras dúvidas, copos de cerveja em mesas de fórmica à beira-praia, o silêncio do estudo de madrugada, passes magistrais para golo (e alguns grandes frangos), confidências eufóricas e segredos bem guardados, ténis à porta das tendas, luzes de discoteca, psicadélicas, e angústias de fim de festa, igualmente psicadélicas, mãos que seguraram as mãos dos meus filhos, risota de segunda fila em dia de casamento, curvas apertadas nos carros emprestados pelas mães, orgulhos de primeiro emprego, noites de conversa mole e dura à luz da lua, sorrisos que abriam a porta. E também umas quantas zangas, poucas, uma ou outra irritação, alguma desanda mais ou menos merecida.

Eu e os meus amigos, contas feitas, estamos à moda do Porto: não há dívidas pendentes entre nós. O que devemos uns aos outros pusemos numa conta comum, já com uns anitos de juro e um capital de respeito.

Perguntou-me um dia a minha legítima: “porque é que não casaste com eles?” A bem dizer, não sei. O facto de serem feios e felpudos terá contribuído de forma não desprezável. Ou talvez porque o nosso sacramento não se celebra em casa, mas em qualquer esquina, de Paris, de Atenas ou da Charneca da Caparica, onde um tipo calhe de se encontrar.

Se calhar nunca vos disse, seus cabrões! Mas gosto muito de vocês!

sábado, maio 19, 2007

Anúncio: Cenas ridículas

Mataspeak vai lançar uma série de pequenos “posts” em que procurará retratar o ridículo do quotidiano moderno. No cinquentenário de “O meu tio”, serão uma singela homenagem à câmara de Jacques Tati, sempre pronta a expor o ângulo traiçoeiro que revelava a idiocia das nossas pequenas vaidades.

Estejam atentos…

Presuntos implicados

Contrariamente ao que arenga a sabedoria convencional, um democrata para o ser tem que ser um fundamentalista.

O conceito de fundamentalismo nasceu associado a movimentos de carácter religioso que assumiam o carácter infalível e regulador de textos sagrados ou de certos dogmas, mas acabou por se estender a qualquer grupo que julgue que existem preceitos que se devem aplicar, invariavelmente, a todas as pessoas e em todas as situações. Exactamente neste sentido, o democrata é obrigatoriamente fundamentalista. Porque para ele existirão valores que serão sempre correctos, quer o sirvam a ele, quer ao seu maior inimigo; valores que não poderão nunca ser beliscados; valores para os quais não há “ses” nem “talvez”.

A lista desses valores ainda é grandota. Inclui concepções sobre o poder (que deve ser submetido a regras, representativo, consentido, repartido, transparente e equilibrado por contra-poderes), sobre as obrigações de comportamento individual e colectivo (para as quais é central o conceito de liberdade individual e que passam por normas adequadas ao funcionamento simultâneo de seis biliões de liberdades individuais) ou, ainda, sobre a dignidade humana (através da protecção da vida ou da igualdade diante da sociedade e das leis).

Poderemos com alguma justiça definir como democracias apenas as sociedades em que uma parte substancial da população tenha assimilado, como componente da sua cultura, estes conceitos. Em que os políticos, os juízes, os enfermeiros e os limpa-chaminés os achem óbvios. Sociedades como Portugal, em que existam instituições e leis democráticas, mas em que as pessoas não sintam esses valores como seus, são meramente regimes democráticos, não democracias. E tais sociedades, não se alicerçando sobre um fixe – um “bedrock”, como dizem os ingleses – de valores imperturbáveis, abanam com frequência, por vezes perante sismozitos insignificantes.

Um dos valores em questão é a presunção de inocência. Um daqueles que se percebe logo: ninguém gostaria de ser acusado em vão de gamar uma carteira, ou de benfiquismo ou de qualquer outra coisa assim grave. Uma falsa acusação fere o sentido de justiça e pode estragar a vida a um tipo. Para evitar tal coisa, o progresso da civilização criou alguns princípios básicos: todo o acusado está inocente até ser condenado; tal condenação carece de prova; o ónus da prova fica com quem acusa; e a prova deve estabelecer a culpa para além de qualquer dúvida razoável. No fundo, quem quiser viver numa sociedade em que não se ande vestido de peles, com mocas numa mão e mulher arrastada pelos cabelos na outra, tem que aceitar que mais vale deixar um crime sem castigo de que correr o risco de engaiolar o gajo errado.

Deixa-nos indignados que um crime hediondo fique por punir? Deixa, mas eu ficaria muito mais ofendido se preso por algo que não fiz. A vida é assim: imperfeita. Ocorrem tremores de terra de grau oito, morrem crianças de leucemia e não se encontram culpados de sabujices atrozes. Quem quiser estar em jogo sabe que são estas as regras e os riscos. Mas a vida, além de imperfeita, é preciosa e irrepetível. Por isso, há que usar de toda a prudência antes de estragar a de alguém por engano.



Há dias, reportando as investigações ao rapto da pequena inglesa no Algarve, a RTP deu – financiada pelos meus impostos! - um festival de alarvidade noticiosa à volta de um fulano que foi interrogado pela polícia. Filmaram à porta de sua casa e deram o nome da vivenda, de modo a que toda a gente pudesse saber quem ele era. Uma senhora gaja descabelada, identificada abusivamente como “jornalista”, gritou ao microfone banalidades sem conteúdo como se fossem notícias. Revelou, com ar de inconfidência fundada, que pessoas da vizinhança lhe teriam dito que o indivíduo apresentava um comportamento “anómalo”! Como anómalo? Matava pessoas com uma serra eléctrica? Lia mais de dez livros por ano? Votava na Carmelinda Pereira para as presidenciais? Ouvia os “Irmãos Catita”? Almoçava túbaros? Não usava fato-de-banho na praia? Em Portugal, todos estes comportamentos são fora da norma, mas só o da serra eléctrica constitui crime, penso eu de que! Fechei o televisor enojado, interrompendo a idiota do micro a meio de mais uma cretinice, deixando-a lá longe no seu labor sujo de crucificar um homem na praça pública.

Não sei se o homem tem ou não culpa no cartório. Tal é totalmente irrelevante, uma vez que não me cabe, nem a mim nem à gajola da RTP, decidir sobre esse assunto. A mim e à pindérica cabe-nos pensar que, até prova em contrário, aquele senhor é tão respeitável como o nosso paizinho e tomar as precauções inerentes. O facto de o crime em causa ser dos mais hediondos que possa haver, dos que mais fere a nossa humanidade e o nosso sentir interior de pessoas e pais, não diminui a necessidade de cautela, antes reforça-a. Um crime gravíssimo e moralmente repelente pode ser o teste mais drástico à solidez dos nossos princípios. Se neste momento difícil a nossa convicção na presunção da inocência fraquejar, bem nos podemos juntar ao magote disponível para babar ódio instigado pelos pelourinhos televisivos e pelas Manuela Moura Guedes deste triste mundo, versão moderna das turbas grosseiras do passado que aplaudiam no rossio da vila os corpos enforcados dependurados do cadafalso.

Se não soubermos distinguir entre um “presunto implicado”, como dizem os espanhóis, e um culpado, rapidamente o transformaremos em simples “presunto”, no sentido menos simpático que tal palavra tem no “bas-fond” da favela carioca.

sábado, maio 12, 2007

World Godless Photo: da arte e do vazio (II)

Continuação de post de 1 de Maio


Ao redor de 1562, Pieter Bruegel o Velho pintou “O triunfo da Morte”. Embora feito num século em que o Homem retomou o seu destino entre mãos, “O triunfo da Morte” respira ainda a Idade das Trevas. Num cenário de fim do mundo, exércitos de esqueletos arrebatam e matam quem encontram, individualmente ou em grupo. No primeiro plano, a reacção das pessoas é diversa: há quem combata, há quem se esconda, há quem se submeta. Alguns fogem para dentro de uma caixa com uma cruz na entrada, procurando refúgio num símbolo seguro, mas aquela não parece ter saída. O combate surge como desigual e, logo, sem esperança: um infinito de esqueletos espera do lado direito para entrar em acção, todos munidos de escudos e lanças. Ao centro, como um rio descendo o vale, aproxima-se mais tropa maligna. Todas as classes sociais sofrem de igual modo diante do triunfo da Morte: no canto inferior esquerdo, um rei com a sua armadura e manto de arminho. Mais adiante, burgueses, guerreiros, doentes, menestréis, damas, a todos espera-os o mesmo destino. À medida que o nosso olhar se afasta para o horizonte, vamos sendo informados, pelos detalhes que Bruegel foi distribuindo pelo segundo plano, que não vale a pena ir para lado nenhum: a Terra está em chamas, os Céus enchem-se de negro, cadafalsos exibem enforcados, vítimas ajoelhadas esperam a queda da espada que os decapite. Só no canto direito do quadro, sobre o mar, se pode encontrar alguma luz, um resto de paz. Mas não creio que esteja lá para dar um sinal de esperança, até porque a fumarada, soprada pelo vento, ameaça cobrir em breve esse último refúgio. Penso que essas derradeiras pinceladas de luz servem apenas para equilibrar a composição e para puxar o nosso olhar através dos sucessivos planos que compõem a imagem.



Para o homem medieval, existia um universo oculto e maligno, mas tão real como o visível, habitado por demónios e outros seres danados, comandados por esse contraponto caído personificado no Diabo. Esse lado da existência, num tempo de incertezas e noites escuras, amedrontava e ao mesmo tempo fascinava. Este quadro foi certamente influenciado por essa visão do mundo: Bruegel retratou mais do que uma vez imaginários povoados de seres disformes e obscenos, possivelmente inspirado pelo estilo do seu compatriota Bosch. Mas aqui foi um pouco mais além: o lado positivo deixou de existir. Deus e a esperança de redenção que traz não marcam presença nesta pintura. A morte não é mais uma porta para um além desconhecido, que pode ser o da existência eterna ou o do fim sem fim dos tormentos no inferno. A Morte torna-se a essência do mundo: os seus exércitos inspiram medo, e não esperança, pelo que a Morte vem retratada como o Mal ou o Fim. Bruegel parece estabelecer aqui um princípio filosófico particularmente pessimista sobre a natureza das coisas. Contrariamente às fotos da exposição, em que a guerra gera o mal e este surge como consequência e testemunho da guerra, no quadro manifesta-se um Mal estrutural, que aparece neste caso sob a forma da guerra, como poderia aparecer como peste ou fome.

Bruegel foi certamente influenciado pelo tom e pelos acontecimentos da sua época. Em 1567, o Duque de Alba chegou a Bruxelas, mais a sua tropa. Filipe II de Espanha tinha-o incumbido da simpática tarefa de converter à força os protestantes e o duque levou a coisa à letra, levando à morte milhares de pessoas e em última instância à cisão dos Países-Baixos. Inaugurou por aquelas bandas um estilo de acção política rígido nos princípios e contraproducente nos resultados: terá sido o primeiro eurocrata de Bruxelas. Em justa homenagem, ainda se hoje se chama duque de alba a um tipo de estrutura portuária suficientemente bruta para aguentar o embate da acostagem dos navios.

