sábado, julho 14, 2007

Cenas ridículas (II): o canal noventa e tal

Imaginem que um realizador de cinema se propunha fazer um filme sobre um jogo de futebol. Que para actores seleccionava apenas russos de boa pinta e negros espadaúdos, algo diferentes dos futebolistas do nosso campeonato, estes mais do tipo morcão de Massarelos, de patilha graúda, ou favelado brasileiro, com fácies de assalto à mão armada. Que os perseguia pelo relvado com a câmara, dando-lhes instruções do tipo “chuta com força mas levanta bem a perna”, “finge que o derrubas”, “protesta com o árbitro e faz cara de gandulo”. Que, na proximidade da baliza, ordenava ao guarda-redes que se estirasse pelo chão mas de modo a não defender a bola, recomendando um esgar de frustração pelo tento sofrido. Que instruía os jogadores para se abraçarem a festejar o golo, repetindo três vezes a cena até o entusiasmo lhe parecer algo convincente.

Imaginem tal coisa e respondam: isto parecia-vos futebol? Não. Nada que tenha a ver com o Maradona, do baixo da sua barriguinha, a driblar seis talegas inglesas numa Aljubarrota de calções, para enfiar por uma nesga, em queda, o golo do século. Ou com a guarda angélica de um Maldini filho a segurar um zero-a-zero contra o escrete, em cinquenta cortes de carrinho sem uma única falta. Nada que se compare ao nervo miúdo de um “derby” em que o que se disputa é meramente o troféu do puro gozo da vitória sobre o adversário, inútil mas sublime. O futebol faz-se desta amálgama de arte e emoção. O tal filme meramente macaquearia algo na sua essência irreproduzível.

Vem isto a propósito da amável oferta promocional da TV Cabo, que com a nova “Power Box” me proporcionou o acesso nas noites de fim-de-semana a um canal noventa e tal que passa “hard porno”. Zapei e espreitei, me confesso, e o que vi está para “the real thing” como o filme que eu anedoticamente descrevi está para um Argentina-Holanda: não há comparação possível.



Nunca fui fã do género. Mesmo na puberdade, uma boa revista da especialidade talvez me induzisse mais sentimentos nobres que o visionamento duma película pornográfica. A única vez que paguei para ver na tela ocorreu durante uma visita de estudo “ad hoc” da secção masculina da minha aula do quarto ano do liceu, a qual decidiu por sua alta iniciativa completar o programa escolar de biologia, excessivamente enfocado na reprodução do pinheiro-bravo, com uma sessão contínua no cinema Olímpia, ali aos Restauradores.

Recordo que entrámos a meio do filme, assistimos ao “the end”, ao genérico de entrada e decidimos sair quando nos pareceu que já tínhamos visto aquela mesma parte, embora não tivéssemos a certeza. Durante todo o tempo, perto de nós, um velhote aparentemente fugido de um sarcófago varejava o ar com a bengala, incentivando com voz rouca e frases boçais os actores a aplicar-se com mais empenho sobre as actrizes, como se a cobóiada que fervia na tela lhe parecesse insuficiente. Saímos algo angustiados com o facto de a garantia de continuidade da espécie implicar aquelas habilidades um pouco circenses e algo patetas, nas quais não nos imaginávamos lá muito bem, mas ainda assim entusiasmados pelo facto de termos conseguido entrar numa sala de espectáculos para a qual tínhamos setenta por cento da idade necessária por lei.

Hoje, já tendo feito o meu número de pista para a continuidade da espécie, mais uns ensaios e ameaços, quando vejo o novo canal noventa e tal continuo a achar algo pateta, e explico porquê.

A) O enredo

O enredo base do filme “porno” compara em complexidade com o jogo do galo: senhora jeitosona, de saia curta e galochas de salto alto, troca olhar com cavalheiro musculado, funciona a química, chega ao pé, toca um solo de trompete remirando com olhar guloso e passam à continuidade da acção, normalmente em posição acrobática em cima de um balcão, de uma mesa de cozinha ou de outro lugar desconfortável que esteja à mão de semear.

Na maioria das vezes, por um azar dos Távoras, são surpreendidos em flagrante movimento harmónico simples por um amigo/amiga. Quando amigo, este, em vez de se retirar discretamente, junta-se à festa como quem quer a coisa, dando assim pleno cabimento à regra máxima do cinema pornográfico, que é a de que três é a conta que Deus fez. Quando amiga, esta finge que se vai embora escandalizada, mas não o suficientemente depressa para não ser convencida a ficar depois de reticências menores e duas ou três olhadelas furtivas para o equipamento do senhor.

Existem depois variantes, com marcianos, espiões, enfermeiras ou caixeiros-viajantes, mas basicamente não passa disto.

B) Os diálogos

Os diálogos lembram o monólogo do burro ibérico com fome, só que a duas vozes:

Ela: - Hin!
Ele: - Hon!
Ela: - Hiin!
Ele: - Hoon!
Ela: - Hiiin!
Ele: - Hooon!

E assim sucessivamente, em ritmo progressivamente acelerado. Até a cena inicial do “2001-odisseia no espaço” tem conversa de maior conteúdo.

C) Os actores

Pelo arzinho dos actores, os “castings” devem ser subcontratados à Carris, que angaria os artistas entre os passageiros da carreira nocturna 40 (Picheleira – Cais do Sodré). Em geral, o critério de selecção será a metragem, neles, e a volumetria, nelas. De molde a realçar os seus dotes de representação, passam todos com a “Epilady” dos pés até ao pescoço. Usam por norma pseudónimos inacreditáveis como “Ted Missile” ou “Mae Boobs”.


D) Os truques de realização

Todo o género tem os seus “clichés” e o porno não foge à regra. Um deles tenta atalhar uma dificuldade técnica básica: como filmar a ejaculação, cereja em cima do bolo de todo o processo? Porque neste caso, a cereja acontece dentro do bolo… Uma possibilidade passaria por usar uma fibra óptica, tipo canal Discovery, que descesse aos abismos para registar “in loco” tão espástico momento. Talvez fosse um pouco incómodo para os artistas.

Os realizadores resolveram o problema de outra maneira. Quando aquilo está quase-quase-quase, o mancebo retira-se de súbito e entra em modo manual, espalhando “urbi et orbi” a boa semente, muitas vezes também na fronha da parceira. Voltando à comparação com o futebol, seria como se, no culminar de uma grande jogada, com a baliza à mercê para o golo que vai fazer explodir cinquenta mil adrenalinas no estádio, o avançado estacasse de repente e se pusesse a dar toquezinhos sem deixar cair a bola no chão. Anti-clímax total…

Outro “cliché” curioso ocorreu após o advento da SIDA. Os grandes planos às partes móveis dos artistas passaram a mostrar à evidência o uso do profilático, não fosse haver algum azar mau grado a sólida formação moral dos actores. Esse preservativo desaparece normalmente antes da cena final, deixando o espectador na dúvida se houve um erro de montagem ou se se consumiu com a fricção (durante a montagem, diria eu).

E) Os realizadores

Se ouvirem uma entrevista a um realizador destas películas, irão constatar que ele acha que produz sétima arte, discursando sobre o “Branca de Neve e os sete matulões” como se de o “Couraçado Potemkine” se tratasse. Mas tal é a natureza humana. A Margarida Rebelo Pinto também pensa que os seus livros são parecidos com os do Tolstoi, só porque ambos são de papel com letras impressas e uma capa à volta.


Em suma, para quem se lembrar da física de liceu tem no “porno” uma aplicação típica do princípio de Heisenberg: a observação do fenómeno altera o próprio fenómeno. Tenta-se filmar sexo e a imagem que a câmara capta já não tem nada a ver com sexo, mas mais com uns pantomineiros aos pinotes.

Heisenberg pensava que o seu princípio só se aplicava a objectos muitíssimo pequenos, mas pelos vistos também funciona com outros razoavelmente grandes.

domingo, junho 24, 2007

A boa e a má tristezas

Tal como o colestrol e os raios ultra-violetas, também existe uma tristeza boa, que em doses apropriadas nos faz bem, e uma tristeza má, que quanto menos melhor.

A questão que se traz, suscitam-na recentes intervenções em blogues da vizinhança sobre o tema da felicidade. Nestes, enfrentavam-se no fundo duas visões da felicidade: uma correspondente a uma vivência globalmente positiva, outra a um estado ideal ao qual se acede pela eliminação de elementos negativos. Nesta última óptica, a tristeza, a dor moral, seriam sempre mais nefastas que a sua ausência. Penso convencidamente que tal nem sempre acontece.

Note-se que não haverá lugar aqui a nenhuma apologia romântica da tristeza. É melhor ser alegre do que ser triste, dizia o Vinicius de Moraes, provavelmente homenageando La Palisse de tão óbvio que soa. E claro que existem muitas tristezas duríssimas, que tornam muito difícil ou impossível atingir a felicidade, como a morte de um filho, ferida que nunca fecha e acontecimento que marca uma vida indelevelmente com um ferrete em brasa de infelicidade. Mas o que será falado serão outras tristezas, que nos transtornam os dias mas não a existência e sem as quais dificilmente nos poderíamos habilitar a estar inscritos no clube humano.

Certa vez, eu e minha mulher comentávamos o desejo que alguém exprimira de ser cremado e de ter as suas cinzas espalhadas em lugar incerto e ela disse algo que me ficou, algo como “quando os meus pais forem, quero ter um lugar onde possa de vez em quando ir chorar por eles”. Não há nada de estruturalmente negativo nesta tristeza. Obviamente que não queremos que os nossos pais se vão. Mas um dia, pela ordem da vida, tal acontece e vamo-nos sentir muito tristes, depois um pouco menos, mas sempre algo tristes. Porque o nosso mundo ficou mais pobre e pequeno, porque intuímos a nossa própria hora, porque esta é a nossa natureza, magnificamente humana. A partir daí, quando nos lembrarmos, sentiremos tristeza. Poderemos, consoante o nosso modo de ser, vivê-la no nosso íntimo ou expressar uma lágrima. Mas sentiremos, e ao sentir estaremos revitalizando a nossa memória dessa pessoa, comunicando de algum modo com ela, insuflando vida em algo que outros julgam morto.

A alternativa, terrível, é o oblívio. Certamente, esquecer seria mais cómodo. E segundo algumas perspectivas a meu ver erradas, trar-nos-ia felicidade por não nos trazer infelicidade. Recordo a talhe de foice uma leitura de Milan Kundera que descrevia uma viúva que, aos poucos, naturalmente, ia perdendo a lembrança de traço após traço do marido e que no seu esforço para recordar acabava por confundir tudo, até perder toda a memória dele. E, nesse dia, ele de facto morrera de vez. A memória de um ente querido traz continuidade, lança uma ponte e também uma homenagem. Por isto mesmo, quando há mais de cinquenta mil anos os nossos primos remotos Neandertais começaram a praticar cerimónias fúnebres, saímos da era da macacada para passar a ser gente. A dignidade na morte tornara-se um espelho da dignidade da vida humana.

Dito isto, essa tristeza não faz de nós infelizes, nem sequer, de um certo modo, menos felizes. Quando alguém próximo morre na sua hora, depois de uma longa vida, a tristeza não nos impedirá de olhar para trás e dizer: “Teve uma vida boa. Amou e foi amado. Divertiu-se. Fez isto e aquilo. Gozou filhos e netos. Marcou-os por esta ou aquela suas características. Deixou boas lembranças. Valeu a pena.” E o nosso sentimento triste será ponderado por um balanço positivo, e coexistirá pacífico na nossa própria felicidade, como uma ruga de maturidade que não desfeia um rosto bonito. Infelicidade, na minha perspectiva, seria não pensar mais no assunto.

A frustração de um estudante que sofreu um desaire ou de um atleta que chora na derrota pode ser catalizadora de uma reacção de brio que os motive para um sucesso ainda maior logo de seguida. A melancolia que nos toca ao vermos um filme dramático ou ouvirmos uma canção de sentimento faz parte de uma reflexão intuitiva sobre a nossa condição humana e tem associada uma perspectiva solidária, que muitas coisas boas tem trazido à humanidade. As pequenas contrariedades que puxam a lágrima às crianças também as formam, tornando-as mais capazes de interagir com o mundo à sua volta. São um pequeno investimento de tristeza que pode dar um alegre retorno ao longo da vida. Nenhuma destas formas de tristeza se incompatibiliza com a essência da felicidade. São meras pedras no caminho, em que tropeçamos para logo levantar, sacudir a poeira e seguir, se calhar com maior noção do equilíbrio.

