Parece que o Departamento de Estado norte-americano teceu críticas à situação de direitos humanos em Portugal. Ficamos agradecidos e à espera da contribuição sobre o mesmo assunto do Departamento de Estado norte-coreano, que não poderá deixar de nos ser útil. Ou do saudita…
Ele há com cá uma lata!
Aqui vai para o Departamento de Estado norte-americano: http://www.archiexpo.com/architecture-design-manufacturer/mirror-288.html
quarta-feira, março 07, 2007
sábado, fevereiro 17, 2007
Os teus braços
Dedicated to the one I love...
A casa regresso quando parto
Nela entro assim que saio
O meu suspiro de soslaio
Mira tua porta quando parto
Quando vagueio pelas vielas
Vejo sempre luz em tuas janelas
Vou revendo e não me farto
E quando me julgo mais distante
Percebo que mesmo que errante
Por mais que vá não me aparto
Teus braços são a minha casa
A eles volto sem ter saído
Se mais longe ando perdido
Mais teu sopro aviva a brasa
Se me julgas fora sou presente
Mesmo que alheio não ausente
A minha casa são os teus braços
Regaço de calma prometida
Que qual farol no breu da vida
Alumia a volta de meus passos
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Rimanços
domingo, fevereiro 11, 2007
Viver de novo
Um dos grandes paradoxos das nossas vidas reside na impossibilidade de compreender objectivamente os outros, os seus comportamentos e os raciocínios e sentimentos que os movem e motivam. Não estamos dentro deles, não os vivemos, só parcelarmente os compreendemos. Temos deles o entendimento que os prisioneiros da caverna na alegoria de Platão tinham da realidade: vemos sombras, mais ou menos nítidas, que tomamos por seres. E baseados nessa pouca informação, com facilidade os julgamos, correndo risco de erro.
Vale este raciocínio, talvez com mais pertinência, para o modo como criticamos aqueles que nos são mais próximos: os nossos pais. Lembramos acções longínquas, especialmente as que nos envolveram, rememoramos os nossos sentimentos da altura, e sentenciamos: “fizeram muito mal em fazer assim” ou “só pensaram neles, porque deveriam ter feito assado”. Com o tempo, eventualmente, vivemos experiências que nos ajudam a matizar a nossa opinião, desculpamos ou até pensamos compreender. Mas saber, saber nunca sabemos.
Isto a propósito de “Bairro Longíquo”, de Jirô Taniguchi, um livro de banda desenhada japonês que me ofereceram pelo Natal.
Confesso que o recebi com desconfiança, porque tenho dos “manga” uma imagem porventura deturpada. Não consigo impedir que me venham à memória as cenas de infância dos desenhos animados da Heidi, um ser suíço e asséptico (passe a redundância) que corria para o avô aparentemente sem sair do sítio, como se o planeta fosse uma passadeira de ginásio rolando debaixo dos seus pés. A carinha quadrada ostentava um esgar permanente, que tanto dava para sorriso como para choro, consoante o contexto e a vozinha da actriz de serviço, e até as vacas que pastavam ao fundo pareciam mais da encosta do Fujiama que do cantão de Zug.
Mais tarde os nipónicos reincidiram com o Marco, uma versão masculina da Heidi, mas com um enredo tão perverso que, comparado, o “Pesadelo em Elm Street” faz figura de “Branca de Neve e os sete anões”. A mãe de Marco parte para o cu-de-Judas, por razões de que já não me recordo. A dado momento, o Marco, em vez de estar quieto, vai à procura dela. Inicia-se então uma volta ao mundo em oitocentos dias, na qual o coitado do Marco, desafiando a estatística, chega sempre com uma ou duas horas de atraso ao último sítio a onde a mãe era suposta estar. Atravessa o Atlântico para a ver em Buenos Aires. Quando chega, foi-se ela há menos de uma semana para Valparaíso, Chile. Atravessa as pampas e os Andes, sofrendo frio e levando porrada, sempre com o tal esgar em grande plano. Uma vez em Valparaíso: azar! Saiu ontem de paquete para Sidney. Lá vai ele lavar um convés para conseguir alcançar a Austrália. Galo: a mãe, com certeza pelos melhores motivos, zarpou faz pouco para as Novas Hébridas. E assim de seguida… Quem escreveu esta trampa, não haja dúvida que adorava crianças.
Este meu trauma com desenhos japoneses foi ainda mais amplificado quando vi os meus filhos a deliciarem-se com os Pokémon, uma espécie de Heidis e Marcos mutantes e dotados de poderes especiais, o maior dos quais era afastarem-me da televisão. E cada vez que, numa livraria, folheava BDs japonesas, não conseguia deixar de ver a Heidi de soquete branco, o Marco a chegar mais uma vez atrasado a Vladivostoque ou o Pikachu aos pinotes. Por isso nunca comprei.
Mas este, como já o tinha, comecei-o. E acabei as quatrocentas páginas dos dois volumes numa só tirada, praticamente sem interrupções. O estilo, se bem que inequivocamente nipónico, é de uma grande sobriedade, apesar da riqueza do detalhe, numa influência clara de Edgar Pierre Jacobs. Mau grado as oscilações de intensidade dramática do enredo, a atmosfera é sempre serena, quase plácida, induzindo um sentimento de paz que muito contribui para que apreendamos a mensagem principal da história.
Hiroshi Nakahara, um homem de quarenta e oito anos a braços com uma crise de meia-idade, toma por engano (ou talvez não) o comboio errado na estação de Osaka. Por coincidência, este leva-o a Kurayoshi, a sua terra natal. Hiroshi aproveita o tempo até ao próximo trem para visitar a cidade e, no cemitério local, diante do túmulo da mãe, tem um desmaio. Quando recupera os sentidos, o seu corpo é o do Hiroshi adolescente, com catorze anos mas com a vivência e as memórias do homem adulto. Hiroshi vai reviver um ano da sua juventude dessa forma, como um observador externo, meio do presente, meio do futuro.
Para além da maravilhosa dádiva de voltar a viver os seus catorze anos – qual de nós não gostaria? – Hiroshi vai ter a oportunidade de perceber muito melhor a sua relação com os seus pais e os dramas familiares que o marcaram. Isto porque vai vivenciá-los pela segunda vez numa dupla óptica: não só como filho, mas também como adulto, como progenitor e como marido. Esta experiência não o vai ajudar a alterar o destino da sua família, como pretendia, mas vai-lhe permitir compreendê-lo, nas suas raízes e nas suas consequências. E com isso, numa derradeira lição dos pais já desaparecidos, pode inteirar-se do valor da sua própria existência e tomar o seu futuro entre mãos.
Sonho ou realidade? Pouco interessa ao autor. Jirô Taniguchi deixa a dúvida no ar e uma lição no texto: viajemos, na nossa memória, até aos momentos difíceis do passado e, munidos de uma maturidade diferente, saibamos retirar daqueles que nos eram próximos a sabedoria que na altura não conseguimos.
Vale este raciocínio, talvez com mais pertinência, para o modo como criticamos aqueles que nos são mais próximos: os nossos pais. Lembramos acções longínquas, especialmente as que nos envolveram, rememoramos os nossos sentimentos da altura, e sentenciamos: “fizeram muito mal em fazer assim” ou “só pensaram neles, porque deveriam ter feito assado”. Com o tempo, eventualmente, vivemos experiências que nos ajudam a matizar a nossa opinião, desculpamos ou até pensamos compreender. Mas saber, saber nunca sabemos.
Isto a propósito de “Bairro Longíquo”, de Jirô Taniguchi, um livro de banda desenhada japonês que me ofereceram pelo Natal.