Não se sabe se Bruegel tomou partido entre católicos e protestantes: talvez se tenha prudentemente mantido na retranca. Mas pode deduzir-se, de algumas das suas obras, que tinha suficiente simpatia pelos protestantes para dar umas bicadas subtis no Duque de Alba, pintando um cavaleiro de armadura negra em situações menos simpáticas. Podemos especular que o quadro “O triunfo da Morte” pretendia também transmitir uma mensagem política, ao representar uma identidade entre a guerra e o Mal. Se atentarmos que o tipo de representação do cenário de guerra (as forcas, os incêndios, as rodas de tortura) nos recorda muitas das imagens da época sobre as guerras de religião e sobre a Guerra dos 30 anos, esta pintura procuraria induzir uma associação entre os exércitos de esqueletos e outros bem reais que espalhavam o terror pela terra: os espanhóis de Filipe II.


Se no primeiro exemplo os espanhóis são os maus da fita, no segundo são as vítimas. Em 2 de Maio de 1808, na Madrid ocupada pelos exércitos napoleónicos, um soldado francês foi mandado do cavalo abaixo e levou um enxerto de porrada. O general Murat, que ganhara os galões de marechal a comer uma irmã do imperador, proclamou que sangue francês tinha sido derramado e tratou de organizar a desforra, No dia seguinte, a França mostrou a sua grandeza fuzilando cerca de quatrocentos civis, entre pedintes, monges, mercadores e outros perigosos terroristas. Como a História se repete! Seis anos depois, Goya retratou o massacre num quadro intitulado “O três de Maio de 1808”.

Goya pintou-o, juntamente com outras obras, por razões muito pulhamente materialistas: para manter o seu salário de funcionário real, dando graxa ao novo monarca absoluto de Espanha, Fernando VII. Este manteve-lhe o cacau mas guardou o quadro num armazém, como prova de absoluta consideração. Hoje em dia, podemos admirá-lo no Prado.



Nele, vemos homens disparando sobre outros homens. Apenas o título da obra nos permite relacionar o facto histórico com o que é representado. Talvez aquela silhueta de igreja seja familiar aos madrilenos. Talvez os barretes dos soldados fossem característicos do exército francês. Mas nitidamente Goya afastou-se de uma realidade formal para que ela não prejudicasse a restituição daquilo que lhe pareceu ser o essencial da cena. O resultado é uma composição quase teatral, como que de actores dispostos num palco, representando a natureza da bestialidade humana. Com a excepção do rosto do personagem central, as posições e expressões são rígidas e irrealistas, como nos “manga” japoneses, preocupando-se apenas em traduzir de forma eficaz um conceito único: o desespero, a raiva, o medo ou a incompreensão dos condenados, que contrastam com a firmeza cinzenta e monolítica dos soldados.

Goya não presenciou os acontecimentos, nem se preocupou em documentá-los. Para um liberal como ele, para quem a Revolução Francesa representava a ruptura com o passado que ele desejava para Espanha, o comportamento dos soldados franceses deve ter sido dilacerante. Eventualmente por isso, Goya afasta-se de uma mensagem política específica, de crítica da violência napoleónica, para produzir um retrato mais lato da individualidade humana, valor supremo, atacada num acto sacrílego pela força bruta.

No centro do quadro, destacado pela perspectiva, pela cor e por uma luz irrealista, como se um projector celeste o iluminasse, um homem, um homem comum, provavelmente igual a milhares de espanhóis da época, abre os braços e uma cara de espanto ao pelotão de fuzilamento. A sua expressividade, o misto de sentimentos que essa expressão veicula, de incompreensão, receio, angústia, resignação e até de alguma serenidade, contrastam com a frieza sem face dos executores. Aquele homem banal desbanaliza a violência da guerra, ao contrário das fotografias da exposição, tornando a morte e a dor inúteis no problema central do universo. Outros acabaram de ser mortos e uma fila sem fim visível espera o seu destino. Mas no instante que Goya pintou, no preciso momento em que vai ser abatido, este homem simboliza toda uma humanidade vítima do abuso do poder da força e todos as pessoas que morreram sob o jugo daqueles que acham que a razão do colectivo se pode arrogar o direito de destruir a preciosidade irrepetível da nossa individualidade.

Um detalhe, suficientemente discreto para ser um detalhe mas suficiente visível para não deixar de ser visto, reforça esta mensagem: as chagas nas palmas das suas mãos, que juntamente com os braços em cruz nos remetem para a figura de Cristo. Não para nos dizer que este homem seja Cristo, mas para nos lembrar que Cristo foi este homem, sofrendo às mãos de outros e que cada assassinato não é um momento menor da História, mas antes uma repetição desse instante fundamental de rasgo que foi o martírio. Por outro lado, talvez este pormenor traga uma ténue nota de esperança a esta pintura. Afinal, tal como Cristo ressuscitou para ver a sua mensagem vingar pelo mundo, poderá ser que os direitos dos indivíduos vão renascendo das cinzas e que um dia prevaleçam sobre a violência e o arbítrio.

Goya realizou o “O três de Maio de 1808” num enquadramento histórico e filosófico muito diferente daquele em que Brueghel viveu. Uma dezena de anos antes, tinha sido redigida em França a “Declaração universal dos direitos do homem”. Tradições, direitos ancestrais e ideias antigas que pareciam imutáveis sofriam o desafio entusiasmado de um número sempre crescente de pessoas que entendiam que todos tínhamos os mesmos direitos, bem como o dever de defender esses direitos. O homem já não se via como um elemento passageiro e anónimo de um eterno formigueiro, correndo por instinto o carreiro da vida e só fugindo desnorteado perante a morte inesperada, mas antes como “a medida de todas as coisas”, relembrando o conceito platónico que podemos encontrar, de forma intensíssima, no âmago deste quadro.


To be continued…

terça-feira, maio 08, 2007

Meditação ateia

“The brain - that's my second most favourite organ!”
Woody Allen



Para os meus amigos budistas e afins, a revista Visão da semana passada trazia um interessante artigo de divulgação sobre os mais recentes progressos científicos na investigação do funcionamento dos nossos cérebros, com boas e más notícias.

As boas são que a meditação se calhar funciona mesmo. As más resultam do facto desse funcionamento não ter nada a ver com transcendências. Investigadores da Universidade da Califórnia, inspirados nalguns aspectos das práticas de meditação budistas, desenvolveram terapias comportamentais que permitiam inibir certos comportamentos patológicos. Curiosamente, os resultados finais assemelhavam-se aos obtidos através da ingestão de determinadas drogas, mas os mecanismos fisiológicos envolvidos eram substancialmente diferentes. No caso das terapias que usavam a introspecção, o fenómeno em causa advinha da capacidade do próprio pensamento poder afectar a estrutura material do cérebro, através da alteração de ligações neuronais: a neuroplasticidade.

Muitos dos progressos das neurociências parecem aliás indiciar um resultado que a mim surge como intuitivo, mas que pode perturbar certezas a quem tiver a fortuna de as ter: que muitos aspectos do comportamento humano que tendíamos a associar a uma componente imaterial do nosso ser, como as emoções, a consciência, a reflexão, a memória, criam-se a partir de processos físicos, correntes sanguíneas, trocas de iões entre células, ondas eléctricas. Se calhar, consequentemente, não existe uma alma que se apresente a um juízo final ou que se reintegre no todo de um ser superior. Como dizia a voz do Ringo Star no filme “Yellow Submarine”: “It’s all in the mind!”. Ou melhor: “in the brain!”

Milhões pelo planeta fora sentir-se-ão desaforados com tal perspectiva. Não haver nada a seguir é chato, para quem esperava paraísos idílicos, múltiplos regressos sob formas exóticas ou batalhões de virgens à mão de semear. Que isto os ensine a valorizar cada momento da vida de forma mais solene, tanto a deles como a dos outros.

O facto de a nossa capacidade de pensar, de julgar, de sentir ou de amar poder ser mais gerida pelas leis da termodinâmica do que por leis divinas não deve levar a uma perspectiva materialista, pelo contrário.

É ainda mais maravilhoso saber que a nossa admiração diante de um poema, do brilho nos olhos de uma criança, de um prodígio científico ou de um dito de bom espírito, resultam da nossa, humana, capacidade de levar essa amálgama de células e impulsos eléctricos a criar realidades de ordem superior.

Ainda por cima, tal capacidade faz recair sobre nós uma responsabilidade acrescida. Se não houver seres superiores para tomar conta dos nossos disparates ou dizer-nos como nos devemos portar, teremos que ser nós a fazê-lo: a prática da sobrevivência e a ética da vivência tornam-se assunto dos homens, e não dos deuses.

quarta-feira, maio 02, 2007

Para variar, porrada nos franceses!

Para satisfazer alguns comentários que, não sem uma certa razão, me acusaram de estar a branquear comportamentos mais reles que nalguns aspectos desta vida os franceses possam ostentar, decidi para me redimir recuperar um texto meu antigo, a esse mesmo propósito, intitulado “Paris”:


Em 1852, iniciou-se um notável esforço de renovação urbana que iria transformar a Paris suja e apinhada dos Luíses numa capital ordenada e arejada, segundo um padrão geométrico de avenidas e bulevares. Com a participação dos melhores engenheiros e arquitectos da época, surgiu uma grandiosa cidade, com sistema de água e esgotos renovados, belos parques, novos subúrbios. Paris tornou-se magnífica.

O homem por trás da obra foi Georges-Eugène Haussmann, advogado, funcionário público e barão, que durante 17 anos ocupou a prefeitura do Sena para glória do seu mediano soberano, Napoleão III.

Não podia o pobre Georges-Eugène adivinhar que, tendo a história executado um daqueles ganchos apertados do espaço-tempo que a Teoria do Caos chama “catástrofe”, a sua cidade se iria povoar com um número absolutamente desmoralizante de parisienses. E foi aqui que as coisas começaram a correr menos bem. Passo a explicar:


1) A tromba

Se existe uma instituição genuinamente parisiense, é a tromba. O paquidérmico apêndice é ostentado um pouco por toda a parte, na rua, nos "bistrots", nas portarias dos museus, nos transportes públicos ou onde quer que o parisiense tenha que sofrer a experiência medíocre de partilhar o seu oxigénio com terceiros.

Com trombas tão bojudas, tão peludas, tão a rojar pelo chão, punha-se um problema de aparências para resolver. Para dar um ar minimamente civilizado, vagamente compatível com o esplendor neo-clássico dos monumentos novecentistas e com o "art nouveau" das bocas de metro, o parisiense engendrou dois astuciosos ardis: o "monsieur" e o "pardon".

Sempre que se aborda um parisiense para obter uma informação, desliza o "monsieur" de sob a tromba, com o único propósito de arvorar um ar bem-educado. A partir daí, se existir a mínima hipótese de a resposta ser negativa, sê-lo-á, e esse funcionário arvorará a sua melhor "gueule", barrindo silenciosamente o seu momento de glória diário. Ao fim do dia, regressará de metro, vitorioso, à frustrante partilha nocturna de um patamar com uns "beurs" ou uns gaboneses.




Já o "pardon" tem em Paris uma propriedade única no mundo. É não-causal. No resto do planeta, o pedido de perdão segue-se a uma falta involuntária. Ali, precede qualquer pequena sacanice premeditada. Imagina-se sem grande escândalo um parisiense a acelerar sobre uma velhinha numa passadeira, assobiando um "pardon" para que a carnificina não lhe pese na consciência ou na digestão do jantar.

Vi "pardons" para tudo: para passar à frente da fila, para fazer razias de patins a carros de bebé, para empurrar um cego ao qual ninguém no metro oferecera o seu lugar, mesmo jovens "bcbg" refastelados a cinquenta centímetros dele.