Quando assistimos a desgraças inomináveis no telejornal, será bom sinal que fiquemos tristes. Relativizar certas coisas só por egoísmo de sofá. Recordarei para sempre uma cena transmitida durante o massacre da escola de Beslan, em que um pai segurava em pranto o corpo morto do filho, aí de uns dez anos, e a mãe, gritando, tentava esticar os braços para tocar na criança mas, quando estava quase, estes retraíam-se como se dotados de vida própria, como se não quisessem aceitar o horror. Nessa noite chorei convulsivamente de raiva, como se aquele fosse um filho meu – de certo modo era-o – e só partilhando uma migalha daquela dor infinita percebi o que realmente ocorrera naquela escola, muito para além das causas políticas, religiosas ou étnicas. Sempre que relembro essa imagem fico momentaneamente infeliz, mas mais infeliz seria no fundo se estas coisas me passassem alegremente ao lado.

Agora, andam para aí ao que parece uns seres excepcionais que se reputam os mais felizes da galáxia e arredores, por conseguirem afastar da brilhante carola qualquer pensamento negativo. Os seus electroencefalogramas revelariam apenas boas ondas, lembranças florais, memórias entusiásticas, cores lindas e outros alegres pensamentos que tais. Em suma, uma ganda tripe.

Confesso que estes e outros super-homens – à excepção dos da Marvel – sempre me causaram alguma desconfiança. Primeiro, porque ninguém teve a amabilidade e o bom senso de me convidar para tão excelso agrupamento. Se se tivessem lembrado, talvez eu condescendesse. E tal inábil atitude não pode deixar de me causar suspeita, até porque ainda não conheci ninguém que me fizesse sentir da terceira divisão. Porque é que haviam agora de ser esses senhores gajos? Por outro lado, a História demonstra em títulos tristes escritos a tinta de sangue que as manias de superioridade deram sempre raia, com dor e ranger de dentes em doses industriais. No século que passou, foram umas dezenas de milhões de mortos para o “übermensch” nazi e outras tantas para o “homem novo” soviético.

Com a excepção das senhoras maritalmente mal servidas, porque raio é que haveríamos de querer um homem novo se ainda não esgotámos tudo o que de bom tem para dar o homem velho e se calhar nem vamos esgotar? Como “homem velho”, podemos ser criativos, construtivos, progressivos e até felizes. Com os seus defeitos e maleitas, com todos os riscos inerentes a viver a vida, o “homem velho”, o “homo sapiens sapiens”, o verdadeiro, o da Bayer, dá-nos um excelente enquadramento para realizar grandes obras e levar uma vida gratificante, que chegue para nós e sobre para os outros.

E isso pode acontecer sendo nós simplesmente quem somos. Gente com alegrias, com tristezas, que chora, que ri, que às vezes tem dores de dentes. Gente que olha para si e se vê construída de momentos bons e outros tristes, mas que consegue em cada instante conceber um balanço e que eventualmente ousa declarar-se feliz. Gente que seja de facto feliz, mesmo que a espaços não o esteja, mesmo que por vezes sofra com um dia mau, com um revés, com um pensamento de solidariedade para com os que realmente vivem na infelicidade porque têm fome ou porque viram os seus pais mortos por soldados ou um filho abatido por um condutor que decidiu ser sua aquela passadeira.

Uma mente só com pensamentos alegres? Porra! Que coisa mais triste!

sábado, junho 16, 2007

O cão nauseabundo

(Private joke)


Não sei qual dia fora
De um mês que já passou
Em que algures na Beloura
Eram cinco a jogar Tarot.
Por sobre a toalha vermelha
Ferviam cortes e puxadas
E acusações de ser aselha
Por mor de um seis de espadas.

Vai um dado momento,
Tudo de soslaio a mirar:
Um jogador menos atento
Acabara de se largar.
Fora discreto o autor
No som, mas não no resto:
Compensava pelo odor
O silêncio de tal gesto.

Ora havia na casa um cão
Que não devia nada à limpeza:
Estava ele por trás da razão
Do mal-estar naquela mesa.
Olhando os jogadores arfava,
Com um arzinho satisfeito,
E o pessoal enquanto jogava
Ia trocando um olhar suspeito.

Até que o dono da casa, agoniado,
Explicou a todos a situação.
Não fora pois nenhum convidado:
Quem se borrara fora o cão.
E arrumando cartas com alarde
Passou-as ao vizinho já cortadas:
Preferiu não arriscar uma “garde”
Para ir escancarar as portadas.

domingo, junho 10, 2007

Prazeres exóticos

Hoje, no escaparate de livros em destaque da FNAC, lado a lado, duas propostas: “Casei com um Masai” e “O meu casamento com um Bérbere”. Como agora a actividade editorial anda muito de modas, presumo que procurarão títulos para esta nova etnografia por via uterina. Aqui vão algumas sugestões:

- o meu matrimónio com um índio quichua;
- bodas com um cingalês;
- desposei um esquimó (que me emprestou ao vizinho do iglu ao lado);
- na cama com um congolês (“extended stick mix”);
- cobóiada num albergue com uma data de espanhóis;
- sexo agitado com um alentejano;
- noite de núpcias não consumada com um benfiquista.

O pessoal não terá mais nada para ler?

quarta-feira, junho 06, 2007

Os gatos

Num momento de fraqueza, cedi às loas de uma amiga militante da causa felina, que conseguiu tornear o meu bom senso fazendo-me ceder à pretensão das crianças em ter um gato. Foi assim que um dia cheguei a casa e me deparei com a família de rabo para o ar, a tentar tirar de debaixo do sofá uns assustados quinze centímetros de pêlo cinza e pernitas magricelas, já nomeados Silvestre à minha revelia, em homenagem ao incompetente dos desenhos animados que nunca conseguia abocanhar o enervante canário.

Durante os dias seguintes, testemunhei uma sucessão de pequenas alegrias – o Silvestre já comeu, já adormeceu, já arreou o calhau, olha entrou para dentro de um saco – alternadas com grandes dramas – o Silvestre engasgou-se ou, pior, o Silvestre desapareceu. Os desaparecimentos do Silvestre originavam grossas angústias e verdadeiras batidas pela casa, que podiam demorar horas, com lanternas e paus e que terminavam por norma quando o Silvestre de espontânea vontade se materializava debaixo dos nossos olhos, bocejando indiferente, acabadinho de chegar da quinta dimensão.

Descobri por essas alturas a monumental indústria que gravita à volta dos gatos. Um verdadeiro “cluster” da nossa economia, para usar a expressão do Michael Porter. Entrei então em corredores do supermercado cuja existência nem suspeitava, onde se amontoavam variedades impensáveis de comida para gato, em lata ou em sacas, pequenas, médias ou grandes, com diferentes cores e composições consoante as idades, para gatos gordos e para gatos débeis, de pelagem rala ou farfalhuda, activos ou mais dorminhocos, tónicas ou dietéticas, tudo a preço de caviar “beluga”. Rapidamente o Silvestre passou a ter despesas de veterinário e um boletim de saúde como não o têm os velhotes do interior, plano de vacinas e desparasitagens. Fiquei a saber que se o bichano viesse a andar enervado, existem psicólogos especializados em dar conforto mental à gataria, por valores menos que módicos. A antiga caixa de serradura das minhas memórias de infância fora substituída por uma autêntica estação de compostagem, com uma areia sintética cheia de aromas e agregantes, dispendiosíssima, que produzia uns calhaus muito práticos mas que provocavam o rápido desaparecimento da dita areia – e a consequente e irritante necessidade de comprar mais! A esta renda havia que somar os brinquedos, o tronco de afiar unhas, as cestas para dormir mais os cobertores, o cesto para deslocações e os “bibelots” que se iam partindo.

Perante a parafernália e a despesa, a minha mãe, que em criança sempre tivera gatos de quintal que comiam espinhas e bebiam água das poças, comentava com bastante filosofia que até para se ser gato é preciso ter sorte.




Passados uns tempos, o “lobby” da bichanada voltou a atacar e conseguiu-me convencer de que se um gato incomodava muita gente, dois gatos incomodariam muito menos. O argumentário girava à volta de que assim se fariam companhia um ou outro, andariam menos nervosos, encheriam menos o saco, etc. Deste modo mentiroso chegou o Tommy a nossa casa.

O Silvestre era um bicho com algum “pedigree”, arraçado de Bosque da Noruega, com uma belíssima pelagem cinzenta, luzidia e suave como uma gola de marta. O Tommy, malhado que nem uma charolesa, de pêlo áspero, assumidamente rafeiro e com a pata muito leve. Rapidamente pôs o mais velho na ordem. Passado poucas semanas, já comia primeiro da malga, numa lição de liderança. Pusemos uma segunda tigela para o Silvestre, e ainda assim este esperava que o outro terminasse, numa lição de submissão. Estranho mundo dos gatos que tão bem imita o dos homens!

Mudou a minha vida e mudou a minha casa. Nunca sabia quando um qualquer gesto do quotidiano, uma luz que se acendia, o sentar num sofá, um passo inadvertido, iriam desencadear um tropel pelo corredor fora, um eriçar de pêlo bufante ou um mero olhar redondo de desprezo. No desprezo, aliás, eram exímios. Tinham uma maneira de olhar de soslaio, erguendo o pescoço ao de leve, de bocejar num vago aborrecimento, de virar costas e seguir caminho sem passar cartão, que só poucas mulheres – e nenhum homem. Quando soube que a esperança de vida destes animais podia exceder os catorze anos, percebi o logro em que caíra: pela ordem natural das coisas, os meus filhos sairiam de casa antes dos gatos. Desesperei com a ideia dos dois em frente à têvê, cada um com o seu felino ao colo, esperando em vão um telefonema dos ingratos.

Mas, pouco a pouco, os gatos fizeram ninho nas nossas vidas. Impuseram os seus hábitos e a sua linguagem: um olhar para a janela, põe-me aqui um banco; um mio para a maçaneta, abre-me a porta; um rebolar aos pés, dá-me festas. Estabeleceram preferências: por pessoas, por lugares, por momentos. Havia uma hora para a Sofia, outra para cada miúdo e outra para mim (infelizmente a meio da noite). Numa palavra, tornaram-se da família, com aquele jeito insinuante e lunar que me lembra o poema do Alexandre O’Neill:

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?


Sei que com os meus gatos aprendi a resposta, e não é “dono” de certeza.

quinta-feira, maio 31, 2007

Cenas ridículas (I): Os óculos escuros

Lembro-me de ter passado o tempo, no pára-arranca de um IC qualquer, numa curiosa estatística. Contando os carros que deslizavam nervosos em sentido contrário para o ponto das nove, fui verificando quantos condutores de óculos fumados: sim, não, sim, sim, não, sim, sim, dez, dezasseis, trinta! Trinta e tal em quarenta de óculos escuros numa manhã chuvosa de Novembro.

Jovens comerciais de cabelo espetado em gel, esquálidas doutoras da contabilidade em apetrechos matinais, tias engelhadas no BMW do tio, tudo arvorava o olhar moscardo, mirando pela lente escura a queda do amarelo, com o nervo do carneiro que se atrasa no caminho para o matadouro.

O que levará tão grande percentagem de lisboetas a querer ver por lentes negras um dia já cinzento? Hipersensibilidade fotónica ocular? Mania que ficam com ar matador? Admiração exacerbada pelas personagens do Matrix? Sinal de reconhecimento e identificação entre burguesia suburbana? Não sei. Sei que tal fenómeno não pode ser inocente num país em que se marra com os cornos ao volante por dá cá aquela palha.


Se estabelecermos a correlação estatística entre o uso das cangalhas pretas e os acidentes viários, veremos que a coisa joga. Possível cenário: o pessoal entra para o Corsa dezasseis válvulas, mete os pintosos óculos escuros, tudo se apaga, e aí vai ele num Ferrari 599 a curvar a parabólica de Monza a duzentos e setenta quilómetros por hora. Curva apertada à direita, batendo “in extremis” um Porsche de uma escuderia alemã, chicana, duas ultrapassagens, uma quase saída de estrada evitada no limite, com muita perícia, até embater no que julga ser o “aileron” traseiro de um concorrente atrasado mas que afinal é a caixa aberta de uma “pick-up” de uma empresa de construção civil, que ia levar umas sacas de cimento ali para uma obra no Murtal.

Enquanto os bombeiros o desencarceram, há-de tactear o banco do morto à procura dos óculos, único elo economicamente acessível a esse mundo de “glamour” automóvel, que lhe saltaram da penca com o embate e que convém não perder, a pensar já na próxima corrida.