Confesso que o recebi com desconfiança, porque tenho dos “manga” uma imagem porventura deturpada. Não consigo impedir que me venham à memória as cenas de infância dos desenhos animados da Heidi, um ser suíço e asséptico (passe a redundância) que corria para o avô aparentemente sem sair do sítio, como se o planeta fosse uma passadeira de ginásio rolando debaixo dos seus pés. A carinha quadrada ostentava um esgar permanente, que tanto dava para sorriso como para choro, consoante o contexto e a vozinha da actriz de serviço, e até as vacas que pastavam ao fundo pareciam mais da encosta do Fujiama que do cantão de Zug.Mais tarde os nipónicos reincidiram com o Marco, uma versão masculina da Heidi, mas com um enredo tão perverso que, comparado, o “Pesadelo em Elm Street” faz figura de “Branca de Neve e os sete anões”. A mãe de Marco parte para o cu-de-Judas, por razões de que já não me recordo. A dado momento, o Marco, em vez de estar quieto, vai à procura dela. Inicia-se então uma volta ao mundo em oitocentos dias, na qual o coitado do Marco, desafiando a estatística, chega sempre com uma ou duas horas de atraso ao último sítio a onde a mãe era suposta estar. Atravessa o Atlântico para a ver em Buenos Aires. Quando chega, foi-se ela há menos de uma semana para Valparaíso, Chile. Atravessa as pampas e os Andes, sofrendo frio e levando porrada, sempre com o tal esgar em grande plano. Uma vez em Valparaíso: azar! Saiu ontem de paquete para Sidney. Lá vai ele lavar um convés para conseguir alcançar a Austrália. Galo: a mãe, com certeza pelos melhores motivos, zarpou faz pouco para as Novas Hébridas. E assim de seguida… Quem escreveu esta trampa, não haja dúvida que adorava crianças.
Este meu trauma com desenhos japoneses foi ainda mais amplificado quando vi os meus filhos a deliciarem-se com os Pokémon, uma espécie de Heidis e Marcos mutantes e dotados de poderes especiais, o maior dos quais era afastarem-me da televisão. E cada vez que, numa livraria, folheava BDs japonesas, não conseguia deixar de ver a Heidi de soquete branco, o Marco a chegar mais uma vez atrasado a Vladivostoque ou o Pikachu aos pinotes. Por isso nunca comprei.
Mas este, como já o tinha, comecei-o. E acabei as quatrocentas páginas dos dois volumes numa só tirada, praticamente sem interrupções. O estilo, se bem que inequivocamente nipónico, é de uma grande sobriedade, apesar da riqueza do detalhe, numa influência clara de Edgar Pierre Jacobs. Mau grado as oscilações de intensidade dramática do enredo, a atmosfera é sempre serena, quase plácida, induzindo um sentimento de paz que muito contribui para que apreendamos a mensagem principal da história.
Hiroshi Nakahara, um homem de quarenta e oito anos a braços com uma crise de meia-idade, toma por engano (ou talvez não) o comboio errado na estação de Osaka. Por coincidência, este leva-o a Kurayoshi, a sua terra natal. Hiroshi aproveita o tempo até ao próximo trem para visitar a cidade e, no cemitério local, diante do túmulo da mãe, tem um desmaio. Quando recupera os sentidos, o seu corpo é o do Hiroshi adolescente, com catorze anos mas com a vivência e as memórias do homem adulto. Hiroshi vai reviver um ano da sua juventude dessa forma, como um observador externo, meio do presente, meio do futuro.
Para além da maravilhosa dádiva de voltar a viver os seus catorze anos – qual de nós não gostaria? – Hiroshi vai ter a oportunidade de perceber muito melhor a sua relação com os seus pais e os dramas familiares que o marcaram. Isto porque vai vivenciá-los pela segunda vez numa dupla óptica: não só como filho, mas também como adulto, como progenitor e como marido. Esta experiência não o vai ajudar a alterar o destino da sua família, como pretendia, mas vai-lhe permitir compreendê-lo, nas suas raízes e nas suas consequências. E com isso, numa derradeira lição dos pais já desaparecidos, pode inteirar-se do valor da sua própria existência e tomar o seu futuro entre mãos.
Sonho ou realidade? Pouco interessa ao autor. Jirô Taniguchi deixa a dúvida no ar e uma lição no texto: viajemos, na nossa memória, até aos momentos difíceis do passado e, munidos de uma maturidade diferente, saibamos retirar daqueles que nos eram próximos a sabedoria que na altura não conseguimos.
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Admirações,
Meditações
terça-feira, janeiro 30, 2007
Do aborto (II): o caixilho ideológico do não
Uma das causas que impossibilita, em Portugal, uma discussão racional sobre a questão do aborto – como sobre um número de outras – reside nas matrizes ideológicas do grosso dos activistas de ambas as partes. Arreados nessas andas intelectuais, os discursos vão-se partidarizando e a clivagem esquerda-direita vai emergindo num assunto que não tem por que ser de esquerda ou de direita, que são aliás conceitos difusos e eventualmente sem realidade própria.
Esquerda e direita políticas querem dizer tudo e nada e às vezes o seu contrário, em diferentes momentos do tempo ou locais do espaço. Desde as discussões na Convenção de 1793, entre a Montanha e a Gironda, sobre o destino a dar à cabecinha da Maria Antonieta, ao moderno cinzentismo parlamentar europeu, em que “esquerda” e “direita” se alternam a propor e a não fazer exactamente o mesmo, passando pelo doloroso parto das lutas operárias no Ocidente ou pela guerra fratricida da batalha de Guadalajara, Esquerda e Direita defrontaram-se em muitas coisas, por vezes irrelevantes, outras vezes centrais ou mesmo vitais.
Se quiséssemos encapsular os conceitos de Esquerda e Direita recorrendo a um mínimo de parâmetros, poderíamos utilizar, tentativamente, apenas dois: o grau de interferência do colectivo na esfera individual e o nível de intervenção do Estado na economia. E mesmo só com estes dois eixos, colocando de forma grosseira certos grupos ideológicos característicos, pode-se ver que existem muitas esquerdas e muitas direitas, e que nem sempre coexistem do modo que dita a sabedoria convencional.

Traçando linhas contínuas sobre esse plano, podemos concluir coisas curiosas, como a proximidade relativa do ecologismo a ditaduras do passado, ou que os partidos socialistas/sociais-democratas europeus podem ocupar um centro, tendo de cada lado uma das direitas tradicionais, do Norte e do Sul da Europa, ou ainda o relativo isolamento das doutrinas George W. num dos cantos da figura.
Dito isto, interessa-me focar-me de momento no que são a Direita e a Esquerda portuguesas, especialmente aquelas que mais se assanham na discussão deste abortivo tema e, neste post em particular, no lado direito da barricada.
Em Portugal, a Direita pouco partilha com, por exemplo, a tradição conservadora inglesa. Esta última bebe, como toda a política britânica, de um ribeiro que vai fundo na História: a Lei impera, o colectivo é fonte de poder e é exercido por consentimento dos destinatários. Por isso, esse mesmo poder é limitado pelo dever de governar para o bem comum. Caso tal não aconteça, a revolta é legítima: a Ordem não é um valor só por si. É exactamente a este princípio que Jefferson recorre para justificar a independência dos Estados Unidos.
Mesmo que o poder emane do colectivo, e até para que a revolta possa ser legitimada, o indivíduo tem que ser um conceito central nesta concepção política. O colectivo não pode cercear certos direitos individuais: de vida, de expressão, de propriedade, de associação, sem a existência dos quais o poder se poderia perpetuar para além do que fosse legítimo. A defesa cívica de direitos, reais ou potenciais, individualmente ou em grupo, é respeitada e considerada importante para a sociedade. Nisto, lembra o discurso de Péricles. A inteligência e a produção intelectual são valorizadas, como expressão da individualidade. Mesmo sem o ênfase que se lhe quer dar no continente, a separação entre Estado e Igreja funciona bem: a tolerância religiosa resulta da e na multiplicidade religiosa, e um judeu pôde ser primeiro-ministro da coroa. É uma Direita liberal e por vezes libertária. Para esta Direita, Mill é tão referência como o é para a Esquerda britânica.
Por cá, a Direita forma-se por razões históricas num cadinho ideológico bem diferente. Valores como a Ordem (por oposição à dinâmica social), a Autoridade (entenda-se do chefe) e a Moral (“burguesa”, embora eu não goste do termo, e católica) são centrais na construção daquilo que no nosso país identificamos com Direita. Para que estes conceitos operem com eficácia, não se pode dar ao indivíduo muita margem de manobra.