No domínio dos "monsieurs", o mais ilustrativo foi na FNAC da "Rue de Rennes" quando me dirigi a uma platinada de colete verde e ocre para perguntar sobre a localização da casa de banho. Assim que cheguei a menos de metro e meio, uma qualquer célula fotoeléctrica detectou a minha presença e foram accionadas duas subrotinas no subconsciente da seráfica: "sorriso de merda" e "monsieur". Ouvida a gravação, inquiri. Aí, o sorriso alargou, rasgou-se e veio um quase triunfante "nous n'en avons pas". Fiquei siderado com o prazer que esta donzela para aí da Courneuve sentia com a possibilidade dos seus clientes se borrarem nas calças. Mais do que bizarro, mais do que estranho, pareceu-me vicioso.

Decidi contra-atacar, numa perspectiva meramente sociológica. O primeiro objecto de estudo que se prestou à moca da minha pesquisa social foi um porteiro do Museu Picasso. O museu encerrava às seis, mas quando cheguei às cinco e dez já a bilheteira fechara, possivelmente por falta de pessoal. À porta, uma fonte de simpatia tipo Castafiore fez-me parte, entre "monsieurs" e "pardons", que não havendo bilheteira já não se podia entrar. Ingleses protestavam em mau francês e japoneses em mau inglês. Resignados embora elucidados sob a gestão francesa de museus, aproveitámos par dar lanche às crianças no sossego do pátio do Hôtel Salé.

Foi aí que o personagem na porta do museu mudou. Saída a hárpia, dominava agora a entrada um sujeito mirrado ao qual, se não fosse o identificativo colete azul, se poderia por engano dar cinco francos pela comiseração que inspirava. "É este", pensei. Eram cinco e quarenta. Aproximei-me da porta. Mesma história, "monsieur", "pardon", "apesar de aberto já fechou".

Pedi o livro de reclamações. Os "64 k" do meu interlocutor começaram a ter dificuldades de resposta. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco, que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes. Disse-lhe que o problema já se pusera às cinco e dez e que por isso queria o livro de reclamações. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco, que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes.

Percebi então que o indígena não entendia o conceito de "livro de reclamações". Clarifiquei: "nos países avançados as entidades integradas de algum modo na administração estatal e que prestem serviço ao grande público devem ter um livro onde este possa manifestar queixas ou apresentar soluções". E deitei umas gotas de veneno: "como a França é civilizada, deve cá haver um".

O meu interlocutor mostrava indícios de espasmo cerebral. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco (já não eram), que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes, tudo misturado com a metodologia de fecho das salas, a vistoria da polícia, a simpatia dos funcionários, três "pardons" e muitos "monsieurs".

Num canto do cisne intelectual, sugeriu-me que escrevesse ao ministro da Cultura, e seguiu perorando, exausto. Decidi dar por terminada a experiência, aliás fortemente conclusiva.

O parisiense não descende, como os outros cinco biliões, do macaco. Qual ornitorrinco, as suas múltiplas e misteriosas ascendências entroncam em dois jurássicos antepassados: o mastodonte de onde lhe veio a tromba e o "diplodocus" do qual herdou o sorriso ruminante e a noz cerebral, cujas frágeis capacidades eu cruelmente pusera à prova naquele desgraçado porteiro.



2) As velhas e os cães

Para exemplificar a noção de bijectividade, capaz de perturbar os mais ágeis cérebros que assombram os nossos liceus, basta em Paris descer à rua e abrir os olhos: qualquer velha sustem, na ponta de uma trela, um cão; todo o cão arrasta, do outro lado da corda, uma velha. Esta evidência dos "boulevards" tem como consequência - cuja demonstração se deixa como exercício ao leitor- que há em Paris tantos cães quanto velhas, e verifica-se por observação visual que são muitas as velhas e logo são os cães não mais do que as mães mas sim tantos quanto as velhas.

O formalismo matemático deste pitoresco fenómeno não se esgota porém nesta relação biunívoca. Outras leis são aplicáveis. Definindo D como uma dimensão característica da velha e d como o comprimento do cão, verifica-se Dd=K1, constante. Como corolário deste teorema, os cães não são nada grandes. Mais, sendo T a idade da velha tem-se Td=K2 , constante. Destas duas relações infere-se um crescimento do diâmetro das velhas linear com a idade.

Voltando ao tamanho dos bichos, vêem-se em Paris poucos cães de porte altaneiro, que se dêem ao respeito. Um ou outro "boxer" com ar enfiado, aqui e ali um pastor alemão com complexo de raridade, e basta. Cães que se vejam não há, e o que se vê são "pinschers", "chihuahuas", "fox-terriers", "lulus" da Pomerânia e outros roedores do mesmo calibre. Qualquer raça minorca capaz de entrar num bueiro e de sair com o mesmo aspecto é candidata à trela das velhas.


Atreladas, as desgraçadas ratazanas são ainda seviciadas com tótós, mises e permanentes, encasacadas em fraldas e panos de "tweed", e sujeitas a todas as mariquices possíveis ou imagináveis. Naturalmente desforram-se, debitando por todo o lado cócós de um tamanho desproporcionado.

Metade de Paris assemelha-se a um campo minado, e é ver os parisienses a ziguezaguear entre montes e montes, dando ridículos pulos sobre a ponta dos pés. Apesar destes cuidados, uma grande percentagem está pisada e quando pisa, o parisiense tem um comportamento curioso. Em vez de limpar discretamente na borda do passeio, arrasta a pata durante milhas, esborratando o chão com os traços do seu conceito de higiene. Este abominável comportamento, só explicável pela necessidade de partilhar com outros a sua desgraça, resulta em lajes de calçada muito artísticas, da escola abstracta, em que o primarismo dos montes disputa o olhar ao secundarismo dos riscos. Não é arte nova, mas é por certo uma nova arte.

Cães e donas proporcionam espectáculos dos mais inéditos. Numa das "allées" do parque do Champ de Mars, a avenida Anatole France, fechada ao tráfego, duas senhoras com físico de "sumo", já balzaqueanas - ou mesmo corneillianas - passeavam cada qual seu animal. Mas não de qualquer maneira. Seguiam lado a lado, cada uma no seu triciclo a motor com cerca de quarenta centímetros de altura. As pobres máquinas, bufando sangue, debitavam toda a sua potência ao veio para deslocar infinitesimalmente as cargas brutas que as espalmavam. A velocidade era aí de cem centímetros à hora. Para cada lado deste conjunto saía uma longa trela na extremidade da qual um chouriço com quatro pernas tentava desesperadamente arrastar-se até ao relvado. O alçado desta procissão tinha bem uns dez metros de frente. Quem distraidamente caminhasse desde a torre Eiffel, e se deparasse de repente com tão sórdido espectáculo, sentiria na pele os calafrios dos sentinelas alemães das praias da Normandia que na madrugada de 6 de Junho de 1944 olharam bocejando pela fresta do "bunker".

Uma tão grande proliferação de mulheres sós só com cães, sublimando nestes o melhor do seu afecto, tinha que ter uma explicação. E esta encontrei-a junto ao Sena, conforme conta o parágrafo seguinte.


3) O declínio da "baguette"

Passando numa tarde de Domingo em frente ao Hôtel de Ville, fui surpreendido por um espectáculo invulgar. A placidez móvel da praça, que inspirou a Robert Doisneau a imagem imortal de um dos mais torcicolosos beijos da história da arte, fora substituída pela azáfama de uma muito original feira de padeiros.

Singelas barraquinhas representativas dos diversos países comunitários prestavam discreta homenagem a duas vastas tendas brancas onde uma pequena multidão de enfarinhados de touca branca reclamava a representação dos oitenta mil padeiros franceses. Enquanto sob as lonas se batia a massa e se distribuíam brindes com imagens de espigas e maçarocas, um altifalante a roçar a histeria alertava para o diminuição da visibilidade dos padeiros franceses e daí para a importância da feira.

Preocupei-me. A acreditar naqueles bons homens, apesar da idade esforçados diante da abertura afogueada dos fornos, a França já não via o padeiro como noutros tempos, e as consequências sociais deste triste facto podiam não ser as melhores.

Concordei e entrei na primeira tenda. Entre uma tômbola e uma máquina de peneirar, um cartaz de um metro de altura alertava para o declínio da "baguette" francesa. Na fotografia, um cacete empinava-se contra um céu azulado, com uma atitude de cerca de setenta graus. Se bem que um pouco abaixo do preceituado nas exigentes normas em vigor mais a sul, pareceu-me um ângulo perfeitamente honesto. Honesto, mas em perigo de sobrevivência. Os textos, os discursos, as conversas em redor não deixavam dúvidas: ou os franceses mudam de posição e voltam a interessar-se pela arte do pão, ou a "baguete" francesa dará lugar ao "gressino" italiano, ao "panecillo" espanhol, à pesada broa portuguesa ou mesmo ao "pita" (o do Próximo Oriente). O inimigo já espreita de algumas das tendinhas.

Saí desconsolado, mas esperançado que os receios dos bravos padeiros gauleses fossem algo exagerados. Uma subida pela "Rue Vieille du Temple" retirou-me as ilusões. A cada esquina, à porta das boutiques da moda, nas esplanadas dos cafés, entre beijos e abraços, dezenas de mancebos parisienses trocavam a indústria da panificação pelos devaneios da charcutaria.

A continuar assim, à França só lhe resta uma de duas soluções: ou importa mais padeiros ou importa mais cães.


4) Chinelas, patins e outros artefactos

Paris tem uma fauna curiosa. Sentar num banco dos Campos Elísios e ficar a ver os transeuntes subindo e descendo o largo passeio é um exercício intelectualmente motivante que releva do zoólogo mais do que do esteta, apesar de algumas beldades passantes.

Há em Paris uma preocupação de excentricidade que não revejo em nenhuma outra capital da Europa. Desde o executivo ao "punk", passando pelos adolescentes borbulhantes ou pelas serigaitas recauchutadas, toda a gente tenta ser algo diferente de toda a gente. Este esforço universal de fuga à mediania acaba por resultar num conjunto homogeneamente pimba, um espectro plano tipo "ruído branco" em que só se houve o gritante de algumas farçolices com que julgam ficar muito mundanos. Todos diferentes mas todos iguais e igualmente lamentáveis.

Começemos por quem pretende vestir bem. Na Europa há duas escolas de elegância: a italiana e a inglesa. Igualmente respeitáveis, igualmente eficazes, exactamente como conduzir pela esquerda ou conduzir pela direita. É uma questão de sistema. Em Portugal, em Espanha, segue-se a influência italiana, como aconteceu em muitas artes. Na Holanda, nos países nórdicos, predomina um corte inglês. Em França, optou-se por uma bizarria tipo "um país, dois sistemas" que não vai nem pela esquerda nem pela direita, vai pelo meio da estrada a atrapalhar o trânsito, confunde, baralha. Tudo isto polvilhado por influências alemãs adquiridas por osmose fronteiriça ou derrota militar, sabendo-se que os alemães não primam pela sobriedade no equilíbrio das cores.

O quadro francês veste portanto mal. Mesmo quando acerta com o fato e este com os sapatos -o que já será uma feliz coincidência a obsessão local pelo artefacto levá-lo-á a escolher a gravata mais caleidoscópica que esteja disponível. No limite teremos fatos escuros e gravatas com "ratos Mickey" ou "marsupilamis".