Se não fossem as lunetas de sol, talvez a gente visse mais a estrada e menos a pista.

Recordando que Pedro o Grande iniciou a modernização da Rússia mandando os boiardos cortar as barbas e Kemal Ataturk trouxe a Turquia para a Europa obrigando os funcionários públicos a usar chapéu em vez de fez, também a nossa Prevenção Rodoviária Portuguesa deveria começar o combate à sinistralidade automóvel com uma medida fortemente simbólica. Proibição de conduzir de óculos escuros, que é para ver se abrem os olhos! E já!

terça-feira, maio 29, 2007

A chamada de longa distância

Este sábado, atendi o telemóvel. Lá longe, no mar Egeu, de uma ilha cujo nome de exotismo histórico e veraneante não consegui fixar, ouvi entrecortada a voz de meus amigos. Os meus amigos interromperam por instantes o seu sábado de cruzeiro paradisíaco para, em frente aquela praia de areia branca – ou seria, menos poeticamente, cascalho? – se lembrarem de mim.

Senti que fazia lá falta, senti que me faziam falta, arrependi-me de não ter ido. Mas fiquei de dia feito.

Pelo auricular, no meio dos “como vão, como está o tempo”, vieram as primeiras certezas e as primeiras dúvidas, copos de cerveja em mesas de fórmica à beira-praia, o silêncio do estudo de madrugada, passes magistrais para golo (e alguns grandes frangos), confidências eufóricas e segredos bem guardados, ténis à porta das tendas, luzes de discoteca, psicadélicas, e angústias de fim de festa, igualmente psicadélicas, mãos que seguraram as mãos dos meus filhos, risota de segunda fila em dia de casamento, curvas apertadas nos carros emprestados pelas mães, orgulhos de primeiro emprego, noites de conversa mole e dura à luz da lua, sorrisos que abriam a porta. E também umas quantas zangas, poucas, uma ou outra irritação, alguma desanda mais ou menos merecida.

Eu e os meus amigos, contas feitas, estamos à moda do Porto: não há dívidas pendentes entre nós. O que devemos uns aos outros pusemos numa conta comum, já com uns anitos de juro e um capital de respeito.

Perguntou-me um dia a minha legítima: “porque é que não casaste com eles?” A bem dizer, não sei. O facto de serem feios e felpudos terá contribuído de forma não desprezável. Ou talvez porque o nosso sacramento não se celebra em casa, mas em qualquer esquina, de Paris, de Atenas ou da Charneca da Caparica, onde um tipo calhe de se encontrar.

Se calhar nunca vos disse, seus cabrões! Mas gosto muito de vocês!

sábado, maio 19, 2007

Anúncio: Cenas ridículas

Mataspeak vai lançar uma série de pequenos “posts” em que procurará retratar o ridículo do quotidiano moderno. No cinquentenário de “O meu tio”, serão uma singela homenagem à câmara de Jacques Tati, sempre pronta a expor o ângulo traiçoeiro que revelava a idiocia das nossas pequenas vaidades.

Estejam atentos…

Presuntos implicados

Contrariamente ao que arenga a sabedoria convencional, um democrata para o ser tem que ser um fundamentalista.

O conceito de fundamentalismo nasceu associado a movimentos de carácter religioso que assumiam o carácter infalível e regulador de textos sagrados ou de certos dogmas, mas acabou por se estender a qualquer grupo que julgue que existem preceitos que se devem aplicar, invariavelmente, a todas as pessoas e em todas as situações. Exactamente neste sentido, o democrata é obrigatoriamente fundamentalista. Porque para ele existirão valores que serão sempre correctos, quer o sirvam a ele, quer ao seu maior inimigo; valores que não poderão nunca ser beliscados; valores para os quais não há “ses” nem “talvez”.

A lista desses valores ainda é grandota. Inclui concepções sobre o poder (que deve ser submetido a regras, representativo, consentido, repartido, transparente e equilibrado por contra-poderes), sobre as obrigações de comportamento individual e colectivo (para as quais é central o conceito de liberdade individual e que passam por normas adequadas ao funcionamento simultâneo de seis biliões de liberdades individuais) ou, ainda, sobre a dignidade humana (através da protecção da vida ou da igualdade diante da sociedade e das leis).

Poderemos com alguma justiça definir como democracias apenas as sociedades em que uma parte substancial da população tenha assimilado, como componente da sua cultura, estes conceitos. Em que os políticos, os juízes, os enfermeiros e os limpa-chaminés os achem óbvios. Sociedades como Portugal, em que existam instituições e leis democráticas, mas em que as pessoas não sintam esses valores como seus, são meramente regimes democráticos, não democracias. E tais sociedades, não se alicerçando sobre um fixe – um “bedrock”, como dizem os ingleses – de valores imperturbáveis, abanam com frequência, por vezes perante sismozitos insignificantes.

Um dos valores em questão é a presunção de inocência. Um daqueles que se percebe logo: ninguém gostaria de ser acusado em vão de gamar uma carteira, ou de benfiquismo ou de qualquer outra coisa assim grave. Uma falsa acusação fere o sentido de justiça e pode estragar a vida a um tipo. Para evitar tal coisa, o progresso da civilização criou alguns princípios básicos: todo o acusado está inocente até ser condenado; tal condenação carece de prova; o ónus da prova fica com quem acusa; e a prova deve estabelecer a culpa para além de qualquer dúvida razoável. No fundo, quem quiser viver numa sociedade em que não se ande vestido de peles, com mocas numa mão e mulher arrastada pelos cabelos na outra, tem que aceitar que mais vale deixar um crime sem castigo de que correr o risco de engaiolar o gajo errado.

Deixa-nos indignados que um crime hediondo fique por punir? Deixa, mas eu ficaria muito mais ofendido se preso por algo que não fiz. A vida é assim: imperfeita. Ocorrem tremores de terra de grau oito, morrem crianças de leucemia e não se encontram culpados de sabujices atrozes. Quem quiser estar em jogo sabe que são estas as regras e os riscos. Mas a vida, além de imperfeita, é preciosa e irrepetível. Por isso, há que usar de toda a prudência antes de estragar a de alguém por engano.



Há dias, reportando as investigações ao rapto da pequena inglesa no Algarve, a RTP deu – financiada pelos meus impostos! - um festival de alarvidade noticiosa à volta de um fulano que foi interrogado pela polícia. Filmaram à porta de sua casa e deram o nome da vivenda, de modo a que toda a gente pudesse saber quem ele era. Uma senhora gaja descabelada, identificada abusivamente como “jornalista”, gritou ao microfone banalidades sem conteúdo como se fossem notícias. Revelou, com ar de inconfidência fundada, que pessoas da vizinhança lhe teriam dito que o indivíduo apresentava um comportamento “anómalo”! Como anómalo? Matava pessoas com uma serra eléctrica? Lia mais de dez livros por ano? Votava na Carmelinda Pereira para as presidenciais? Ouvia os “Irmãos Catita”? Almoçava túbaros? Não usava fato-de-banho na praia? Em Portugal, todos estes comportamentos são fora da norma, mas só o da serra eléctrica constitui crime, penso eu de que! Fechei o televisor enojado, interrompendo a idiota do micro a meio de mais uma cretinice, deixando-a lá longe no seu labor sujo de crucificar um homem na praça pública.

Não sei se o homem tem ou não culpa no cartório. Tal é totalmente irrelevante, uma vez que não me cabe, nem a mim nem à gajola da RTP, decidir sobre esse assunto. A mim e à pindérica cabe-nos pensar que, até prova em contrário, aquele senhor é tão respeitável como o nosso paizinho e tomar as precauções inerentes. O facto de o crime em causa ser dos mais hediondos que possa haver, dos que mais fere a nossa humanidade e o nosso sentir interior de pessoas e pais, não diminui a necessidade de cautela, antes reforça-a. Um crime gravíssimo e moralmente repelente pode ser o teste mais drástico à solidez dos nossos princípios. Se neste momento difícil a nossa convicção na presunção da inocência fraquejar, bem nos podemos juntar ao magote disponível para babar ódio instigado pelos pelourinhos televisivos e pelas Manuela Moura Guedes deste triste mundo, versão moderna das turbas grosseiras do passado que aplaudiam no rossio da vila os corpos enforcados dependurados do cadafalso.

Se não soubermos distinguir entre um “presunto implicado”, como dizem os espanhóis, e um culpado, rapidamente o transformaremos em simples “presunto”, no sentido menos simpático que tal palavra tem no “bas-fond” da favela carioca.

sábado, maio 12, 2007

World Godless Photo: da arte e do vazio (II)

Continuação de post de 1 de Maio


Ao redor de 1562, Pieter Bruegel o Velho pintou “O triunfo da Morte”. Embora feito num século em que o Homem retomou o seu destino entre mãos, “O triunfo da Morte” respira ainda a Idade das Trevas. Num cenário de fim do mundo, exércitos de esqueletos arrebatam e matam quem encontram, individualmente ou em grupo. No primeiro plano, a reacção das pessoas é diversa: há quem combata, há quem se esconda, há quem se submeta. Alguns fogem para dentro de uma caixa com uma cruz na entrada, procurando refúgio num símbolo seguro, mas aquela não parece ter saída. O combate surge como desigual e, logo, sem esperança: um infinito de esqueletos espera do lado direito para entrar em acção, todos munidos de escudos e lanças. Ao centro, como um rio descendo o vale, aproxima-se mais tropa maligna. Todas as classes sociais sofrem de igual modo diante do triunfo da Morte: no canto inferior esquerdo, um rei com a sua armadura e manto de arminho. Mais adiante, burgueses, guerreiros, doentes, menestréis, damas, a todos espera-os o mesmo destino. À medida que o nosso olhar se afasta para o horizonte, vamos sendo informados, pelos detalhes que Bruegel foi distribuindo pelo segundo plano, que não vale a pena ir para lado nenhum: a Terra está em chamas, os Céus enchem-se de negro, cadafalsos exibem enforcados, vítimas ajoelhadas esperam a queda da espada que os decapite. Só no canto direito do quadro, sobre o mar, se pode encontrar alguma luz, um resto de paz. Mas não creio que esteja lá para dar um sinal de esperança, até porque a fumarada, soprada pelo vento, ameaça cobrir em breve esse último refúgio. Penso que essas derradeiras pinceladas de luz servem apenas para equilibrar a composição e para puxar o nosso olhar através dos sucessivos planos que compõem a imagem.



Para o homem medieval, existia um universo oculto e maligno, mas tão real como o visível, habitado por demónios e outros seres danados, comandados por esse contraponto caído personificado no Diabo. Esse lado da existência, num tempo de incertezas e noites escuras, amedrontava e ao mesmo tempo fascinava. Este quadro foi certamente influenciado por essa visão do mundo: Bruegel retratou mais do que uma vez imaginários povoados de seres disformes e obscenos, possivelmente inspirado pelo estilo do seu compatriota Bosch. Mas aqui foi um pouco mais além: o lado positivo deixou de existir. Deus e a esperança de redenção que traz não marcam presença nesta pintura. A morte não é mais uma porta para um além desconhecido, que pode ser o da existência eterna ou o do fim sem fim dos tormentos no inferno. A Morte torna-se a essência do mundo: os seus exércitos inspiram medo, e não esperança, pelo que a Morte vem retratada como o Mal ou o Fim. Bruegel parece estabelecer aqui um princípio filosófico particularmente pessimista sobre a natureza das coisas. Contrariamente às fotos da exposição, em que a guerra gera o mal e este surge como consequência e testemunho da guerra, no quadro manifesta-se um Mal estrutural, que aparece neste caso sob a forma da guerra, como poderia aparecer como peste ou fome.

Bruegel foi certamente influenciado pelo tom e pelos acontecimentos da sua época. Em 1567, o Duque de Alba chegou a Bruxelas, mais a sua tropa. Filipe II de Espanha tinha-o incumbido da simpática tarefa de converter à força os protestantes e o duque levou a coisa à letra, levando à morte milhares de pessoas e em última instância à cisão dos Países-Baixos. Inaugurou por aquelas bandas um estilo de acção política rígido nos princípios e contraproducente nos resultados: terá sido o primeiro eurocrata de Bruxelas. Em justa homenagem, ainda se hoje se chama duque de alba a um tipo de estrutura portuária suficientemente bruta para aguentar o embate da acostagem dos navios.