Como paradigma quase caricatural deste quadro mental, temos o pitoresco salazarismo, que sintetizou num regime parolo e atrasado mental estes e outros componentes que reencontramos hoje na nossa Direita sociológica, se cavarmos um bocadinho, que nem tem que ser muito. Removida aquela capa fininha de referências democráticas e europeias, aparece-nos logo o António Oliveira, vivinho da Silva, a olhar com cara de gozo.
No salazarismo, a autoridade, tanto política como social como moral, emanava do dito “Botas” e escorria por aí abaixo, ao longo da hierarquia, até aos contínuos que vegetavam em corredores mal iluminados, sentados esfingicamente em secretárias da Olaio. A cada nível, a reverência ao chefe era o modo de operação e de sobrevivência, fosse ele o senhor director, o senhor prior, o senhor chefe de repartição de finanças ou o meu tenente. Como todos os dias, a todos os níveis da sociedade, apareciam chatices para resolver, todos os dias essas chatices, se tivessem um mínimo de novidade, eram chutadas para cima, à consideração superior. Podemos imaginar o impacto deste sistema no desenvolvimento do país. Aliás, basta ir à janela e olhar.
Social e economicamente, o salazarismo é um regime de Estado, onde o Estado manda, enquadra, autoriza ou proíbe, e se for preciso até dá uma carga de porrada. As empresas desenvolvem-se, abrigadas de excessiva concorrência, na medida em que o permitam os superiores interesses do condicionamento industrial. A polícia vela a que uma agricultura tradicional, tanto no minifúndio como no latifúndio, subsista sem sobressaltos. Os diferentes interesses das diferentes classes são geridos, por uma mão visível, no âmbito das corporações.
O indivíduo, esse, foi enquadrado, inscrito em organizações, definido de acordo com critérios e, sobretudo, embrulhado no manto espesso de uma moral de paróquia de mato. Para além de enfarpelados na fatiota ridícula da Mocidade, os jovens portugueses tinham que ser classificados pelos seus professores em categorias que incluíam títulos como “normalmente estúpidos”. O indivíduo pretendia-se simples e austero (ainda hoje termos de conotação elogiosa na língua portuguesa), nada ambicioso (um defeito, ainda hoje), nem intelectual (quase um insulto, mesmo nos nossos dias). O próprio Salazar mostrava o modelo, poupadinho, de fato coçado e para mais casto. Just in case, a censura, com um critério por acaso mais ignorante do que eficaz, tentava que o português não lesse coisas que o desviassem do seu lugar, no caso de ele pertencer aos meros dois terços de adultos que não eram analfabetos.
Se o homem do período salazarista se queria discreto e pouco imaginativo, a mulher então nem se fala. Na realidade para ela só havia duas vias: a de esposa, prendada, submissa ao marido (até na letra da lei), mãe de uma ranchada de filhos, se possível fada do lar; ou a então a de perdida, objecto de utilidade sexual que poderia satisfazer as necessidades inconfessáveis, mas desculpáveis, dos mais marialvas. Não se pode negar que esta visão da mulher muito deve a uma atitude redutora da sexualidade infelizmente característica da Igreja Católica. Esta reprovava, e continua a reprovar, a sexualidade pelo prazer, a contracepção, o divórcio, a liberdade do corpo e tudo o que vá para além de uma monogamia reprodutiva, em que o sexo é dever e não liberdade. E o regime fazia igual. Numa interpretação das Escrituras, aliás, que é na minha opinião excessivamente à letra. Afinal, Deus só disse “crescei e multiplicai-vos”, não acrescentou “e só lá podem ir para isso mesmo”.
O quadro mental resultante é tal que se associou castidade a seriedade e até a capacidade. O homem – ou, pior, a mulher! – que gozasse muito liberalmente seria visto como perverso e por isso incapaz de se responsabilizar pelo que fosse. Um conceito lamentavelmente muito em voga hoje em dia no Ocidente e que ia custando a cadeira ao Bill Clinton. Ideia felizmente inexistente no início da nacionalidade, senão teria que ter sido destituído o D. Afonso Henriques, que era rapaz para donear, como se dizia à época, a senhora de castelo por onde passasse e ainda esperar que lhe servissem jantar.
Foi uma volta grande, mas serviu para chegarmos a um ponto em que nos encontramos em condições de entender de que é feito o terreno de onde se agarram as raízes da generalidade dos argumentos do “não”:
- o indivíduo não é estruturalmente capaz de tomar uma decisão em consciência, devendo ser o Estado a impô-la, mesmo quando a ciência não conhece a resposta, a sociedade não chega a acordo e a componente subjectiva da decisão é enorme;
- a própria possibilidade de aborto implica que houve sexo sem ser para procriação, e por isso há que reprimir, como se faz com a educação sexual responsável ou a distribuição de contraceptivos;
- a posição da Igreja Católica é que existe vida desde a concepção e por isso não há volta a dar-lhe;
- e ainda por cima são mulheres! Estou aliás razoavelmente convencido que, se os homens engravidassem, a problemática já estaria resolvida há muito tempo.
Por muitos floreados que façam, por muita patine que lhe metam, estes, mesmo que não sejam os argumentos de fundo, formam o fundo dos argumentos do “não”.
Esquerda e direita políticas querem dizer tudo e nada e às vezes o seu contrário, em diferentes momentos do tempo ou locais do espaço. Desde as discussões na Convenção de 1793, entre a Montanha e a Gironda, sobre o destino a dar à cabecinha da Maria Antonieta, ao moderno cinzentismo parlamentar europeu, em que “esquerda” e “direita” se alternam a propor e a não fazer exactamente o mesmo, passando pelo doloroso parto das lutas operárias no Ocidente ou pela guerra fratricida da batalha de Guadalajara, Esquerda e Direita defrontaram-se em muitas coisas, por vezes irrelevantes, outras vezes centrais ou mesmo vitais.
Se quiséssemos encapsular os conceitos de Esquerda e Direita recorrendo a um mínimo de parâmetros, poderíamos utilizar, tentativamente, apenas dois: o grau de interferência do colectivo na esfera individual e o nível de intervenção do Estado na economia. E mesmo só com estes dois eixos, colocando de forma grosseira certos grupos ideológicos característicos, pode-se ver que existem muitas esquerdas e muitas direitas, e que nem sempre coexistem do modo que dita a sabedoria convencional.

Traçando linhas contínuas sobre esse plano, podemos concluir coisas curiosas, como a proximidade relativa do ecologismo a ditaduras do passado, ou que os partidos socialistas/sociais-democratas europeus podem ocupar um centro, tendo de cada lado uma das direitas tradicionais, do Norte e do Sul da Europa, ou ainda o relativo isolamento das doutrinas George W. num dos cantos da figura.
Dito isto, interessa-me focar-me de momento no que são a Direita e a Esquerda portuguesas, especialmente aquelas que mais se assanham na discussão deste abortivo tema e, neste post em particular, no lado direito da barricada.
Em Portugal, a Direita pouco partilha com, por exemplo, a tradição conservadora inglesa. Esta última bebe, como toda a política britânica, de um ribeiro que vai fundo na História: a Lei impera, o colectivo é fonte de poder e é exercido por consentimento dos destinatários. Por isso, esse mesmo poder é limitado pelo dever de governar para o bem comum. Caso tal não aconteça, a revolta é legítima: a Ordem não é um valor só por si. É exactamente a este princípio que Jefferson recorre para justificar a independência dos Estados Unidos.
Mesmo que o poder emane do colectivo, e até para que a revolta possa ser legitimada, o indivíduo tem que ser um conceito central nesta concepção política. O colectivo não pode cercear certos direitos individuais: de vida, de expressão, de propriedade, de associação, sem a existência dos quais o poder se poderia perpetuar para além do que fosse legítimo. A defesa cívica de direitos, reais ou potenciais, individualmente ou em grupo, é respeitada e considerada importante para a sociedade. Nisto, lembra o discurso de Péricles. A inteligência e a produção intelectual são valorizadas, como expressão da individualidade. Mesmo sem o ênfase que se lhe quer dar no continente, a separação entre Estado e Igreja funciona bem: a tolerância religiosa resulta da e na multiplicidade religiosa, e um judeu pôde ser primeiro-ministro da coroa. É uma Direita liberal e por vezes libertária. Para esta Direita, Mill é tão referência como o é para a Esquerda britânica.