O artefacto, pequeno detalhe berrante que pretende criar diferenciação, surge nas mais diversas formas. Penteados de "raper" com roupas betinhas, ténis Nike fluorescentes com "tailleurs" de bom corte, frase intelectualóide num discurso baço tipo "Bernard Pivot". Mais recentemente, na moda das chinelas.

A primeira que vi, justamente nos Campos Elísios, apenas me surpreendeu. "Coitada, distraiu-se ao sair à rua", pensei. Mas alertada a minha atenção, comecei a reparar e embasbaquei. Arrastando-se sobre a calçada, milhares de chinelas chinelavam, correndo desorientadas em todas as direcções. De todas as cores, de todos os formatos, de todos os tamanhos, competindo por um hipotético prémio de beleza que iria fatalmente sair à casa, formavam um longo formigueiro subindo e descendo do Arco do Triunfo ao Obelisco. Os dedos dos pés, esquálidos e com as unhas pintadas de verde ou azul, tentavam minhocar para fora, por qualquer orifício que lhes aparecesse, como cobras fugindo dum incêndio no mato. Este espectáculo de pesadelo parecia indiferente às dondocas que no piso superior arrastavam os pés pela calçada, imperturbáveis na sua convicção de esplendor feminino.

E o telemóvel? Espanta-me que as estatísticas dêem a França como um dos países de mais baixa taxa de penetração do celular. Todos os aparelhos devem estar em Paris, pois não há parisiense sem o seu na mão. Por todo o lado toca, buzina, apita -até no metro. As pequenas atendem, é o amado, e passados três segundos está o caldo entornado: "t'as pas le droit de me parler comme ça !". Ficamos todos a saber os detalhes, e assim se viaja distraidamente até à "Porte de La Vilette". Infelizmente, este género de discussões à distância não dá azo a reconciliações súbitas "a la San-Antonio", do tipo "acoudée au piano", o que também seria interessante de ver.

Outro artefacto na berra é os patins em linha. Com os sapatos às costas e os patins nos pés, Paris desliza pelo passeio em alta velocidade. Atléticos negros e executivos magricelas, jovens estudantes de cai-cai e velhotas momentaneamente sem cão, tudo rola. Convencidos dos seus direitos, os patinadores vão espantando com a tromba os transeuntes menos lestos que não pulam a tempo para a sarjeta ou por uma porta adentro. Pelo caminho vão deixando cair "pardons" para se livrarem da fama de animais.

Alguns patinadores mais timoratos decidiram, provavelmente após algumas quedas aparatosas, recuperar dos arquivos da História um forma de transporte menos perigosa: a trotinete. Disse bem, a trotinete. Imagine-se umas cavalonas com idade para outras provas ciclistas, atravessando de trotinete na passadeira, a dar à chinela. Eu vi, claramente visto, e por pouco não acreditei.

Se este regresso ao passado dos transportes pega moda, corro o risco de na minha próxima vinda a Paris ver quadrigas pelas avenidas, liteiras nas praças de táxis, riquexós e americanos, forragem nas estações de serviço e polícias de trânsito de armadura. E, isto sim, seria algo de verdadeiramente diferente.


5) A glória do Exército

Os Portugueses orgulham-se dos Descobrimentos, e a sua arquitectura monumental é disso um reflexo: a Torre de Belém, os Jerónimos, o Terreiro do Paço, mais recentemente o Padrão das Descobertas e até a Expo exaltam os nossos navegadores como pólo primeiro do orgulho nacional. Em França, os Descobrimentos foram substituídos pela Glória Militar, e por todo o Paris se avivam os feitos da "Armée": nos Invalides, no Dôme, no Arco do Triunfo, na Concorde e por uma miríade de outros sítios.

Tudo bem. Cada povo tem brio no que quer: os ingleses na família real, os brasileiros no escrete, os cubanos no Fidel e é por isso legítimo que os franceses celebrem as suas vitórias militares. Mas há um porém.

Porém se atentarmos, os celebrados são sempre os mesmos: Napoleão, Primeira Grande Guerra (Joffre, Foch, e os táxis do Marne) e Segunda Grande Guerra (libertação de Paris, De Gaulle e - pasme-se - De Lattre de Tassigny). E isto baralha. A França tem uma história longa, e heróis a celebrar, desde as machadadas do Clovis até aos passes milimétricos do Zidane. Pelo meio, um cardeal que não se entendia com o rei e um rei que não se entendia com o banho transformaram o país numa potência mundial e ainda deixaram balanço que deu para duzentos anos. Mas não são Richelieu ou Luís XIV os festejados.

Sendo rigoroso, nos últimos dois séculos a França não se saiu nada bem dos confrontos em que o seu Exército se meteu:

- Napoleão foi sem dúvida um brilhante táctico e comandante militar, mas um míope estratega. Ganhou muitas batalhas mas perdeu a guerra. Devia ter lido Sun Tzu: "O auge da competência é conquistar o inimigo sem lutar. Quando as campanhas são longas, esgotam-se os recursos do Estado" ou "O bom general traz o inimigo para onde quer lutar". E não se mete pela Rússia adentro, acrescentaria eu. A imagem que os ingleses têm de Napoleão, moribundo, visitado por Wellington na hora da morte, é a imagem real. A derrota de Napoleão marca o início do declínio do poderio francês, que ainda continua, à sombra tutelar do bloco anglo-saxónico. É pena que os Franceses não celebrem a obra civil do corso, essa sim inovadora e marcante em toda a Europa.
- Obviamente não muito visível na monumentália local, a Guerra Franco-Prussiana foi a cabazada do século. Paris só não foi arrasada porque não calhou. O Sacré-Coeur, majestosa promessa de dois devotos endinheirados, lá está para nos lembrar a dimensão do susto.
- A vitória da Primeira Guerra é uma vitória à Vale e Azevedo. Vai a reboque dos Estados Unidos. Quem ganha a guerra é o torpedo alemão que motivou o presidente Wilson a enviar os "boys" para a Europa. Os alemães quase chegam a Paris (outra vez). O Joffre, rapaz brilhante, após Verdun e Somme, é substituído pelo Nivelle, que é substituído, para evitar que o pessoal se amotine, pelo Pétain - mais conhecido pelo acocoramento de Vichy. O Foch ainda faz no final alguma figura, mas quem vence a guerra e impõe os termos do armistício são os americanos.
- Na Segunda Guerra, pior ainda. Um exército mal equipado e pior comandado é arrasado num arder de fósforo. O país é totalmente ocupado. Parte das suas chefias acaba por trair a pátria numa república fantoche. Enquanto o De Gaulle se entretem a fazer de Fernando Pessa francês, os ingleses, os americanos e os russos esfalfam-se para ganhar a guerra e ainda têm a gentileza de dar aos franceses um sector da Alemanha e uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Sempre a reboque.
- Depois a Indochina. O De Lattre de Tassigny encontra a glória fazendo-se massacrar por uma bactéria, apesar do nome. Segue-se Dien Bien Phu e o regresso a casa com o rabo entre as pernas. Pelo meio a traição do almirante Thierry D'Argenlieu - começa a ser um hábito.



Perante este panorama, há que reconhecer que em termos militares, desde há muito tempo, a França está numa divisão diferente dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha e até da Rússia. Não se percebe muito bem que raio celebram eles.

Nós, Portugueses, lembramos Aljubarrota mas pelo menos ganhámo-la. Festejamos os Descobrimentos porque conseguimos meter os barcos dentro de água. Se todos fossem como os Franceses, os Portugueses já teriam erigido um grandioso memorial aos sucessos da sua selecção de hóquei no gelo e os Suíços e os Checos cantariam a glória dos seus feitos navais.


6) A França profunda

Numa pequena capela da cripta do Sacré-Coeur, dei de caras com um França da qual só tinha ouvido falar, em livros e em filmes. A cripta não é um lugar piedoso, é beato, muito para além do que se pode ver em Fátima que é para os que crêem um Lugar Santo. Enquanto nesta, apesar dos desvios, dos exageros e das razões históricas, um ateu como eu pode observar de fora -por vezes com ciúme- uma relação entre o Homem e a sua Fé, no Sacré-Coeur é a Igreja que se celebra e parece não haver lugar para Deus.

Na capela, duas estátuas guardam a saída. Dois arcebispos do fim do século XIX, sentados num pedestal de pelo menos um metro e vinte. Há que olhar de baixo para cima. O artista era engenhoso, atingiu os seus intentos, quase que me atrevo a reconhecer uma obra-prima. A curvatura das costas, o olhar patético, a mão estendida, o sorriso ao mesmo tempo amável e comiserado, quase babando, ilustram uma Igreja ciente da sua superioridade esperando dos seus fiéis o sacrifício de si próprios no altar dos homens.

Naquele lugar ainda se acendem velas a uma qualquer Isabelle que por essas alturas foi a Roma, aos treze anos, pedir ao Papa que a deixasse entrar para um carmelo qualquer. Ali, ninguém se parece chocar por uma flor pedir ao jardineiro para morrer no vaso. E isto passava-se quando lá fora, a duzentos metros, Picasso desfazia a mala preparando-se para iniciar uma revolução na pintura.

A França tradicional, desta Igreja e daquele Exército, muito tricolor, desconfiada da diferença, a França que condenou Dreyfus e matou Meursault, estes duzentos ou trezentos anos de França, desapareceram?

Todos os povos têm seus mitos constituintes e reconfortantes. Portugal tem sonhos de grandeza porque foi Grande: país pequeno, estabeleceu um império mundial, promoveu uma revolução tecnológica, alimentou uma transformação cultural, tudo feito com liderança, planificação e uns enormes tomates.

O mito francês não é de grandeza mas de superioridade. Criado pelo poderio dos séculos XVII e XVIII, este mito foi depois exacerbado nos séculos XIX e XX pelos sucessivos líderes de Napoleão a Mitterrand, desligando-se cada vez mais da realidade. Forjou o mito do grande exército, apoiou-se no dossel da Igreja. Só que, se a França foi superior, já deixou de o ser há muito tempo. O facto de os franceses não o terem percebido ou terem dificuldades em engoli-lo é, segundo Kissinger, o drama nacional.

Aquela França não desapareceu porque demorará gerações a desaparecer, tal como o bolor do Salazarismo não sairá tão cedo dos recantos da mentalidade portuguesa. Aquela França é uma França profunda, que já não se sobressalta com uma pintura ou com o sexo, mas que vive nos tiques, nas trombas, nos "pardons" e nos "monsieurs", na pequena boca sobre o árabe ou sobre o português, na necessidade absoluta de se diferenciar para que pelo menos a imagem que tem de si seja superior à essência de um povo a necessitar, pelo que vi, de um "revamping" cívico.


Este texto tem oito anos, o que explica algumas referências. É uma visão sobre o pior dos parisienses, tal como o anterior era uma perspectiva do melhor que a França nos deu.

terça-feira, maio 01, 2007

World Godless Photo: da arte e do vazio (I)

Há tempos, amigos a quem não se recusa um convite convidaram-me a visitar a inauguração da exposição “World Press Photo 2006”, no CCB, em Lisboa. Noite quente de Setembro, lá me encontrei naqueles pátios de palácio sumério, um sítio de que muito gosto, onde Lisboa se eclipsa ao primeiro passo entre paredões de pedra clara. Numa das salas interiores, uma centena de pessoas acotovelava-se a caminho da supostamente indispensável mesa dos copos, comendo pastelitos de bacalhau patrocinados pelo Banco Espírito Santo que pinguins de travessa serviam em acrobáticos rodopios. O bru-á-á reinante convidava quem se sentisse jantado a seguir rápido para a zona de exposição, consideravelmente mais deserta. Era o meu caso e assim fiz.