Não se sabe se Bruegel tomou partido entre católicos e protestantes: talvez se tenha prudentemente mantido na retranca. Mas pode deduzir-se, de algumas das suas obras, que tinha suficiente simpatia pelos protestantes para dar umas bicadas subtis no Duque de Alba, pintando um cavaleiro de armadura negra em situações menos simpáticas. Podemos especular que o quadro “O triunfo da Morte” pretendia também transmitir uma mensagem política, ao representar uma identidade entre a guerra e o Mal. Se atentarmos que o tipo de representação do cenário de guerra (as forcas, os incêndios, as rodas de tortura) nos recorda muitas das imagens da época sobre as guerras de religião e sobre a Guerra dos 30 anos, esta pintura procuraria induzir uma associação entre os exércitos de esqueletos e outros bem reais que espalhavam o terror pela terra: os espanhóis de Filipe II.


Se no primeiro exemplo os espanhóis são os maus da fita, no segundo são as vítimas. Em 2 de Maio de 1808, na Madrid ocupada pelos exércitos napoleónicos, um soldado francês foi mandado do cavalo abaixo e levou um enxerto de porrada. O general Murat, que ganhara os galões de marechal a comer uma irmã do imperador, proclamou que sangue francês tinha sido derramado e tratou de organizar a desforra, No dia seguinte, a França mostrou a sua grandeza fuzilando cerca de quatrocentos civis, entre pedintes, monges, mercadores e outros perigosos terroristas. Como a História se repete! Seis anos depois, Goya retratou o massacre num quadro intitulado “O três de Maio de 1808”.

Goya pintou-o, juntamente com outras obras, por razões muito pulhamente materialistas: para manter o seu salário de funcionário real, dando graxa ao novo monarca absoluto de Espanha, Fernando VII. Este manteve-lhe o cacau mas guardou o quadro num armazém, como prova de absoluta consideração. Hoje em dia, podemos admirá-lo no Prado.



Nele, vemos homens disparando sobre outros homens. Apenas o título da obra nos permite relacionar o facto histórico com o que é representado. Talvez aquela silhueta de igreja seja familiar aos madrilenos. Talvez os barretes dos soldados fossem característicos do exército francês. Mas nitidamente Goya afastou-se de uma realidade formal para que ela não prejudicasse a restituição daquilo que lhe pareceu ser o essencial da cena. O resultado é uma composição quase teatral, como que de actores dispostos num palco, representando a natureza da bestialidade humana. Com a excepção do rosto do personagem central, as posições e expressões são rígidas e irrealistas, como nos “manga” japoneses, preocupando-se apenas em traduzir de forma eficaz um conceito único: o desespero, a raiva, o medo ou a incompreensão dos condenados, que contrastam com a firmeza cinzenta e monolítica dos soldados.

Goya não presenciou os acontecimentos, nem se preocupou em documentá-los. Para um liberal como ele, para quem a Revolução Francesa representava a ruptura com o passado que ele desejava para Espanha, o comportamento dos soldados franceses deve ter sido dilacerante. Eventualmente por isso, Goya afasta-se de uma mensagem política específica, de crítica da violência napoleónica, para produzir um retrato mais lato da individualidade humana, valor supremo, atacada num acto sacrílego pela força bruta.

No centro do quadro, destacado pela perspectiva, pela cor e por uma luz irrealista, como se um projector celeste o iluminasse, um homem, um homem comum, provavelmente igual a milhares de espanhóis da época, abre os braços e uma cara de espanto ao pelotão de fuzilamento. A sua expressividade, o misto de sentimentos que essa expressão veicula, de incompreensão, receio, angústia, resignação e até de alguma serenidade, contrastam com a frieza sem face dos executores. Aquele homem banal desbanaliza a violência da guerra, ao contrário das fotografias da exposição, tornando a morte e a dor inúteis no problema central do universo. Outros acabaram de ser mortos e uma fila sem fim visível espera o seu destino. Mas no instante que Goya pintou, no preciso momento em que vai ser abatido, este homem simboliza toda uma humanidade vítima do abuso do poder da força e todos as pessoas que morreram sob o jugo daqueles que acham que a razão do colectivo se pode arrogar o direito de destruir a preciosidade irrepetível da nossa individualidade.

Um detalhe, suficientemente discreto para ser um detalhe mas suficiente visível para não deixar de ser visto, reforça esta mensagem: as chagas nas palmas das suas mãos, que juntamente com os braços em cruz nos remetem para a figura de Cristo. Não para nos dizer que este homem seja Cristo, mas para nos lembrar que Cristo foi este homem, sofrendo às mãos de outros e que cada assassinato não é um momento menor da História, mas antes uma repetição desse instante fundamental de rasgo que foi o martírio. Por outro lado, talvez este pormenor traga uma ténue nota de esperança a esta pintura. Afinal, tal como Cristo ressuscitou para ver a sua mensagem vingar pelo mundo, poderá ser que os direitos dos indivíduos vão renascendo das cinzas e que um dia prevaleçam sobre a violência e o arbítrio.

Goya realizou o “O três de Maio de 1808” num enquadramento histórico e filosófico muito diferente daquele em que Brueghel viveu. Uma dezena de anos antes, tinha sido redigida em França a “Declaração universal dos direitos do homem”. Tradições, direitos ancestrais e ideias antigas que pareciam imutáveis sofriam o desafio entusiasmado de um número sempre crescente de pessoas que entendiam que todos tínhamos os mesmos direitos, bem como o dever de defender esses direitos. O homem já não se via como um elemento passageiro e anónimo de um eterno formigueiro, correndo por instinto o carreiro da vida e só fugindo desnorteado perante a morte inesperada, mas antes como “a medida de todas as coisas”, relembrando o conceito platónico que podemos encontrar, de forma intensíssima, no âmago deste quadro.


To be continued…

terça-feira, maio 08, 2007

Meditação ateia

“The brain - that's my second most favourite organ!”
Woody Allen



Para os meus amigos budistas e afins, a revista Visão da semana passada trazia um interessante artigo de divulgação sobre os mais recentes progressos científicos na investigação do funcionamento dos nossos cérebros, com boas e más notícias.

As boas são que a meditação se calhar funciona mesmo. As más resultam do facto desse funcionamento não ter nada a ver com transcendências. Investigadores da Universidade da Califórnia, inspirados nalguns aspectos das práticas de meditação budistas, desenvolveram terapias comportamentais que permitiam inibir certos comportamentos patológicos. Curiosamente, os resultados finais assemelhavam-se aos obtidos através da ingestão de determinadas drogas, mas os mecanismos fisiológicos envolvidos eram substancialmente diferentes. No caso das terapias que usavam a introspecção, o fenómeno em causa advinha da capacidade do próprio pensamento poder afectar a estrutura material do cérebro, através da alteração de ligações neuronais: a neuroplasticidade.

Muitos dos progressos das neurociências parecem aliás indiciar um resultado que a mim surge como intuitivo, mas que pode perturbar certezas a quem tiver a fortuna de as ter: que muitos aspectos do comportamento humano que tendíamos a associar a uma componente imaterial do nosso ser, como as emoções, a consciência, a reflexão, a memória, criam-se a partir de processos físicos, correntes sanguíneas, trocas de iões entre células, ondas eléctricas. Se calhar, consequentemente, não existe uma alma que se apresente a um juízo final ou que se reintegre no todo de um ser superior. Como dizia a voz do Ringo Star no filme “Yellow Submarine”: “It’s all in the mind!”. Ou melhor: “in the brain!”

Milhões pelo planeta fora sentir-se-ão desaforados com tal perspectiva. Não haver nada a seguir é chato, para quem esperava paraísos idílicos, múltiplos regressos sob formas exóticas ou batalhões de virgens à mão de semear. Que isto os ensine a valorizar cada momento da vida de forma mais solene, tanto a deles como a dos outros.

O facto de a nossa capacidade de pensar, de julgar, de sentir ou de amar poder ser mais gerida pelas leis da termodinâmica do que por leis divinas não deve levar a uma perspectiva materialista, pelo contrário.

É ainda mais maravilhoso saber que a nossa admiração diante de um poema, do brilho nos olhos de uma criança, de um prodígio científico ou de um dito de bom espírito, resultam da nossa, humana, capacidade de levar essa amálgama de células e impulsos eléctricos a criar realidades de ordem superior.

Ainda por cima, tal capacidade faz recair sobre nós uma responsabilidade acrescida. Se não houver seres superiores para tomar conta dos nossos disparates ou dizer-nos como nos devemos portar, teremos que ser nós a fazê-lo: a prática da sobrevivência e a ética da vivência tornam-se assunto dos homens, e não dos deuses.

quarta-feira, maio 02, 2007

Para variar, porrada nos franceses!

Para satisfazer alguns comentários que, não sem uma certa razão, me acusaram de estar a branquear comportamentos mais reles que nalguns aspectos desta vida os franceses possam ostentar, decidi para me redimir recuperar um texto meu antigo, a esse mesmo propósito, intitulado “Paris”:


Em 1852, iniciou-se um notável esforço de renovação urbana que iria transformar a Paris suja e apinhada dos Luíses numa capital ordenada e arejada, segundo um padrão geométrico de avenidas e bulevares. Com a participação dos melhores engenheiros e arquitectos da época, surgiu uma grandiosa cidade, com sistema de água e esgotos renovados, belos parques, novos subúrbios. Paris tornou-se magnífica.

O homem por trás da obra foi Georges-Eugène Haussmann, advogado, funcionário público e barão, que durante 17 anos ocupou a prefeitura do Sena para glória do seu mediano soberano, Napoleão III.

Não podia o pobre Georges-Eugène adivinhar que, tendo a história executado um daqueles ganchos apertados do espaço-tempo que a Teoria do Caos chama “catástrofe”, a sua cidade se iria povoar com um número absolutamente desmoralizante de parisienses. E foi aqui que as coisas começaram a correr menos bem. Passo a explicar:


1) A tromba

Se existe uma instituição genuinamente parisiense, é a tromba. O paquidérmico apêndice é ostentado um pouco por toda a parte, na rua, nos "bistrots", nas portarias dos museus, nos transportes públicos ou onde quer que o parisiense tenha que sofrer a experiência medíocre de partilhar o seu oxigénio com terceiros.

Com trombas tão bojudas, tão peludas, tão a rojar pelo chão, punha-se um problema de aparências para resolver. Para dar um ar minimamente civilizado, vagamente compatível com o esplendor neo-clássico dos monumentos novecentistas e com o "art nouveau" das bocas de metro, o parisiense engendrou dois astuciosos ardis: o "monsieur" e o "pardon".

Sempre que se aborda um parisiense para obter uma informação, desliza o "monsieur" de sob a tromba, com o único propósito de arvorar um ar bem-educado. A partir daí, se existir a mínima hipótese de a resposta ser negativa, sê-lo-á, e esse funcionário arvorará a sua melhor "gueule", barrindo silenciosamente o seu momento de glória diário. Ao fim do dia, regressará de metro, vitorioso, à frustrante partilha nocturna de um patamar com uns "beurs" ou uns gaboneses.




Já o "pardon" tem em Paris uma propriedade única no mundo. É não-causal. No resto do planeta, o pedido de perdão segue-se a uma falta involuntária. Ali, precede qualquer pequena sacanice premeditada. Imagina-se sem grande escândalo um parisiense a acelerar sobre uma velhinha numa passadeira, assobiando um "pardon" para que a carnificina não lhe pese na consciência ou na digestão do jantar.

Vi "pardons" para tudo: para passar à frente da fila, para fazer razias de patins a carros de bebé, para empurrar um cego ao qual ninguém no metro oferecera o seu lugar, mesmo jovens "bcbg" refastelados a cinquenta centímetros dele.

No domínio dos "monsieurs", o mais ilustrativo foi na FNAC da "Rue de Rennes" quando me dirigi a uma platinada de colete verde e ocre para perguntar sobre a localização da casa de banho. Assim que cheguei a menos de metro e meio, uma qualquer célula fotoeléctrica detectou a minha presença e foram accionadas duas subrotinas no subconsciente da seráfica: "sorriso de merda" e "monsieur". Ouvida a gravação, inquiri. Aí, o sorriso alargou, rasgou-se e veio um quase triunfante "nous n'en avons pas". Fiquei siderado com o prazer que esta donzela para aí da Courneuve sentia com a possibilidade dos seus clientes se borrarem nas calças. Mais do que bizarro, mais do que estranho, pareceu-me vicioso.

Decidi contra-atacar, numa perspectiva meramente sociológica. O primeiro objecto de estudo que se prestou à moca da minha pesquisa social foi um porteiro do Museu Picasso. O museu encerrava às seis, mas quando cheguei às cinco e dez já a bilheteira fechara, possivelmente por falta de pessoal. À porta, uma fonte de simpatia tipo Castafiore fez-me parte, entre "monsieurs" e "pardons", que não havendo bilheteira já não se podia entrar. Ingleses protestavam em mau francês e japoneses em mau inglês. Resignados embora elucidados sob a gestão francesa de museus, aproveitámos par dar lanche às crianças no sossego do pátio do Hôtel Salé.