Por cá, a Direita forma-se por razões históricas num cadinho ideológico bem diferente. Valores como a Ordem (por oposição à dinâmica social), a Autoridade (entenda-se do chefe) e a Moral (“burguesa”, embora eu não goste do termo, e católica) são centrais na construção daquilo que no nosso país identificamos com Direita. Para que estes conceitos operem com eficácia, não se pode dar ao indivíduo muita margem de manobra.
Como paradigma quase caricatural deste quadro mental, temos o pitoresco salazarismo, que sintetizou num regime parolo e atrasado mental estes e outros componentes que reencontramos hoje na nossa Direita sociológica, se cavarmos um bocadinho, que nem tem que ser muito. Removida aquela capa fininha de referências democráticas e europeias, aparece-nos logo o António Oliveira, vivinho da Silva, a olhar com cara de gozo.
No salazarismo, a autoridade, tanto política como social como moral, emanava do dito “Botas” e escorria por aí abaixo, ao longo da hierarquia, até aos contínuos que vegetavam em corredores mal iluminados, sentados esfingicamente em secretárias da Olaio. A cada nível, a reverência ao chefe era o modo de operação e de sobrevivência, fosse ele o senhor director, o senhor prior, o senhor chefe de repartição de finanças ou o meu tenente. Como todos os dias, a todos os níveis da sociedade, apareciam chatices para resolver, todos os dias essas chatices, se tivessem um mínimo de novidade, eram chutadas para cima, à consideração superior. Podemos imaginar o impacto deste sistema no desenvolvimento do país. Aliás, basta ir à janela e olhar.
Social e economicamente, o salazarismo é um regime de Estado, onde o Estado manda, enquadra, autoriza ou proíbe, e se for preciso até dá uma carga de porrada. As empresas desenvolvem-se, abrigadas de excessiva concorrência, na medida em que o permitam os superiores interesses do condicionamento industrial. A polícia vela a que uma agricultura tradicional, tanto no minifúndio como no latifúndio, subsista sem sobressaltos. Os diferentes interesses das diferentes classes são geridos, por uma mão visível, no âmbito das corporações.
O indivíduo, esse, foi enquadrado, inscrito em organizações, definido de acordo com critérios e, sobretudo, embrulhado no manto espesso de uma moral de paróquia de mato. Para além de enfarpelados na fatiota ridícula da Mocidade, os jovens portugueses tinham que ser classificados pelos seus professores em categorias que incluíam títulos como “normalmente estúpidos”. O indivíduo pretendia-se simples e austero (ainda hoje termos de conotação elogiosa na língua portuguesa), nada ambicioso (um defeito, ainda hoje), nem intelectual (quase um insulto, mesmo nos nossos dias). O próprio Salazar mostrava o modelo, poupadinho, de fato coçado e para mais casto. Just in case, a censura, com um critério por acaso mais ignorante do que eficaz, tentava que o português não lesse coisas que o desviassem do seu lugar, no caso de ele pertencer aos meros dois terços de adultos que não eram analfabetos.
Se o homem do período salazarista se queria discreto e pouco imaginativo, a mulher então nem se fala. Na realidade para ela só havia duas vias: a de esposa, prendada, submissa ao marido (até na letra da lei), mãe de uma ranchada de filhos, se possível fada do lar; ou a então a de perdida, objecto de utilidade sexual que poderia satisfazer as necessidades inconfessáveis, mas desculpáveis, dos mais marialvas. Não se pode negar que esta visão da mulher muito deve a uma atitude redutora da sexualidade infelizmente característica da Igreja Católica. Esta reprovava, e continua a reprovar, a sexualidade pelo prazer, a contracepção, o divórcio, a liberdade do corpo e tudo o que vá para além de uma monogamia reprodutiva, em que o sexo é dever e não liberdade. E o regime fazia igual. Numa interpretação das Escrituras, aliás, que é na minha opinião excessivamente à letra. Afinal, Deus só disse “crescei e multiplicai-vos”, não acrescentou “e só lá podem ir para isso mesmo”.
O quadro mental resultante é tal que se associou castidade a seriedade e até a capacidade. O homem – ou, pior, a mulher! – que gozasse muito liberalmente seria visto como perverso e por isso incapaz de se responsabilizar pelo que fosse. Um conceito lamentavelmente muito em voga hoje em dia no Ocidente e que ia custando a cadeira ao Bill Clinton. Ideia felizmente inexistente no início da nacionalidade, senão teria que ter sido destituído o D. Afonso Henriques, que era rapaz para donear, como se dizia à época, a senhora de castelo por onde passasse e ainda esperar que lhe servissem jantar.
Foi uma volta grande, mas serviu para chegarmos a um ponto em que nos encontramos em condições de entender de que é feito o terreno de onde se agarram as raízes da generalidade dos argumentos do “não”:
- o indivíduo não é estruturalmente capaz de tomar uma decisão em consciência, devendo ser o Estado a impô-la, mesmo quando a ciência não conhece a resposta, a sociedade não chega a acordo e a componente subjectiva da decisão é enorme;
- a própria possibilidade de aborto implica que houve sexo sem ser para procriação, e por isso há que reprimir, como se faz com a educação sexual responsável ou a distribuição de contraceptivos;
- a posição da Igreja Católica é que existe vida desde a concepção e por isso não há volta a dar-lhe;
- e ainda por cima são mulheres! Estou aliás razoavelmente convencido que, se os homens engravidassem, a problemática já estaria resolvida há muito tempo.
Por muitos floreados que façam, por muita patine que lhe metam, estes, mesmo que não sejam os argumentos de fundo, formam o fundo dos argumentos do “não”.
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Indignações
terça-feira, janeiro 09, 2007
Do aborto (I)
By his bicudic majesty request
Para começar, avisar que vou votar no “sim” por três razões principais, duas da cabeça e uma do coração:
1) A opção prática é entre aborto medicamente assistido ou aborto clandestino. Nunca conheci nenhuma que se visse enrascada e que pensasse fazê-lo que não o fizesse, fosse onde desse, por muita catequese que tivesse.
2) A opção ética resulta mais complicada. Mas sendo o início da vida – e logo da criação de direitos de terceiros – um assunto sobre o qual a ciência não consegue nitidamente produzir um consenso, entre ser o Estado a decidir ou ser o principal sujeito envolvido, mais vale deixar à consciência da mulher a decisão final, uma vez que a sua é uma perspectiva subjectiva mas com um grau de insight dificilmente igualável para quem olha de fora, por muito experiente juiz que seja. O Estado só deveria limitar a liberdade dos indivíduos na medida em que esta lese ou com alguma probabilidade possa lesar terceiros com superior gravidade. Embora estejamos numa situação de fronteira, admito que este princípio ainda se aplique, tendo em conta a falta de consenso acima referida. Acresce que não faz muito sentido criminalizar algo que toda a gente, mesmo os defensores da criminalização, têm vergonha de criminalizar, por parecer pouco moderno e europeu e coisa e tal.
3) Mesmo assim, o arzinho padreca dos defensores do “não” dá-me mais galo do que o dos partidários do “sim”.
Explicada a minha posição, o que me parece mais importante: a questão do aborto deve ter alguma virtude diluidora, responsável por transformar em guano qualquer neurónio menos precavido. Raramente se ouve tanta asneira, com tão pouca vergonha, à volta de assunto sério.
Por hoje, dois exemplos, um fruta e outro chocolate:
a) Conferência de imprensa na têvê de umas meninas partidárias de um qualquer agrupamento XPTO pelo “sim”, a queixar-se da demagogia e pouca seriedade intelectual da propaganda do “não”. Declaração de princípios que faz falta um debate sério e informado e que por isso o grupo vai promovê-lo. A primeira iniciativa será um espectáculo musical. Espectáculo musical, hein? Espectáculo musical esse que, suponho, será sério e informativo. Sugiro a Sade Adu a cantar o “Is it a crime?”.