A mostra dividia-se em categorias e cada uma atribuía vários prémios, somando para cima de quatrocentas fotografias ou seja mais de quatro centenas de desgraças. Sala após sala, exibiam-se a miséria, a fome, a morte que a guerra traz e a morte que a natureza impõe, a velhice, a cupidez e a doença. Em suma, o fracasso da espécie. Aqui, uma bota cardada percutia uma cara de esgar, nalguma rua togolesa. Ali, sobreviventes de um sismo paquistanês esticavam as mãos como que para um Cristo, na esperança de ver-se atribuído um cobertor com o logo da Cruz Vermelha. Acolá, uma criança guatemalteca, oportunamente andrajosa e suja, lançava os braços numa pose de encomenda.

Num rasgo de exibicionismo quase indiferente, um tal de David Guttenfelder atirava-nos com um metro quadrado de pai e filho num hospital terceiro-mundista com rachas na parede, a criança em pranto agarrada pelo seu único braço a um homem de olhar desamparado, enquanto uma mão enluvada lhe aplicava desinfectante num cotozito em primeiro plano. Com tanta sensibilidade, o David não podia deixar de arrancar um primeiro prémio ao júri de seus pares.



E assim continuava, saleta após saleta, pretenso sub-tema após pretenso sub-tema. Para a despedida, uma parede de peitos mastectomizados anunciava o último furo jornalístico da World Press Photo: o cancro existe e causa sofrimento.

Voltei à sala do burburinho a precisar de um banho. O volume baixara um pouco. Alguns resistentes atacavam nos rissóis e num tinto de meio de tabela. Um dos meus convidantes, antigo racionalista agora convertido à fé, ficara à porta, à conversa com uma pessoa. Recomendei-lhe em amigo que não entrasse, porque fé que tivesse podia perdê-la, à vista daquele mundo desertado por Deus, que mais de quatrocentas chapas e as parangonas do catálogo diziam ser o nosso, para mal dos nossos pecados. Passou um empregado de olhar tardio, periclitando copos de sumo de laranja de pacote. Cedi à oferta e emborquei aquela purga, a ver se limpava o sabor a amargo que a visita me deixara, como se o brometo de prata se me tivesse fixado na garganta. E ia pensando: mas seria mesmo? Aquelas fotos estar-nos-iam a contar a história toda? Ou reflectiriam apenas parte?

Em boa verdade, fotografias poucas vi, vi sobretudo reflexos, imagens como que capturadas por um espelho: lineares, objectivas e acríticas. Um espelho é um plano onde se olha para o vazio e se vê uma ilusão. Melhor: é o próprio lugar do vazio. A imagem de um espelho não existe, é uma construção óptica, um truque físico para enganar os nossos sentidos e com eles o nosso conhecimento. O que observamos não só não está lá como está invertido: o que parece esquerdo é direito e o direito esquerdo. Por estas, os antigos viram o espelho como um objecto manipulador, malévolo na representação que projectava do lado de cá para o lado de lá. Quem já sentiu a surpresa dos sentidos ao tentar agarrar nas mãos uma imagem virtual constituída à frente do plano físico, e não atrás, saberá que eles tinham razão.

Poder-me-ão dizer: “Numa exposição de fotografia jornalística, que esperavas? Não devem os jornalistas simplesmente retransmitir o que vêem nos eventos que cobrem?” Sim, mas depende. Que cobrem estes jornalistas: o momento em que um miliciano do presidente Fauré Gnassingbe espeta com um pontapé nos dentes de um oponente indefeso, ou será que cobrem “a guerra”? Duas crianças miseráveis das ruas da Cidade de Guatemala, ou a “condição humana”? Se pretendem cobrir as primeiras, talvez tenham realmente batido “felizes instantâneos”, capturado digitalmente um evento singular, um “delta tê”. Mas se pretendiam reportar as segundas, e não as primeiras, ou seja, a essência e não o instante, falharam redondamente, porque a realidade é – no seu melhor e no seu pior – mais complexa, mais rica e mais viva do que aqueles primeiros e segundos prémios maldosamente pretendem fazer-nos crer.

Pode uma imagem retratar a realidade? Pode, sim. Pode mesmo amplificá-la. Revejamos, como exemplo, sobre o mesmíssimo tema da guerra, de que modo a pintura resolveu esta questão em três exemplos com séculos de intervalo.

To be continued…

domingo, abril 29, 2007

Aux armes, et caetera...


“Every man has two nations, and one of them is France”

Benjamin Franklin


No próximo domingo, a França eterna corre o risco de mudar para sempre. Na hipótese de Ségolène Royal vencer as eleições para a presidência, teremos pela primeira vez uma mulher a comandar no hexágono a partir de uma cadeira (a do Eliseu) em vez de uma cama (a do homem que era suposto mandar). A hierarquia do mobiliário não voltará a ser a mesma.

Em França, o poder político formal foi historicamente assunto de homens. Não houve primeiras figuras femininas, das que mandassem mesmo, como Isabel I ou Vitória em Inglaterra, Isabel a Católica em Espanha ou Catarina a Grande na Rússia. A única mulher que aparece nos compêndios primários de História de França mescla loucura, mistério e inocência num cadinho de lenda e realidade, com alguma androginia à mistura. Ainda assim, Joana d’Arc não foi poder, mas uma forma de contra-poder, e por isso levou com o Cauchon em cima, acabando na fogueira – para sossego dos ingleses, que sempre foram exímios em pôr terceiros a fazer o trabalho sujo que lhes pertencia.

Mas se na História de França escasseiam as mulheres mandantes, abundam por outro lado as mulheres amantes, que entre a primeira e a segunda influenciaram quedas de políticas, promulgações de decretos, declarações de guerra e outros temas afectos ao destino da nação. Costumava dizer-se, nos anos sessenta, que o “De Gaulle manda em França e a Yvonne manda no De Gaulle”. Mas esta tendência tem raízes profundas, entre reinantes legítimas e meras favoritas, desde a Clotilde do rei franco Clóvis, passando por Catarina de Médicis, a Marquesa de Pompadour, a Maria Antonieta, a Maria Walewska e outras, como a amante do presidente Fauré, que em 1899 o matou do coração em pleno Eliseu, a golpes de anca, em situação muito embaraçosa para a moralidade republicana. “Cherchez la femme”, como eles lá dizem.

A especial relação da França com a mulher e com a sexualidade é apenas uma das muitas idiossincrasias daquele país e daquele povo, algumas mais sincréticas, outras perfeitamente idiotas, quase todas marcantes. E que tornam a França num país único, à superfície do planeta como no nosso espaço mental colectivo.


Tornou-se moda de nossos dias cascar na França, nos meios “soi-disant” bem-pensantes. Nos jornais, na televisão, tudo lança postas sobre a decadência francesa, sobre a crise francesa, sobre o esgotamento político francês. Tenho nos últimos anos viajado a França com alguma frequência, e pelo que lia cá esperava a cada saída encontrar um país a ferro e fogo, com filas para o racionamento ou então com um quarto da população abaixo do limiar da pobreza e com matanças a metralhadora nas escolas ou, pelo menos, com as arribas fósseis pejadas de betão e as jóias da arquitectura urbana histórica de fachada à banda, à espera do colapso e do consequente condomínio residencial. Mas para azar meu vi um país bem ordenado, com cidades e aldeias limpas e organizadas, com uma agricultura de ar próspero (é verdade que à conta do défice do orçamento comunitário), com um património histórico rico e bem mantido, com um povo aparentemente bem-alimentado.

Como é notório, os comentadores portugueses são gente rigorosa, pela cabeça da qual não passaria falar do que não sabe. Se eu não vi as criancinhas francesas subnutridas, de estômago inchado e olhar mortiço, só pode ser por ter estado nos sítios errados. Ou então, e mais certo, passa-se que depois de dois séculos a absorver carneiristícamente a cultura francesa, vinda em caixotes pelo Sud-Express, como dizia o Eça, tocou agora de bater no ceguinho. E não é que não mereçam, porque quando mete franceses só não se aproveitam as que não acertam. Mas como me irrita gente que papagueia sobre os mais fracos para se sentir mais forte, este “post” será dedicado à defesa da França. De uma certa França, recheada de boas coisas que muito inconscientemente apreciamos.

Podemos começar pela cultura. A França sempre foi e segue sendo pátria de passagem, acolhimento e geração da boa obra cultural. Embora reconheça que o francês por vezes abusa e resvala para a peneira, naquele país o saber e a inteligência prestigiam socialmente o indivíduo, atitude que as democracias bem necessitam. Ao longo do tempo, a lista dos nomes mesmo grandes cresceu e impressiona, de Du Bellay a Tati, passando por Molière, Montesquieu, Flaubert, Renoir, Seurat, Camus, e tal. Tão poderosa equipa compara sem medo ou vergonha com a grande selecção de 1998: Zidane, Henry, Vieira, Thuram, tudo artista e filósofo da bola. A França sempre soube absorver e atrair o melhor da cultura dos outros, da arquitectura italiana no tempo de Francisco I ao bailado russo do início do século XX ao “jazz” americano do pós-guerra, baralhando, partindo e dando sob novos formatos. Por alguma razão o Gene Kelly foi um americano em Paris e o Lobisomem foi o americano em Londres.

Mas mais importante, em França a cultura é assunto de massas. Apanhando o metro em Solferino, veremos na carruagem mais gente a ler do que num curso universitário de letras noutros países. A edição é óptima, vasta e barata, e a FNAC da Rue de Ternes em Paris bate-se com a Foyles de Londres pelo título de campeã do mundo das livrarias. As pequenas lojas são mais notáveis ainda: não se vendem livros como se vendem batatas e o livreiro francês trabalha como um jardineiro, seleccionando os títulos, renovando os escaparates, fazendo milagres de cor num talhão minúsculo. Quem quiser perceber, que vá ver o espectáculo de oferta que são os trinta metros quadrados da loja de livros do Instituto Franco-Português.

Se compararmos a televisão francesa com a generalidade das suas congéneres europeias constataremos que há mais e mais animados debates, mais programas culturais e um certo pudor em descer ao nível coprofágico do Big Brother ou do Ratinho. Também os programas escolares tem uma preocupação humanística muito marcada e uma mania, que os pedagogos da 5 de Outubro poderão ver como funesta, de achar que aos catorze e aos dezasseis o pessoal pode perceber coisas complicadas e pensar com a sua própria cabeça. Com tudo isto, o francês da rua consegue olhar para um mapa-múndi e apontar para o seu país sem se enganar, tarefa que se revela mais complicada com os indígenas de Atlanta ou Cincinnati.