Foi aí que o personagem na porta do museu mudou. Saída a hárpia, dominava agora a entrada um sujeito mirrado ao qual, se não fosse o identificativo colete azul, se poderia por engano dar cinco francos pela comiseração que inspirava. "É este", pensei. Eram cinco e quarenta. Aproximei-me da porta. Mesma história, "monsieur", "pardon", "apesar de aberto já fechou".

Pedi o livro de reclamações. Os "64 k" do meu interlocutor começaram a ter dificuldades de resposta. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco, que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes. Disse-lhe que o problema já se pusera às cinco e dez e que por isso queria o livro de reclamações. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco, que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes.

Percebi então que o indígena não entendia o conceito de "livro de reclamações". Clarifiquei: "nos países avançados as entidades integradas de algum modo na administração estatal e que prestem serviço ao grande público devem ter um livro onde este possa manifestar queixas ou apresentar soluções". E deitei umas gotas de veneno: "como a França é civilizada, deve cá haver um".

O meu interlocutor mostrava indícios de espasmo cerebral. Explicou-me que eram cinco e quarenta e cinco (já não eram), que iriam fechar em breve, que quinze minutos não chegavam para ver o museu e que faziam os melhores esforços para satisfazer os visitantes, tudo misturado com a metodologia de fecho das salas, a vistoria da polícia, a simpatia dos funcionários, três "pardons" e muitos "monsieurs".

Num canto do cisne intelectual, sugeriu-me que escrevesse ao ministro da Cultura, e seguiu perorando, exausto. Decidi dar por terminada a experiência, aliás fortemente conclusiva.

O parisiense não descende, como os outros cinco biliões, do macaco. Qual ornitorrinco, as suas múltiplas e misteriosas ascendências entroncam em dois jurássicos antepassados: o mastodonte de onde lhe veio a tromba e o "diplodocus" do qual herdou o sorriso ruminante e a noz cerebral, cujas frágeis capacidades eu cruelmente pusera à prova naquele desgraçado porteiro.



2) As velhas e os cães

Para exemplificar a noção de bijectividade, capaz de perturbar os mais ágeis cérebros que assombram os nossos liceus, basta em Paris descer à rua e abrir os olhos: qualquer velha sustem, na ponta de uma trela, um cão; todo o cão arrasta, do outro lado da corda, uma velha. Esta evidência dos "boulevards" tem como consequência - cuja demonstração se deixa como exercício ao leitor- que há em Paris tantos cães quanto velhas, e verifica-se por observação visual que são muitas as velhas e logo são os cães não mais do que as mães mas sim tantos quanto as velhas.

O formalismo matemático deste pitoresco fenómeno não se esgota porém nesta relação biunívoca. Outras leis são aplicáveis. Definindo D como uma dimensão característica da velha e d como o comprimento do cão, verifica-se Dd=K1, constante. Como corolário deste teorema, os cães não são nada grandes. Mais, sendo T a idade da velha tem-se Td=K2 , constante. Destas duas relações infere-se um crescimento do diâmetro das velhas linear com a idade.

Voltando ao tamanho dos bichos, vêem-se em Paris poucos cães de porte altaneiro, que se dêem ao respeito. Um ou outro "boxer" com ar enfiado, aqui e ali um pastor alemão com complexo de raridade, e basta. Cães que se vejam não há, e o que se vê são "pinschers", "chihuahuas", "fox-terriers", "lulus" da Pomerânia e outros roedores do mesmo calibre. Qualquer raça minorca capaz de entrar num bueiro e de sair com o mesmo aspecto é candidata à trela das velhas.


Atreladas, as desgraçadas ratazanas são ainda seviciadas com tótós, mises e permanentes, encasacadas em fraldas e panos de "tweed", e sujeitas a todas as mariquices possíveis ou imagináveis. Naturalmente desforram-se, debitando por todo o lado cócós de um tamanho desproporcionado.

Metade de Paris assemelha-se a um campo minado, e é ver os parisienses a ziguezaguear entre montes e montes, dando ridículos pulos sobre a ponta dos pés. Apesar destes cuidados, uma grande percentagem está pisada e quando pisa, o parisiense tem um comportamento curioso. Em vez de limpar discretamente na borda do passeio, arrasta a pata durante milhas, esborratando o chão com os traços do seu conceito de higiene. Este abominável comportamento, só explicável pela necessidade de partilhar com outros a sua desgraça, resulta em lajes de calçada muito artísticas, da escola abstracta, em que o primarismo dos montes disputa o olhar ao secundarismo dos riscos. Não é arte nova, mas é por certo uma nova arte.

Cães e donas proporcionam espectáculos dos mais inéditos. Numa das "allées" do parque do Champ de Mars, a avenida Anatole France, fechada ao tráfego, duas senhoras com físico de "sumo", já balzaqueanas - ou mesmo corneillianas - passeavam cada qual seu animal. Mas não de qualquer maneira. Seguiam lado a lado, cada uma no seu triciclo a motor com cerca de quarenta centímetros de altura. As pobres máquinas, bufando sangue, debitavam toda a sua potência ao veio para deslocar infinitesimalmente as cargas brutas que as espalmavam. A velocidade era aí de cem centímetros à hora. Para cada lado deste conjunto saía uma longa trela na extremidade da qual um chouriço com quatro pernas tentava desesperadamente arrastar-se até ao relvado. O alçado desta procissão tinha bem uns dez metros de frente. Quem distraidamente caminhasse desde a torre Eiffel, e se deparasse de repente com tão sórdido espectáculo, sentiria na pele os calafrios dos sentinelas alemães das praias da Normandia que na madrugada de 6 de Junho de 1944 olharam bocejando pela fresta do "bunker".

Uma tão grande proliferação de mulheres sós só com cães, sublimando nestes o melhor do seu afecto, tinha que ter uma explicação. E esta encontrei-a junto ao Sena, conforme conta o parágrafo seguinte.


3) O declínio da "baguette"

Passando numa tarde de Domingo em frente ao Hôtel de Ville, fui surpreendido por um espectáculo invulgar. A placidez móvel da praça, que inspirou a Robert Doisneau a imagem imortal de um dos mais torcicolosos beijos da história da arte, fora substituída pela azáfama de uma muito original feira de padeiros.

Singelas barraquinhas representativas dos diversos países comunitários prestavam discreta homenagem a duas vastas tendas brancas onde uma pequena multidão de enfarinhados de touca branca reclamava a representação dos oitenta mil padeiros franceses. Enquanto sob as lonas se batia a massa e se distribuíam brindes com imagens de espigas e maçarocas, um altifalante a roçar a histeria alertava para o diminuição da visibilidade dos padeiros franceses e daí para a importância da feira.

Preocupei-me. A acreditar naqueles bons homens, apesar da idade esforçados diante da abertura afogueada dos fornos, a França já não via o padeiro como noutros tempos, e as consequências sociais deste triste facto podiam não ser as melhores.

Concordei e entrei na primeira tenda. Entre uma tômbola e uma máquina de peneirar, um cartaz de um metro de altura alertava para o declínio da "baguette" francesa. Na fotografia, um cacete empinava-se contra um céu azulado, com uma atitude de cerca de setenta graus. Se bem que um pouco abaixo do preceituado nas exigentes normas em vigor mais a sul, pareceu-me um ângulo perfeitamente honesto. Honesto, mas em perigo de sobrevivência. Os textos, os discursos, as conversas em redor não deixavam dúvidas: ou os franceses mudam de posição e voltam a interessar-se pela arte do pão, ou a "baguete" francesa dará lugar ao "gressino" italiano, ao "panecillo" espanhol, à pesada broa portuguesa ou mesmo ao "pita" (o do Próximo Oriente). O inimigo já espreita de algumas das tendinhas.

Saí desconsolado, mas esperançado que os receios dos bravos padeiros gauleses fossem algo exagerados. Uma subida pela "Rue Vieille du Temple" retirou-me as ilusões. A cada esquina, à porta das boutiques da moda, nas esplanadas dos cafés, entre beijos e abraços, dezenas de mancebos parisienses trocavam a indústria da panificação pelos devaneios da charcutaria.

A continuar assim, à França só lhe resta uma de duas soluções: ou importa mais padeiros ou importa mais cães.


4) Chinelas, patins e outros artefactos

Paris tem uma fauna curiosa. Sentar num banco dos Campos Elísios e ficar a ver os transeuntes subindo e descendo o largo passeio é um exercício intelectualmente motivante que releva do zoólogo mais do que do esteta, apesar de algumas beldades passantes.

Há em Paris uma preocupação de excentricidade que não revejo em nenhuma outra capital da Europa. Desde o executivo ao "punk", passando pelos adolescentes borbulhantes ou pelas serigaitas recauchutadas, toda a gente tenta ser algo diferente de toda a gente. Este esforço universal de fuga à mediania acaba por resultar num conjunto homogeneamente pimba, um espectro plano tipo "ruído branco" em que só se houve o gritante de algumas farçolices com que julgam ficar muito mundanos. Todos diferentes mas todos iguais e igualmente lamentáveis.

Começemos por quem pretende vestir bem. Na Europa há duas escolas de elegância: a italiana e a inglesa. Igualmente respeitáveis, igualmente eficazes, exactamente como conduzir pela esquerda ou conduzir pela direita. É uma questão de sistema. Em Portugal, em Espanha, segue-se a influência italiana, como aconteceu em muitas artes. Na Holanda, nos países nórdicos, predomina um corte inglês. Em França, optou-se por uma bizarria tipo "um país, dois sistemas" que não vai nem pela esquerda nem pela direita, vai pelo meio da estrada a atrapalhar o trânsito, confunde, baralha. Tudo isto polvilhado por influências alemãs adquiridas por osmose fronteiriça ou derrota militar, sabendo-se que os alemães não primam pela sobriedade no equilíbrio das cores.

O quadro francês veste portanto mal. Mesmo quando acerta com o fato e este com os sapatos -o que já será uma feliz coincidência a obsessão local pelo artefacto levá-lo-á a escolher a gravata mais caleidoscópica que esteja disponível. No limite teremos fatos escuros e gravatas com "ratos Mickey" ou "marsupilamis".

O artefacto, pequeno detalhe berrante que pretende criar diferenciação, surge nas mais diversas formas. Penteados de "raper" com roupas betinhas, ténis Nike fluorescentes com "tailleurs" de bom corte, frase intelectualóide num discurso baço tipo "Bernard Pivot". Mais recentemente, na moda das chinelas.

A primeira que vi, justamente nos Campos Elísios, apenas me surpreendeu. "Coitada, distraiu-se ao sair à rua", pensei. Mas alertada a minha atenção, comecei a reparar e embasbaquei. Arrastando-se sobre a calçada, milhares de chinelas chinelavam, correndo desorientadas em todas as direcções. De todas as cores, de todos os formatos, de todos os tamanhos, competindo por um hipotético prémio de beleza que iria fatalmente sair à casa, formavam um longo formigueiro subindo e descendo do Arco do Triunfo ao Obelisco. Os dedos dos pés, esquálidos e com as unhas pintadas de verde ou azul, tentavam minhocar para fora, por qualquer orifício que lhes aparecesse, como cobras fugindo dum incêndio no mato. Este espectáculo de pesadelo parecia indiferente às dondocas que no piso superior arrastavam os pés pela calçada, imperturbáveis na sua convicção de esplendor feminino.

E o telemóvel? Espanta-me que as estatísticas dêem a França como um dos países de mais baixa taxa de penetração do celular. Todos os aparelhos devem estar em Paris, pois não há parisiense sem o seu na mão. Por todo o lado toca, buzina, apita -até no metro. As pequenas atendem, é o amado, e passados três segundos está o caldo entornado: "t'as pas le droit de me parler comme ça !". Ficamos todos a saber os detalhes, e assim se viaja distraidamente até à "Porte de La Vilette". Infelizmente, este género de discussões à distância não dá azo a reconciliações súbitas "a la San-Antonio", do tipo "acoudée au piano", o que também seria interessante de ver.

Outro artefacto na berra é os patins em linha. Com os sapatos às costas e os patins nos pés, Paris desliza pelo passeio em alta velocidade. Atléticos negros e executivos magricelas, jovens estudantes de cai-cai e velhotas momentaneamente sem cão, tudo rola. Convencidos dos seus direitos, os patinadores vão espantando com a tromba os transeuntes menos lestos que não pulam a tempo para a sarjeta ou por uma porta adentro. Pelo caminho vão deixando cair "pardons" para se livrarem da fama de animais.