Para começar, avisar que vou votar no “sim” por três razões principais, duas da cabeça e uma do coração:
1) A opção prática é entre aborto medicamente assistido ou aborto clandestino. Nunca conheci nenhuma que se visse enrascada e que pensasse fazê-lo que não o fizesse, fosse onde desse, por muita catequese que tivesse.
2) A opção ética resulta mais complicada. Mas sendo o início da vida – e logo da criação de direitos de terceiros – um assunto sobre o qual a ciência não consegue nitidamente produzir um consenso, entre ser o Estado a decidir ou ser o principal sujeito envolvido, mais vale deixar à consciência da mulher a decisão final, uma vez que a sua é uma perspectiva subjectiva mas com um grau de insight dificilmente igualável para quem olha de fora, por muito experiente juiz que seja. O Estado só deveria limitar a liberdade dos indivíduos na medida em que esta lese ou com alguma probabilidade possa lesar terceiros com superior gravidade. Embora estejamos numa situação de fronteira, admito que este princípio ainda se aplique, tendo em conta a falta de consenso acima referida. Acresce que não faz muito sentido criminalizar algo que toda a gente, mesmo os defensores da criminalização, têm vergonha de criminalizar, por parecer pouco moderno e europeu e coisa e tal.
3) Mesmo assim, o arzinho padreca dos defensores do “não” dá-me mais galo do que o dos partidários do “sim”.
Explicada a minha posição, o que me parece mais importante: a questão do aborto deve ter alguma virtude diluidora, responsável por transformar em guano qualquer neurónio menos precavido. Raramente se ouve tanta asneira, com tão pouca vergonha, à volta de assunto sério.Por hoje, dois exemplos, um fruta e outro chocolate:
a) Conferência de imprensa na têvê de umas meninas partidárias de um qualquer agrupamento XPTO pelo “sim”, a queixar-se da demagogia e pouca seriedade intelectual da propaganda do “não”. Declaração de princípios que faz falta um debate sério e informado e que por isso o grupo vai promovê-lo. A primeira iniciativa será um espectáculo musical. Espectáculo musical, hein? Espectáculo musical esse que, suponho, será sério e informativo. Sugiro a Sade Adu a cantar o “Is it a crime?”.
b) Tiazoca defensora do “não”, da plataforma XYZ, em declarações à revista Visão, exibe a sua faceta liberal explicando que só aceita o aborto se for para salvar a vida da mãe, obviamente. Obviamente porquê, filha? Pensei que pensavas que o direito à vida é inalienável, mas já vi que se estiveres aflita, venha o bate-escova-aspira antes que seja tarde. Vale a pena relatar aqui, para ilustração dessas senhoras donas, que encontrei há tempos uma antiga colega de liceu que não via há vinte anos. Esta minha amiga teve um cancro quando estava grávida, e optou por não se tratar até ter a criança, e só depois se submeter a um tratamento mais penoso e incerto. Feliz e merecidamente, viveu para me contar esta história de liberdade individual e de sacrifício. Não sei se ela vota “sim” ou “não”, só sei é que não deve pertencer ao grupelho XYZ, porque para ela não foi nada “óbvio”.
De facto, não há cu para tanto, mas ainda assim terei que voltar ao tema.
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Indignações
domingo, janeiro 07, 2007
Crítica literária
Visitei hoje o Museu da Electricidade. À saída, acossado pela minha turba esfaimada, dei de caras com um amesamento denominado “Amo.te Tejo”, onde serviam refeições, e não houve outro remédio senão sentar. Já tinha lido, em salas de espera de dentista, algo sobre esta cadeia de bares, a “Amo.te qualquer coisa”, propriedade de um rapaz de nome Pedro Miguel Ramos, tasqueiro de profissão e com o mérito reconhecível de partilhar o aconchego da bela Fernanda Serrano.
Como em todos os estabelecimentos que se querem trendy, a decoração era minimalista, preta e vermelha, a luz pouca, a farda das empregadas negra e a comida uma merda. Pedi uma francesinha que saiu tarde, tosca, de bife demasiado espesso, com o ovo estrelado cozido, sem picante e com um inexplicável sabor a manga no molho. Para francesinha, frequentava mais a Rue Saint-Denis do que o Faubourg Saint-Honoré. Lembrei com saudade o Capa Negra, ao Campo Alegre, no Porto ou o “Petit Ami”, no centro da Gaia velha, em que os empregados não são miúdas de preto, são morcões ali de Massarelos ou da Afurada, de bigode e jaqueta grená, às vezes com sebo nas unhas e tudo, mas em que a francesinha é uma experiência transcendental ao nível de uma noite de sexo tresmalhado ou de uma vitória do Sporting na Luz.
Para me distrair de tal desastre, fui folheando umas revistas que lá esperavam numa prateleira, dispostas em arrumados molhinhos, de berrante título “Amo.te® mag”. Ao princípio, pensei ser um catálogo do tipo “La Redoute”, mas mais fininho e mais confuso. Publicidade em forma de artigo intercalada com publicidade em forma de publicidade, com um lettering cursivo horroroso e um aspecto kitsch que nem o de uma gravata dos anos setenta.
A única coisa com um vago ar de texto que encontrei no meio daquela salganhada foram os editoriais, da autoria do tasqueiro ele próprio, com direito a foto com tromba de Enver Hoxha em dia de revista às tropas e tudo. E que nos dizia o Pedro Miguel de importante? Nada, mas há muito tempo que não me ria tanto. Passo a transcrever e a comentar.
“Pois é… voltámos a surpreender! Novo ano, nova mag.” Ó que surpresa desagradável! E eu a pensar que tinha acabado em Dezembro!
“Da vossa marca podem, como sempre, esperar o inesperado!” Como sejam francesinhas com sabor a manga, diria eu. O nosso homem tem uma obsessão verborreica com a novidade, a reinvenção, a surpresa e tal, numa linha hoje infelizmente muito em voga de que basta papaguear estes conceitos de forma totalmente desconexa de qualquer essência para se ser moderno, giro, pintaroloso e tudo o mais. Muito bem, inovem, mas “ivelhem” primeiro: que tal uma francesinha decente?
“Reinventar, porque o amo.te é uma marca que vive de inovação constante, de experiências surpreendentes é fundamental manter a originalidade e, também com isso, obter mais visibilidade.” Reinventar não: inventar é o que tá a dar! O nosso tendeiro acabou de inventar a frase com dois verbos, a meio caminho entre o disléxico e o Saramago.
“A amo.te Mag aparecerá renovada no próximo mês, com mais informação e leitura, apostando numa cultura que é a nossa, com a qual nos identificamos.” Quando desafiaram o Bocage a dizer três asneiras seguidas, ele soltou uma tirada deste género… Cultura? A sério? A cultura cerebralmente mais próxima da do Amo.te Mag é a cultura do bicho-da-seda, ainda assim animal de estofo excessivamente intelectual para não se enfadar com as banalidades dessa revista. E a mania que esta gentinha tem das apostas, como se estivesse a correr riscos de qualquer espécie. Só cá falta dizer que “aceitou o desafio” de parir aquela folha de couve. Aceitar o desafio está iiiinmensamente na moda. Acrescente-se que a do mês seguinte saiu uma bosta perfeitamente indistinguível da do mês anterior. A única parte menos má é que o moço, na sua singeleza, confessa que se “identifica”: "faute avouée est à demi pardonnée.”
E que dizer da seguinte: “Não escondemos a nossa existência, ela acontece porque acreditamos no valor do nosso trabalho, devido ao vosso interesse e incentivo e pela confiança financeira de parceiros que nos acompanham desde sempre, só assim é possível alimentarmos o nosso amor através da leitura.” Ó Pedro Miguel, que tal usares o pronome relativo “que” entre “existência” e “acontece”? Não era inovador? E por que raio é que havias de esconder a tua existência – à parte a revista ser uma treta, de tão ilegível e parola? E estás convencido, porventura, que tens o direito de desperdiçar o vocábulo “leitura”, aplicando-o ao Amo-te Mag?