Outra coisa que em França se espera que seja boa é a boa vida, o que já não é coisa pequena nos dias que correm de fanatismos sanitários e moralistas. Já falámos da sexualidade, ou melhor, como eles lá dizem, do amor. Porque no imaginário colectivo francês o amor tem uma vertente sexual que não se envergonha, graças a Deus. Por isso, o amor ideal, a mão na mão, o guardar-se para a pessoa especial e outras vogas que por aí andam, tudo bem, mas ao fim ao cabo nada como curtir um valente tal e coiso, exactamente pela mesma razão que a chuva cai para baixo e os rios correm para o mar: porque é natural que assim seja. Daqui vem a diferença entre a Emma Bovary, que vai ao castigo, mesmo que com problemas de consciência, e a Emma Woodhouse que com a consciência dos problemas espera pelo homem certo para casar e só aí é que.

Mas nem só de boa cama vive o homem, há também a boa mesa. Apesar de por vezes gozar com amigos franceses sobre a exiguidade da “nouvelle cuisine”, verdade seja dita que nunca passei fome em França, mas já sofri agruras em Oslo ou Amesterdão. Em solo gaulês, a comida tem que ser boa e bonita. Se saudável ou não, não interessa, e se tal perturbar o bom palato até interessa que não seja. Recordarei para sempre, com muita saudade e muito “pankreoflat”, um jantar num duas estrelas Michelin, um casarão de vidraças batidas pela ventania, em sítio improvável à beira de uma estrada perdida da costa norte da Bretanha. Aí sobrevivi feliz, mais outros quinze, a uma sucessão orgíaca de oito pratos fora os “amuse-gueules”, regados por espumantes e vinhos variados, de tinto a branco a novo tinto e a “rosé”. Deixei naquela mesa um salário mínimo e dois anos da minha esperança de vida, mas saí com um brilho nos olhos, de contente e grosso. A este propósito, a relação da França com o álcool também não desmerece. Entre vinhos, digestivos e espirituosos, só a escolha embaraça, embora eu talvez me rendesse a um bom conhaque XO. Como ícone do gosto francês pela boa pinga, nada como o Inspector Maigret, que em cada página de para cima de uma centena de livros abate uma imperial ou um meio copo de aguardente para ajudar à investigação, sem que o fígado se ressinta ou o criminoso se escape.

E para acompanhar um grande vinho, venha uma tábua de queijos franceses. Aqui está um produto que a Comissão Europeia e a sua sanha censória gostaria de regulamentar: coado em panos velhos e manufacturado por dedos sebentos e micro-organismos duvidosos, com quarenta por cento de matéria gorda. Acho percebível que um eurocrata inglês, que na sua ignorância julga que o Stilton é um queijo e não um resíduo petroquímico, queira sanear o fabrico do “camembert”. Menos natural será que se lhe faça caso, em vez de o insultar e à sua mãezinha e de o internar compulsivamente num curso prático de bom gosto, onde lhe seja dado a provar “reblochon” e “bleu du Vercors” – e já agora mulheres do continente. Pouco dado a eurocracias, Churchill afirmou em 1940 que um país com 360 variedades de queijo não pode morrer, o que constituiria excelente e mais que válido argumento para a invasão da Normandia, não houvesse já o detalhe de ser preciso salvar a Europa do nazismo.

Povo culto e venerador dos prazeres da vida, o francês entende que há coisas que têm que ser defendidas e cultiva por isso, por vezes até a um certo exagero, outra faceta que me é simpática: a de não se deixar pisar pelo poder, saindo à rua, à luta, quando necessário. Quando se torna necessário arrear a giga, aí estão os franceses em manifestação, pelo horário das trinta e cinco horas ou contra legislação racista. Reconheço que muitas vezes passam das marcas, sendo capazes de pôr Paris a ferro e fogo para protestar contra um aumento de cinco por cento do passe social. Mas pelo menos não são como o resto de uma Europa aburguesada e entorpecida, que aceita com um olhar cabresto as consequências do fino pensamento liberalóide, por aí reinante, sem ao menos dar a entender que não anda muito satisfeita. De uma Europa que se esquece que também se formou em 1649, em 1789, em 1848 e em 1968.

A História da Europa demonstra que merda da grossa para aí de cem em cem anos contribuiu com vantagem para o progresso da sociedade. Por um lado, porque um processo revolucionário funciona como uma válvula de escape social e ideológica que fomenta novos equilíbrios, por outro porque aumenta a percepção de risco dos governantes, incentivando-os a ser reformistas em tempo útil. A revolução teve na política o efeito que o terramoto tem na tectónica. Hoje em dia a via revolucionária anda demonizada pelos tabus da guerra-fria e pelo olhar único do politicamente correcto. As revoluções são processos desordenados, recheados de injustiças pontuais, onde muita malta se aproveita, onde muitos vão na onda sem a mínima ideia do que estão a fazer, mas foram as respostas da dinâmica social a situações limite, por vezes com vantagem, por vezes não. Foi depois de revoluções que os ingleses deixaram de aceitar o poder divino dos seus monarcas, que alguns franceses deixaram de estar isentos de impostos só por serem de boas famílias, que os americanos ou os italianos tiveram o direito de mandar na sua própria vidinha.


Prova de que a Revolução Francesa não era só cabeças cortadas.

A visão romântica dos franceses pela perspectiva contestatária e revolucionária foi em tempos património da humanidade. A Marselhesa era o hino de todos os que lutavam contra a opressão, como se vê na inesquecível cena no Rick’s Café, em que a música catapulta todos os personagens para a afronta à grosseria e brutalidade nazis. Estão a imaginar o God Save the King a fazer o mesmo efeito? Hoje em dia prevalece uma ideia da Revolução Francesa deturpada e despojada daquilo que foi o seu significado histórico. Até jacobino, de repente, entrou no vocabulário dos editoriais para significar qualquer coisa como “reaccionário de esquerda”. Já agora, recupere-se também girondino, termidoriano, montanhês, cordoeiro, para a estupidez ser mais completa. E embora não haja desculpa, relembre-se, para dar às coisas alguma perspectiva de longo prazo, que durante o ano e meio que durou o Terror, teoricamente um dos mais inqualificáveis pesadelos da história da humanidade, houve em Paris 2650 sentenças de morte executadas. Isto compara com as 25.000 mortes civis no ataque à Comuna de Paris pelo governo de Versalhes, a 60.000 mortos num único dia da batalha do Somme, sendo ainda igual a um a dois por cento das vítimas civis na actual guerra do Iraque.

A França está pois de saúde, e recomenda-se. Quando a França se opôs ao brilho intelectual de George W. Bush na sua cavalgada heróica contra a hidra babilónica, caiu o Carmo e a Trindade, e foi um vê-se-te-avias: apodaram-na de velha, de majestática, de jacobina (lá está!), etc. Tss, tss! Viu-se quem tinha razão. A França há-de morrer muitas vezes nas palavras dos seus detractores e ressurgir sempre, porque faz parte de todos os nós. E eu, a quem muitas manias dos franceses dão galo, descubro-me francófilo quando a vejo levar injustamente.

Vem-me aqui à memória a canção do Brassens: “Y a des copains au bois d'mon cœur / Chaqu' fois qu'je meurs / Fidèlement / Ils suivent mon enterrement”. Por mim, cada vez que matarem a França, seguirei o enterro com um sorriso, sabendo perfeitamente que não há de ser o último.

quarta-feira, abril 18, 2007

A praga dos economistas

Practical men, who believe themselves to be quite exempt from any intellectual influences, are usually the slaves of some defunct economist.

John Maynard Keynes



Se Moisés tivesse ameaçado o faraó com a praga de economistas que para aí anda, tinha poupado o Egipto à peste e aos gafanhotos e o pessoal a trinta minutos de charutada no filme “Os dez mandamentos”. Isto porque o Ramsés, diante da sombria perspectiva, haveria de dar passaportes aos judeus todos, mais ao gado e à bagagem, antes que levar nas bancas com uma edição em hieróglifos do Diário Económico, propalando as virtudes da iniciativa privada na construção de pirâmides.

Vão longe os tempos em que a economia só interessava a cinzentos senhores de óculos, muitas vezes juristas adaptados, que nem faculdades específicas havia por não parecerem necessárias. Assuntos económicos não enchiam como hoje quatro páginas de jornal mais um suplemento semanal a cores, resumindo-se então a uma ou outra solta entre a bola e o necrotério. Défices que preocupassem, só o das plaquetas no sangue. Hoje em dia, pelo contrário, a moda pegou e a coisa descambou.

Agora, tropeça-se num calhau e salta de lá um economista. Muda-se o canal da têvê e lá vai um a perorar com ar de evidente sobre as maleitas dos gastos públicos. Sintoniza-se a rádio e aí vem outro a debitar sobre a reacção dos mercados ao relatório do Fed, como se os mercados fossem bichos com orelhas e patas e reacções, que desatassem a correr por aí acima como cutucados por um pau. Economistas, nas empresas, são aos rores e uns horrores. É vê-los, como formiguinhas chinesas a construir uma barragem de terra no Rio Amarelo, de cabelo besuntado e fato de três botões à procura do erro no EBITDA, ziguezagueando o cursor e o olhar angustiado pelo meio de gigantescas folhas de cálculo. Tantos e tão vistosos, que a economia, que não interessava ao menino Jesus, interessa agora a toda a gente, que por regra percebe do assunto tanto como os próprios em questão.

O economista, tal como prolifera hoje, é coisa caracteristicamente incaracterística, por mais do que uma razão.

Em primeiro lugar, porque tem dificuldade em se caracterizar. Praticando os médicos medicina, os advogados advocacia e os engenheiros engenharia, seria de esperar que os economistas tratassem de economia. Mas não. De acordo com a novíssima Ordem dos Economistas, é economista quem “tenha titularidade de uma licenciatura na área da ciência económica com um conteúdo curricular que corresponda à transmissão de um mínimo de conhecimentos técnicos e de uma cultura própria à profissão de economista”. Pescadinha de rabo na boca: é economista quem tiver aprendido o mínimo para ser economista. Depois de ler isto, perguntei-me, com uma angústia daquelas de bafo na nuca, se seria por funesto acaso economista. Sou licenciado, tive que ter dez numas cadeiras de macroeconomia e de contabilidade de custos e, entre outras coisas, leio relatórios e contas para ganhar a vida.

Para meu sossego, a dita Ordem, provavelmente consciente do granel que definições daquele género geram, apressou-se a publicar para esclarecimento das hostes uma lista de cursos que facultam o almejado estatuto. Para gáudio e grande alívio deste vosso criado, não consta lá o meu canudo. Mas, curiosamente, vêm listados nada menos de 22 cursos de gestão e administração, contra 18 de economia. Ora é mais fácil encontrar um defesa do Boavista meiguinho do que um licenciado em gestão que não nutra um ódio profundo e visceral pela economia, macro, micro ou assim-assim. Todos os que eu conheço, e são alguns, vêem a economia como uma matéria nebulosa, pejada de equações compridotas, de aplicabilidade prática duvidosa, sofrida a contra-gosto em cadeirões já esquecidos do segundo ano, e com aprovação à terceira ou quarta tentativa.

Como, ainda por cima, as faculdades produzem à vontade cinco vezes mais licenciados em Gestão do que em Economia, resulta que o economista é, com oitenta e tal por cento de probabilidade, alguém que nunca pensou sê-lo e que sempre trocou as econometrias por assuntos mais amenos e florais como contabilidade analítica ou “marketing e comunicação”. Mal comparado, é como se a Ordem dos Engenheiros admitisse amantes do bricolage. Tudo somado, a maioria dos economistas depois de o ser não o é, exactamente ao contrário da pescada.