Alguns patinadores mais timoratos decidiram, provavelmente após algumas quedas aparatosas, recuperar dos arquivos da História um forma de transporte menos perigosa: a trotinete. Disse bem, a trotinete. Imagine-se umas cavalonas com idade para outras provas ciclistas, atravessando de trotinete na passadeira, a dar à chinela. Eu vi, claramente visto, e por pouco não acreditei.

Se este regresso ao passado dos transportes pega moda, corro o risco de na minha próxima vinda a Paris ver quadrigas pelas avenidas, liteiras nas praças de táxis, riquexós e americanos, forragem nas estações de serviço e polícias de trânsito de armadura. E, isto sim, seria algo de verdadeiramente diferente.


5) A glória do Exército

Os Portugueses orgulham-se dos Descobrimentos, e a sua arquitectura monumental é disso um reflexo: a Torre de Belém, os Jerónimos, o Terreiro do Paço, mais recentemente o Padrão das Descobertas e até a Expo exaltam os nossos navegadores como pólo primeiro do orgulho nacional. Em França, os Descobrimentos foram substituídos pela Glória Militar, e por todo o Paris se avivam os feitos da "Armée": nos Invalides, no Dôme, no Arco do Triunfo, na Concorde e por uma miríade de outros sítios.

Tudo bem. Cada povo tem brio no que quer: os ingleses na família real, os brasileiros no escrete, os cubanos no Fidel e é por isso legítimo que os franceses celebrem as suas vitórias militares. Mas há um porém.

Porém se atentarmos, os celebrados são sempre os mesmos: Napoleão, Primeira Grande Guerra (Joffre, Foch, e os táxis do Marne) e Segunda Grande Guerra (libertação de Paris, De Gaulle e - pasme-se - De Lattre de Tassigny). E isto baralha. A França tem uma história longa, e heróis a celebrar, desde as machadadas do Clovis até aos passes milimétricos do Zidane. Pelo meio, um cardeal que não se entendia com o rei e um rei que não se entendia com o banho transformaram o país numa potência mundial e ainda deixaram balanço que deu para duzentos anos. Mas não são Richelieu ou Luís XIV os festejados.

Sendo rigoroso, nos últimos dois séculos a França não se saiu nada bem dos confrontos em que o seu Exército se meteu:

- Napoleão foi sem dúvida um brilhante táctico e comandante militar, mas um míope estratega. Ganhou muitas batalhas mas perdeu a guerra. Devia ter lido Sun Tzu: "O auge da competência é conquistar o inimigo sem lutar. Quando as campanhas são longas, esgotam-se os recursos do Estado" ou "O bom general traz o inimigo para onde quer lutar". E não se mete pela Rússia adentro, acrescentaria eu. A imagem que os ingleses têm de Napoleão, moribundo, visitado por Wellington na hora da morte, é a imagem real. A derrota de Napoleão marca o início do declínio do poderio francês, que ainda continua, à sombra tutelar do bloco anglo-saxónico. É pena que os Franceses não celebrem a obra civil do corso, essa sim inovadora e marcante em toda a Europa.
- Obviamente não muito visível na monumentália local, a Guerra Franco-Prussiana foi a cabazada do século. Paris só não foi arrasada porque não calhou. O Sacré-Coeur, majestosa promessa de dois devotos endinheirados, lá está para nos lembrar a dimensão do susto.
- A vitória da Primeira Guerra é uma vitória à Vale e Azevedo. Vai a reboque dos Estados Unidos. Quem ganha a guerra é o torpedo alemão que motivou o presidente Wilson a enviar os "boys" para a Europa. Os alemães quase chegam a Paris (outra vez). O Joffre, rapaz brilhante, após Verdun e Somme, é substituído pelo Nivelle, que é substituído, para evitar que o pessoal se amotine, pelo Pétain - mais conhecido pelo acocoramento de Vichy. O Foch ainda faz no final alguma figura, mas quem vence a guerra e impõe os termos do armistício são os americanos.
- Na Segunda Guerra, pior ainda. Um exército mal equipado e pior comandado é arrasado num arder de fósforo. O país é totalmente ocupado. Parte das suas chefias acaba por trair a pátria numa república fantoche. Enquanto o De Gaulle se entretem a fazer de Fernando Pessa francês, os ingleses, os americanos e os russos esfalfam-se para ganhar a guerra e ainda têm a gentileza de dar aos franceses um sector da Alemanha e uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Sempre a reboque.
- Depois a Indochina. O De Lattre de Tassigny encontra a glória fazendo-se massacrar por uma bactéria, apesar do nome. Segue-se Dien Bien Phu e o regresso a casa com o rabo entre as pernas. Pelo meio a traição do almirante Thierry D'Argenlieu - começa a ser um hábito.



Perante este panorama, há que reconhecer que em termos militares, desde há muito tempo, a França está numa divisão diferente dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha e até da Rússia. Não se percebe muito bem que raio celebram eles.

Nós, Portugueses, lembramos Aljubarrota mas pelo menos ganhámo-la. Festejamos os Descobrimentos porque conseguimos meter os barcos dentro de água. Se todos fossem como os Franceses, os Portugueses já teriam erigido um grandioso memorial aos sucessos da sua selecção de hóquei no gelo e os Suíços e os Checos cantariam a glória dos seus feitos navais.


6) A França profunda

Numa pequena capela da cripta do Sacré-Coeur, dei de caras com um França da qual só tinha ouvido falar, em livros e em filmes. A cripta não é um lugar piedoso, é beato, muito para além do que se pode ver em Fátima que é para os que crêem um Lugar Santo. Enquanto nesta, apesar dos desvios, dos exageros e das razões históricas, um ateu como eu pode observar de fora -por vezes com ciúme- uma relação entre o Homem e a sua Fé, no Sacré-Coeur é a Igreja que se celebra e parece não haver lugar para Deus.

Na capela, duas estátuas guardam a saída. Dois arcebispos do fim do século XIX, sentados num pedestal de pelo menos um metro e vinte. Há que olhar de baixo para cima. O artista era engenhoso, atingiu os seus intentos, quase que me atrevo a reconhecer uma obra-prima. A curvatura das costas, o olhar patético, a mão estendida, o sorriso ao mesmo tempo amável e comiserado, quase babando, ilustram uma Igreja ciente da sua superioridade esperando dos seus fiéis o sacrifício de si próprios no altar dos homens.

Naquele lugar ainda se acendem velas a uma qualquer Isabelle que por essas alturas foi a Roma, aos treze anos, pedir ao Papa que a deixasse entrar para um carmelo qualquer. Ali, ninguém se parece chocar por uma flor pedir ao jardineiro para morrer no vaso. E isto passava-se quando lá fora, a duzentos metros, Picasso desfazia a mala preparando-se para iniciar uma revolução na pintura.

A França tradicional, desta Igreja e daquele Exército, muito tricolor, desconfiada da diferença, a França que condenou Dreyfus e matou Meursault, estes duzentos ou trezentos anos de França, desapareceram?

Todos os povos têm seus mitos constituintes e reconfortantes. Portugal tem sonhos de grandeza porque foi Grande: país pequeno, estabeleceu um império mundial, promoveu uma revolução tecnológica, alimentou uma transformação cultural, tudo feito com liderança, planificação e uns enormes tomates.

O mito francês não é de grandeza mas de superioridade. Criado pelo poderio dos séculos XVII e XVIII, este mito foi depois exacerbado nos séculos XIX e XX pelos sucessivos líderes de Napoleão a Mitterrand, desligando-se cada vez mais da realidade. Forjou o mito do grande exército, apoiou-se no dossel da Igreja. Só que, se a França foi superior, já deixou de o ser há muito tempo. O facto de os franceses não o terem percebido ou terem dificuldades em engoli-lo é, segundo Kissinger, o drama nacional.

Aquela França não desapareceu porque demorará gerações a desaparecer, tal como o bolor do Salazarismo não sairá tão cedo dos recantos da mentalidade portuguesa. Aquela França é uma França profunda, que já não se sobressalta com uma pintura ou com o sexo, mas que vive nos tiques, nas trombas, nos "pardons" e nos "monsieurs", na pequena boca sobre o árabe ou sobre o português, na necessidade absoluta de se diferenciar para que pelo menos a imagem que tem de si seja superior à essência de um povo a necessitar, pelo que vi, de um "revamping" cívico.


Este texto tem oito anos, o que explica algumas referências. É uma visão sobre o pior dos parisienses, tal como o anterior era uma perspectiva do melhor que a França nos deu.

terça-feira, maio 01, 2007

World Godless Photo: da arte e do vazio (I)

Há tempos, amigos a quem não se recusa um convite convidaram-me a visitar a inauguração da exposição “World Press Photo 2006”, no CCB, em Lisboa. Noite quente de Setembro, lá me encontrei naqueles pátios de palácio sumério, um sítio de que muito gosto, onde Lisboa se eclipsa ao primeiro passo entre paredões de pedra clara. Numa das salas interiores, uma centena de pessoas acotovelava-se a caminho da supostamente indispensável mesa dos copos, comendo pastelitos de bacalhau patrocinados pelo Banco Espírito Santo que pinguins de travessa serviam em acrobáticos rodopios. O bru-á-á reinante convidava quem se sentisse jantado a seguir rápido para a zona de exposição, consideravelmente mais deserta. Era o meu caso e assim fiz.

A mostra dividia-se em categorias e cada uma atribuía vários prémios, somando para cima de quatrocentas fotografias ou seja mais de quatro centenas de desgraças. Sala após sala, exibiam-se a miséria, a fome, a morte que a guerra traz e a morte que a natureza impõe, a velhice, a cupidez e a doença. Em suma, o fracasso da espécie. Aqui, uma bota cardada percutia uma cara de esgar, nalguma rua togolesa. Ali, sobreviventes de um sismo paquistanês esticavam as mãos como que para um Cristo, na esperança de ver-se atribuído um cobertor com o logo da Cruz Vermelha. Acolá, uma criança guatemalteca, oportunamente andrajosa e suja, lançava os braços numa pose de encomenda.

Num rasgo de exibicionismo quase indiferente, um tal de David Guttenfelder atirava-nos com um metro quadrado de pai e filho num hospital terceiro-mundista com rachas na parede, a criança em pranto agarrada pelo seu único braço a um homem de olhar desamparado, enquanto uma mão enluvada lhe aplicava desinfectante num cotozito em primeiro plano. Com tanta sensibilidade, o David não podia deixar de arrancar um primeiro prémio ao júri de seus pares.



E assim continuava, saleta após saleta, pretenso sub-tema após pretenso sub-tema. Para a despedida, uma parede de peitos mastectomizados anunciava o último furo jornalístico da World Press Photo: o cancro existe e causa sofrimento.

Voltei à sala do burburinho a precisar de um banho. O volume baixara um pouco. Alguns resistentes atacavam nos rissóis e num tinto de meio de tabela. Um dos meus convidantes, antigo racionalista agora convertido à fé, ficara à porta, à conversa com uma pessoa. Recomendei-lhe em amigo que não entrasse, porque fé que tivesse podia perdê-la, à vista daquele mundo desertado por Deus, que mais de quatrocentas chapas e as parangonas do catálogo diziam ser o nosso, para mal dos nossos pecados. Passou um empregado de olhar tardio, periclitando copos de sumo de laranja de pacote. Cedi à oferta e emborquei aquela purga, a ver se limpava o sabor a amargo que a visita me deixara, como se o brometo de prata se me tivesse fixado na garganta. E ia pensando: mas seria mesmo? Aquelas fotos estar-nos-iam a contar a história toda? Ou reflectiriam apenas parte?

Em boa verdade, fotografias poucas vi, vi sobretudo reflexos, imagens como que capturadas por um espelho: lineares, objectivas e acríticas. Um espelho é um plano onde se olha para o vazio e se vê uma ilusão. Melhor: é o próprio lugar do vazio. A imagem de um espelho não existe, é uma construção óptica, um truque físico para enganar os nossos sentidos e com eles o nosso conhecimento. O que observamos não só não está lá como está invertido: o que parece esquerdo é direito e o direito esquerdo. Por estas, os antigos viram o espelho como um objecto manipulador, malévolo na representação que projectava do lado de cá para o lado de lá. Quem já sentiu a surpresa dos sentidos ao tentar agarrar nas mãos uma imagem virtual constituída à frente do plano físico, e não atrás, saberá que eles tinham razão.