“Queremos continuar a ser egocêntricos, pois vivemos obcecados pela nossa marca…” Esta, acredito que seja verdadeira e com ela termino, se bem que muitas mais pérolas tivesse este rosário para contar.
O mal deste mundo vem de que dantes as tascas serviam bitoques e eram boas se estes soubessem bem e agora querem servir editoriais sem saber ler nem escrever e francesinhas sem saber cozinhar um ovo estrelado.
Como em todos os estabelecimentos que se querem trendy, a decoração era minimalista, preta e vermelha, a luz pouca, a farda das empregadas negra e a comida uma merda. Pedi uma francesinha que saiu tarde, tosca, de bife demasiado espesso, com o ovo estrelado cozido, sem picante e com um inexplicável sabor a manga no molho. Para francesinha, frequentava mais a Rue Saint-Denis do que o Faubourg Saint-Honoré. Lembrei com saudade o Capa Negra, ao Campo Alegre, no Porto ou o “Petit Ami”, no centro da Gaia velha, em que os empregados não são miúdas de preto, são morcões ali de Massarelos ou da Afurada, de bigode e jaqueta grená, às vezes com sebo nas unhas e tudo, mas em que a francesinha é uma experiência transcendental ao nível de uma noite de sexo tresmalhado ou de uma vitória do Sporting na Luz.Para me distrair de tal desastre, fui folheando umas revistas que lá esperavam numa prateleira, dispostas em arrumados molhinhos, de berrante título “Amo.te® mag”. Ao princípio, pensei ser um catálogo do tipo “La Redoute”, mas mais fininho e mais confuso. Publicidade em forma de artigo intercalada com publicidade em forma de publicidade, com um lettering cursivo horroroso e um aspecto kitsch que nem o de uma gravata dos anos setenta.
A única coisa com um vago ar de texto que encontrei no meio daquela salganhada foram os editoriais, da autoria do tasqueiro ele próprio, com direito a foto com tromba de Enver Hoxha em dia de revista às tropas e tudo. E que nos dizia o Pedro Miguel de importante? Nada, mas há muito tempo que não me ria tanto. Passo a transcrever e a comentar.
“Pois é… voltámos a surpreender! Novo ano, nova mag.” Ó que surpresa desagradável! E eu a pensar que tinha acabado em Dezembro!
“Da vossa marca podem, como sempre, esperar o inesperado!” Como sejam francesinhas com sabor a manga, diria eu. O nosso homem tem uma obsessão verborreica com a novidade, a reinvenção, a surpresa e tal, numa linha hoje infelizmente muito em voga de que basta papaguear estes conceitos de forma totalmente desconexa de qualquer essência para se ser moderno, giro, pintaroloso e tudo o mais. Muito bem, inovem, mas “ivelhem” primeiro: que tal uma francesinha decente?
“Reinventar, porque o amo.te é uma marca que vive de inovação constante, de experiências surpreendentes é fundamental manter a originalidade e, também com isso, obter mais visibilidade.” Reinventar não: inventar é o que tá a dar! O nosso tendeiro acabou de inventar a frase com dois verbos, a meio caminho entre o disléxico e o Saramago.
“A amo.te Mag aparecerá renovada no próximo mês, com mais informação e leitura, apostando numa cultura que é a nossa, com a qual nos identificamos.” Quando desafiaram o Bocage a dizer três asneiras seguidas, ele soltou uma tirada deste género… Cultura? A sério? A cultura cerebralmente mais próxima da do Amo.te Mag é a cultura do bicho-da-seda, ainda assim animal de estofo excessivamente intelectual para não se enfadar com as banalidades dessa revista. E a mania que esta gentinha tem das apostas, como se estivesse a correr riscos de qualquer espécie. Só cá falta dizer que “aceitou o desafio” de parir aquela folha de couve. Aceitar o desafio está iiiinmensamente na moda. Acrescente-se que a do mês seguinte saiu uma bosta perfeitamente indistinguível da do mês anterior. A única parte menos má é que o moço, na sua singeleza, confessa que se “identifica”: "faute avouée est à demi pardonnée.”
E que dizer da seguinte: “Não escondemos a nossa existência, ela acontece porque acreditamos no valor do nosso trabalho, devido ao vosso interesse e incentivo e pela confiança financeira de parceiros que nos acompanham desde sempre, só assim é possível alimentarmos o nosso amor através da leitura.” Ó Pedro Miguel, que tal usares o pronome relativo “que” entre “existência” e “acontece”? Não era inovador? E por que raio é que havias de esconder a tua existência – à parte a revista ser uma treta, de tão ilegível e parola? E estás convencido, porventura, que tens o direito de desperdiçar o vocábulo “leitura”, aplicando-o ao Amo-te Mag?
“Queremos continuar a ser egocêntricos, pois vivemos obcecados pela nossa marca…” Esta, acredito que seja verdadeira e com ela termino, se bem que muitas mais pérolas tivesse este rosário para contar.
O mal deste mundo vem de que dantes as tascas serviam bitoques e eram boas se estes soubessem bem e agora querem servir editoriais sem saber ler nem escrever e francesinhas sem saber cozinhar um ovo estrelado.
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Abardinanços,
Indignações
domingo, dezembro 31, 2006
Os hunos no poder
Ontem pela manhã, o meu filho comentou-me: “já foi!”. E eu: “o que é que já foi?”. “O Saddam, foi enforcado, vem aqui na net”, respondeu. Disse-lhe na altura: “tenho sobretudo pena das mulheres e crianças que vão morrer hoje por causa dessa decisão idiota. Essas, acabam de ser condenadas à morte, só que ainda não o sabem”. A meio da tarde andavam nos sessenta, ao fim do dia tinham sido setenta e sete, mortos em atentados em bairros xiitas.
Eu não sou bruxo, não sou é totalmente estúpido. O Iraque tornou-se um caso típico de cegos conduzindo outros cegos.
Ainda por cima parece que já se pode ver na Internet o filme da execução. Provavelmente para que não haja dúvidas. Com este género de exibição na praça pública, vamos regressando paulatinamente à barbárie do circo máximo, do pelourinho ou do cadafalso com a ralé a aplaudir.
Os telejornais comentaram esta execução de um modo asséptico, como quem fala do empate do Desportivo das Aves, utilizando expressões como o “ex-ditador” ou “o tribunal que o condenou” em tom de justificação.
O homem foi um ditador hediondo, do género dos que costumam entrar na Casa Branca, no Kremlin ou no Eliseu pela porta da frente, sempre que tal dá jeito. Só que, e por mais nojento facínora que o tipo tenha sido, a exibição pública de um prisioneiro algemado e de fato cor-de-laranja, o seu julgamento fantoche por um tribunal de vencedores e a morte de um homem, seguida de visionamento planetário pelo You Tube, a mim envergonham-me.
Fico sem saber onde é que posso devolver o meu cartão de sócio da civilização ocidental.
A todos um ano melhor do que este.
Eu não sou bruxo, não sou é totalmente estúpido. O Iraque tornou-se um caso típico de cegos conduzindo outros cegos.
Ainda por cima parece que já se pode ver na Internet o filme da execução. Provavelmente para que não haja dúvidas. Com este género de exibição na praça pública, vamos regressando paulatinamente à barbárie do circo máximo, do pelourinho ou do cadafalso com a ralé a aplaudir.Os telejornais comentaram esta execução de um modo asséptico, como quem fala do empate do Desportivo das Aves, utilizando expressões como o “ex-ditador” ou “o tribunal que o condenou” em tom de justificação.
O homem foi um ditador hediondo, do género dos que costumam entrar na Casa Branca, no Kremlin ou no Eliseu pela porta da frente, sempre que tal dá jeito. Só que, e por mais nojento facínora que o tipo tenha sido, a exibição pública de um prisioneiro algemado e de fato cor-de-laranja, o seu julgamento fantoche por um tribunal de vencedores e a morte de um homem, seguida de visionamento planetário pelo You Tube, a mim envergonham-me.
Fico sem saber onde é que posso devolver o meu cartão de sócio da civilização ocidental.
A todos um ano melhor do que este.