Se já não resulta fácil perceber quem são, mais difícil será entender o que fazem. Os economistas que se sentem mais evoluídos manejam –julgam eles– uma especialidade chamada “ciência económica”. Aqui, deparam-se com uma pequena dificuldade. Para a perceber, convêm lembrar como funciona a ciência. De uma maneira razoavelmente simples: observa-se a realidade, arranja-se uma explicação para a observação de parte dessa realidade, traduz-se essa explicação num modelo, relacionando em regra grandezas numéricas mensuráveis. Os modelos científicos servem para várias coisas: permitem criar uma visão comum sobre os fenómenos (pela repetibilidade), dão-nos meios para antever a evolução dos fenómenos descritos (conferem previsibilidade), possibilitam a descoberta de novos fenómenos, deduzidos do modelo, e só depois observados e, muito importante, funcionam como autotestes permanentes a si próprios. Uma realidade que não encaixe no modelo invalida o modelo. A matemática, a física, a química, a biologia e a geologia floresceram à luz deste método, e com elas as suas primas tecnológicas: as engenharias e as medicinas.

A dita ciência económica, coitada, debate-se com um problema grave: não acerta uma, o que não era suposto. Não há um prémio Nobel da economia que nos consiga informar –sem se rir– qual vai ser a inflação da semana que vem. Os gurus das finanças, se ficam ricos, é só por haver parvos que pagam cem euros para os ouvir a debitar banalidades e espertos que convencem as suas empresas a pagar elas os cem euros. Se as previsões dos engenheiros aeronáuticos fossem tão de fiar quanto as do Banco de Portugal, ninguém punha os cascos num avião, porque ia cair de certeza, se por mero acaso levantasse vôo.

A realidade é simplesmente complexa demais ou os modelos económicos demasiado pobres: a dita ciência económica está numa fase medieval, quase alquímica, da sua existência. Os Keynes e os Friedmans deste mundo não passam de Paracelsos, e por muito respeitável que fosse este antepassado da Medicina, todos preferiríamos entregar os nossos destinos ao bisturi ou aos panasorbes de um obscuro mas moderno médico da caixa, ainda que correndo os riscos inerentes, do que às sanguessugas ou ao serrote do Paracelso.

Como reage a classe a tal estado de coisas? Uns, poucos e normalmente economistas propriamente ditos, embrenham-se em descrições matemáticas de um realismo "tolkeniano", imaginando num delírio artístico mundos virtuais povoados de funções de utilidade e matrizes de Ansoff, em vez de orks ou elfos. Frequentam congressos da academia e confiam na memória curta do povo e na seda da gravata para se aventurar com ar sério em prognósticos sobre o crescimento do PIB, em frente às câmaras de televisão. Outros, incapazes de tal pedalada, lêem de empreitada o Semanário Económico e os gurus das livrarias de aeroporto, e repetem. Repetem – com ar convicto ainda por cima. Quando os professores eram de esquerda, papagueavam a planificação da economia. Agora, que os professores alinham à direita, passaram a ararar as vantagens do mercado livre. Se lhes perguntássemos se as forças de mercado teriam sido suficientes para produzir o Taj Mahal, os Concertos Brandeburgueses ou o estado social sueco, ficariam a olhar, como economistas para um palácio, manifestamente sem perceber o sentido da pergunta.

Por outro lado, com a vitória supostamente suprema das vantagens absolutas do mercado livre e da sua mãozinha invisível, os economistas, mesmo que hipoteticamente acertassem de vez em quando, tornaram-se inúteis. Uma vez que preconizam que não se deve mexer em nada, porque as coisas se ajustam sozinhas e que a intervenção só estraga, são como um médico que apenas explicasse ao doente: “Você tem uma fractura exposta. Vamos deixar que isso vá ao lugar sozinho, que não se deve tocar. Se por acaso apanhar gangrena, vai morrer mas também não há azar porque nesse caso você não é biologicamente eficiente e há que dar lugar a quem o seja. A concorrência tem que funcionar”. Ao aceitar como inevitabilidades – que se explicam mas não se combatem – a dor e o sofrimento gerados pelas injustiças de cariz económico, portam-se como um Leonardo da Vinci que olhasse para o voo das aves e concluísse que os homens nunca conseguiriam voar.

Perturbados com as dificuldades que a evolução do mundo – social, demográfica, tecnológica, ambiental – causou ao modo de intervenção dos homens na economia, os economistas abdicaram do papel social que podiam desempenhar, limitando-se a repetir e a propagar ideias feitas sobre os méritos dos mecanismos de mercado e os deméritos da intervenção estatal, numa clássica situação de bebé fora com a água do banho. O mercado de emissões de CO2 pode ser conceptualmente fascinante, mas uma multa à séria talvez funcione mais simples e eficientemente, se o Estado se der ao respeito. Imagine-se o mesmo conceito aplicado por exemplo à vacinação obrigatória. Quem não quisesse vacinar os filhos comprava um crédito na bolsa de direitos da febre tifóide ou da rubéola. Ainda andava tudo a ter cinco filhos para ficar com dois.


Por vezes, há que “go back to basics”, que é o que eu recomendo aos economistas dos nossos dias. John Stuart Mill, reagindo às visões pessimistas de Malthus e Ricardo, fez notar aos (poucos) economistas do século XIX que o homem pode ser factor de mudança:

“A distribuição de riqueza, portanto, depende de leis e costumes da sociedade. As regras pelas quais se determina são as que são feitas pelas opiniões e sentimentos da parte da comunidade que manda, e são diferentes em diferentes tempos e países, e podem ainda ser mais diferentes, se a humanidade assim escolher.”

Só auxiliando nessa escolha terão os economistas um papel socialmente meritório. Se se limitarem a gerir a desgraça, então podem ficar em casa. Se, pelo contrário, quiserem andar na rua, não se devem esquecer que Adam Smith, o primeiro dos grandes economistas, foi um professor de moral, para quem a razão de ser da riqueza e da glória era meramente o bem-estar do homem comum.

domingo, abril 01, 2007

Física da partícula

Os recentes dissabores do nosso primeiro-ministro com as investigações do jornal Público, que o catapultaram sucessivamente de engenheiro para licenciado em engenharia e para turbo-licenciado e previsivelmente para bacharel, suscitam algumas reflexões sobre uma das imagens de marca da cagança nacional: o uso da partícula.

Conta-se que uma vez um ministério português remeteu para Inglaterra uma lista de pessoas, portuguesas, que iriam estar presentes numa reunião em Londres. Todos os nomes tinham um “Dr.” à frente: o Dr. Santos, a Dra. Alzira, o Dr. Peixoto e assim até ao fim… Ao receber a lista, os ingleses telefonaram a perguntar se não haveria engano no envio, já que a lista só continha médicos.

No Reino Unido, usa “Dr.” quem praticar medicina, profissão especial que herdou aquela veneração temerosa que nas sociedades primitivas se tributava aos que manipulavam o mistério e possuíam poder sobre a vida e sobre a morte: o feiticeiro, o mágico, o“shaman”. Ou então, no meio académico, aos doutores em filosofia, qualquer que ela seja, que provaram ser tão doutos como os seus pares. Todos os outros são “Mr.”, se merecerem esse respeito, ou “Sir”, se a rainha por feitos lhes conceder tal graça. Percebe-se pois a confusão dos britânicos quando lhes mandam de Lisboa o Dr. Santos para discutir a harmonização das leis fiscais ou a cooperação judiciária.

Por cá, qualquer jerico que se forme na Universidade de Lisboa em gestão de barracas de praia corre nesse mesmo dia, que nem um foguete, até à sua agência bancária para mandar pôr no cartão de crédito um “Dr.” diante do epíteto que os paizinhos lhe deram. Quem não tem “Dr.” ou “Eng.” ou qualquer outra partícula de duas ou três letras, para pendurar à frente do patrónimo, sente-se inferiorizado, como se largado nu no Rossio à hora de ponta. Tão enraizado complexo de inferioridade suscita comportamentos entre o curioso e o aberrante.

Irritam-me, por exemplo, aquelas secretárias que me perguntam, quando eu, ao telefone, peço para falar com alguém e dou o meu nome: “Dr.” ou “Eng.”? Fico com vontade de responder: bate-chapas (“Bc.”) ou proxeneta (“Px.”). Já para não falar das luminárias que se introduzem com um “daqui fala o Dr. Caria Zebedeu”, como se fossem Zebedeu de pai e Dr. Caria de mãe.


As partículas vão subindo e descendo de cotação conforme os tempos e as modas. O “Dr.” tem mantido um valor constante ao longo do tempo, enquanto o “Eng.” se tem valorizado. No início do século XIX, um engenheiro era pouco mais do que um capataz especializado, como podemos ler em Camilo Castelo Branco. Na segunda metade desse século já é um técnico socialmente respeitável, pertencendo a uma burguesia em ascensão, como o Jorge de “O Primo Basílio”, que ganha o suficiente para ter criada mas não o suficiente para que a mulher não o encorne. No século XX, o engenheiro chega a ministro com Duarte Pacheco e a primeiro-ministro com Guterres (mas pelos vistos não com Sócrates). Já “Arq.” tem cotado sempre em valores baixinhos. Para prová-lo, basta fazer notar que não conseguimos conceber, sem rir, a secretária acima referida a perguntar-nos: “Dr.”, “Eng.” ou “Arq.”?

Um caso curioso ocorre com os professores do ensino secundário. A massificação deste grau de ensino levou muitos “Dr.” a ministrar aulas nos liceus, mas ao mesmo tempo a ver o seu estatuto social cada vez mais degradado. O título de “Prof.” acabou reservado aos docentes universitários, com o significado de “ganham mal mas não se importam porque são uns crânios respeitáveis”, enquanto os docentes liceais perderam o “Dr.” e passaram a “sôtores”, o que quer dizer “não têm onde cair mortos e por isso vegetam a aturar selvagens a duzentos quilómetros de casa”. “Sôtor” anda pelas catacumbas da escala social, algures entre o varredor e o merceeiro de bairro. O que explica, em parte, o estado do ensino em Portugal.

Uma partícula que vale zero na bolsa de valores é o “Lic.”, por ironia aquilo que quase todos os “Drs.” de facto são. As universidades debitam essencialmente licenciados, a quem foi dada licença para arrotar postas de pescada sobre um assunto específico que pode ser tão extraordinariamente relevante como gestão de espaços verdes – não se riam, existe esta licenciatura no politécnico de Portalegre. Uma licença destas não confere só por si qualquer sapiência, logo quem a obtém não é douto e por consequência não é doutor. Conscientes disto, os licenciados fogem do “Lic.” como o vampiro foge do alho e esta partícula apenas pode ser vista, em letra miúda, nas nomeações e louvores impressos no Diário da República.

Existem objectos que atraem e outros que repelem as partículas. Os fatos e gravatas têm fortes poderes magnéticos. Se for tomar café de fato escuro e gravata, quase de certeza que o empregado de mesa me vai tratar por “Dr.”. Este fenómeno nota-se bem nos debates televisivos, quando as comentadoras tratam o Cavaco por “Prof.” e o Louçã pelo nome, só porque vai de camisa aberta no pescoço, apesar deste ser tão professor como o outro e até ter uma tese de doutoramento mais interessante. O futebol, ao contrário, tende a afastar o uso da partícula. Já alguma vez ouviram falar do Dr. José Mourinho? Sim, o “special one”! Como é treinador de futebol, os jornalistas partem logo do princípio que tem o 10º ano incompleto.