Poder-me-ão dizer: “Numa exposição de fotografia jornalística, que esperavas? Não devem os jornalistas simplesmente retransmitir o que vêem nos eventos que cobrem?” Sim, mas depende. Que cobrem estes jornalistas: o momento em que um miliciano do presidente Fauré Gnassingbe espeta com um pontapé nos dentes de um oponente indefeso, ou será que cobrem “a guerra”? Duas crianças miseráveis das ruas da Cidade de Guatemala, ou a “condição humana”? Se pretendem cobrir as primeiras, talvez tenham realmente batido “felizes instantâneos”, capturado digitalmente um evento singular, um “delta tê”. Mas se pretendiam reportar as segundas, e não as primeiras, ou seja, a essência e não o instante, falharam redondamente, porque a realidade é – no seu melhor e no seu pior – mais complexa, mais rica e mais viva do que aqueles primeiros e segundos prémios maldosamente pretendem fazer-nos crer.

Pode uma imagem retratar a realidade? Pode, sim. Pode mesmo amplificá-la. Revejamos, como exemplo, sobre o mesmíssimo tema da guerra, de que modo a pintura resolveu esta questão em três exemplos com séculos de intervalo.

To be continued…

domingo, abril 29, 2007

Aux armes, et caetera...


“Every man has two nations, and one of them is France”

Benjamin Franklin


No próximo domingo, a França eterna corre o risco de mudar para sempre. Na hipótese de Ségolène Royal vencer as eleições para a presidência, teremos pela primeira vez uma mulher a comandar no hexágono a partir de uma cadeira (a do Eliseu) em vez de uma cama (a do homem que era suposto mandar). A hierarquia do mobiliário não voltará a ser a mesma.

Em França, o poder político formal foi historicamente assunto de homens. Não houve primeiras figuras femininas, das que mandassem mesmo, como Isabel I ou Vitória em Inglaterra, Isabel a Católica em Espanha ou Catarina a Grande na Rússia. A única mulher que aparece nos compêndios primários de História de França mescla loucura, mistério e inocência num cadinho de lenda e realidade, com alguma androginia à mistura. Ainda assim, Joana d’Arc não foi poder, mas uma forma de contra-poder, e por isso levou com o Cauchon em cima, acabando na fogueira – para sossego dos ingleses, que sempre foram exímios em pôr terceiros a fazer o trabalho sujo que lhes pertencia.

Mas se na História de França escasseiam as mulheres mandantes, abundam por outro lado as mulheres amantes, que entre a primeira e a segunda influenciaram quedas de políticas, promulgações de decretos, declarações de guerra e outros temas afectos ao destino da nação. Costumava dizer-se, nos anos sessenta, que o “De Gaulle manda em França e a Yvonne manda no De Gaulle”. Mas esta tendência tem raízes profundas, entre reinantes legítimas e meras favoritas, desde a Clotilde do rei franco Clóvis, passando por Catarina de Médicis, a Marquesa de Pompadour, a Maria Antonieta, a Maria Walewska e outras, como a amante do presidente Fauré, que em 1899 o matou do coração em pleno Eliseu, a golpes de anca, em situação muito embaraçosa para a moralidade republicana. “Cherchez la femme”, como eles lá dizem.

A especial relação da França com a mulher e com a sexualidade é apenas uma das muitas idiossincrasias daquele país e daquele povo, algumas mais sincréticas, outras perfeitamente idiotas, quase todas marcantes. E que tornam a França num país único, à superfície do planeta como no nosso espaço mental colectivo.


Tornou-se moda de nossos dias cascar na França, nos meios “soi-disant” bem-pensantes. Nos jornais, na televisão, tudo lança postas sobre a decadência francesa, sobre a crise francesa, sobre o esgotamento político francês. Tenho nos últimos anos viajado a França com alguma frequência, e pelo que lia cá esperava a cada saída encontrar um país a ferro e fogo, com filas para o racionamento ou então com um quarto da população abaixo do limiar da pobreza e com matanças a metralhadora nas escolas ou, pelo menos, com as arribas fósseis pejadas de betão e as jóias da arquitectura urbana histórica de fachada à banda, à espera do colapso e do consequente condomínio residencial. Mas para azar meu vi um país bem ordenado, com cidades e aldeias limpas e organizadas, com uma agricultura de ar próspero (é verdade que à conta do défice do orçamento comunitário), com um património histórico rico e bem mantido, com um povo aparentemente bem-alimentado.

Como é notório, os comentadores portugueses são gente rigorosa, pela cabeça da qual não passaria falar do que não sabe. Se eu não vi as criancinhas francesas subnutridas, de estômago inchado e olhar mortiço, só pode ser por ter estado nos sítios errados. Ou então, e mais certo, passa-se que depois de dois séculos a absorver carneiristícamente a cultura francesa, vinda em caixotes pelo Sud-Express, como dizia o Eça, tocou agora de bater no ceguinho. E não é que não mereçam, porque quando mete franceses só não se aproveitam as que não acertam. Mas como me irrita gente que papagueia sobre os mais fracos para se sentir mais forte, este “post” será dedicado à defesa da França. De uma certa França, recheada de boas coisas que muito inconscientemente apreciamos.

Podemos começar pela cultura. A França sempre foi e segue sendo pátria de passagem, acolhimento e geração da boa obra cultural. Embora reconheça que o francês por vezes abusa e resvala para a peneira, naquele país o saber e a inteligência prestigiam socialmente o indivíduo, atitude que as democracias bem necessitam. Ao longo do tempo, a lista dos nomes mesmo grandes cresceu e impressiona, de Du Bellay a Tati, passando por Molière, Montesquieu, Flaubert, Renoir, Seurat, Camus, e tal. Tão poderosa equipa compara sem medo ou vergonha com a grande selecção de 1998: Zidane, Henry, Vieira, Thuram, tudo artista e filósofo da bola. A França sempre soube absorver e atrair o melhor da cultura dos outros, da arquitectura italiana no tempo de Francisco I ao bailado russo do início do século XX ao “jazz” americano do pós-guerra, baralhando, partindo e dando sob novos formatos. Por alguma razão o Gene Kelly foi um americano em Paris e o Lobisomem foi o americano em Londres.

Mas mais importante, em França a cultura é assunto de massas. Apanhando o metro em Solferino, veremos na carruagem mais gente a ler do que num curso universitário de letras noutros países. A edição é óptima, vasta e barata, e a FNAC da Rue de Ternes em Paris bate-se com a Foyles de Londres pelo título de campeã do mundo das livrarias. As pequenas lojas são mais notáveis ainda: não se vendem livros como se vendem batatas e o livreiro francês trabalha como um jardineiro, seleccionando os títulos, renovando os escaparates, fazendo milagres de cor num talhão minúsculo. Quem quiser perceber, que vá ver o espectáculo de oferta que são os trinta metros quadrados da loja de livros do Instituto Franco-Português.

Se compararmos a televisão francesa com a generalidade das suas congéneres europeias constataremos que há mais e mais animados debates, mais programas culturais e um certo pudor em descer ao nível coprofágico do Big Brother ou do Ratinho. Também os programas escolares tem uma preocupação humanística muito marcada e uma mania, que os pedagogos da 5 de Outubro poderão ver como funesta, de achar que aos catorze e aos dezasseis o pessoal pode perceber coisas complicadas e pensar com a sua própria cabeça. Com tudo isto, o francês da rua consegue olhar para um mapa-múndi e apontar para o seu país sem se enganar, tarefa que se revela mais complicada com os indígenas de Atlanta ou Cincinnati.

Outra coisa que em França se espera que seja boa é a boa vida, o que já não é coisa pequena nos dias que correm de fanatismos sanitários e moralistas. Já falámos da sexualidade, ou melhor, como eles lá dizem, do amor. Porque no imaginário colectivo francês o amor tem uma vertente sexual que não se envergonha, graças a Deus. Por isso, o amor ideal, a mão na mão, o guardar-se para a pessoa especial e outras vogas que por aí andam, tudo bem, mas ao fim ao cabo nada como curtir um valente tal e coiso, exactamente pela mesma razão que a chuva cai para baixo e os rios correm para o mar: porque é natural que assim seja. Daqui vem a diferença entre a Emma Bovary, que vai ao castigo, mesmo que com problemas de consciência, e a Emma Woodhouse que com a consciência dos problemas espera pelo homem certo para casar e só aí é que.

Mas nem só de boa cama vive o homem, há também a boa mesa. Apesar de por vezes gozar com amigos franceses sobre a exiguidade da “nouvelle cuisine”, verdade seja dita que nunca passei fome em França, mas já sofri agruras em Oslo ou Amesterdão. Em solo gaulês, a comida tem que ser boa e bonita. Se saudável ou não, não interessa, e se tal perturbar o bom palato até interessa que não seja. Recordarei para sempre, com muita saudade e muito “pankreoflat”, um jantar num duas estrelas Michelin, um casarão de vidraças batidas pela ventania, em sítio improvável à beira de uma estrada perdida da costa norte da Bretanha. Aí sobrevivi feliz, mais outros quinze, a uma sucessão orgíaca de oito pratos fora os “amuse-gueules”, regados por espumantes e vinhos variados, de tinto a branco a novo tinto e a “rosé”. Deixei naquela mesa um salário mínimo e dois anos da minha esperança de vida, mas saí com um brilho nos olhos, de contente e grosso. A este propósito, a relação da França com o álcool também não desmerece. Entre vinhos, digestivos e espirituosos, só a escolha embaraça, embora eu talvez me rendesse a um bom conhaque XO. Como ícone do gosto francês pela boa pinga, nada como o Inspector Maigret, que em cada página de para cima de uma centena de livros abate uma imperial ou um meio copo de aguardente para ajudar à investigação, sem que o fígado se ressinta ou o criminoso se escape.

E para acompanhar um grande vinho, venha uma tábua de queijos franceses. Aqui está um produto que a Comissão Europeia e a sua sanha censória gostaria de regulamentar: coado em panos velhos e manufacturado por dedos sebentos e micro-organismos duvidosos, com quarenta por cento de matéria gorda. Acho percebível que um eurocrata inglês, que na sua ignorância julga que o Stilton é um queijo e não um resíduo petroquímico, queira sanear o fabrico do “camembert”. Menos natural será que se lhe faça caso, em vez de o insultar e à sua mãezinha e de o internar compulsivamente num curso prático de bom gosto, onde lhe seja dado a provar “reblochon” e “bleu du Vercors” – e já agora mulheres do continente. Pouco dado a eurocracias, Churchill afirmou em 1940 que um país com 360 variedades de queijo não pode morrer, o que constituiria excelente e mais que válido argumento para a invasão da Normandia, não houvesse já o detalhe de ser preciso salvar a Europa do nazismo.

Povo culto e venerador dos prazeres da vida, o francês entende que há coisas que têm que ser defendidas e cultiva por isso, por vezes até a um certo exagero, outra faceta que me é simpática: a de não se deixar pisar pelo poder, saindo à rua, à luta, quando necessário. Quando se torna necessário arrear a giga, aí estão os franceses em manifestação, pelo horário das trinta e cinco horas ou contra legislação racista. Reconheço que muitas vezes passam das marcas, sendo capazes de pôr Paris a ferro e fogo para protestar contra um aumento de cinco por cento do passe social. Mas pelo menos não são como o resto de uma Europa aburguesada e entorpecida, que aceita com um olhar cabresto as consequências do fino pensamento liberalóide, por aí reinante, sem ao menos dar a entender que não anda muito satisfeita. De uma Europa que se esquece que também se formou em 1649, em 1789, em 1848 e em 1968.

A História da Europa demonstra que merda da grossa para aí de cem em cem anos contribuiu com vantagem para o progresso da sociedade. Por um lado, porque um processo revolucionário funciona como uma válvula de escape social e ideológica que fomenta novos equilíbrios, por outro porque aumenta a percepção de risco dos governantes, incentivando-os a ser reformistas em tempo útil. A revolução teve na política o efeito que o terramoto tem na tectónica. Hoje em dia a via revolucionária anda demonizada pelos tabus da guerra-fria e pelo olhar único do politicamente correcto. As revoluções são processos desordenados, recheados de injustiças pontuais, onde muita malta se aproveita, onde muitos vão na onda sem a mínima ideia do que estão a fazer, mas foram as respostas da dinâmica social a situações limite, por vezes com vantagem, por vezes não. Foi depois de revoluções que os ingleses deixaram de aceitar o poder divino dos seus monarcas, que alguns franceses deixaram de estar isentos de impostos só por serem de boas famílias, que os americanos ou os italianos tiveram o direito de mandar na sua própria vidinha.