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sábado, dezembro 23, 2006
Espírito de Natal
Entre as novidades que folheei ontem na Virgin de Orly, aproveitando mais um useiro atraso da nossa companhia de bandeira, seleccionei uma banda desenhada de Jean-Philippe Stassen e Denis Lapière: Le bar du vieux français. Acabei de lê-la. Apreciei muitas BDs, algumas encantaram-me, esta foi das poucas que por momentos me comoveu. Conta a história não terminada de Leila e Célestin, de como os seus caminhos improvavelmente se cruzaram, de como por momento foram felizes e de como foram cada um à sua vida, porque caminhos que se cruzam têm que, por definição, separar-se.
Leila, francesa de segunda geração de imigração marroquina, vive entalada entre o mundo físico ocidental da escola e das suas amigas e o mundo mental muçulmano de pais e irmãos encaixotados num apartamento de periferia, e foge de casa na adolescência procurando um sul ancestral e, julga ela, livre. Célestin, nascido numa cubata da África Negra profunda, órfão como um terço das crianças da aldeia, escapa-se aos oito anos com a irmã para a salvar de uma excisão certa. Esta não sobrevive à caminhada e, a partir daí, Célestin vai continuar a fugir de poiso em poiso, empurrado pela culpa, biscateando para sobreviver, atraído para o norte pelo seu destino. O encontro dá-se num tasco no meio do deserto de Marrocos, propriedade de um francês senil, que nos faz o favor de narrar os acontecimentos.
Le bar du vieux français foi o meu conto de Natal deste Natal. Sem moralismos ou xaropadas, fez-me partilhar um pouco da vida dos que sofrem. Veio lembrar-me que há mais no mundo para emendar do que para deixar como está, coisa de que quase sempre, convenientemente, me esqueço. De certo modo, fez-me sentir pequeno diante daqueles que tendo menos, se contentam e até partilham. Veio indignar-me e ainda bem, porque a indignação não é só o muito falado direito, tem que ser sobretudo uma obrigação: não nos indignarmo-nos, nem que por um momento, com o sofrimento alheio, deveria estar à cabeça da lista de pecados com direito a forno quente no inferno.
E o Natal, ao fim e ao cabo, é suposto andar à volta disto. Celebrar a dádiva e não a compra. Pensar um instante em quem precise. Honrar, seja-se ou não crente, o que é nuclear na mensagem do tipo que nasceu por estas alturas: praticar o Bem, olhar pelos Outros e ser livre de o fazer ou não, o que é uma responsabilidade tramada. Um programa um pouco mais ambicioso do que o natal dos centros comerciais ou dos jantares de empresa.
A Leila e Célestin, vi-os neste Natal como são as Leilas e os Célestins deste mundo: basicamente como nós. E não como os vemos na televisão, como números numa estatística ou paramécias sociológicas numa lamela, cagando e andando. No fim, fiquei como o Chico Buarque da canção: e eu, que não creio, peço a Deus por minha gente.
Feliz Natal.
Leila, francesa de segunda geração de imigração marroquina, vive entalada entre o mundo físico ocidental da escola e das suas amigas e o mundo mental muçulmano de pais e irmãos encaixotados num apartamento de periferia, e foge de casa na adolescência procurando um sul ancestral e, julga ela, livre. Célestin, nascido numa cubata da África Negra profunda, órfão como um terço das crianças da aldeia, escapa-se aos oito anos com a irmã para a salvar de uma excisão certa. Esta não sobrevive à caminhada e, a partir daí, Célestin vai continuar a fugir de poiso em poiso, empurrado pela culpa, biscateando para sobreviver, atraído para o norte pelo seu destino. O encontro dá-se num tasco no meio do deserto de Marrocos, propriedade de um francês senil, que nos faz o favor de narrar os acontecimentos.Le bar du vieux français foi o meu conto de Natal deste Natal. Sem moralismos ou xaropadas, fez-me partilhar um pouco da vida dos que sofrem. Veio lembrar-me que há mais no mundo para emendar do que para deixar como está, coisa de que quase sempre, convenientemente, me esqueço. De certo modo, fez-me sentir pequeno diante daqueles que tendo menos, se contentam e até partilham. Veio indignar-me e ainda bem, porque a indignação não é só o muito falado direito, tem que ser sobretudo uma obrigação: não nos indignarmo-nos, nem que por um momento, com o sofrimento alheio, deveria estar à cabeça da lista de pecados com direito a forno quente no inferno.
E o Natal, ao fim e ao cabo, é suposto andar à volta disto. Celebrar a dádiva e não a compra. Pensar um instante em quem precise. Honrar, seja-se ou não crente, o que é nuclear na mensagem do tipo que nasceu por estas alturas: praticar o Bem, olhar pelos Outros e ser livre de o fazer ou não, o que é uma responsabilidade tramada. Um programa um pouco mais ambicioso do que o natal dos centros comerciais ou dos jantares de empresa.
A Leila e Célestin, vi-os neste Natal como são as Leilas e os Célestins deste mundo: basicamente como nós. E não como os vemos na televisão, como números numa estatística ou paramécias sociológicas numa lamela, cagando e andando. No fim, fiquei como o Chico Buarque da canção: e eu, que não creio, peço a Deus por minha gente.
Feliz Natal.
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Admirações
domingo, dezembro 03, 2006
Mataspeak Intro
“Newspeak era a linguagem oficial de Oceania e foi idealizada de modo a ir ao encontro das necessidades ideológicas do Ingsoc, ou Socialismo Inglês”, pode ler-se no apêndice a “Mil novecentos e oitenta e quatro” de George Orwell. “O objetivo do Newspeak era não só o de facultar um meio de expressão apropriado à mundivisão e aos hábitos mentais dos devotos do Ingsoc, mas ainda o de tornar todos os outros modos de pensamento impossíveis. Pretendia-se que, quando a Newspeak tivesse sido adoptada de vez e a Oldspeak esquecida, um pensamento herético- isto é, um pensamento divergindo dos princípios do Ingsoc- fosse literalmente impensável, pelo menos na medida em que necessitasse de palavras.”
Tinha apenas treze anos quando, em 1976, li “O triunfo dos porcos” e “Mil novecentos e oitenta e quatro”, dois livros que marcaram muito o meu modo de ver o mundo. Até hoje. Portugal começava por essa época a estabilização do seu processo revolucionário, que o dividira durante os dois anos precedentes, anos de excessos por vezes mais românticos do que revolucionários, de combates ideológicos de conversa e calçada, em que, parafraseando Thomas Paine, se seguiram mais bandeiras do que ideias. Anos com o seu próprio Newspeak.
Orwell ensinou-me três coisas: que ideias que se reclamam do bem comum podem ser manipuladas e dirigidas por uma minoria em proveito próprio, criando um sistema totalitário sob vestes formais de um regime representativo; que um sistema totalitário procurará os meios mais eficazes para perpetuar o seu poder, os quais passarão quase sempre pela limitação da capacidade crítica das massas controladas, ou seja, nós; e que a nossa mais poderosa arma contra o totalitarismo se encontra “nos poucos centímetros dentro do nosso crânio”.
Estes três conceitos simples, mas potentes, permitiram-me perceber com treze anos aquilo que gente hoje com responsabilidade não conseguiu nessa mesma época entender, pondo-se até a fazer figuras tristes. Coisas tão simples de ver como o não haver justificação possível para as matanças estalinistas, para quem se dissesse democrata. Como o não ser no melhor interesse dos povos apertar o cinto em prol de uma oligarquia partidária. Como o não parecer que o voto de braço no ar fosse a melhor maneira de perguntar ao pessoal o que é que queria ou não queria. Como o ser sempre coisa boa a liberdade. Fico por vezes banzado quando pessoas crescidas como Durão Barroso, Pacheco Pereira ou José Manuel Fernandes, só para nomear algumas, gente que até pode por vezes ser razoável, justificam as suas defesas passadas de algum totalitarismo qualquercoisista com o argumento lamparino que só teriam dezoito-vinte-vinte e cinco anos. Não havia Orwell à mão de ler, provavelmente.