O meio público português pulula de políticos e aparentados que se vêem de repente sob as luzes da ribalta sem quaisquer habilitações que justifiquem o uso da partícula. Como por regra são gente de personalidade mindinha, tal coisa envergonha-os, levando-os a adoptar uma de três tácticas. Ou tiram aos quarenta e tal anos um curso tardio, que não seja complicado, numa daquelas universidades fáceis (algumas universidades, como algumas mulheres, podem ser fáceis, se se acertar o preço certo). Ou inventam um título que não têm e usam-no com a maior desfaçatez na esperança que ninguém se dê ao trabalho de investigar. Ou agarram-se que nem lapas à primeira coisa que lhes aparecer que seja justaponível ao nome. Enquadram-se nesta última categoria os majores sem exército nem batalhas e os comendadores, que receberam uma comenda, provavelmente por terem satisfeito alguma encomenda. Quando alguém usa o título de comendador é porque, coitadinho, quer muito e não tem mesmo mais nadinha para pôr.

A necessidade, o uso e o abuso da partícula são ícones do subdesenvolvimento português. Relacionam-se com a veneração salazarenta pela autoridade, com a primazia que atribuímos à aparência sobre a substância, com a ideia mirífica que reina na cabeça da burguesia pequena que se os filhos forem “Dr.” estarão safos sem precisar de se esforçar. Com esta ideia se destruiu o ensino técnico em Portugal e se criou mercado para as “universidades” privadas, que sugaram poupanças de uma vida sem hipóteses de retorno, fazendo nascer o fenómeno recente do desemprego qualificado.

Este é um campo onde temos muito a aprender com os nossos vizinhos. Em Espanha, quando alguém merece consideração é “Don”, e chega. “Don”, pela sua carga histórica e pelo seu conteúdo de hombridade, honra mais do que qualquer “Dr.”. “Don” não é partícula, é responsabilidade. No dia em que, em Portugal, os “Dr.” e os “Eng.” forem irrelevantes e os “Dom” forem merecidos, o défice estará provavelmente equilibrado e o crescimento do PIB ultrapassará a média da União Europeia.

domingo, março 25, 2007

Ratos Noruegueses

Este post é só para amantes de new wave, interessados em sê-lo ou meros curiosos…

Feliz efeméride: passam agora trinta anos sobre a vinda a público de uma das maiores realizações da mente humana, a par do teorema de Pitágoras, da Primavera de Boticelli ou da nona de Beethoven: o álbum “Rattus Norvegicus”, dos “The Stranglers”. Ok, tá bem…Concedo que esteja a exagerar um bocadinho, mas só um bocadinho.

Voltemos a 1976, ao meu despertar para a música e para outras coisas. Era um tempo de fim de ciclo para as grandes bandas de rock sinfónico que dominaram a primeira metade dos anos setenta e que eu ouvira nos pratos dos irmãos mais velhos do pessoal: Genesis e Pink Floyd no seu máximo esplendor criativo, Yes, Emerson, Lake & Palmer, Triumvirat, King Crimson. No balanço, ficaram registadas em vinil algumas das maiores realizações da mente humana, de que “Selling England by the Pound” é apenas um exemplo. Entretanto, nos bas-fonds londrinos, surge o punk como contraponto dialéctico e vai de moda, com cabelos pintados de azul, piercings de alfinete-de-ama, calças a sufocar a tomateira e blusões de cabedal acorrentados. Os concertos passam do Estádio de Wembley para clubes manhosos (não obrigatoriamente uma referência ao SLB) e a atitude muda de uma beatitude alucinada e bem-querente para uma certa agressividade, que vai desde a dança pogo, em carga de ombro sobre o adversário, até francas bastonadas com tacos de beisebol nas gengivas como método de arbitragem em caso de diferendo.

Em 1977, a javardeira ganhou tal popularidade que as editoras perceberam que estava na altura de passar tal coisa das demos para o mainstream. Nesse ano, saem os primeiros dos Sex Pistols, dos Television, dos Damned, dos Clash, dos Talking Heads, dos Eddie & the Hot Rods, dos Suicide, dos Buzzcocks e de Richard Hell & The Voidoids. Ainda em 1976 fora publicado o primeiro dos Ramones. Esta “Class of 77” toca músicas curtas, com muita guitarra, muito pedal, vozes pouco afinadas e letras curtas e grossas. Por isso vão morrer cedo. As excepções são os Talking Heads que entram na onda com um disco que já é new wave – logo dois a três anos à frente do seu tempo como é normal em génios que virão a gravar “Fear of Music” e “Remain in Light” (estes também, duas das maiores realizações da mente humana) – e os Clash, que vão evoluir em três prestações até “London Calling” (por coincidência, outra das maiores realizações da mente humana).

Nesse mesmo setenta e sete, aproveitando a boleia do frenesim editor, um bioquímico, um “karateka”, um vendedor de gelados e um organista, numa improvável combinação, juntam-se para gravar Rattus Norvegicus. Tomando a nuvem por Juno, o público classifica inicialmente o grupo como punk. Puro engano.


Começa logo na capa. No tempo dos LPs, a capa tinha espaço para quatrocentos centímetros quadrados de mensagem, quatro vezes mais que num CD. As capas dos álbuns punk desperdiçaram esse espaço, mostrando a banda ao natural, com o ar bacoco e os cabelos espigados. Na capa de Rattus Norvegicus, não há naturalidade. Há pose, para que algo nos seja dito. As pessoas, os objectos, as cores, as sombras, tudo nos avisa que algo de errado se vai passar. Em primeiro plano a ombreira de uma porta, com Dave Greenfield e Jean-Jacques Burnel pálidos sob uma luz baça, como demoníacos guardiães à entrada de um mundo diferente, ladeados por preocupantes troféus de caça cristalizados na sua maior ferocidade, de presas em riste. Por trás, numa segunda câmara, inundada de um halo vermelho, o diabrete Jet Black, tendo por trás uma boneca de loiça despida. Ou vemos mesmo uma criança? Ao lado, um relógio de pêndulo, marcador do tempo, que acarreta a morte. Tudo reforça uma semiótica do inquietante. Depois, numa terceira sala, numa penumbra esverdeada, mefistofélico, Hugh Cornwell. Ao fundo, noutra porta, contra a luz, uma silhueta desconhecida. Quem será? O Mestre das Trevas? Ou um mero diabo para nos guiar na descida aos infernos que se vai iniciar?

A entrada é com “Sometimes”. O ritmo é avassalador, mas com aquele órgão e aquele baixo, não é punk. E a pretensa violência dos punks é de meninos quando comparada com a que é transmitida pelos “Stranglers”: "Sometimes I get to feel so mean / Sometimes I get to feel so mean / Sometimes you look like you're too clean / Sometimes I see the in-between / Sometimes only one way / I've got to fight". Estamos no interior da percepção de uma mente violenta: o sentimento de maldade é activado por uma diferença estereotipada (“too clean”) e justifica-se por uma percepção (“I see”) e um sentido (“only way…too fight”). Poderia ser argumentário para uma luta revolucionária. Os Stranglers navegam sempre em águas turvas, sem deixar perceber se concordam ou se dizem mal. Provavelmente apenas expõem, deixando à crueza da verdade as despesas da crítica. Numa quadra seguinte, o narrador vai agredir uma moça num local isolado: "You're way past your station / It's useless asking you to stop / I got morbid fascination / Beat you honey till you drop”. Violento? Muito. Apologético? Não, tal como o Guernica não faz a apologia da violência fascista. Põe-a em xeque trazendo-a à evidência sobre outro ângulo.

Em “London Lady” e “Princess of the Streets”, os estranguladores revelam o seu lado machista e misógino, do qual ganharam fama quando exibiram strippers em palco durante os concertos. “London Lady” é uma versão ácida e demolidora da rapariguinha do “shopping”. Descreve-nos uma fulana fútil e idiota: “you're so stupid / foetid brainwaves”. Viram? Ondas cerebrais fétidas. São pouco meiguinhos, são. Tais seres femininos não têm opiniões que interessem e apenas se justificam como objectos sexuais: “please don't talk much / it burns my ears / tonight you've talked for a thousand years”. No entanto, elas às vezes fazem mossa. “Princess of the Streets” é uma canção de despeito – “she's gone and left me / I don't know why” – sobre a mulher dominadora (“with words of fire / she'll make you small / with eyes that smile / she'll make you tall”) que comete a malvada traição de não se nos submeter, preferindo liderar a matilha: “she's no lady / she'll stab you in the back / she's no lady / she's princess of the pack”.

Muito politicamente incorrecto, mas descrito com larga arte. E, convém relembrar, estamos a visitar o inferno.

O pico escatológico do álbum é atingido em “Ugly”, em que verdades dolorosas sobre a importância da imagem pessoal no sucesso social e a sua viciosa relação com o dinheiro são berradas, não cantadas, num rock minimalista e obsessivo. Três exemplos: “besides she had acne / and if you've got acne well I apologise for disliking it intensely / but it's understandable that ugly people have got complexes / I mean it seems to me that ugly people don't have a chance” ou “it's only the children or the fucking wealthy who tend to be good looking” ou ainda “an ugly fart / attracts a good looking / chick, if he's got money”.

Têm toda a razão: qualquer peido com cacau atrai mulherame. Embora dizer tal coisa continue a ser politicamente incorrecto.

O disco segue com algumas músicas só ligeiramente menos pesadas como “Hanging Around” ou “Get a (Grip) on Yourself”, que foram êxitos de venda e de rádio.

Para final apoteótico, os “Stranglers” reservaram-nos “Down in the Sewer”. Uma história sobre um homem com raízes campestres que caiu no esgoto e lá fica a apanhar latas vazias de Coca-Cola. O esgoto pulula de ratazanas agressivas: “there's lots of rats down here / you can see the whites of their eyes / they got sharp teeth / deep breath / and lots of diseases”. Pouco simpático... O esgoto funciona como óbvia parábola desta sociedade que destrói o bom selvagem que há em nós, da “rat race”, da agressividade que endereçamos aos nossos semelhantes e que nos condiciona ao ponto de a instruirmos aos nossos filhos:

“Tell you what I'm gonna do.
Gonna make love to a water rat or two
and breed a family.
They'll be called the survivors.
You know why?
No?
They're gonna survive.”

A faixa é longa de oito minutos e termina com um inesquecível solo de órgão – o “Rats Rally” – por um Dave Greenfield desbragado. E quando pensamos que tudo terminou num som de água a sumir-se pelo ralo, eis que se ouve o Hugh Cornwell a negar-nos, com uma longínqua voz do além, qualquer pensamento de redenção: “I’ll see you in the sewer”.

Rattus Norvegicus foi possivelmente o melhor disco de estreia de sempre, e lançou os Stranglers numa carreira que ainda nos deu, entre outros momentos felizes, mais uma das maiores realizações de sempre da mente humana, o “Black and White” de 1978.

Rattus Norvegicus é uma reportagem fotográfica sobre o lado negro do nosso mundo e da nossa mente. Uma visão dantesca do nosso colectivo moderno. Não propõe curas, exibe meramente os sintomas, de um modo brutal que deveria pelo menos fazer-nos pensar. E isto num formato inovador, esteticamente soberbo e coerente, e com uma valente pedalada. Tudo bom!