Prova de que a Revolução Francesa não era só cabeças cortadas.

A visão romântica dos franceses pela perspectiva contestatária e revolucionária foi em tempos património da humanidade. A Marselhesa era o hino de todos os que lutavam contra a opressão, como se vê na inesquecível cena no Rick’s Café, em que a música catapulta todos os personagens para a afronta à grosseria e brutalidade nazis. Estão a imaginar o God Save the King a fazer o mesmo efeito? Hoje em dia prevalece uma ideia da Revolução Francesa deturpada e despojada daquilo que foi o seu significado histórico. Até jacobino, de repente, entrou no vocabulário dos editoriais para significar qualquer coisa como “reaccionário de esquerda”. Já agora, recupere-se também girondino, termidoriano, montanhês, cordoeiro, para a estupidez ser mais completa. E embora não haja desculpa, relembre-se, para dar às coisas alguma perspectiva de longo prazo, que durante o ano e meio que durou o Terror, teoricamente um dos mais inqualificáveis pesadelos da história da humanidade, houve em Paris 2650 sentenças de morte executadas. Isto compara com as 25.000 mortes civis no ataque à Comuna de Paris pelo governo de Versalhes, a 60.000 mortos num único dia da batalha do Somme, sendo ainda igual a um a dois por cento das vítimas civis na actual guerra do Iraque.

A França está pois de saúde, e recomenda-se. Quando a França se opôs ao brilho intelectual de George W. Bush na sua cavalgada heróica contra a hidra babilónica, caiu o Carmo e a Trindade, e foi um vê-se-te-avias: apodaram-na de velha, de majestática, de jacobina (lá está!), etc. Tss, tss! Viu-se quem tinha razão. A França há-de morrer muitas vezes nas palavras dos seus detractores e ressurgir sempre, porque faz parte de todos os nós. E eu, a quem muitas manias dos franceses dão galo, descubro-me francófilo quando a vejo levar injustamente.

Vem-me aqui à memória a canção do Brassens: “Y a des copains au bois d'mon cœur / Chaqu' fois qu'je meurs / Fidèlement / Ils suivent mon enterrement”. Por mim, cada vez que matarem a França, seguirei o enterro com um sorriso, sabendo perfeitamente que não há de ser o último.

quarta-feira, abril 18, 2007

A praga dos economistas

Practical men, who believe themselves to be quite exempt from any intellectual influences, are usually the slaves of some defunct economist.

John Maynard Keynes



Se Moisés tivesse ameaçado o faraó com a praga de economistas que para aí anda, tinha poupado o Egipto à peste e aos gafanhotos e o pessoal a trinta minutos de charutada no filme “Os dez mandamentos”. Isto porque o Ramsés, diante da sombria perspectiva, haveria de dar passaportes aos judeus todos, mais ao gado e à bagagem, antes que levar nas bancas com uma edição em hieróglifos do Diário Económico, propalando as virtudes da iniciativa privada na construção de pirâmides.

Vão longe os tempos em que a economia só interessava a cinzentos senhores de óculos, muitas vezes juristas adaptados, que nem faculdades específicas havia por não parecerem necessárias. Assuntos económicos não enchiam como hoje quatro páginas de jornal mais um suplemento semanal a cores, resumindo-se então a uma ou outra solta entre a bola e o necrotério. Défices que preocupassem, só o das plaquetas no sangue. Hoje em dia, pelo contrário, a moda pegou e a coisa descambou.

Agora, tropeça-se num calhau e salta de lá um economista. Muda-se o canal da têvê e lá vai um a perorar com ar de evidente sobre as maleitas dos gastos públicos. Sintoniza-se a rádio e aí vem outro a debitar sobre a reacção dos mercados ao relatório do Fed, como se os mercados fossem bichos com orelhas e patas e reacções, que desatassem a correr por aí acima como cutucados por um pau. Economistas, nas empresas, são aos rores e uns horrores. É vê-los, como formiguinhas chinesas a construir uma barragem de terra no Rio Amarelo, de cabelo besuntado e fato de três botões à procura do erro no EBITDA, ziguezagueando o cursor e o olhar angustiado pelo meio de gigantescas folhas de cálculo. Tantos e tão vistosos, que a economia, que não interessava ao menino Jesus, interessa agora a toda a gente, que por regra percebe do assunto tanto como os próprios em questão.

O economista, tal como prolifera hoje, é coisa caracteristicamente incaracterística, por mais do que uma razão.

Em primeiro lugar, porque tem dificuldade em se caracterizar. Praticando os médicos medicina, os advogados advocacia e os engenheiros engenharia, seria de esperar que os economistas tratassem de economia. Mas não. De acordo com a novíssima Ordem dos Economistas, é economista quem “tenha titularidade de uma licenciatura na área da ciência económica com um conteúdo curricular que corresponda à transmissão de um mínimo de conhecimentos técnicos e de uma cultura própria à profissão de economista”. Pescadinha de rabo na boca: é economista quem tiver aprendido o mínimo para ser economista. Depois de ler isto, perguntei-me, com uma angústia daquelas de bafo na nuca, se seria por funesto acaso economista. Sou licenciado, tive que ter dez numas cadeiras de macroeconomia e de contabilidade de custos e, entre outras coisas, leio relatórios e contas para ganhar a vida.

Para meu sossego, a dita Ordem, provavelmente consciente do granel que definições daquele género geram, apressou-se a publicar para esclarecimento das hostes uma lista de cursos que facultam o almejado estatuto. Para gáudio e grande alívio deste vosso criado, não consta lá o meu canudo. Mas, curiosamente, vêm listados nada menos de 22 cursos de gestão e administração, contra 18 de economia. Ora é mais fácil encontrar um defesa do Boavista meiguinho do que um licenciado em gestão que não nutra um ódio profundo e visceral pela economia, macro, micro ou assim-assim. Todos os que eu conheço, e são alguns, vêem a economia como uma matéria nebulosa, pejada de equações compridotas, de aplicabilidade prática duvidosa, sofrida a contra-gosto em cadeirões já esquecidos do segundo ano, e com aprovação à terceira ou quarta tentativa.

Como, ainda por cima, as faculdades produzem à vontade cinco vezes mais licenciados em Gestão do que em Economia, resulta que o economista é, com oitenta e tal por cento de probabilidade, alguém que nunca pensou sê-lo e que sempre trocou as econometrias por assuntos mais amenos e florais como contabilidade analítica ou “marketing e comunicação”. Mal comparado, é como se a Ordem dos Engenheiros admitisse amantes do bricolage. Tudo somado, a maioria dos economistas depois de o ser não o é, exactamente ao contrário da pescada.

Se já não resulta fácil perceber quem são, mais difícil será entender o que fazem. Os economistas que se sentem mais evoluídos manejam –julgam eles– uma especialidade chamada “ciência económica”. Aqui, deparam-se com uma pequena dificuldade. Para a perceber, convêm lembrar como funciona a ciência. De uma maneira razoavelmente simples: observa-se a realidade, arranja-se uma explicação para a observação de parte dessa realidade, traduz-se essa explicação num modelo, relacionando em regra grandezas numéricas mensuráveis. Os modelos científicos servem para várias coisas: permitem criar uma visão comum sobre os fenómenos (pela repetibilidade), dão-nos meios para antever a evolução dos fenómenos descritos (conferem previsibilidade), possibilitam a descoberta de novos fenómenos, deduzidos do modelo, e só depois observados e, muito importante, funcionam como autotestes permanentes a si próprios. Uma realidade que não encaixe no modelo invalida o modelo. A matemática, a física, a química, a biologia e a geologia floresceram à luz deste método, e com elas as suas primas tecnológicas: as engenharias e as medicinas.

A dita ciência económica, coitada, debate-se com um problema grave: não acerta uma, o que não era suposto. Não há um prémio Nobel da economia que nos consiga informar –sem se rir– qual vai ser a inflação da semana que vem. Os gurus das finanças, se ficam ricos, é só por haver parvos que pagam cem euros para os ouvir a debitar banalidades e espertos que convencem as suas empresas a pagar elas os cem euros. Se as previsões dos engenheiros aeronáuticos fossem tão de fiar quanto as do Banco de Portugal, ninguém punha os cascos num avião, porque ia cair de certeza, se por mero acaso levantasse vôo.

A realidade é simplesmente complexa demais ou os modelos económicos demasiado pobres: a dita ciência económica está numa fase medieval, quase alquímica, da sua existência. Os Keynes e os Friedmans deste mundo não passam de Paracelsos, e por muito respeitável que fosse este antepassado da Medicina, todos preferiríamos entregar os nossos destinos ao bisturi ou aos panasorbes de um obscuro mas moderno médico da caixa, ainda que correndo os riscos inerentes, do que às sanguessugas ou ao serrote do Paracelso.

Como reage a classe a tal estado de coisas? Uns, poucos e normalmente economistas propriamente ditos, embrenham-se em descrições matemáticas de um realismo "tolkeniano", imaginando num delírio artístico mundos virtuais povoados de funções de utilidade e matrizes de Ansoff, em vez de orks ou elfos. Frequentam congressos da academia e confiam na memória curta do povo e na seda da gravata para se aventurar com ar sério em prognósticos sobre o crescimento do PIB, em frente às câmaras de televisão. Outros, incapazes de tal pedalada, lêem de empreitada o Semanário Económico e os gurus das livrarias de aeroporto, e repetem. Repetem – com ar convicto ainda por cima. Quando os professores eram de esquerda, papagueavam a planificação da economia. Agora, que os professores alinham à direita, passaram a ararar as vantagens do mercado livre. Se lhes perguntássemos se as forças de mercado teriam sido suficientes para produzir o Taj Mahal, os Concertos Brandeburgueses ou o estado social sueco, ficariam a olhar, como economistas para um palácio, manifestamente sem perceber o sentido da pergunta.

Por outro lado, com a vitória supostamente suprema das vantagens absolutas do mercado livre e da sua mãozinha invisível, os economistas, mesmo que hipoteticamente acertassem de vez em quando, tornaram-se inúteis. Uma vez que preconizam que não se deve mexer em nada, porque as coisas se ajustam sozinhas e que a intervenção só estraga, são como um médico que apenas explicasse ao doente: “Você tem uma fractura exposta. Vamos deixar que isso vá ao lugar sozinho, que não se deve tocar. Se por acaso apanhar gangrena, vai morrer mas também não há azar porque nesse caso você não é biologicamente eficiente e há que dar lugar a quem o seja. A concorrência tem que funcionar”. Ao aceitar como inevitabilidades – que se explicam mas não se combatem – a dor e o sofrimento gerados pelas injustiças de cariz económico, portam-se como um Leonardo da Vinci que olhasse para o voo das aves e concluísse que os homens nunca conseguiriam voar.

Perturbados com as dificuldades que a evolução do mundo – social, demográfica, tecnológica, ambiental – causou ao modo de intervenção dos homens na economia, os economistas abdicaram do papel social que podiam desempenhar, limitando-se a repetir e a propagar ideias feitas sobre os méritos dos mecanismos de mercado e os deméritos da intervenção estatal, numa clássica situação de bebé fora com a água do banho. O mercado de emissões de CO2 pode ser conceptualmente fascinante, mas uma multa à séria talvez funcione mais simples e eficientemente, se o Estado se der ao respeito. Imagine-se o mesmo conceito aplicado por exemplo à vacinação obrigatória. Quem não quisesse vacinar os filhos comprava um crédito na bolsa de direitos da febre tifóide ou da rubéola. Ainda andava tudo a ter cinco filhos para ficar com dois.


Por vezes, há que “go back to basics”, que é o que eu recomendo aos economistas dos nossos dias. John Stuart Mill, reagindo às visões pessimistas de Malthus e Ricardo, fez notar aos (poucos) economistas do século XIX que o homem pode ser factor de mudança:

“A distribuição de riqueza, portanto, depende de leis e costumes da sociedade. As regras pelas quais se determina são as que são feitas pelas opiniões e sentimentos da parte da comunidade que manda, e são diferentes em diferentes tempos e países, e podem ainda ser mais diferentes, se a humanidade assim escolher.”

Só auxiliando nessa escolha terão os economistas um papel socialmente meritório. Se se limitarem a gerir a desgraça, então podem ficar em casa. Se, pelo contrário, quiserem andar na rua, não se devem esquecer que Adam Smith, o primeiro dos grandes economistas, foi um professor de moral, para quem a razão de ser da riqueza e da glória era meramente o bem-estar do homem comum.