Passados trinta anos, o mundo mudou e eu também. Fiquei mais velho e menos despreocupado. Cometi a imprudência de trazer aqui ao planeta dois tipos que, como todos nós, não pediram para cá estar e por isso ainda me podem vir pedir satisfações. Entretanto, alguns totalitarismos caíram, e bem. Soltaram-se foguetes. Cretinos anunciaram o fim da História. Outras formas de opressão surgiram, umas mais evidentes, outras mais subterrâneas. Caíram as torres e a onda tornou-se má.
Enquanto “Mil novecentos e oitenta e quatro” nos mostra a ditadura no seu estado puro, instalada como um cancro no mais recôndito de cada um de nós, “O triunfo dos porcos” descreve-nos, de forma efabulada, como o totalitarismo se vai cristalizando em pequenos passos, em “já agoras”, em pequenas concessões que são basicamente responsabilidade de todos e de ninguém. Às vezes, tenho um travo amargo na boca que me diz que algo de semelhante está a ocorrer à minha volta. Que pouco a pouco estamos a abrir as defesas e a alienar o que deveria ser inalienável. Que olhamos para as árvores e não só não vemos a floresta, como não prestamos atenção ao restolhar das folhas, que julgamos não ser nada, mas que é a víbora escondida que se prepara para nos ferrar as favolas. Por tudo isto, não me sinto confortável e este blogue será o palco desse desconforto.
Aqui, direi o que penso, sobre o que me apetecer. Darei largas ao que vai dentro dos poucos centímetros dentro do meu crânio. Mataspeak será um lugar de oposição ao actual Newspeak do política e socialmente correcto. Este novo Newspeak, que nos é debitado maciça e diariamente pelos jornais e telejornais, erigidos em púlpitos de igreja quando deviam ser ágoras, confunde aparência com essência ou acção com formação, quando não debate com peixeirada. Sobre este estado da coisa, neste cantinho da rede, afixarei as minhas preocupações e as minhas indignações e os meus argumentos, nem que seja para me ler a mim próprio e clarificar as minhas ideias. Às vezes alongar-me-ei, noutras serei sintético. Os assuntos poderão parecer mais sérios uns do que outros, embora para mim de igual relevo. Também cá porei, se estiver para aí virado, aquilo que, por ser belo, achar que deve ser partilhado, até para parecer um blogue à séria.
Só divulgarei o endereço deste lugar a alguns amigos. Se a eles, ou a alguém que ao acaso aqui passe, fizer bom proveito, ficarei contente. Senão, passem bem ou, melhor, vão-se catar.
Ao longo da vida, fui-me cruzando com pessoas livres ou quase, de olho de falcão, a quem o Newspeak nunca contaminaria. Uns, achei-os em livros: Camus e Queiroz causaram mossa a certa altura, entre muitos. Outros deram-me aulas e recomendaram-me que usasse a cabeça. Ainda de outros, sou amigo ou familiar. Estes últimos, em cada e dado momento, iluminaram-me com a sua presença, chegando a fazer o favor de me alertar quando eu me portei como um idiota.
A eles e a Orwell, que morreu na miséria com pouco mais do que a idade que tenho, dedico este Mataspeak.
Tinha apenas treze anos quando, em 1976, li “O triunfo dos porcos” e “Mil novecentos e oitenta e quatro”, dois livros que marcaram muito o meu modo de ver o mundo. Até hoje. Portugal começava por essa época a estabilização do seu processo revolucionário, que o dividira durante os dois anos precedentes, anos de excessos por vezes mais românticos do que revolucionários, de combates ideológicos de conversa e calçada, em que, parafraseando Thomas Paine, se seguiram mais bandeiras do que ideias. Anos com o seu próprio Newspeak.
Orwell ensinou-me três coisas: que ideias que se reclamam do bem comum podem ser manipuladas e dirigidas por uma minoria em proveito próprio, criando um sistema totalitário sob vestes formais de um regime representativo; que um sistema totalitário procurará os meios mais eficazes para perpetuar o seu poder, os quais passarão quase sempre pela limitação da capacidade crítica das massas controladas, ou seja, nós; e que a nossa mais poderosa arma contra o totalitarismo se encontra “nos poucos centímetros dentro do nosso crânio”.
Estes três conceitos simples, mas potentes, permitiram-me perceber com treze anos aquilo que gente hoje com responsabilidade não conseguiu nessa mesma época entender, pondo-se até a fazer figuras tristes. Coisas tão simples de ver como o não haver justificação possível para as matanças estalinistas, para quem se dissesse democrata. Como o não ser no melhor interesse dos povos apertar o cinto em prol de uma oligarquia partidária. Como o não parecer que o voto de braço no ar fosse a melhor maneira de perguntar ao pessoal o que é que queria ou não queria. Como o ser sempre coisa boa a liberdade. Fico por vezes banzado quando pessoas crescidas como Durão Barroso, Pacheco Pereira ou José Manuel Fernandes, só para nomear algumas, gente que até pode por vezes ser razoável, justificam as suas defesas passadas de algum totalitarismo qualquercoisista com o argumento lamparino que só teriam dezoito-vinte-vinte e cinco anos. Não havia Orwell à mão de ler, provavelmente.
Passados trinta anos, o mundo mudou e eu também. Fiquei mais velho e menos despreocupado. Cometi a imprudência de trazer aqui ao planeta dois tipos que, como todos nós, não pediram para cá estar e por isso ainda me podem vir pedir satisfações. Entretanto, alguns totalitarismos caíram, e bem. Soltaram-se foguetes. Cretinos anunciaram o fim da História. Outras formas de opressão surgiram, umas mais evidentes, outras mais subterrâneas. Caíram as torres e a onda tornou-se má.
Enquanto “Mil novecentos e oitenta e quatro” nos mostra a ditadura no seu estado puro, instalada como um cancro no mais recôndito de cada um de nós, “O triunfo dos porcos” descreve-nos, de forma efabulada, como o totalitarismo se vai cristalizando em pequenos passos, em “já agoras”, em pequenas concessões que são basicamente responsabilidade de todos e de ninguém. Às vezes, tenho um travo amargo na boca que me diz que algo de semelhante está a ocorrer à minha volta. Que pouco a pouco estamos a abrir as defesas e a alienar o que deveria ser inalienável. Que olhamos para as árvores e não só não vemos a floresta, como não prestamos atenção ao restolhar das folhas, que julgamos não ser nada, mas que é a víbora escondida que se prepara para nos ferrar as favolas. Por tudo isto, não me sinto confortável e este blogue será o palco desse desconforto.
Aqui, direi o que penso, sobre o que me apetecer. Darei largas ao que vai dentro dos poucos centímetros dentro do meu crânio. Mataspeak será um lugar de oposição ao actual Newspeak do política e socialmente correcto. Este novo Newspeak, que nos é debitado maciça e diariamente pelos jornais e telejornais, erigidos em púlpitos de igreja quando deviam ser ágoras, confunde aparência com essência ou acção com formação, quando não debate com peixeirada. Sobre este estado da coisa, neste cantinho da rede, afixarei as minhas preocupações e as minhas indignações e os meus argumentos, nem que seja para me ler a mim próprio e clarificar as minhas ideias. Às vezes alongar-me-ei, noutras serei sintético. Os assuntos poderão parecer mais sérios uns do que outros, embora para mim de igual relevo. Também cá porei, se estiver para aí virado, aquilo que, por ser belo, achar que deve ser partilhado, até para parecer um blogue à séria.
Só divulgarei o endereço deste lugar a alguns amigos. Se a eles, ou a alguém que ao acaso aqui passe, fizer bom proveito, ficarei contente. Senão, passem bem ou, melhor, vão-se catar.
Ao longo da vida, fui-me cruzando com pessoas livres ou quase, de olho de falcão, a quem o Newspeak nunca contaminaria. Uns, achei-os em livros: Camus e Queiroz causaram mossa a certa altura, entre muitos. Outros deram-me aulas e recomendaram-me que usasse a cabeça. Ainda de outros, sou amigo ou familiar. Estes últimos, em cada e dado momento, iluminaram-me com a sua presença, chegando a fazer o favor de me alertar quando eu me portei como um idiota.
A eles e a Orwell, que morreu na miséria com pouco mais do que a idade que tenho, dedico este Mataspeak.
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